quarta-feira, 8 de julho de 2026

Entrevista com o crítico e cineasta Marcelo Ikeda


Entrevista compartilhada do site ENTREMENTES, de 11 de março de 2025 

Entrevista com o crítico e cineasta Marcelo Ikeda
Por Teresa Bendini

Marcelo Ikeda é doutor em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco, com bolsa-sanduíche na Universidade de Reading (Inglaterra) e professor de cinema e áudio visual da Universidade Federal do Ceará. Autor de diversos livro sobre o cinema contemporâneo brasileiro, entre os quais estão Cinema de Garagem, 2011 com a parceria de Dellani Lima, Cinema Brasileiro a partir da Retomada, 2015, entre outros. Atua também como cineasta, crítico e curador.

Estive com ele durante o Festival: “Curta Campos do Jordão” que ocorreu no mês de fevereiro último (15 a 22) em Campos do Jordão quando ele me concedeu essa entrevista. Ela foi gravada durante uma conversa descontraída e aqui se encontra na íntegra.

*Teresa – Marcelo Ikeda, como é que o cinema aparece para um garoto assim, tão novo e já apaixonado pelo cinema, produzindo livros sobre esse assunto.

*Ikeda – Apareceu de uma forma meio misteriosa. Eu sou uma pessoa da periferia do Rio de Janeiro, e, além disso, meus pais, minha família não possuem uma formação ou afinidade específica para poder me iniciar nos campos da arte, porque precisaram correr atrás da sua sobrevivência, se dedicaram a outras coisas, não tiveram essa oportunidade. Então eu fui descobrindo a cultura e a arte de uma forma muito particular e solitária, às vezes eu acho que até foi por acaso, de forma totalmente improvável. O cinema foi surgindo justamente a partir da televisão, a partir da vídeo locadora que tinha na esquina da minha casa. Eu fui descobrindo alguns filmes e depois passei a frequentar a Cinemateca do MAM. Outro lugar importante foi o Centro Cultural Banco do Brasil e também a locadora Polytheama, do Julio Cesar de Miranda. Assim aos poucos eu fui descobrindo clássicos do cinema, fui vendo filmes mais antigos que me interessavam. A partir daí, eu fui conhecendo pessoas e fazendo amizades com quem frequentava os cineclubes ali na virada entre os anos 1990 e os anos 2000, fui me enturmando numa geração que estava descobrindo outros filmes e outros modos de fazer e que também começava a fazer seus próprios vídeos de uma forma independente. Então fui me engajando no cinema dessa forma, assim, primeiro como cinéfilo, vendo os filmes mais diversos do mundo e aí claro começando com os filmes americanos que é o que a gente recebe primeiro, mas depois eu fui descobrindo os filmes brasileiros, os franceses, italianos, filmes alemães, e também os japoneses, que para mim foi uma grande descoberta. Eu sempre digo isso, o cinema entrou na minha vida primeiro como um cinéfilo, como espectador.

*Teresa – Então o cinema te tomou?

*Ikeda – Sim, me tomou por inteiro. O cinema transformou a minha vida. Eu era isso, né, um menino da periferia, não tinha muitas oportunidades, o cinema foi uma janela que me permitiu descobrir que várias das minhas angústias, várias das minhas questões, eu me sentia sozinho mas eu comecei a perceber a partir do cinema que eu não estava sozinho na minha solidão. Eu acho que a arte e a cultura possuem esse papel, uma forma de auto descoberta, de autoconhecimento. Então a partir do cinema conheci os filmes mais diferentes do mundo, de épocas diferentes, períodos do cinema mudo, cinema japonês, filmes muito diferentes mesmo, que fizeram curiosamente com que eu descobrisse mais sobre mim mesmo. E aí um filme que foi muito importante para mim nesse período foi um filme chamado “Não Amarás” do Kieslowski, um filme polonês dos anos 1990, que eu aluguei na locadora da esquina da minha casa, lá na periferia do Rio de Janeiro, aos 13 anos e a partir dele eu me senti tomado pelo cinema. Assim que acabou esse filme percebi que minha vida nunca mais seria a mesma, era um caminho sem volta.

*Teresa – Além disso o que o cinema fez por você?

*Ikeda – Então, o cinema transformou minha vida me ajudando nesse processo de autodescoberta. Nesse processo de poder entender melhor as minhas fragilidades, as minhas angústias, incertezas, e tentar transformar essa possível fragilidade numa poética, numa outra forma de estar no mundo, então o cinema foi uma forma de autoconhecimento, foi e está sendo, é um processo, de forma contínua, até hoje. Na verdade, de lá para cá, todos os meus movimentos no cinema são nesse sentido de tentar compreender o que é um filme, que é algo assim muito misterioso e tentar descobrir o meu lugar no mundo a partir disso.

*Teresa – Como o surge o crítico de cinema, o Marcelo Ikeda escritor de textos que aprofundam a discussão sobre cinema, que necessidade foi essa?

*Ikeda – Então, como te falei, eu comecei a ver os filmes, a me engajar muito jovem nesse movimento cineclubista, no Rio de Janeiro, na virada dos anos 90 para os anos 2000. Éramos uma geração de jovens que não se reconheciam muito no cinema brasileiro daquele momento, que era o chamado “cinema da retomada”. Nessa época os grandes filmes brasileiros daquele momento, aqueles que ganhavam prêmios, que eram reconhecidos, a gente não se sentia reconhecido nesse cinema. Daí eu participava desses cineclubes que exibiam vídeos, ou seja, os primeiros filmes de alguns realizadores que estavam iniciando em sua realização e eu ficava fascinado por esses filmes. Eram filmes precários economicamente, talvez tecnicamente também, porém nessa precariedade eu via uma força, uma potência. Então eu comecei a escrever sobre esses filmes. Eram filmes totalmente ignorados, desconhecidos, que ninguém notava mas que eu considerava fabulosos. Eles me tocavam. Fiquei impressionado pelo fato deles serem desconhecidos e foi isso que me fez pensar em trazer à tona esses filmes praticamente invisíveis. Eu queria conversar sobre esses filmes e queria que mais pessoas descobrissem esses filmes para ter o mesmo entusiasmo que eu risos. Ou outro entusiasmo que seja rs mas queria compartilhar essa descoberta, como se fosse um tesouro. Então a crítica sempre foi para mim uma forma de valorizar os filmes que eu considero instigantes, mas que passam batido porque são pouco comentados ou menos comentados do que deveriam. Os críticos muitas vezes, elegem meia dúzia de filmes e se concentram nesses, repetidamente, então o meu papel na crítica é justamente tentar jogar luz para vários outros filmes que não recebem dessa mídia mais hegemônica a atenção que outros filmes também merecem, mas que não estão em circuitos de maior visibilidade.

*Teresa – Nesse sentido você é um colaborador, um alavancador do bom cinema, vai atrás de valorizar e trazer à tona aquilo que talvez estivesse condenado ao esquecimento. Um garimpeiro eu diria.

*Ikeda – Precisamos ficar atento à tendência de massificação. São tantos livros produzidos, tantas músicas, tantos filmes e muitas vezes a gente fica sempre vendo e ouvindo alguns poucos artistas.

*Teresa – Então o crítico não é aquele que também destrói o trabalho do cineasta? O seu papel me parece ser bem ao contrário disso. Enfim, como você define o crítico de arte, especificamente o crítico de cinema?

*Ikeda – Na minha visão, ou como costumo trabalhar, o crítico não é aquele que faz julgamento de valor da obra, não é aquele que diz se a obra é boa ou ruim, que hierarquiza a obra, dizendo que um filme é melhor que o outro. O crítico não é aquele que quer ensinar ao cineasta ou ao artista sobre o que ele deveria ter feito, mas sim aquele que procura abrir o pensamento crítico, abrir as possibilidades de leitura, ampliar o debate público sobre o que é o cinema, sobre outros modos de ser, sobre os nossos mais variados brasis. O crítico não é aquele que fecha a leitura, ele não quer ensinar o espectador aquilo que ele deve ver ou que deveria ter visto, ele não quer adestrar o olhar do espectador, ao contrário, o crítico é aquele que abre possibilidades de leitura, de você poder se questionar e se descobrir, enfim, acho que é uma redução pensar que o crítico é só isso, um juiz do gosto, que diz se o filme é bom ou ruim. É algo muito mais interessante, o crítico vai no sentido da autodescoberta, ele lança sementes que fazem o espectador ou leitor ser mais ativo, que ele possa se questionar não só sobre os filmes, ou sobre sua estética e linguagem, mas especialmente sobre ética, sobre modos de ser, sobre o mundo, porque o cinema também é uma porta de entrada para a gente pensar qual é o nosso papel no mundo, que mundo é esse que a gente está vivendo e o que a gente está fazendo com o nosso mundo. O crítico não é só aquele especialista sobre questões estéticas, a linguagem, a lente, câmera, etc, claro que é também sobre isso, o crítico tem que conhecer a linguagem, tem que conhecer o meio, mas a linguagem pela linguagem, eu acho que é muito pouco, o crítico deve compreender esses instrumentos de linguagem, mas sobretudo, para nos fazer pensar qual é o nosso lugar no mundo, acho que esse é o exercício mais belo da crítica de arte.

*Teresa – E o que faz você ser essa pessoa interessada em olhar a sétima arte sobre esse viés? O que te ajudou a se tornar esse ser humano que percebe a arte assim?

