quarta-feira, 8 de julho de 2026

Preservação, por Hernani Heffner


Artigo compartilhado do site CONTRACAMPO

Preservação
Por Hernani Heffner

Carlos Manga sempre enfatizou o choque sofrido em seu primeiro contato com o universo cinematográfico real. Conduzido por Cyll Farney para conhecer o estúdio da Atlântida, localizado na rua Visconde do Rio Branco, e especialmente o diretor responsável pelas famosas chanchadas, surpreendeu-se por encontrar este último em mangas de camisa carregando adereços, levantando cenários, manejando um martelo como qualquer cenotécnico. Watson Macedo não tinha escritório de luxo, secretária bonita e simpática, carro e chofer na porta da companhia. Traduzindo: não havia salários nababescos e muito menos recursos de monta para a produção e para a própria infra-estrutura do estúdio. A sobrevivência era difícil e com conseqüências óbvias. Pouco depois do memorável e decisivo encontro, o local sofreria um devastador incêndio, responsável pelo desaparecimento de quase toda a filmografia inicial da Atlântida.

Guardadas as devidas proporções, salientadas as peculiaridades de um arquivo de filmes e indicados os contextos diversos, passando dos anos 50 aos anos 80, pode-se dizer que tive um choque semelhante ao tomar contato com o universo das cinematecas brasileiras. Ao me aproximar do cotidiano da mítica Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – Cinemateca do MAM, para os funcionários, amigos e admiradores – vez por outra via um ou outro carrinho carregado de filmes passar com latas desgastadas pelo tempo, as vezes amassadas, quase sempre enferrujadas parcial ou totalmente. Descobriria mais tarde, igualmente espantado, que quem empunhava o carrinho não era um auxiliar, mas o próprio conservador chefe. Havia poucos, pouquíssimos auxiliares. Mas nada se comparou à primeira incursão pela área de armazenamento de filmes, o famoso depósito de filmes. Na entrada a primeira surpresa: nada de luz. Explico-me: não era oposição à essência luminosa do cinema ou mesmo um cuidado técnico, pois a luz é um fator nocivo à conservação de quase todos os tipos de documentos, inclusive filmes. Era preciso simplesmente usar uma solitária gambiarra, o que tornava o cenário de corredores estreitíssimos, traçado irregular e estantes abarrotadérrimas e altíssimas, uma mistura de filme expressionista e de instalação surrealista, com direção de arte de Gaudí. Ah!, neste momento inesquecível identifica-se também o inconfundível cheiro de película cinematográfica, que dizem ama-se ou detesta-se para sempre. Eu gostei.

O choque completou-se muitos anos depois quando vi pela primeira vez o acervo da Cinemateca Brasileira, já instalada no Matadouro. Acreditei estar vendo todas as latas naquele enorme galpão (era só uma parte) e elas me pareceram três, quatro, cinco vezes mais do que estava acostumado na Cinemateca do MAM. A imagem é impactante e lembra um pouco os finais simbólicos de Cidadão Kane e Caçadores da Arca Perdida e suas implicações filosóficas, políticas e culturais. De imediato me veio à mente a idéia de que tão poucos jamais dariam conta daquilo tudo e naquelas condições tão precárias, sabendo-se de antemão da escassez de recursos humanos e financeiros, tecnologia, infra-estrutura adequada, falta de cursos especializados no país e do fato de que as latas nunca param de multiplicar-se. Alguns meses mais tarde, comecei a trabalhar de fato em uma cinemateca, a do MAM. Naturalmente fui vendo a questão da preservação de filmes por outros ângulos. A perspectiva interna é mais rica, nuançada e necessariamente mais complexa. Alguns mitos caíram por terra, certos clichês se desfizeram e práticas mal aceitas por usuários externos ganharam justificativas irretocáveis. Isso não significa que os problemas clássicos deixaram de existir, seu peso é considerável no cotidiano de um arquivo de filmes. Mas houve a compreensão de que os problemas de natureza documental, arquivística e técnica são parte da área, da atividade, da preservação em si. São fatores estruturais. Esses problemas sempre existirão, ou melhor, na verdade não existem, na medida em que são intrínsecos. A questão real gira em torno de sua intensidade – quando escapam ao controle, tornam-se do ponto de vista administrativo, gerencial e logístico um obstáculo pesado e oneroso - e principalmente da qualidade da resposta dada a eles.

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Nos primeiros tempos da atividade cinematográfica a palavra cinemateca possuía acepção bem prosaica. Alguns dicionários do início do século XX registram o sentido de coleção de filmes, ou seja, uma biblioteca de filmes. O paralelo é óbvio mas traz embutido uma noção importante, a de que o filme poderia difundir conhecimento e servir como fonte de consulta, disponível a um público indiferenciado para além da sua manifestação presente. Um uso específico do registro cinematográfico como fonte histórica já havia sido previsto desde o final do século anterior. Em 25 de março de 1898 o cinegrafista polonês Boleslav Matuszewski publicou em Paris um livreto intitulado Uma Nova Fonte Histórica, em que preconizava a criação de locais destinados à guarda seletiva de filmes, o que denominou Depósito de Cinematografia Histórica. O trabalho como operador cinematográfico dos Lumière despertou-lhe a consciência para o valor das imagens que captava com a câmara, em especial as de caráter documental, desprezando as de natureza propriamente ficcional. É considerado muito justamente um precursor do conceito de cinemateca como espaço de guarda de bens culturais móveis destinados às gerações futuras.