*Ikeda – Creio que foi a curiosidade, eu sempre tive uma grande curiosidade, sempre procurei e venho procurando ampliar meus horizontes críticos, e também uma certa inquietude, sempre ficar se questionando “se é isso mesmo”, desconfiar das supostas verdades, daquilo “que se fala por aí” (risos) e buscar desestabilizar os falsos consensos, problematizar o senso comum. Lógico que isso é difícil, sair da nossa zona de conforto. A gente naturalmente embarca numa tendência a se acomodar, e isso é um risco, a gente tem que lutar contra essa tendência, de ver um filme sob as mesmas perspectivas, ir para as nossas bengalas, nossas zonas de conforto, porque o mundo não para, o cinema não para, o tempo inteiro vão surgindo filmes que estão nos desafiando, sempre tem coisas novas para ver e rever. É muito importante também rever filmes. Se você vê uma única vez é importante rever.

*Teresa – Por que é importante rever filmes?

*Ikeda – É importante porque na primeira vez que a gente vê um filme, muitas vezes a gente fica impactado, um tanto anestesiado, torcendo pelos personagens, ou seja, envolvido com a atmosfera do filme. Quando você vai rever o filme, você já então, tem um pouco mais de distanciamento para fazer uma análise um pouco menos à flor da pele. Eu acho legal até fazer essa análise direta, gosto da coisa fenomenológica de fazer uma análise de perto, de escrever sob o impacto do filme, eu sempre defendi a ideia da paixão na análise e no ato da escrita. Tem gente que acha que o crítico é só racional, que ele faz uma análise neutra. Eu sempre defendi a ideia da paixão, o crítico que faz uma análise apaixonada. Ao mesmo tempo é claro que é fundamental um equilíbrio entre essa paixão pelo cinema, pela vida, pelo mundo, mas ao mesmo tempo você tem que ter um rigor na análise, ter um certo distanciamento. Então quando você vai rever um filme, pela segunda ou terceira vez, você fica mais consciente de que elementos o cineasta utilizou para gerar determinados efeitos. Vai poder compreender melhor como certos impactos até mesmo emocionais ou discursivos são gerados pela articulação de certos elementos, aí você vai repensando, reavaliando. E tem também o seguinte, você vê um filme hoje e quando você revê o mesmo filme daqui a cinco anos você já é outra pessoa, o mundo não está mais como antes, o filme também já é outro. Então eu acho que é fundamental esse exercício de rever, não só filmes, mas coisas da nossa própria vida. Ficar revendo nossos roteiros, se questionar a si mesmo, qual é o nosso lugar, eu sempre procurei me questionar, sempre procurei ter esse autoquestionamento. Será que eu estou na zona de conforto, será que estou me acomodando, nesse lugar que é mais confortável para mim, mais fácil? Será que estou vendo esse filme sob o mesmo ponto de vista? Que já é um ponto de vista enrijecido, entendeu? Aprender mais, considerar outras possibilidades, esse é um desafio contínuo, constante e difícil, você sempre se reavaliar, se questionar, e também entender os nossos limites. Quando a gente escreve, se implicar na escrita, se colocar na escrita. É justamente isso, é importante percebermos que a pessoa que escreve sobre um filme não tem como achar que é uma coisa neutra, que não se envolve com a escrita. Ela tem que ver que também é uma pessoa que sofre, que vive, que tem um corpo, que sofre todos os condicionantes desse mundo, e que isso influencia sua análise. O crítico não pode estar fora do mundo para poder escrever.

*Teresa – Sim, a gente também é uma composição, muitas coisas nos compõem e nos determinam. Somos uma construção, não é mesmo?

*Ikeda – Totalmente! E é isso que nos faz ricos e nos faz, com nossas dores e delícias, problemas e precariedades…acho que é algo importante, honesto da crítica quando o crítico assume esse lugar, esse lugar de fala, digamos assim “entre aspas”, com todas as suas dificuldades e fragilidades, quando um crítico se compromete no ato da escrita…

*Teresa – O meio cinematográfico não é um tanto elitizado, ou seja, para poucos?

*Ikeda – Ele é sim. Eu acho que o meio artístico em geral, a cultura e a arte, produzir cultura e arte no Brasil, consumir cultura e arte no Brasil é algo que historicamente sempre foi considerado elitista. O cinema também é isso, porque no cinema se cria essa ilusão de que precisa se ter dinheiro para fazer um filme, ter mercado e tudo isso. Ao mesmo tempo, eu sempre falo para meus alunos assim: ”Se hoje o cinema é elitista, eu considero que vinte anos atrás, quando eu iniciei, ele era ainda mais elitista do que é hoje, porque hoje com o digital, com as tecnologias digitais, você pode fazer um filme no celular, você pode fazer críticas, eu por exemplo, não sou jornalista, eu comecei a escrever na Internet, eu abri um site, antes você só podia escrever em jornais, em revistas, eu sou de uma geração que começou a escrever direto na Internet. Só para concluir, a produção e consumo de cinema hoje ainda são elitistas, mas quando eu comecei no cinema, há 20 anos era bem mais elitista, então se a gente tem alguma esperança, tomara que daqui a 20 ou 40 anos a gente possa dizer também, que é bem menos elitista do que é hoje.

*Teresa – Mas você vê esse movimento sendo feito, de democratização do cinema?

*Ikeda – Vejo sim, eu acredito nesse movimento e vejo sim um movimento nessa direção. Mas eu acho que esse movimento poderia dar passos mais acelerados, ele ainda é relativamente lento, mas eu vejo sim um movimento de redução desse elitismo. E espero que com o tempo haja uma aceleração, um aprofundamento desse movimento. Hoje mais pessoas estão fazendo cinema, as periferias, os interiores, também pessoas periféricas, antes excluídas, invisibilizadas, historicamente e socialmente excluídas.Poderiam ter muito mais, mas hoje é bem mais do que antes.

Teresa – Sobre a sua estadia no Nordeste, Ceará. Você é do Rio, qual é a sua conexão com o Nordeste?

Ikeda – Eu sou uma pessoa do Rio, mas eu conheci alguns amigos cineastas do Ceará, cheguei a dar umas palestras como crítico, alguns cursos em Fortaleza. Daí em 2010, abriu o curso de graduação em cinema na Universidade Federal do Ceará. Isso é importante falar, porque eu fiz cinema na UFF, e quando eu entrei no curso em 2000, só tinham três universidades públicas de cinema. Eram só a UFF no Rio, a USP em São Paulo e a UNB em Brasília. No Nordeste, nenhuma; no Sul, zero; no Norte, também zero. Então veja, era muito elitista. A partir de 2007, começaram a surgir cursos de cinema no Nordeste por causa do REUNI, programa de expansão das universidades públicas federais, no governo Lula. UFPE, UFPB, UFRB no interior da Bahia por exemplo, entre várias outras, começaram a surgir a partir daí. Agora tem UFRN, UFS, várias outras, e também universidades privadas e outros cursos livres, públicos e privados. Em 2010 surgiu o Curso de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal do Ceará. E aí teve um concurso e eu fui aprovado nesse primeiro bloco de concursos que aprovou essa primeira leva de seis a oito professores que contribuíram para ajudar a montar o curso. Eu trabalhava na ANCINE, Agência Nacional de Cinema, pois eu sou do Rio, nascido e criado no Rio, já era concursado, trabalhava num órgão público, mas eu deixei o Rio, deixei a ANCINE, e mergulhei nesse desafio de expandir o cinema no Nordeste, no Ceará, dentro da Universidade, daí eu embarquei nessa aventura.

*Teresa – Você falando do Ceará me fez lembrar de Pernambuco. A gente quando pensa em cinema no Nordeste, pensa logo em cinema pernambucano. Por quê? E os outros estados? A sua área de interesse como crítico contempla todos os estados em sua produção? Na verdade, queria que comentasse se o cinema conta o país que a gente vive, expõe ele, desnuda ele. Se o cinema revela pra gente as nossas inadequações.

*Ikeda – Na verdade, eu escrevo sobre cinema em geral. Sobre várias cinematografias. Mas a minha área maior de pesquisa é sobre cinema brasileiro. E eu me interesso muito, como já estava falando, sobre outros tipos de cinema, aqueles não hegemônicos. Existe uma concentração no eixo Rio e São Paulo, uma concentração que é cultural e é também econômica etc. Então quando optei por morar no Nordeste eu fui com vontade de conhecer outros nordestes, uma cultura rica e ampla ao extremo, mas muito estigmatizada. Por muito tempo a cultura e o cinema no Nordeste ficaram muito concentradas nesse lugar do regionalismo clássico, ligado apenas à falta, a elementos como a seca, o sertão, o cangaço, e eu tenho interesse em pensar o Nordeste para além desses estereótipos associados à região. Vejo outras possibilidades de representação do Nordeste, dos espaços geográficos e humanos do Nordeste. O cinema nordestino é muito rico, eu ando publicando muito sobre esse cinema. Sobre o cinema pernambucano, como você disse, que tem uma marca muito forte, mas esse cinema é feito em Recife. A gente sempre se refere a produção cinematográfica no Nordeste tendo em vista muito mais a produção de três cidades: Recife, de Fortaleza e Salvador. Mas o Nordeste também tem outras cidades e também o interior e com a transformação digital a gente tem filmes sendo produzidos no Brasil inteiro, no Nordeste inteiro, então eu me interesso muito pelo cinema produzido nos interiores. Hoje, por exemplo, o Rio Grande do Norte e Alagoas, são dois estados que estão crescendo muito em sua produção. Alagoas daqui a dois ou três anos, você vai ver alguns longas metragens, alguns curtas metragens que já estão surgindo e com muita potência sendo exibidos em festivais nacionais e até mesmo internacionais. O cinema paraibano, outro exemplo, é maravilhoso, mesmo com muito poucos recursos eles conseguem produzir coisas fantásticas. O problema é que a gente desconhece a nossa produção. E esse é um desafio muito grande. O cinema brasileiro produz coisas muito interessantes, mas muito pouco conhecidas. As vezes participam de um festival ou outro…a gente tem esse desafio também do mercado, da distribuição, as salas de cinema são todas em Shoppings, agora tem a Netflix, a televisão, ou seja, a gente tem poucos espaços independentes, os nossos grandes filmes circulam pouco. E isso é um grande desafio, criar espaços para que o público consiga interagir, no interior, nas periferias, consiga ter acesso a essa produção.

*Teresa – As escolas tinham que incluir o cinema em suas propostas pedagógicas e isso devia ser lei, cursos de cinema nas escolas de ensino médio e fundamental.

*Ikeda – Já é lei cinema nas escolas mas não vai pra frente de fato. Investir também na formação de professores, numa rede cineclubista. A gente precisa investir de forma radical em formação de público. O dinheiro está muito concentrado na produção e pouco relativamente na distribuição dos filmes já produzidos e especialmente na formação de plateia, na formação de novos públicos, no estímulo ao pensamento crítico. É por isso que gosto muito de ir aos festivais que são pontos de encontro, onde os artistas se conhecem, trocam ideias e também estimulam debates com o público.

*Teresa – Qual seria o papel do cinema, além desse que a gente aplaude, ou seja, o de polemizar, denunciar, de trazer questões importantes à tona, de buscar aquilo que está escondido, ir para periferias, escancarar mesmo a sociedade de classes em que a gente vive, sem censura…

*Ikeda – Eu creio que o papel do cinema e a arte como um todo, o papel fundamental é mostrar que nós humanos não somos meras máquinas de reprodução do capital, porque a gente está num mundo cada vez mais acelerado, onde as pessoas acham que a solução de suas vidas é trabalhar mais. É ter mais dinheiro, é trocar seu celular, trocar seu carro, comprar o tênis tal, portanto, o papel do cinema, da arte e da cultura é expandir nossa experiencia sensível. É fazer com que a gente não se torne meros robôs de reprodução do capital, mas que a gente possa ser tocado por coisas simples. Que a gente possa sentar numa praça e ouvir o movimento dos pássaros, porque a gente está num mundo em que não ouvimos mais o movimento dos pássaros, só o barulho dos carros, das britadeiras construindo prédios. Então o papel do cinema e da arte é fazer com que a gente não perca essa sensibilidade. O segundo ponto é fazer com que a gente consiga conviver com as diferenças, porque o mundo está tomado pela massificação, pela homogeneização. Então acho que o papel do cinema, da arte e da cultura é fazer a gente perceber que cada pessoa é diferente, com diferentes formas de pensar, de agir e de ser, fazendo a gente aprender sobre singularidade, que essa é a riqueza da nossa sociedade, então o cinema vem de encontro a autodescoberta. Que cada pessoa pode ser ela mesma, que cada pessoa é diferente, e que não há problema nisso. E esse é o papel maior do cinema. O nosso grande projeto deve ser sempre a busca pela liberdade.

*Teresa – Outros festivais estão acontecendo, além de Gramado e Tiradentes? Cresceu o número de festivais? Quais são os mais antigos?

*Ikeda – O Festival de Gramado e o de Brasília são os mais antigos e tradicionais do Brasil, dedicados exclusivamente ao cinema brasileiro. Eles já têm 50 anos. Tiradentes, agora neste ano, foi a 28ª edição. Tem o Festival do Rio, tem a mostra de São Paulo, tem outros festivais, como o Cine PE, em Pernambuco, o Guarnicê no Maranhão, o Cine Ceará em Fortaleza, e tem também muitos outros festivais, por exemplo, aqui em Campos do Jordão está fazendo 10 anos, um festival do interior. Quer dizer, tem muitos outros festivais, uns que tem mais mídia, menos mídia. Por exemplo, Campos do Jordão é uma cidade que não tem uma sala de cinema. Tem muitas cidades que só tem sala de cinema em shopping. Os cineclubes também são pontos importantes para uma exibição coletiva de cinema, as pessoas não vêem os filmes só em sua casa, no Netflix, mas vêem o filme coletivamente numa sala de cinema.

*Teresa – Sobre os festivais de cinema, a gente pode dizer que eles têm um papel de inclusão, não é?

*Ikeda – Sim. E a cultura também é um hábito. Se a pessoa não tem o hábito de ir ao cinema, ao museu, às vezes por não ter uma companhia para ir, acaba ficando na sua zona de conforto. Ela tem o seu trabalho, vai para casa, fica no seu celular, on seu joguinho, fica vendo Netflix. Igual a todos nós, também nós do setor da cultura precisamos ampliar as nossas zonas de conforto. Se tivesse um festival de dança, será que a gente do cinema iria? Entendeu?

Teresa – E sobre o Festival “Curta Campos do Jordão”? O que você teria a dizer sobre esse festival, onde eu tive a satisfação de te conhecer. Qual foi o seu papel nesse evento que já se repete há dez anos? Preciso dizer que somente a Arte poderia me aproximar de pessoas e de conversas tão geniais como essa que estamos tendo.

Ikeda – Eu conheci o trabalho que o Cervantes e o Paulo vêm desenvolvendo por meio do Cineclube Araucária, que se reúne toda terça-feira para debater filmes. Era presencial em Campos do Jordão, mas, com a pandemia, passou a ser online, e eu de Fortaleza passei a participar quando eles começaram a debater o cinema japonês dos anos 1950 e 1960. Passaram Filhos de Hiroshima e Ilha Nua, dois filmes do Kaneto Shindo, eu soube e disse “puxa, em pleno 2022 e tem um grupo debatendo esses filmes, filmes do cinema japonês dos anos 1950, quero ver quem são!!!” (risos). Depois disso fui conhecendo as pessoas e fui convidado pelo festival, para lançar meus livros, para dar palestras, e agora como membro do júri. O Cervantes e o Paulo são muito apaixonados pelo cinema, e vêm desenvolvendo um trabalho muito bacana, formando uma rede afetiva de pessoas que passaram a desenvolver laços afetivos estimulados pelo cinema, pela vontade de ver e conversar sobre cinema. Isso é muito importante.

*Teresa – Finalizando, eu não poderia deixar de te perguntar sobre a premiação mais glamourosa do cinema, o OSCAR. O que você pensa dessa premiação?

*Ikeda – O problema é quando a gente pensa que a solução do cinema brasileiro é o Oscar. É maravilhoso o nosso cinema ser reconhecido nos festivais importantes, Veneza, Berlim, Gramado, Campos do Jordão, no Oscar, ou seja, em todos os lugares, isso é bacana, um reconhecimento artístico, não há problemas nisso. O problema que eu vejo é quando as pessoas pensam que essa premiação é o maior sinal de sucesso, tipo, parece que agora que chegamos ao Oscar é que estamos dando certo. Isso é que me preocupa. Sucesso não precisa ser algo como ganhar prêmios, o sucesso num trabalho artístico é conseguir ter uma trajetória coerente, contínua, um prêmio é bacana, mas eu acho que na arte e na cultura onde existe a ideia de abrir nossos corações e mentes, não é saudável pensar em algo competitivo, em notas em hierarquização, o sucesso não pode ser medido dessa forma, entendeu? O sucesso do artista é perseverar e a longo prazo. Essa coisa de valorar a arte, muitas vezes é uma estratégia de mercado. O Oscar tem sem dúvidas efeitos positivos para o cinema brasileiro, mas nosso cinema precisa ser percebido pela nossa sociedade para muito além dele.

Texto e imagem reproduzidos do site: entrementes com br

terça-feira, 7 de julho de 2026

Cinéfilo de quatro costados Júlio César de Miranda

Foto compartilhada do site: carmattos com

Publicação compartilhada do site MAM RIO

Julio Cesar de Miranda
Por José Eugênio Guimarães 

Por mero acaso conheci o iluminista e cinéfilo de quatro costados Júlio César de Miranda em 1991, se a memória não falha. Minha esposa fora premiada com um aparelho de videocassete. As locadoras de Niterói não ofereciam acervos diferenciados aos apreciadores de cinema. As estantes locais eram dominadas pelo rame-rame das grandes produções e lançamentos há pouco vistos nas salas de exibição. Eu ―louco por obras raras do período silencioso; de plagas europeias, asiáticas e brasileiras tão distantes de merecer relançamento nos cinemas e exibição nas madrugadas da TV ―não conseguia me satisfazer.

Até me deparar com uma matéria no suplemento “Rio Show” de “O Globo”. A seção dedicada a vídeos publicou extensas linhas sobre à locadora Polytheama situada em Copacabana nas proximidades da Galeria Alaska. Não pensei duas vezes: “é esta!”, afirmei ao meus botões. Distante de Niterói? Sem problemas! É para lá que irei! Cheguei fissurado e, desordenadamente, tomado de ansiedade, pus-me a examinar os títulos expostos e a separar vários. Certamente, percebendo minha ansiedade e o fato de ser completo desconhecido, acercou-se um senhor de olhar firme e penetrante. Quis saber se procurava algo específico. Resposta: “Ah! Tenho muitas especificidades e todas, parece, estão aqui! É tanta coisa preciosa, difícil de encontrar… Nem sei por onde começar”.

Calmamente, ele recolheu os estojos de VHS (era o que havia até então) de minhas mãos e perguntou o óbvio: “Quem é você?” Sobrou o embaraço; nem sabia o que dizer. Dei alguma resposta da qual não guardo lembranças. O problema, prestes a atrapalhar tudo, era a confiança – principalmente pelo fato de morar do outro lado da Baía da Guanabara. Por sorte, algo em minha cara feia extravasa insuspeição. Cadastrei-me! Levei três filmes para casa. Deveria devolvê-los em dois dias. Findo o prazo, cheguei em cima do laço e esbaforido devido a um engarrafamento. Júlio César de Miranda, que havia me atendido da primeira vez, exclamou aliviado: “Ah! Nossa! Olha ele aí!” Sequer tive tempo de escolher outra remessa. Sei que a existência de um cliente de Niterói provocou admiração durante algum tempo. 