As primeiras coleções de filmes se formaram igualmente no início do século XX, mas não por influência de Matuszewski. Os motivos foram bem menos nobres. Por conta da guerra de patentes travada por Thomas Alva Edison contra seus rivais no campo do comércio cinematográfico e pela necessidade de um registro legal que alicerçasse um processo judicial em torno desta ou daquela obra cinematográfica, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos (Library of Congress) começou a receber a título de depósito legal para resguardo dos direitos de propriedade comercial (copyright) os famosos paper prints. Por causa da película de nitrato utilizada então, autoinflamável sob certas condições, e da exigüidade de espaço para dar conta do volume de produção, a Biblioteca recebia os filmes sob a forma de tiras de papel com os fotogramas impressos, do primeiro ao último. Não fossem os paper prints, a filmografia norte-americana seria infinitamente menor, abreviando o conhecimento de autores inaugurais como David Wark Griffith, Ralph Ince e Edwin S. Porter. Deve-se a este material inclusive o desenvolvimento da primeira experiência de restauração cinematográfica, levada a cabo durante a Segunda Guerra Mundial pelo naturalista, cineasta, professor e inventor de câmaras de filmar Carl Louis Gregory, que criou uma truca capaz de reconverter os fotogramas de papel em imagem em movimento registrada em película.

Houve outras iniciativas de caráter isolado nesses primeiros tempos da atividade cinematográfica. Surgiram os primeiros colecionadores de filmes, responsáveis em grande parte pelo pouco que seria legado dos primórdios para a posteridade, e algumas ações de natureza institucional, como a do Imperial War Museum inglês, cuja coleção de filmes iniciou-se logo após a Primeira Guerra Mundial. Neste campo cumpre destacar a extraordinária e pioneira experiência brasileira com a criação da Filmoteca do Museu Nacional em 1910. Idealizada pelo antropólogo Edgard Roquette-Pinto para servir de repositório da evolução dos costumes urbanos nacionais e de registro das culturas indígenas presentes no país, a Filmoteca funcionou durante décadas e reuniu importante coleção de filmes. O descaso, a falta de conhecimentos de conservação de filmes e o tempo destruíram quase todas as películas. Na década de 60 o pesquisador Jurandyr Passos Noronha resgatou na sede da Quinta da Boa Vista umas poucas latas originárias da Filmoteca contendo alguns dos mais antigos títulos da filmografia brasileira, como o Circuito de São Gonçalo, de 1910.

Frente ao conjunto da produção mundial essas pequenas coleções, constituídas quase sempre seletivamente, tinham o sabor de gota no oceano. A falta de um movimento mais vigoroso quanto à salvaguarda do patrimônio fílmico em geral, proporcionou o desaparecimento em larga escala da maior parte dos filmes produzidos entre 1895 e 1950. Foram três grandes ondas sucessivas de destruição. A primeira ocorreu ao final da Primeira Guerra Mundial quando o longa metragem se consolidou como produto preferido pelo público. Não havia mais sentido para os produtores manter em estoque os velhos filmes de um ou dois rolos de tamanho. Não havia mais mercado para eles. Dissemina-se nesse momento a prática do reaproveitamento de matéria-prima, dissolvendo-se as películas para reobtenção da prata ou fornecimento de celulose para a fabricação de piaçava de vassoura. A segunda grande onda de destruição ocorreu por ocasião do advento do som a partir de 1927. Mais uma vez, o sucesso junto ao público determinou a obsolescência precoce de milhares e milhares de filmes reduzidos à condição de estorvo anti-lucrativo. A terceira onda se deu em 1950 por conta da troca da película de nitrato, inflamável, pela de acetato, não inflamável, o que implicou em novas tecnologias de projeção e na inadequação dos filme em nitrato frente ao panorama que se seguiu.

Estima-se perdas consideráveis para o cinema mudo mundial. Algo em torno de 60% a 70% da produção teria desaparecido em definitivo. A percentagem varia da país para país, com maior incidência em nações pobres como o Brasil, que salvou cerca de 10% de tudo que produziu entre 1898 e 1933. A velocidade desta verdadeira tragédia cultural diminuiu até a década de 50, com estimativas de perdas em torno de 30% do volume produzido nos países industrializados e em torno de 50% nos países pobres. Entre um momento e o outro surgem as primeiras discussões sobre o valor do que está desaparecendo e sobre iniciativas a tomar para deter o processo. Influenciados pelo impressionismo cinematográfico, que havia alçado o filme à condição de arte autônoma, vários críticos franceses lançam em 1933 a idéia de uma Cinemateca Nacional. O projeto não vai adiante mas sinaliza uma primeira conscientização quanto à necessidade de uma preservação sistemática e em larga escala do patrimônio cinematográfico. Este reconhecimento do cinema como arte significa a base conceitual que permitirá o florescimento das cinemateca nacionais ao longo da décadas de 30 e 40.

Ao longo deste período constituem-se cinematecas apenas na Europa e nos Estados Unidos. A primeira foi o Svenska Filmsamfundets Arkiv (Cinemateca Sueca), criado em 1933. No ano seguinte surgiu o BundesArchiv (Cinemateca Alemã). Em 1935 foi a vez do British Film Institute e do arquivo de filmes do Museum of Modern Art of New York (MoMA). E em 1936 apareceu a Cinémathèque Française. Dois anos mais tarde, estas cinematecas reuniram-se em Bruxelas e fundaram a Federação Internacional dos Arquivos de Filmes (FIAF). Longe de ser apenas um colegiado protocolar, a entidade mostrou-se decisiva em seus primeiros tempos na formação de uma mentalidade conservacionista. Rapidamente evoluiu do apoio ao esforço pela salvaguarda do filme para a ação mais geral e decisiva de conservar o cinema. Distinção sutil, a passagem da guarda exclusiva da película ao recolhimento conjunto dela e dos mais diferentes itens que gravitam em torno do filme como roteiros, boletins de continuidade e de marcação de luz, cartazes, fotos, documentos de produção, revistas de cinema e outros, configurou propriamente a área de atuação o e perfil institucional das cinematecas e definiu simultaneamente o cinema como documento e fato cultural em suas múltiplas manifestações.

Conservar neste momento era entendido quase sempre como guardar de maneira relativamente ordenada. Essa guarda desinteressada do passado não implicava padrões rígidos de armazenamento, não tinha fins lucrativos e não dava direitos sobre a exploração comercial das obras, que permaneciam com os produtores originais ou seus sucessores, tal como hoje. Práticas pouco profissionais como simplesmente empilhar latas somavam-se a conceitos importantes no relacionamento com a desconfiada comunidade cinematográfica. Mas o verdadeiro senão deste momento estava na continuação da guarda seletiva. Os novos arquivos de filmes constituíram-se principalmente como cinematecas de caráter universal ou nacional (mais tarde apareceria a categoria regional, especializada em determinados temas ou na produção de uma região), destinados prioritariamente a recolher e guardar o que melhor a arte cinematográfica tivesse apresentado nas telas do planeta. Foi a época da busca dos títulos e autores fundamentais: um Nosferatu, um Aurora, um Intolerância; um Charles Chaplin, um Abel Gance, um Sergei Eisenstein. Naturalmente os critérios para esta seleção estavam nas mãos do diretor da cinemateca ou de seu curador e sofriam a influência de determinadas histórias do cinema, ideologicamente traçadas. Psicologias à parte, a questão girava em torno de uma suposta evolução estética do cinema, naturalmente qualificante e estreitamente vinculada ao que se fazia no Primeiro Mundo, hegêmonico desde os primórdios em termos de tecnologia, comércio e ideologia cinematográficas. Basta lembrar que o MoMA, uma cinemateca de caráter universal, só se interessou por um único título brasileiro, Limite, cujos negativos foram remetidos para Nova Iorque e lá se deterioraram. Na dependência deste tipo de sanção, nada mais restaria do cinema brasileiro. E se cinematecas houvessem por aqui nos anos 30 e 40, provavelmente o filme não seria salvo, pois foi um fracasso artístico aos olhos das platéias de seu tempo. Como em muitos casos semelhantes mundo afora a admiração e o esforço particulares salvaram Limite, constituindo-se em uma das grande sagas da preservação brasileira de filmes.

A alternativa ao julgamento de valor era uma só: guardar tudo sem seleção. Ultrapassar a barreira dos clássicos do cinema, no entanto, parecia dispensável do ponto de vista teórico, pois as cinematecas estariam mais próximas de museus que de bibliotecas, e impensável do ponto de vista prático, já que não haveria condições para recolher tudo o que se produzia. O cenário só começou a mudar após a Segunda Guerra Mundial, momento em que a idéia de guardar tudo se fortalece. Certamente o grau de destruição visto na história recente da humanidade teve alguma influência sobre a preservação das criações modernas, o cinema incluído. Mas os fatores decisivos foram menos evidentes, entre eles as concepções da chamada Nova História, que propunha estudos menos oficiais e ligados às classes dominantes, valorizando assim atividades distantes da política, do comércio e da guerra, como por exemplo o lazer e seu papel junto às classes trabalhadoras. Da mesma forma a Nova História e a Arquivologia moderna redefiniriam o estatuto daquilo que pode ou não contar a História, conferindo a qualquer tipo de registro em qualquer tipo de suporte a natureza de fonte e de documento, respectivamente. Filme, artístico ou não, clássico ou não, é documento, portanto, fundamental para a reconstituição de uma porção da história humana, operação essa melhor sucedida se objetivada a partir de um conjunto e não de alguns poucos elementos. Por fim certas formulações filosóficas, psicanalíticas e sociológicas põem em cena a noção de memória, instância formadora da identidade de um indivíduo tanto quanto de uma nação. O direito à memória cinematográfica nacional passa a ser um instrumento de luta e libertação, em especial no chamado Terceiro Mundo. Não por acaso, a maior parte das cinematecas do antigo Leste Europeu, da Ásia e da América Latina surgiu entre 1945 e 1955, entre elas a Cinemateca Brasileira em 1949 e a Cinemateca do MAM em 1955.

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O pós-guerra não conheceu apenas o vertiginoso crescimento do número de cinematecas espalhadas pelo mundo. A descoberta da magnitude das perdas anteriores teve um efeito interno tão importante quanto a ampliação do espectro de guarda. Estava evidente que a película cinematográfica e seu universo de atuação tinham uma natureza frágil e evanescente. Preservá-los implicava em uma profissionalização dos procedimentos internos quanto à conservação, manuseio e difusão dos filmes. Esta nova atitude face o objeto a ser preservado dependia evidentemente de uma mudança de mentalidade quanto ao valor de uma filmografia nacional e quanto ao papel do cinema dentro desta ou daquela sociedade. Mais diretamente requisitava a presença do Estado como agente político e financeiro decisivo na implementação de uma ação de salvaguarda de algo que deveria ser considerado patrimônio cultural nacional. Não foi por acaso que as cinematecas criadas nesse contexto constituíram-se na esfera pública, seja como verdadeiros arquivos nacionais de imagens em movimento, seja como orgãos com a incumbência de zelar pelo patrimônio cultural cinematográfico.