Desde então estive presente em várias etapas da Polytheama, religiosamente. A existência de lojas físicas ficou proibitiva para o estabelecimento. Mesmo assim, Júlio – sempre apoiado pela esposa Lúcia – não desistiu de oferecer títulos os melhores e sempre selecionados. Passou a entregar os filmes desejados pela clientela em domicílio. Claro, não em Niterói! Mereci o privilégio de ir à residência dos Miranda para apanhar o que desejava e, nisso, tive o prazer de desfrutar de alguns momentos de convívio com a família. Outras vezes ia ao organizadíssimo depósito do acervo nas proximidades da residência, em Botafogo, anos depois mudado para o Largo de São Francisco quando os Miranda estabeleceram residência na Tijuca. A Polytheama esteve comigo sempre, até 2012 ―quando as inevitáveis contingências da vida me impediram de continuar. Mesmo assim, Júlio continuou presente até recentemente.

Vez ou outra conversávamos por telefone sobre filmes novos e antigos, publicações jornalísticas, livros e, claro, a deprimente situação política do país. Ele não se conformava com os rumos do Brasil vilipendiado pela selvageria da direita golpista e destruidora galvanizada pelo neoliberalismo. Foi um choque saber de seu falecimento. Aparentava um vigor que não deixava imaginar que partiria em definitivo nas proximidades de completar 80 anos neste 2022. 

A Polytheama e Júlio César de Miranda me permitiram descortinar uma parte significativa do universo “oculto do cinema”, pleno de realizações das quais só vira menções em livros, compêndios e conversas com aficionados. Que fartura! Quanta riqueza! Graças a ambos pude organizar mostras particulares com títulos incontáveis de David Wark Griffith e acompanhar o processo de afirmação e emancipação do cinema narrativo. A Nouvelle Vague, o Realismo Poético Francês, o Neorrealismo italiano, o cinema russo de todas as épocas, variados e raros filmes brasileiros, realizações japonesas, cubanas, chinesas e mexicanas, o John Ford das minhas mais profundas obsessões e influências paternas, o cinema noir, Robert Bresson, Carl Dreyer, todo o Bergman… Tudo havia na Polytheama. Era o mundo e Júlio se apresentava no papel de muito cioso e organizado guardião, o dono da chave.

Sabia de tudo. Não havia assunto que o inibisse. Levantava a voz contra os mais variados desmandos. Deixava-se dominar por uma espécie de fúria saneadora em muito parecida ao pai que me apresentou ao cinema. Vai ver, por causa disso, gostava imensamente dele e tanto fiquei abalado ao tomar ciência de que havia falecido. Era um iluminista generoso e íntegro, um dos últimos exemplares de um tipo particular de homem. Humanista! Sempre o terei comigo. Tenho uma memória poderosa e sei que, dele, sinto e sentirei muitas saudades. 

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Por ocasião da mostra “Homenagem a Julio Cesar de Miranda”, este espaço busca ainda ser uma espécie de memorial, um local onde estão recolhidos uma série de breves depoimentos escritos ou em vídeo enviados por muitos de seus amigos e companheiros de vida. Assista aos filmes na Cinemateca do MAM online de 1º a 30 de abril de 2022.

Texto reproduzido do site: mam rio/cinemateca/julio-cesar-de-miranda

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Publicação compartilhada do site CARMATTOS, de 7 de novembro de 2021

Julio, o homem que amava o cinema

No tsunami de notícias tristes que temos recebido nesse período nefasto da vida brasileira, uma me abalou de maneira muito pessoal. Acabo de perder um grande amigo, quase um irmão de trocas, cinefilia e solidariedade recíproca. Julio Cesar de Miranda faleceu na madrugada de hoje.

Julio era alguém com quem eu falava quase todos os dias, fosse para comentar filmes, fosse para discutir a situação política do país. Ele sofria tanto quanto eu com o fascismo instalado entre nós, mas com uma diferença: tinha sempre uma ideia milagrosa sobre como sairíamos desse buraco. Não poucas vezes me instou a ajudá-lo a mandar alguma mensagem para o Lula ou alguém do PT, com um conselho, uma recomendação, um caminho de solução. Era um dos poucos ex-comunistas que compreendiam o papel do PT no Brasil contemporâneo.

Tudo para ele era objeto de paixão e intensidade. Não só comigo, mas com uma rede de amigos que construiu desde os tempos em que administrava a histórica locadora Polytheama, nos anos 1980 e 1990, em parceria com o crítico José Carlos Avellar. Entre seus clientes fiéis estavam Nelson Pereira dos Santos, Silvio Tendler, Domingos Oliveira, o crítico e professor José Carlos Monteiro e muita gente boa do cinema. Julio atuava como uma espécie de curador de cineastas, indicando filmes e colaborando na pesquisa. Joel Pizzini e Eryk Rocha são outros que mantinham estreito diálogo com Julio na concepção de alguns de seus filmes.

Mais tarde, com a desmobilização da locadora, Julio passou a atender aos clientes em sua casa ou na sua filmoteca particular, numa sala do Largo de São Francisco, no centro do Rio. Foi curador de diversas mostras de filmes no CCBB e no SESC do Rio, além de manter um cineclube de amigos por muitos anos em sua casa na Tijuca, ao lado da mulher, Lúcia, e do filho Tiago, herdeiro de seu amor pelos filmes.

Figura de peso na cinefilia carioca, conhecido por sua generosidade e pelo entusiasmo que colocava em tudo o que fazia, Julio abre uma cratera imensa no coração de quem privou de sua companhia e amizade. De alguma maneira, ele estará comigo nos filmes que ainda verei por muito e muito tempo.

Texto reproduzido do site: carmattos com

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Publicação compartilhada do site MAM RIO, de 21 de março de 2022

O cinéfilo perfeito
Por Alexei Bueno 

Evocar Julio Cesar de Miranda — e no doloroso momento da perda dos amigos a dominância crescente e um dia absoluta da memória se impõe — é não só um exercício de relembrar grandes filmes, mas, ao lado deles, e inextricavelmente unidos a eles —, o de relembrar momentos preciosos da minha vida, e não há por que disfarçar o caráter estritamente pessoal destas breves linhas.

A generosa, profícua e inesquecível atividade de Julio Cesar entre os amantes do cinema no Rio de Janeiro surgiu, de certa maneira, como uma evolução, uma nova fase do cineclubismo na cidade. Não sei se a história do cineclubismo carioca já foi condignamente escrita, mas o registro é necessário. A definitiva entrada em cena de Julio Cesar, à frente da sua locadora Polytheama, se dá no momento final da época histórica em que a possibilidade única de assistir a um filme dependia da sua exibição pública em película, nos cinemas, na cinemateca ou nos cineclubes. Abria-se, naquele período, com o VHS e depois com o DVD, a possibilidade de ver e rever domesticamente as obras, e, mais do que isto, possuí-las, como já se possuíam havia séculos as obras literárias por meio dos livros, e desde muitas décadas a música, nas variadas formas de registro sonoro. Essa impossibilidade de posse na área do cinema em relação às outras artes era algo de estranhamente injusto, e me recordo que, certa ocasião, numa das sessões de cinema que aconteciam periodicamente na sede do Sindicato dos Engenheiros do Rio de Janeiro, ao me ver sozinho, por ter chegado muito cedo, com as duas latas de uma cópia em 16 mm da Mãe, de Pudóvkin — filme de minha especial veneração —, me aflorou na consciência o insidioso desejo de cometer o crime de furto, já que eu tinha em casa um projetor Bell & Howel da mesma bitola… Enfim, pelo triunfo da ética ou pelo tamanho das latas, a compulsão criminosa não se consumou, o que confesso aliviado.

Com o aparecimento do VHS terminava esse período heroico, e entrava em cena o entranhado amor ao cinema e a boa vontade igualmente heroica de Julio Cesar de Miranda, pessoalmente ou à frente do Polytheama, na divulgação dos grandes filmes e na faina de extinguir a já antiga frustração de tantos cinéfilos, impedidos de possuir determinada obra cinematográfica, e revê-la a qualquer momento, a seu bel-prazer. Justamente nessa época, início da década de 1990, eu trabalhava no editorial da Nova Fronteira, na bela casa da Rua Bambina, em Botafogo, e Julio Cesar morava quase ao lado, na Rua Marquês de Olinda, se não me engano no mesmo endereço do nosso grande Othon Bastos. Todo o mês, por acerto nosso, ele copiava para mim em VHS dez filmes da minha escolha, por preço quase simbólico, pois havia praticamente tudo na sua magnífica coleção, e nunca me esquecerei dos nossos encontros mensais, momento em que ele me entregava a bendita e esperada sacola de filmes.

Antes dessa época, como já lembrado, a peregrinação pelos cineclubes, às vezes próximos, às vezes bastante distantes, era a regra, do Cineclube João XXIII, do abnegado Padre Bruno Trombetta, no Leblon, ao Barravento, na Tijuca; da Aliança Francesa do Méier a algumas projeções específicas no cinema da UFF, em Niterói, tudo centrado, no entanto, o que é óbvio, na Cinemateca do MAM, que sobrevivera incólume ao deplorável incêndio de 1978. 