Eis aqui uma primeira e grande diferença entre a origem da preservação de filmes no Brasil e em países de características históricas, econômicas ou culturais similares como Argentina, Portugal, Cuba e México. As cinematecas brasileiras continuavam a tradição dos primórdios do movimento. Eram fruto de iniciativas privadas, egressas quase sempre de círculos como cineclubes, associações de críticos, entidades cinéfilas. A institucionalização seguiu os moldes do MoMA, mas pode-se dizer que a associação foi algo fortuita. Não havia interesse real por parte dos Museus de Arte Moderna, tanto o do Rio de Janeiro, quanto o de São Paulo (onde a Cinemateca Brasileira inicialmente funcionou). O prestígio de considerar o cinema uma das criações modernas, o paralelismo com a entidade norte-americana e o retorno expressivo de público no tocante à exibição justificavam a cessão de algumas salas e uma pequena estrutura administrativa, mas sem considerar seriamente um investimento de peso na conservação, catalogação e restauração de milhares de rolos de filmes. As coleções floresceram sem planejamento, formação de pessoal especializado, conhecimento tecno-científico da matéria e armazenamento adequado. Como conseqüência a Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo sofreu um devastador incêndio com menos de dez anos de existência, em 1957. Em contraponto, o Gosmofilmfond (Cinemateca da antiga União Soviética), nasceu neste mesmo período de uma decisão de Estado e foi fortemente apoiado pelo poder público. Desde o início tinha reservas técnicas climatizadas com ar condicionado industrial e logo atingiu a condição de maior cinemateca do mundo em número de títulos e rolos, posição que ocupa até hoje.

No caso brasileiro, à falta de uma política de apoio público, somaram-se a lenta assimilação da profissionalização mundial quanto aos procedimentos internos de trabalho em uma cinemateca e principalmente o desconhecimento do comportamento físico-químico das diferentes películas fabricadas ao longo da história do cinema, primeiro o nitrato, depois o acetato. Estávamos marcados não só por nossa condição de subdesenvolvimento, como principalmente, de um ponto de vista técnico, pela localização do país em região tropical. Temperatura e umidade elevadas e inconstantes são os vilões imediatos da conservação de documentos, em especial películas cinematográficas. Não que relaxamento, descaso e omissão não se manifestassem em paralelo e tivrssem dado também sua contribuição decisiva ao desaparecimento de boa parte da filmografia brasileira. No período pré-cinematecas, o que escapava ao reaproveitamento ficava encostado em depósitos, sotãos, galpões e similares, muitas vezes sob telhados de zinco, quase sempre sem qualquer cuidado especial dos funcionários das produtoras. Nada sobrou do que foi produzido entre 1898 e 1909. Dois dos mais prolíficos produtores dos primórdios, Paschoal Segreto e Francisco Serrador, perderam seus acervos em incêndios de casas de espetáculos, o do velho cine-teatro Carlos Gomes em 1929 e o do cinema Alhambra em 1940, respectivamente. Alberto Botelho, nosso cinegrafista de atualidades mais produtivo, viveu a tragédia pessoal de dois incêndios em laboratórios próprios, um em 1924 e o outro em 1940. Quase todos os velhos estúdios viram seus acervos arderem em chamas – Sonofilmes em 1940, Atlântida em 1952 e Brasil Vita Filmes em 1957. O mesmo ocorreu com grandes produtores de cinejornais e institucionais do pós-guerra, como Isaac Rozemberg e Herbert Richers, que viram seus acervos anteriores a 1963 desaparecerem quase por completo. Da mesma forma a Filmoteca do Serviço de Informação Agrícola (SIA), constituída informalmente em 1939 sob a iniciativa do crítico de cinema Pedro Lima, cinegrafista do orgão, e que pode ser considerada a primeira cinemateca de fato do país, pois coletava sistematicamente o passado cinematográfico brasileiro, não escapou a mais um incêndio, ocorrido em 1952. Dos pouquíssimos títulos sobreviventes constava o único registro fílmico de Noel Rosa e do Bando dos Tangarás, recentemente redescoberto e exibido. Os incêndios do SIA e da Filmoteca do MAM-SP destruíram boa parte do que ainda restava àquela altura do cinema mudo brasileiro.

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Preservar filmes significa coletar, identificar, documentar, estabilizar, recuperar fisicamente, restaurar técnica e esteticamente, transferir para novos suportes de guarda, conservar, catalogar, difundir e disponibilizar para consulta permanente, entre outras tarefas associadas. Mesmo longe do ideal, este trabalho pode ter uma enorme influência na vida de uma comunidade e mesmo de uma sociedade. Basta pensar na precariedade das cinematecas brasileiras no começo dos anos 60 e na sua participação direta e indireta no movimento do Cinema Novo. Como centros de formação estética, discussão artística e política e base de produção e finalização, atraíram a atenção daquele grupo de jovens e depois da comunidade cinematográfica e da sociedade em geral, estimulando os primeiros depósitos voluntários de filmes recentes, servindo de referência confiável para o envio de velhos títulos e sedimentando a tradição cinematográfica brasileira junto a um público maior. Neste momento as cinematecas tinham o status de centros geradores de cultura em sentido amplo, refletindo o bom momento da atividade cinematográfica e participando ativamente dele. Se isto ajudou no crescimento ou na reconstituição das coleções e no fortalecimento de uma identidade para o setor, não melhorou as condições de guarda e muito menos promoveu de início uma profissionalização do trabalho interno. Os problemas permaneciam praticamente os mesmos dos primórdios.