Dessa fase heroica sempre me recordo de alguns momentos de autêntico êxtase estético — e a palavra é êxtase mesmo —, como, para citar muito aleatoriamente alguns que foram dos mais marcantes, e em ordem aproximativamente cronológica: Deus e o Diabo na Terra do Sol, no Cineclube Macunaíma, da ABI; Ivan, o Terrível II (antes de ver a primeira parte, e sem as duas sequências a cores), no Cineclube João XXIII:  tinha 15 anos, e me lembro de haver afirmado, em seguida, que vira o maior filme do mundo;  O encouraçado Potiônkim, após anos de censura, no Cinema 2, em Copacabana; Limite, na Sala Funarte; a Mãe, de Pudóvkin, no Cineclube Barravento; Vampyr, de Dreyer, no MAM; Napoleão, de Abel Gance, num bar e centro cultural em Botafogo; O Velho e o Novo (ou A linha geral), em VHS do Poytheama; O tesouro do Senhor Arno, de Stilller, em casa, em DVD gravado por mim próprio, após ter baixado pelo eMule uma magnífica cópia restaurada pela Cinemateca Sueca.

O caso de O Velho e o Novo, num VHS do Polytheama, como já afirmei, com uma esplêndida banda sonora composta de música barroca — Vivaldi especialmente — criando uma simbiose com as imagens do filme como nunca encontrei igual, é dos mais curiosos. Tratava-se do único filme de Eisenstein — paixão máxima, como deve ser perceptível — que eu nunca vira. Certa noite um amigo me telefonou para dizer-me que havia encontrado uma cópia do próprio na locadora. Com os direitos do fanático e com um autoritarismo de golpe de Estado, peguei um táxi e fui imediatamente até a sua casa, em Copacabana, onde “confisquei” a cópia, que só lhe devolvi após a experiência de assistir a essa que é a mais lírica entre as obras-primas de Eisenstein, visto que — caso único na história do cinema — ele só realizou obras-primas. Pouco depois, obviamente, Julio Cesar me repassava a cópia do filme em VHS, na fornada do mês. 

Caso à parte eram as sessões organizadas por Julio Cesar de Miranda em sua residência na Tijuca, privilegiado encontro de amigos, sempre seguido pela conversa sobre o filme, entre alguns comes e bebes. Seu gosto era tão aberto como a sua coleção, seguramente mais aberto do o meu, apesar de não o julgar nada fechado, mas no qual me parecem sobreviver, talvez, alguns traços pósteros à la Chaplin Club… Outro caso à parte, mas aí de feição pública e da maior importância para a cultura cinematográfica carioca, foram os numerosos ciclos e mostras em cuja organização ele participou, em instituições como o CCBB, o SESC, ou o Centro Cultural dos Correios. Neste último fiz parte, por convite seu, da mesa de abertura da mostra “Cartas de amor no cinema”, a 2 de junho de 2005, quando foi exibido o raro filme Dois seres, do inigualável Carl Dreyer, esse outro monstro que conseguiu a façanha de realizar, em quatro décadas seguidas, quatro dos momentos mais altos de história do cinema: A Paixão de Joana d’Arc, em 1929; Vampyr, em 1932; Dies Irae, em 1943, e Ordet, em 1955. 

Todos esses títulos, todas essas sombras ilustres dos grandes cineastas, de Méliès, Griffith e Sjöström até Godard, até Artavazd Peleshian, até a atualidade, todas essas mostras e ciclos, e todos os incontáveis rostos e vozes das pessoas, às vezes muito próximas, algumas delas igualmente perdidas, que de tudo isso participaram, aparecem-me agora como uma imensa fusão sobre o tão querido semblante de Julio Cesar de Miranda, — uma daquelas fusões de incontáveis imagens, nas quais Gance era o mestre dos mestres —, com seu inolvidável sorriso, o sábio sorriso do esteta e do humanista que ele foi.

Texto reproduzido do site: mam rio/cinemateca/o-cinefilo-perfeito

sábado, 4 de julho de 2026

Perdemos Zezé Lippi


Artigo compartilhado do site CINE MOCOCA, de 31 de janeiro de 2020

Perdemos Zezé Lippi

No dia 30 de setembro de 2011, Mococa ficou mais triste, o cinema ficou mais triste, perdemos uma pessoa muito especial, a história do Cine Mococa passa especialmente pelas suas mãos. Conhecido como Zezé Lippi, aquele senhor simpático que todos os dias ali estavam, ora na portaria, ora na sala de projeção, ora sorrindo e brincando com amigos ou cochilando na cadeira esperando o término do filme.

Falava de sua amizade com Mazzaropi. Lippi era assim, de tanto trabalhar com a sétima arte, fundiu-se com ela, era visível em sua alma identificar a comédia italiana, o romantismo em filmes como “Perfume de Mulher” a qual lembrara sempre, e com bom humor dançava como AlPacino, imitando até a cegueira do personagem. Chorava toda vez que lembrava do filme “Cinema Paradiso”, e dizia ser o filme de sua vida, o filme parece ter sido feito especialmente para ele, tamanha identificação com Alfredo, o personagem do filme, interpretado por Phillipe Noiret

Cuidava com muito carinho do projetor, até mais do que o necessário, engraxava peça por peça, e quando aparecia um barulhinho não sossegava enquanto não resolvia, como um médico que cuida de seus pacientes, assim ele fazia com o maquinário de exibição. O Cinema perde muito com sua partida.

Lippi não era ator ou diretor como eles, Lippi era muito mais que isto, era aquele que com carinho se dedicou, quase a vida toda a arte das emoções, a exibição, pois sem ela, eles não existiriam. Era responsável pelas gargalhadas, lágrimas, raiva, motivação, coisas que só a sétima arte sabe fazer. Lippi era do cinema, assim como o cinema era dele, sem ele fica um vazio, um longo silêncio. Muitas vezes seus olhos azuis ficavam fixos olhando para a tela. A Arte imita a vida, o amigo Lippi parece ser a imitação perfeita da sétima arte. Um homem que se dedicou ao cinema, mas que amava sua família, isto ele sempre dizia, e o fruto deste amor, foi o alicerce desta grande família, formada por ótimas pessoas.

Texto e imagem  reproduzidos do site: cinemococa com br

sexta-feira, 3 de julho de 2026

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Morreu o Herbert Holetz, o sujeito mais apaixonado por cinema que conheci.


Artigo compartilhado do Blog de Carlos Tonet, de 20 de setembro de 2013

Herbert Holetz e as Taras de Helena

Morreu o Herbert Holetz, o sujeito mais apaixonado por cinema que conheci.

Aliás, vamos dizer que seja um dos dois: também conheci e conversei com o Walter Mogk, que criou o Cine Mogk e fez ele mesmo, prensando, uma a uma, uma a cada dia, todas as cadeiras do cine que criou.

Conheci o Herbert ainda quando era repórter policial do Santa, há uns 30 anos. Ele era gerente do Cine Bush.

Holetz era um sujeito sério, como todo bom alemão da época, mas eu fazia piadas com ele sobre as pornochanchadas que o Cine Bush passava nos horários tardios. “Ô Holetz, fui levar minha mãe no cinema à meia noite de sábado e estava passando As Freiras Devassas. Isso é uma afronta à moral e aos bons costumes”.

Holetz sempre vinha me cumprimentar e eu aproveitava para brincar com ele: “Holetz, a gente podia produzir um filme eu e tu. Coisa de altíssimo nível, melhor que os filmes do Ingmar Bergman. Vai se chamar As taras de Helena”.

Acabamos ficando amigos.

Alguns jornalistas da época pediam cortesia para o cinema, ou furavam a fila e entravam com a carteira de imprensa.

Ressalte-se de que isso era como fumar, era algo aceito, visto com naturalidade. Era uma espécie de direito adquirido da imprensa.

Mas eu era burro, meio turrão. Me recusava a fazer isso. Ficava na fila e pagava como todo mundo.

Holetz me dava ingressos de vez em quando. Nunca pedi e acabava passando-os a alguém.

Quando ia ao Cine Bush, eu ficava na fila.

Uma ou duas vezes o próprio Holetz veio me pegar pelo braço no meio da fila: “Já falei que tu não precisa pagar”.

Bem, aí eu entrava, mas a culpa era dele…

Grande Holetz, um sujeito pacato, com grande conhecimento de cinema, mas sem ser esnobe nem chato.

Se eu o reencontrar um dia, o Holetz que se prepare: ainda não desisti de filmar com ele “As Taras de Helena”.

Texto reproduzido do blog: carlostonet wordpress com

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Cinéfilo – Uma Arte Além da Diversão

Artigo compartilhado do site MAXIVERSO, de 27 de setembro de 2017  

Cinéfilo – Uma Arte Além da Diversão
Por Rodrigo Rodrigues

 Antigamente, os cinéfilos que procuravam se aprofundar um pouco mais sobre um filme através das críticas, ficavam a mercê de poucas publicações periódicas, ou senão, as opiniões vinham dos críticos de grandes veículos, cujas análises não eram tão aprofundadas e embasadas em linguagem cinematográfica em si (não que esteja errado, mas para minha visão de crítica de cinema isso é pouco).

Com o advento da Internet, centenas de blogs e sites se multiplicam na rede (inclusive o próprio Maxiverso) falando sobre cinema e afins. Todavia, parece que proporcionalmente ao fato de nunca ter se falado tanto sobre cinema em termos quantitativos, torna-se cada vez mais difícil encontrar plataformas ou até mesmo críticos independentes que realmente estejam dispostos a discutir cinema como um todo; e não somente dizer sobre o grande lançamento de determinado filme de super-herói ou falar apenas se o filme é “bom ou ruim”.  Tanto que este gênero foi também um dos principais motivadores a escrever esta crônica, pois a cada crítica que publico sobre um filme baseado em HQ, por exemplo, a reação dos tais fanboys acaba tornando a discussão sobre cinema, em muitos casos, em vão.

Acredite, é desmotivador você escrever, dedicar, contextualizar, pesquisar, estruturar e revisar um texto para no fim uma pessoa comentar que “o crítico é tendencioso e prefere determinado personagem de um editora de quadrinhos em detrimento ao da outra“, discussão esta completamente inútil , irritante e até infantil. Ou, quando não, a única coisa que a pessoa atenta para um texto de quase 1.000 palavras é o número de estrelas dado ao filme. Inclusive, o Maxiverso publicou um texto sobre a tal “guerra entre Fãs x Críticos”, baseado no filme Batman vs. Superman – A Origem da Justiça.

Assim, até aos dias atuais, acho que mesmo que tenhamos excelentes sites sobre o assunto, pouco se evoluiu com relação a estes formadores de opiniões e mídia em geral em criarem um público mais crítico e que consiga enxergar um filme além de um simples entretenimento –  fazendo com que o espectador procure mais respostas que perguntas dentro de um filme – como tão bem disse o diretor Michael Haneke sobre o cinema americano. Enfim, poucos são os profissionais (ou veículos) que buscam passar um conhecimento técnico e apurado para o público, e não necessariamente somente dizer se o filme é bom ou ruim, ou se gostou ou não do filme, mas sim contextualizar a obra – tanto socialmente quanto historicamente  – através de um texto agradável de se ler fazendo o leitor a buscar mais sobre o assunto e despertando o debate sobre determinado assunto. Para cada site que se preocupa em desenvolver um público com consciência cinematográfica, existem outros tantos que apenas passam um informação de maneira superficial, agressiva , por vezes infantilizada querendo chamar mais atenção que o próprio filme em si.

Se gostamos ou odiamos um filme, isso aconteceu por uma série de decisões dos realizadores que levaram àquela sensação que tivemos ao vê-lo,  até porque boa parte do que acontece dentro do cinema (filme) foge do empírico.

Ademais, para minha imensa decepção, percebo que muitos ditos críticos que preenchem, por exemplo, as cabines de exibição para imprensa (e sites), apesar de terem bom conhecimento para discutir um filme como alguém que ama o cinema (algo obrigatório para exercer o papel de crítico), parecem negligenciar muitos aspectos técnicos e humanos quando analisam uma obra. Assim quando vejo um filme que apresenta claramente problemas em sua narrativa e algumas pessoas sequer identificam conceitos básicos de um roteiro – algo comum, por exemplo, em um filme baseado em livros, me pergunto o que vale meu esforço em estudar sobre o assunto se o tal “crítico” usa como único argumento que a obra não está fiel a fonte de inspiração. Fora que tal conceito acaba refletindo em parte do público e obscurecendo a visão sobre o cinema em si, pois vão criando um público que começa a achar “chata” uma crítica com análises técnicas e que procure desenvolver um tema.

Eu escrevo sobre filmes aproximadamente há mais de cincos anos e ao pegar um texto de 2012, por exemplo, e um atual, é inegável e óbvio que evolui. Todavia, jamais poderia sequer supor que sou um grande crítico de cinema, mas continuo sempre estudando sobre a matéria, fazendo cursos e, claro, assistindo o máximo de filmes possíveis (principalmente os ditos “antigos”) para cada vez mais ter referências (lembrando que isso não me isenta de erros que possam surgir, facilmente identificados por alguém mais experiente talvez. E caso aconteça, devo ter humildade pra reconhecer tais falhas e limitações)

Contudo, citarei abaixo alguns itens que acho interessante para alguém que realmente “deseja” se tornar um cinéfilo e diz gostar de cinema. Lembrando que não se trata de um manual de conduta, pois cada um gosta e vê o filme que bem desejar; mas o cinema precisa que seu público o compreenda, assim como o respeite como arte com uma linguagem própria e que permita – como expressão artística – se “aproveitar” do público e vice-versa, do mesmo jeito que o público de uma peça ou musical aproveita mais o espetáculo se entender a estrutura da arte em si. Para mim esses itens deveriam sempre permear as opiniões de quem realmente se diz cinéfilo, pois acabariam indiretamente despertando a discussão sadia.

“O Cinema é, antes de mais nada, uma arte, um espetáculo artístico. É também uma linguagem ética, poética ou musical, com uma sintaxe e um estilo, é uma escrita figurativa, e ainda uma leitura, um meio de comunicar pensamentos, veicular ideias e exprimir sentimentos (…). Fazer um filme é organizar uma série de elementos espetaculares a fim de proporcionar uma visão estética, objetiva, subjetiva ou poética do mundo, com coisas, e não com palavras, numa linguagem que cabe a nós decifrar. O cineasta oferece-nos uma visão pessoal, insólita e mágica do mundo.” (Estética do Cinema, Gerard Betton).

Repetindo: Não é minha intenção criar ou doutrinar alguém sobre seus gostos, mas sim atentar para características que acho importantes para se apreciar melhor o cinema. Assim como não estou dizendo, como crítico, que sou uma maravilha, pois cometo erros e estou em constante processo de aprendizado (ainda me falta uma infinidade de filmes para conhecer). Mas, procuro sempre manter um respeito ao cinema e às pessoas que buscam dentro dos meus textos, um pouco mais de informação sobre a sétima arte para ver um filme com um olhar mais apurado.

Assistir filmes em preto e branco e os ditos “antigos” de todas as épocas (décadas de 1910, 20, 30, 40, 50, 60…), pois estas obras moldaram o que sabemos sobre cinema hoje. Este item é algo quase impensado em jovens (e até adultos cinéfilos), pois me entristece ouvir das pessoas que “filmes em preto e branco são chatos” como se existisse algo intrínseco na obra com este formato que denunciasse sua qualidade. Portanto, veja o máximo de filmes possíveis.

Cinema brasileiro não se restringe às comédias de “globochanchadas” com o Paulo Gustavo vestido de mulher ou o Leandro Hassum gritando. Pior, ainda dizem que o cinema brasileiro é ruim (se baseando em obras como estas, realmente “é vero“). Entretanto, nossa diversidade étnica e cultural é refletida no nosso cinema, o problema é que a maioria dos filmes não chega ao grande público devido a pouca diversidade das programações. Portanto, procure um pouco sobre a história do cinema brasileiro e seus clássicos e lançamentos recentes (que não seja somente os citados acima). Você encontrará grandes filmes!

Procure ler (e ver, claro) sobre os grandes movimentos do cinema (e sua origem em si), como os filmes feitos pelo formalismo russo inspirado pelo construtivismo (Eisenstein) que foram fundamentais para o cinema tornar-se o que é hoje. Assim como a nouvelle vague (François Truffaut, Jean-Luc Godard, Alain Resnais, Agnes Varda…) e o neorrealismo italiano (Antonioni, Fellini, Vittorio de Sica…) que foram fundamentais para entender como nasceu a Nova Hollywood na década de 70 de diretores como Coppola, Scorsese, Spielberg, George Lucas, Polanski, Brian De Palma, etc…

Se realmente gosta de cinema, procure saber um pouco também sobre linguagem cinematográfica – pelo menos o básico. O que é uma montagem, uma fotografia, quais os movimentos de câmera e seus significados, o que são planos e quais existem, o que é uma direção de arte, o que torna um roteiro bom ou ruim etc. Garanto a você, sua experiência ao ver um filme será potencializada na medida em que se aprofundar. Falo por experiência própria!

Fellini e Sergio Leone, por exemplo, são fundamentais para os mais jovens que acham Tarantino (muito influenciado por Leone) o “maior gênio” que o cinema produziu – não estou dizendo que ele não seja um. Assim, como os fãs de Tim Burton (como também sou) devem procurar saber o que é expressionismo alemão que influenciou obras como “Edward, Mãos de Tesoura“. Ou seja, antes de idolatrar um diretor ou um filme, pesquise sobre o que veio antes e suas influências – e obviamente assista tais filmes. Assim, dependendo da situação, você terá mais referências e conteúdo para criticar um filme ou segmento que se julgue “visionário” como se tivesse descoberto algo novo.

Respeite atores com idades avançadas, pois os astros e galãs que são idolatrados hoje envelhecerão e suas obras serão seus legados. Infelizmente em Hollywood cada vez mais os papéis para atores mais velhos estão escassos, a ponto de estrelas como Uma Thurman (que sequer chegou aos 50 anos) e Susan Sarandon sempre ratificarem em entrevistas que os papéis na maioria não são tão bons. Isso acarreta também, principalmente nas mulheres, a obrigação de sempre se “manterem jovens” através de cirurgias plásticas (o que normalmente não dá certo como a própria Uma Thurman e Kim Basinger podem comprovar). Como diria Al Pacino: “Envelhecer em Hollywood é um mau negócio“.

Não existe um juízo de valor que separe um filme “cult” de um “blockbuster”. Todo filme é uma obra de arte, contudo, devemos saber mensurar suas qualidades, defeitos e importância.  Neste caso, o papel do bom crítico de cinema ajuda; então assista o máximo de filmes possíveis e procure analisá-los de acordo com estes critérios!

Cinema não é somente feito de filmes baseados em super-heróis de quadrinhos. Portanto, assista também filmes de outros gêneros e países. Sua cultura agradece e a discussões na Internet também. Me lembro, por exemplo, que jamais tinha ouvido falar do diretor e vencedor de dois Oscars Asghar Farhadi até o conhecer através do excelente A Separação (2012). Hoje, me tornei fã do diretor e acabei procurando seus outros filmes como os excelentes “A procura de Elly”, “O Passado” e “O Apartamento”. E não foi por causa disso que deixei de ver filmes de super-heróis!