Mas quais problemas permaneciam os mesmos? Visto em perspectiva histórica, o trabalho de preservação naquele momento implicava principalmente em tarefas arquivísticas clássicas, como inventariamento da coleção, acondicionamento em padrões rigorosos de conservação (temperatura e umidade controladas) e na transferência das matrizes (negativas ou positivas) em nitrato para película de segurança, por conta do risco de incêndio e por crença de que essa simples operação já representava uma preservação mais adequada, o que se revelaria um equívoco posteriormente. O inventariamento era sumário, o acondicionamento não existia e a transferência era feita, quando os recursos o permitiam, em laboratório comercial, o que foge aos padrões de processamento recomendados para a confecção de matrizes mais duráveis, pois a rotina empresarial difere profundamente dos requisitos necessários à geração de materiais estáveis do ponto de vista físico-químico. Nesse sentido, os problemas permaneciam os mesmos, mas começariam em breve a serem atacados de frente, não com vistas à sua resolução definitiva, pois descobriria-se em breve que a deterioração de películas é natural, irreversível e começa no ato da fabricação, mas ao controle das diversas variáveis que interferem em dada situação, viabilizando-se soluções possíveis para as dificuldades encontradas. Para tanto era preciso realizar um amplo e abalizado diagnóstico da situação brasileira.

De outro lado, o notório desinteresse do Estado brasileiro pela preservação de filmes começou a sofrer lentas transformações. Na passagem do antigo Instituto Nacional de Cinema Educativo para o Instituto Nacional de Cinema, criou-se a primeira reserva técnica climatizada para guarda de filmes no Brasil, destinada a abrigar principalmente a filmoteca da instituição. Embora longe de parâmetros ideais, era um primeiro passo com vistas à estabilização do acondicionamento de uma coleção. Mais tarde, a Embrafilme, sucessora do INC, tornou-se a principal financiadora dos projetos de remodelação e modernização das cinematecas, promovendo a compra de equipamentos, a adaptação e refrigeração de reservas técnicas e a duplicação e restauração de inúmeros títulos. Ao idealizar seu centro de apoio técnico à produção, desenvolveu o primeiro projeto de uma área especialmente desenhada e construída para a guarda de filmes no Brasil, o Arquivo de Matrizes do CTAv. Idealizado sob orientação de João Sócrates de Oliveira, então chefe do laboratório de restauração da Fundação Cinemateca Brasileira, o local pretendia ser uma unidade modelo em termos de engenharia civil, refrigeração e desumidificação e mobiliário de guarda. Inaugurado em meados dos anos 80 como setor da Fundação do Cinema Brasileiro (atual Funarte), representou um marco técnico importante e uma solução intermediária, considerando parâmetros rígidos, e de relativo baixo custo. Tem demonstrado bom desempenho na conservação de um acervo formado basicamente por produção dos últimos vinte anos. Em duas ou três décadas, este modelo demonstrará sua eficiência ou suas limitações.

A presença do Estado ainda pode ser sentida na normalização da situação institucional da Cinemateca Brasileira, que saiu da esfera privada e virou uma autarquia federal em 1984, conservando, porém, a natureza e autonomia de uma fundação de direito privado. A esfera pública ainda proporcionou-lhe uma sede definitiva em 1985, após décadas de peregrinação pela cidade de São Paulo e sucessivos incêndios, embora de proporções menores do que o de 1957. Contudo, nenhum desses fatores talvez tenha tido tanto impacto sobre a qualidade das rotinas internas como o conhecimento mais abalizado e atualizado sobre a deterioração em si: suas origens, manifestações, formas de controle e principalmente prevenção. O entendimento do processo como um todo e do grau de interferência de instâncias como a catalogação, o acompanhamento técnico rolo a rolo e a restauração, permitiram pela primeira vez um mapeamento preciso do estágio em que se encontrava o problema, sua natureza específica e as soluções adequadas para o acervo da instituição, o que permite planejamento a longo prazo e consequentemente controle de resultados. Este conhecimento foi obtido com a pioneira ida de Carlos Augusto Machado Calil ao FIAF Summer School de 1976, realizado no Staatlichesfilmarchiv (Cinemateca da antiga Alemanha Oriental). Já no ano seguinte a Cinemateca Brasileira inaugurava seu Laboratório de Restauração, criando um diferencial de qualidade para a produção de novas matrizes, e montava a infra-estrutura que proporcionou o início da catalogação em larga escala não só de seu acervo, como de toda a filmografia brasileira (os guias referentes ao período 1897-1930 foram editados na década de 80 e o projeto está sendo retomado agora como Censo Filmográfico Brasileiro).

O mesmo estágio foi fundamental para a Cinemateca do MAM. A permanência de um ano de Francisco Sérgio Moreira em Berlim Oriental, complementada mais tarde com igual tempo passado no UCLA Film and Television Archive, deu-lhe a convicção e os conhecimentos necessários para implementar a climatização do acervo em parâmetros semelhantes aos do CTAv e almejar também uma unidade laboratorial para higienização e duplicação, com ênfase na restauração de originais no limite do desaparecimento (grau elevado de abaulamento, encolhimento ou desbotamento e outros danos). As mudanças aqui, entretanto, foram mais restritas em função do incêndio que atingiu o prédio principal do Museu (o acervo de filmes não foi atingido, apenas a sala de exibição original da Cinemateca foi danificada) e a conseqüente paralisação da maioria das atividades da instituição. O contexto econômico adverso dos anos 80 e a permanência da Cinemateca do MAM na esfera privada acabaram por limitar a reforma estrutural necessária.