Evite o máximo possível de informações antes de assistir um filme. A expectativa pode arruinar sua opinião sobre o longa, assim como ficar discutindo e dissecando um trailer é inútil – guarde sua capacidade analítica para durante (em silêncio) e depois do filme. Ademais, me incomoda muito ver sites publicando vídeos com a reação do público (ou deles mesmos) ao verem o novo trailer do novo filme de determinado super-herói ou determinada saga não agrega em nada. Assim, como é decepcionante, ver tantos sites se resumindo as discussões em curiosidades sobre “aguardado” trailer do novo filme do herói de quadrinhos ou fomentando debates sobre a versão de diretor “x” será melhor que do diretor “y” (adoraria que tais sites dedicassem tamanha vontade para discutir , ou pelo menos, para apresentar textos ou críticas que agregassem algum valor cinematográfico)

Cuidado com o uso destas salas XYZ-MAX super, hiper, mega modernas, como som Max Double Diamonds Stereo. Claro que conforto e qualidade na projeção destas salas são importantes e bem vindas (inclusive já tive uma percepção errada da fotografia de um filme devido a péssima projeção). Mas se o filme (diretor) não souber trabalhar os elementos cinematográficos de maneira correta, tais elementos tecnológicos na sala de exibição não servirão para nada, pelo contrário, vai piorar a experiência . Imagine assistir um filme do Michael Bay numa salas destas. É uma tortura pura passar mais de duas horas assistindo um filme do diretor com sua característica permeado com trilha sonora ao extremo, cortes rápidos e câmera balançando sem parar.

Crítica não foi feita para dizer se você está certo ou errado quando diz que gosta ou não de um filme,  e sim para agregar conhecimento cinematográfico ao leitor ao ver um filme. Mas um filme que você gosta, não é necessariamente um bom filme, pois gosto não se discute, qualidade sim. Fuja de críticos que comecem seus vídeos gritando “Faaaaala galerinha, beleeeza” (caso seja um Youtuber com milhões de visualizações e zero de preocupação com a informação que esta passando) e aposte naqueles, que mesmo que você não concorde com a opinião, procuram demonstrar através da linguagem cinematográfica (com exemplos e referências tirados do próprio filme) como chegou àquela opinião de maneira contextualizada – sem gritos ou tratando o espectador como criança.

Fuja também dos fãs e/ou críticos que dizem que não gostaram de um filme por “não estar fiel a fonte” de inspiração. Cinema é algo completamente diferente de literatura ou quadrinhos. E caso você enverede a escrever críticas sobre filmes (fora o fato de ler bastante sobre o assunto) não aja como um fã cuja discussão mais relevante é “briga” de editoras de HQ ou se a cor da sunga do uniforme do herói é a mesma da saga “tal”. Nestes casos o que deve ser respeitado é a essência do personagem, assim consequentemente o resto virá de maneira natural. Até porque sendo “baseado” (palavras que as pessoas ignoram), o roteiro de um filme deve ser algo completamente novo e não é obrigatório seguir a risca sua fonte de inspiração.

Caso ache um filme “chato”, “não aconteceu nada” ou “esquisito”… Ponha o cérebro para funcionar e procure antes se perguntar “o que o diretor quis passar com a obra” (não estou dizendo que você é obrigado a gostar dos filmes, ok?). Clássicos como “2001” de Kubrick, “Solaris” de Tarkovsky, os filmes de Antonioni (“A Noite”, “A Aventura” ou “Deserto Vermelho”) ou Bergman (“Sétimo Selo”, “Morangos Silvestres” ou “Sonata de Outono”), assim como os mais recentes “O Homem Duplicado” e “A Chegada” de Dennis Villeneuve, por exemplo, possuem grandes discussões sobre o aspecto humano. O diretor e dezenas de profissionais não gastariam seu tempo à toa (apesar de que alguns blockbusters o fazem, mas isso é outro caso) para fazerem tais filmes. Pelo contrário, fazendo obras com uma abordagem “não convencional” e se preocupando em desenvolver seus personagens, mostram total confiança e respeito na capacidade cognitiva do público. Ponha o cérebro para funcionar, pois sua interpretação (baseado em elementos visto no filme) sempre será válida e poderá levar a outros aspectos jamais imaginados em conjunto com outra visões, até porque (devo ratificar) tais filmes estão discutindo aspectos humanos.

Antes de repetir o velho chavão “Hollywood hoje em dia só faz filme de super-heróis”, se pergunte quantos filmes deste gênero disputaram o Oscar de melhor filme nos últimos anos. Ou seja, o problema não é que o cinema somente produz isso, você que vai pouco ao cinema. Para ter uma ideia, dos últimos 40 filmes no qual publicamos um texto, apenas quatro ou cinco eram baseados em HQs (fora que no ano de 2017 estão programados aproximadamente sete ou oito filmes do gênero, portanto…). A impressão de que somente se faz filme de super-heróis se deve pelas campanhas de marketing e os fãs, que perpetuam as informações na rede.

Bilheteria não é sinônimo de qualidade. Não estou dizendo que um filme que arrecadou centenas de milhões seja ruim, pelo contrário. Entretanto, usar a receita de um filme como resposta para aquele amigo (ou crítico) que falou mal de seu filme preferido do último mês (e apresentou os motivos para tal) é um erro. Do mesmo modo, filmes com orçamentos menores, em muitos casos, são melhores que aqueles que custam 200, 300 milhões. Lembro que quando mais jovem ficava indignado quando alguns críticos ficam falando mal dos filmes que via (normalmente grandes produções) e ficavam elogiando filmes de diretores que pouco tinha ouvido falar. Eu achava tais profissionais altamente arrogantes, mas hoje, eu me arrependo de não ter descoberto na época (ou pelo menos no início da minha vida adulta) diretores como Antonioni, Fellini, Godard, Bergman, etc…

Ver um filme na TV jamais substituirá a experiência do cinema. Encare o cinema como algo além de um passatempo, e sim como uma oportunidade de conhecer cada vez mais do mundo ao seu redor (assistindo gêneros e estilos diversos) num local pensando para exibir um filme, e claro, desfrutar de uma obra de arte (boa ou ruim) dentro de um local no qual, repetindo, foi pensado para exibi-lo (tanto fisicamente quanto psicologicamente). Inclusive, publicamos um artigo sobre o assunto (leia aqui). E lembrando: dublado, se possível, jamais!

Sei que pode parece redundante, mas em hipótese alguma usem celulares dentro do cinema e não fiquem cochichando como se ninguém pudesse ouvir. Demonstre respeito pelo filme (mesmo que ele não faça o mesmo) e com as pessoas ao redor.  Fico estarrecido quando um meliante acende o celular como se estivesse na própria sala de casa (chamo a atenção mesmo). Aquilo irrita e tira o espectador mais atento do filme, podendo arruinar a opinião sobre a obra em si. Cinema não é local de convívio social (não no quesito interação), então aguarde o final do filme, pelo menos, para emitir sua opinião e ligar o celular.

Procure sempre analisar o contexto social e político de um filme, como o diretor trata determinado segmento ou etnia. Assim também como o filme que está assistindo trata suas personagens femininas baseado no teste de Bechdel (se existem pelo menos duas mulheres no filme com nomes, se elas conversam entre si e se o assunto não envolva homens). Como disse o diretor Eric Rohmer: “Todo filme também é um documentário de sua época“. Portanto, numa era de luta pela inclusão cada vez maior de minorias dentro do cinema – e que este grupo possa se ver nas telas (mesmo que tardio) –  acaba tornado o cinema numa reflexo da sociedade. Assim, é triste ler comentários negativos de um filme porque a obra propõe discutir tais elementos ou realizar algum tipo de empoderamento como se isso não fosse inerente ao cinema (seja social, racial ou sexual). O Cinema, assim como as outras expressões artísticas, não são apolíticas!

A identificação com um personagem ou filme passa um pouco distante do que o personagem realmente é, mas sim pelo fato dos conflitos e dramas dele sejam inerentes ao nosso mundo de alguma maneira (os chamados personagens bidimensionais). Assim, seguindo tal conceito, podemos identificar de maneira natural e verdadeira (através de personagens bem desenvolvidos, claro) o que eles estão sentindo, independente do personagem ser um homem, mulher, criança, mocinho ou bandido.  “O Cinema não trata exatamente dos fatos, mas sim a percepção deles”.

Quando gostar de um filme (mas muito mesmo, a ponto de dizer que é o melhor filme que já viu) pare e pense um pouco antes de espalhar isso. Não estou dizendo, obviamente, sobre o que o público deve gostar ou não, mas em muitos casos é mais falta de referência (o que poderia tornar o filme em si em “um dos melhores” e não “o melhor…”). Lembro-me ter ouvido de amigos, na época de “Gladiador”, que o filme com Russel Crowe foi um dos melhores filmes já vistos por eles. Bem, nada contra o filme, mas a ponto de ser o melhor vai uma distância enorme (neste caso se tivessem visto filmes como “Spartacus”, “A Queda do Império Romano” e “Ben-Hur”, por exemplo, a “disputa” seria mais árdua). Ou seja, as nossas referências eram limitadas.

Bem, estes foram pontos que acho importante para apreciar melhor a sétima arte. Claro que existe outros infindáveis e inúmeros pontos e questões técnicas que abrangem cada parágrafo acima, mas espero que possa ter ajudado um pouco na discussão sobre aquilo que tantos amamos.

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* Rodrigo Rodrigues - "Todo filme é político na medida em que política é toda forma de relação humana em que o poder está implicado" (Costa-Gavras.

Texto e imagem reproduzidos do site: maxiverso com br/blog

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O universo das coleções cinematográficas no MIS BH


Artigo compartilhado do site CENÁRIO MINAS, de 4 de dezenbro de 2023

O universo das coleções cinematográficas no MIS BH

A nova mostra de longa duração do Museu da Imagem e do Som de Belo Horizonte - MIS BH se dedica a explorar o universo do colecionador, sujeito fundamental para o advento da indústria cinematográfica, para a história e para a memória do cinema.

Uma coleção pode ser constituída por elementos e objetos de naturezas parecidas, mas também pode operar aproximações muito diversas. No entanto, sempre há um desejo em comum: o impulso de organização dos colecionadores. A nova mostra de longa duração do Museu da Imagem e do Som de Belo Horizonte – MIS BH se dedica a explorar o universo do colecionador, sujeito fundamental para o advento da indústria cinematográfica, para a história e para a memória do cinema.

Com realização da Prefeitura de Belo Horizonte por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Fundação Municipal de Cultura, sob curadoria do MIS BH, a exposição de longa duração “Cinema: Coleções e Outras Sensações” tem o início de seu período expositivo no dia 8 de dezembro de 2023, de quarta-feira à sábado, das 10h às 18h. Na abertura da exposição, dia 7 de dezembro, às 19h, o Bloco Queimando o Filme fará uma apresentação ao som de famosas trilhas sonoras do cinema, representando o cenário audiovisual de Belo Horizonte.

“Cinema, coleções e outras sensações” convida o visitante a desvendar o universo das coleções cinematográficas por meio do colecionador, das instituições de guarda (museus, arquivos e cinematecas), dos estúdios e dos produtores de cinema. A mostra apresenta ainda o cineasta e colecionador mineiro Armando Sábato, cuja coleção dedicada ao gênero de cinema faroeste integra hoje o acervo do MIS BH. Essa coleção nos permite conhecer a produção cinematográfica mineira que explorou o gênero que se relaciona com itens icônicos de filmes do faroeste. Outros colecionadores cinematográficos também foram convidados a partilhar suas coleções, percorrendo outros gêneros do cinema, tais como terror, cinema de animação entre outros.

Para Eliane Parreiras, Secretária Municipal de Cultura, “celebrar a trajetória do colecionismo na história audiovisual é mais uma forma de valorizar o acervo do MIS BH, que conta com mais de 90 mil itens, preserva a história do cinema nacional e promove constantes debates sobre documentação, patrimônio e difusão desse conjunto de objetos. Esta exposição é uma celebração fascinante da diversidade e do poder transformador do cinema, e cada item exposto nos conecta de maneira íntima à evolução da linguagem cinematográfica e à sua influência em nossa cultura”, destaca.

Luciana Féres, Presidente da Fundação Municipal de Cultura, ressalta a importância da exposição. “As coleções apresentadas no MIS BH revelam a riqueza de histórias e memórias que permeiam cada objeto, destacando o papel vital dos colecionadores na preservação da magia da sétima arte. Ao explorar ‘Cinema: Coleções e outras Sensações, somos convidados a uma viagem única pelos bastidores do cinema, guiados pelas paixões dos colecionadores”, afirma.

Uma jornada cinematográfica além-tela

“Cinema: Coleções e Outras Sensações” mergulha no mundo das coleções cinematográficas, destacando a importância dos colecionadores na preservação da memória e história do cinema. A exposição destaca o papel crucial dos estúdios produtores, instituições de guarda e cineastas na construção e preservação dessas coleções, apresentando uma visão abrangente e multifacetada do impacto do cinema na cultura.

A exposição explora ainda a coleção dedicada ao gênero de cinema faroeste do cineasta e colecionador mineiro Armando Sábato. Sua coleção, que faz parte do acervo do MIS BH, é um dos núcleos que integram a exposição “Armando Sábato: O Colecionador Mineiro de Faroeste”, que revela itens icônicos dos filmes do gênero, incluindo as portas de entrada de um saloon do velho oeste norte-americano.

A mostra também reflete sobre o papel do colecionador na preservação do audiovisual, reafirmando como o colecionismo desempenha uma função vital na preservação da história do cinema – muitas vezes sem ter a preservação como objetivo consciente. As coleções se tornam testemunhos do passado, conectando-se ao presente e ao futuro. A diversidade de coleções e objetos colecionáveis também é destaque na mostra, que apresenta uma variedade de artefatos, desde cartazes de cinema até discos, bonequinhos, objetos de cena, documentos de pré e pós-produção, e muito mais. Cada item conta uma história única sobre a produção cinematográfica e sua influência na cultura.

“Cinema: Coleções e Outras Sensações” também explora como diferentes gêneros cinematográficos influenciam o desejo de colecionar e inspiram a produção de itens colecionáveis. A “Trilogia do Caos”, do cineasta mexicano Alejandro González Iñarritu, baseada no Expressionismo Alemão e na Teoria do Caos, é apresentada como um exemplo de produção cinematográfica que gerou objetos colecionáveis.

A exposição também aborda a importância da acessibilidade no audiovisual, destacando práticas como audiodescrição, libras, objetos de cinema táteis, entre outros, para garantir que a cultura cinematográfica seja acessível a todos. “Cinema: Coleções e Outras Sensações” explora a coleção a partir do cinema como um prazer, mas também como uma ação fundamental que contribui para a atuação dos museus e centros de memória na pesquisa e salvaguarda da história do cinema.

Museu da Imagem e do Som – MIS BH

O Museu da Imagem e do Som de Belo Horizonte – MIS BH – tem a missão primordial de garantir o acesso aos acervos audiovisuais representativos da produção local, trabalhando na perspectiva de sua preservação, englobando a catalogação, tratamento, guarda, pesquisa e divulgação. A instituição conjuga suas atividades de conservação com projetos destinados ao acesso e difusão do acervo, como ações de educação patrimonial, pesquisas agendadas, mostras de filmes, exposições e oficinas de preservação fílmica. Além disso, o MIS BH concilia o trabalho direcionado para a memória audiovisual da cidade com um olhar voltado para o presente, desenvolvendo iniciativas de apoio às novas produções e de formação na área.

O MIS BH mantém mais de 90 mil itens em reservas climatizadas com monitoramento 24 horas. Possui equipe multidisciplinar formada por técnicos em artes visuais, conservação, sociologia e cinema, que fazem o tratamento de registros nas mais diferentes tipologias: cartazes, documentos, fotografias, filmes, gravações sonoras e objetos tridimensionais. A atuação do Museu da Imagem e do Som estende-se a outras etapas da cadeia do audiovisual, tais como o apoio a novas produções, exibição e formação. O MIS BH contribui para o aperfeiçoamento de profissionais ligados ao tratamento de acervos audiovisuais, oferecendo oficinas de preservação de filmes. Visando a formação de público, oferece sessões comentadas de cinema, exibições ao ar livre, palestras e seminários. Essas iniciativas atendem às mais diferentes faixas etárias, do público infantil à terceira idade. Realizou, nos últimos anos, as mostras de longa duração “Cinejornais em Belo Horizonte” (2021/2022) e “TV Itacolomi – A Pioneira de Minas” (2018/2019), que também itinerou por dezessete centros culturais da cidade.

Texto e imagem reproduzidos do site: cenariominas com br

Associação resgata filmes raros em 16 mm.


Artigo compartilhado do site FOLHA DE S. PAULO, de 25 de novembro de 1994

Associação resgata filmes raros em 16 mm
Por Ricardo Calil

Em janeiro de 1995, ano do centenário do cinema, o Brasil vai ganhar sua primeira associação nacional de colecionadores particulares de filmes.

Os organizadores da associação pretendem levar ao público títulos raros ou pouco acessíveis, tanto no circuito comercial quanto no de cineclubes e cinematecas (veja relação em arte ao lado).

A associação vai trabalhar apenas com filmes de 16 mm, um produto hoje condenado à extinção. A maior parte dos títulos raros está em rolos com essa largura.

Abandonado pela TV (que adotou o vídeo U-Matic) e pelo cinema (que prefere filmes em 35 mm), o 16 mm perde em qualidade de imagem e som para seus concorrentes.

Mas, segundo Archimedes Lombardi, 52, um dos mentores da associação, o 16 mm tem como principal vantagem permitir "um cinema portátil, doméstico".

O projetor do 16 mm pesa 12 kg, contra 800 kg do 35 mm. Três rolos pequenos guardam um filme em 16 mm, contra seis a oito rolos grandes em 35 mm.

O primeiro passo para a criação da associação será descobrir colecionadores dispostos a emprestar seus filmes.

Catálogo

O economista Antonio Leão, 37, catalogou 300 nomes de colecionadores. Já entrou em contato com 60 deles, dos quais 15 demonstraram interesse em emprestar seus filmes –pessoas de Porto Velho (RO) a Porto Alegre (RS).

A princípio, a sala do Cineclube Ipiranga, com capacidade para 150 pessoas, localizada na biblioteca municipal do bairro, será usada para a exibição, a partir de janeiro.

Em um segundo estágio, a associação pretende procurar outros espaços, como o MIS (Museu da Imagem e do Som) e o Cinusp (cineclube da USP).

Leão calcula que a associação deverá contar com 5.000 cópias em seu início. Os colecionadores emprestariam as fitas para as exibições, mas as receberiam de volta para guardá-las e conservá-las.

Receio

Uma das dificuldades que os organizadores estão enfrentando é o medo dos colecionadores de emprestar os filmes.

Eles temem que as cópias –algumas únicas– sofram danos. E querem evitar problemas de direitos autorais, já que muitos filmes não caíram em domínio público.

Lombardi afirma que, por seu caráter não-comercial, a associação não enfrentará esse problema.

A Associação Brasileira de Colecionadores de Filmes em 16 mm terá sede em um sobrado que está em reformas no bairro do Ipiranga. Os colecionadores interessados podem entrar em contato com Lombardi pelo tel. 011/274-6318.

Cinemateca

O programador da Cinemateca Brasileira (principal acervo do país), Bernardo Voborow, apóia a iniciativa da associação.

Voborow acredita que muitos filmes dos colecionadores não podem ser encontrados nas três cinematecas brasileiras (sediadas em São Paulo, Rio e Curitiba).

 Texto reproduzido do site: www1 folha uol com br