Houve igualmente em ambas as instituições a reprodução da famosa querela fiafiana entre os dirigentes que advogavam o primado da exibição sobre a preservação e vice-versa. A falsa questão aflorou nos anos 70 por conta dos métodos de Henri Langlois, fundador da Cinémathèque Française. Famoso por sua defesa intransigente do cinema como arte e do direito dos filmes sobreviverem, além da influência que exerceu sobre a formação da geração da Nouvelle Vague, conduziu a cinemateca de forma personalista até sua morte em 1977, não permitindo a modernização dos trabalhos internos, em particular nos campos da conservação e catalogação, que, diziam, odiava. O resultado não se fez esperar. Um violento incêndio tomou conta dos depósitos do Pontel em 1980, causando a perda de cerca de dez mil títulos e uma das imagens mais impressionantes que já vi de acidentes na área, milhares de latas e rolos carbonizados espalhados em um raio de quilômetros. A partir da catástrofe o governo francês investiu seriamente na recuperação da instituição e com a posse em 1982 do cineasta Constantin Costa-Gravas como diretor da cinemateca, realizou-se um enorme e fundamental trabalho de catalogação do acervo, abrindo-se lata por lata e registrando-se os dados técnicos e de conteúdo dos materiais. A formação desse banco de dados, aliada à revisão periódica e sistemática da coleção, representa o ponto de partida para um gerenciamento profissional de qualquer cinemateca. O conhecimento da natureza do acervo, seus problemas e estágios de deterioração, permite gerenciar tempo e recursos, otimizando os trabalhos internos e os sempre escassos investimentos externos.

O mesmo ocorreu com a Cinemateca Brasileira nos anos 80 e está ocorrendo agora com a Cinemateca do MAM. Sem isto o impacto da quarta onda de destruição, a que aflorou da recente descoberta de que o acetato deteriora de forma mais rápida, disseminada e violenta do que o nitrato, teria sido bem maior. Todo um conhecimento acumulado quase sempre empiricamente mundo afora vem sendo modificado nos últimos quinze anos pela pesquisa científica sistemática do comportamento da película frente ao seu microambiente (a lata ou estojo) e ao seu macroambiente (a reserva técnica e a cidade em que se localiza o arquivo). Se nos anos 70 era possível ler que o nitrato explodia e podia deteriorar o acetato com seus gases nítricos, e que o acetato deveria permanecer envolto em plástico e lacrado em sua lata original, hoje sabe-se que tanto um quanto o outro liberam gases tóxicos e contaminantes, que os acervos devem ser separados, que a exaustão é tão fundamental quanto a climatização e que a redução da velocidade da deterioração está intimamente relacionada com a queda da temperatura de guarda. Estar preparado para separar o acervo por suporte e estágio de deterioração permitiu à Cinemateca Brasileira a reordenação rápida das práticas internas e principalmente o planejamento de soluções definitivas (frente ao conhecimento atual). Pela primeira vez na história da preservação de filmes no Brasil, está se buscando o diferencial de qualidade para a sobrevivência da filmografia brasileira. Pela primeira vez entrou em cena a possibilidade de uma preservação de longo prazo (em termos arquivísticos nunca inferior a um século). Com a inauguração recente do novo depósito climatizado da instituição, os materiais com baixo nível de deterioração poderão ser guardados a baixas temperaturas (10ºC), ganhando a perspectiva de chegarem inteiros ao século XXII, permitindo assim a aplicação dos recursos disponíveis a um maior número de títulos ameaçados por mais tempo.

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O Estado brasileiro continua distante do universo da preservação de filmes.

Há falta de vontade política e suporte financeiro por parte da sociedade, da classe cinematográfica, dos poderes públicos.

Não há legislação específica de proteção ao bem cinematográfico brasileiro.

As cópias de exibição, brasileiras e estrangeiras, são sistematicamente destruídas em sua maior parte após a exploração comercial.

A lei de depósito legal de títulos brasileiros raramente é cumprida por parte dos produtores.

Não há lei de depósito legal para títulos estrangeiros.

Não há legislação prevendo o repatriamento de matrizes de filmes brasileiros que se encontram no exterior.

O Brasil está mais quente e mais úmido, consequentemente provocando mais acidificação, fungos e bactérias nas películas.

O filme virgem em preto e branco está cada vez mais caro e raro, implicando no uso de filme colorido para obras originalmente realizadas em tons de cinza.

A importação de filme preto e branco para fins de preservação não tem qualquer redução de tarifa ou imposto.

Não há escolas de formação de pessoal técnico especializado na preservação de filmes no Brasil.

O filme colorido tem problemas mais graves de preservação por conta do desbotamento dos corantes.

O Brasil ainda não restaura filmes coloridos.

Não há estudos sobre o impacto dos meios eletrônicos sobre a restauração de filmes.

É preciso cuidar de todos os filmes e não apenas restaurar este ou aquele título.

As cópias de filmes brasileiros deveriam ser distribuídas, após a exploração comercial, por instituições sem fins lucrativos espalhadas pelo país, resguardando-se os direitos dos produtores, economizando-se em fretes sempre caros, e difundindo o cinema e a cultura brasileiros junto a platéias que raramente tem oportunidade de ir a uma sala de exibição.

Que a difusão tenha compromisso com a preservação e com o público.

Que os poucos recursos sejam bem aplicados onde quer que seja necessário.

Texto compartilhado do site: www contracampo com br

Entrevista com o crítico e cineasta Marcelo Ikeda


Entrevista compartilhada do site ENTREMENTES, de 11 de março de 2025 

Entrevista com o crítico e cineasta Marcelo Ikeda
Por Teresa Bendini

Marcelo Ikeda é doutor em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco, com bolsa-sanduíche na Universidade de Reading (Inglaterra) e professor de cinema e áudio visual da Universidade Federal do Ceará. Autor de diversos livro sobre o cinema contemporâneo brasileiro, entre os quais estão Cinema de Garagem, 2011 com a parceria de Dellani Lima, Cinema Brasileiro a partir da Retomada, 2015, entre outros. Atua também como cineasta, crítico e curador.

Estive com ele durante o Festival: “Curta Campos do Jordão” que ocorreu no mês de fevereiro último (15 a 22) em Campos do Jordão quando ele me concedeu essa entrevista. Ela foi gravada durante uma conversa descontraída e aqui se encontra na íntegra.

*Teresa – Marcelo Ikeda, como é que o cinema aparece para um garoto assim, tão novo e já apaixonado pelo cinema, produzindo livros sobre esse assunto.

*Ikeda – Apareceu de uma forma meio misteriosa. Eu sou uma pessoa da periferia do Rio de Janeiro, e, além disso, meus pais, minha família não possuem uma formação ou afinidade específica para poder me iniciar nos campos da arte, porque precisaram correr atrás da sua sobrevivência, se dedicaram a outras coisas, não tiveram essa oportunidade. Então eu fui descobrindo a cultura e a arte de uma forma muito particular e solitária, às vezes eu acho que até foi por acaso, de forma totalmente improvável. O cinema foi surgindo justamente a partir da televisão, a partir da vídeo locadora que tinha na esquina da minha casa. Eu fui descobrindo alguns filmes e depois passei a frequentar a Cinemateca do MAM. Outro lugar importante foi o Centro Cultural Banco do Brasil e também a locadora Polytheama, do Julio Cesar de Miranda. Assim aos poucos eu fui descobrindo clássicos do cinema, fui vendo filmes mais antigos que me interessavam. A partir daí, eu fui conhecendo pessoas e fazendo amizades com quem frequentava os cineclubes ali na virada entre os anos 1990 e os anos 2000, fui me enturmando numa geração que estava descobrindo outros filmes e outros modos de fazer e que também começava a fazer seus próprios vídeos de uma forma independente. Então fui me engajando no cinema dessa forma, assim, primeiro como cinéfilo, vendo os filmes mais diversos do mundo e aí claro começando com os filmes americanos que é o que a gente recebe primeiro, mas depois eu fui descobrindo os filmes brasileiros, os franceses, italianos, filmes alemães, e também os japoneses, que para mim foi uma grande descoberta. Eu sempre digo isso, o cinema entrou na minha vida primeiro como um cinéfilo, como espectador.

*Teresa – Então o cinema te tomou?

*Ikeda – Sim, me tomou por inteiro. O cinema transformou a minha vida. Eu era isso, né, um menino da periferia, não tinha muitas oportunidades, o cinema foi uma janela que me permitiu descobrir que várias das minhas angústias, várias das minhas questões, eu me sentia sozinho mas eu comecei a perceber a partir do cinema que eu não estava sozinho na minha solidão. Eu acho que a arte e a cultura possuem esse papel, uma forma de auto descoberta, de autoconhecimento. Então a partir do cinema conheci os filmes mais diferentes do mundo, de épocas diferentes, períodos do cinema mudo, cinema japonês, filmes muito diferentes mesmo, que fizeram curiosamente com que eu descobrisse mais sobre mim mesmo. E aí um filme que foi muito importante para mim nesse período foi um filme chamado “Não Amarás” do Kieslowski, um filme polonês dos anos 1990, que eu aluguei na locadora da esquina da minha casa, lá na periferia do Rio de Janeiro, aos 13 anos e a partir dele eu me senti tomado pelo cinema. Assim que acabou esse filme percebi que minha vida nunca mais seria a mesma, era um caminho sem volta.

*Teresa – Além disso o que o cinema fez por você?

*Ikeda – Então, o cinema transformou minha vida me ajudando nesse processo de autodescoberta. Nesse processo de poder entender melhor as minhas fragilidades, as minhas angústias, incertezas, e tentar transformar essa possível fragilidade numa poética, numa outra forma de estar no mundo, então o cinema foi uma forma de autoconhecimento, foi e está sendo, é um processo, de forma contínua, até hoje. Na verdade, de lá para cá, todos os meus movimentos no cinema são nesse sentido de tentar compreender o que é um filme, que é algo assim muito misterioso e tentar descobrir o meu lugar no mundo a partir disso.

*Teresa – Como o surge o crítico de cinema, o Marcelo Ikeda escritor de textos que aprofundam a discussão sobre cinema, que necessidade foi essa?

*Ikeda – Então, como te falei, eu comecei a ver os filmes, a me engajar muito jovem nesse movimento cineclubista, no Rio de Janeiro, na virada dos anos 90 para os anos 2000. Éramos uma geração de jovens que não se reconheciam muito no cinema brasileiro daquele momento, que era o chamado “cinema da retomada”. Nessa época os grandes filmes brasileiros daquele momento, aqueles que ganhavam prêmios, que eram reconhecidos, a gente não se sentia reconhecido nesse cinema. Daí eu participava desses cineclubes que exibiam vídeos, ou seja, os primeiros filmes de alguns realizadores que estavam iniciando em sua realização e eu ficava fascinado por esses filmes. Eram filmes precários economicamente, talvez tecnicamente também, porém nessa precariedade eu via uma força, uma potência. Então eu comecei a escrever sobre esses filmes. Eram filmes totalmente ignorados, desconhecidos, que ninguém notava mas que eu considerava fabulosos. Eles me tocavam. Fiquei impressionado pelo fato deles serem desconhecidos e foi isso que me fez pensar em trazer à tona esses filmes praticamente invisíveis. Eu queria conversar sobre esses filmes e queria que mais pessoas descobrissem esses filmes para ter o mesmo entusiasmo que eu risos. Ou outro entusiasmo que seja rs mas queria compartilhar essa descoberta, como se fosse um tesouro. Então a crítica sempre foi para mim uma forma de valorizar os filmes que eu considero instigantes, mas que passam batido porque são pouco comentados ou menos comentados do que deveriam. Os críticos muitas vezes, elegem meia dúzia de filmes e se concentram nesses, repetidamente, então o meu papel na crítica é justamente tentar jogar luz para vários outros filmes que não recebem dessa mídia mais hegemônica a atenção que outros filmes também merecem, mas que não estão em circuitos de maior visibilidade.

*Teresa – Nesse sentido você é um colaborador, um alavancador do bom cinema, vai atrás de valorizar e trazer à tona aquilo que talvez estivesse condenado ao esquecimento. Um garimpeiro eu diria.

*Ikeda – Precisamos ficar atento à tendência de massificação. São tantos livros produzidos, tantas músicas, tantos filmes e muitas vezes a gente fica sempre vendo e ouvindo alguns poucos artistas.

*Teresa – Então o crítico não é aquele que também destrói o trabalho do cineasta? O seu papel me parece ser bem ao contrário disso. Enfim, como você define o crítico de arte, especificamente o crítico de cinema?

*Ikeda – Na minha visão, ou como costumo trabalhar, o crítico não é aquele que faz julgamento de valor da obra, não é aquele que diz se a obra é boa ou ruim, que hierarquiza a obra, dizendo que um filme é melhor que o outro. O crítico não é aquele que quer ensinar ao cineasta ou ao artista sobre o que ele deveria ter feito, mas sim aquele que procura abrir o pensamento crítico, abrir as possibilidades de leitura, ampliar o debate público sobre o que é o cinema, sobre outros modos de ser, sobre os nossos mais variados brasis. O crítico não é aquele que fecha a leitura, ele não quer ensinar o espectador aquilo que ele deve ver ou que deveria ter visto, ele não quer adestrar o olhar do espectador, ao contrário, o crítico é aquele que abre possibilidades de leitura, de você poder se questionar e se descobrir, enfim, acho que é uma redução pensar que o crítico é só isso, um juiz do gosto, que diz se o filme é bom ou ruim. É algo muito mais interessante, o crítico vai no sentido da autodescoberta, ele lança sementes que fazem o espectador ou leitor ser mais ativo, que ele possa se questionar não só sobre os filmes, ou sobre sua estética e linguagem, mas especialmente sobre ética, sobre modos de ser, sobre o mundo, porque o cinema também é uma porta de entrada para a gente pensar qual é o nosso papel no mundo, que mundo é esse que a gente está vivendo e o que a gente está fazendo com o nosso mundo. O crítico não é só aquele especialista sobre questões estéticas, a linguagem, a lente, câmera, etc, claro que é também sobre isso, o crítico tem que conhecer a linguagem, tem que conhecer o meio, mas a linguagem pela linguagem, eu acho que é muito pouco, o crítico deve compreender esses instrumentos de linguagem, mas sobretudo, para nos fazer pensar qual é o nosso lugar no mundo, acho que esse é o exercício mais belo da crítica de arte.

*Teresa – E o que faz você ser essa pessoa interessada em olhar a sétima arte sobre esse viés? O que te ajudou a se tornar esse ser humano que percebe a arte assim?

*Ikeda – Creio que foi a curiosidade, eu sempre tive uma grande curiosidade, sempre procurei e venho procurando ampliar meus horizontes críticos, e também uma certa inquietude, sempre ficar se questionando “se é isso mesmo”, desconfiar das supostas verdades, daquilo “que se fala por aí” (risos) e buscar desestabilizar os falsos consensos, problematizar o senso comum. Lógico que isso é difícil, sair da nossa zona de conforto. A gente naturalmente embarca numa tendência a se acomodar, e isso é um risco, a gente tem que lutar contra essa tendência, de ver um filme sob as mesmas perspectivas, ir para as nossas bengalas, nossas zonas de conforto, porque o mundo não para, o cinema não para, o tempo inteiro vão surgindo filmes que estão nos desafiando, sempre tem coisas novas para ver e rever. É muito importante também rever filmes. Se você vê uma única vez é importante rever.

*Teresa – Por que é importante rever filmes?

*Ikeda – É importante porque na primeira vez que a gente vê um filme, muitas vezes a gente fica impactado, um tanto anestesiado, torcendo pelos personagens, ou seja, envolvido com a atmosfera do filme. Quando você vai rever o filme, você já então, tem um pouco mais de distanciamento para fazer uma análise um pouco menos à flor da pele. Eu acho legal até fazer essa análise direta, gosto da coisa fenomenológica de fazer uma análise de perto, de escrever sob o impacto do filme, eu sempre defendi a ideia da paixão na análise e no ato da escrita. Tem gente que acha que o crítico é só racional, que ele faz uma análise neutra. Eu sempre defendi a ideia da paixão, o crítico que faz uma análise apaixonada. Ao mesmo tempo é claro que é fundamental um equilíbrio entre essa paixão pelo cinema, pela vida, pelo mundo, mas ao mesmo tempo você tem que ter um rigor na análise, ter um certo distanciamento. Então quando você vai rever um filme, pela segunda ou terceira vez, você fica mais consciente de que elementos o cineasta utilizou para gerar determinados efeitos. Vai poder compreender melhor como certos impactos até mesmo emocionais ou discursivos são gerados pela articulação de certos elementos, aí você vai repensando, reavaliando. E tem também o seguinte, você vê um filme hoje e quando você revê o mesmo filme daqui a cinco anos você já é outra pessoa, o mundo não está mais como antes, o filme também já é outro. Então eu acho que é fundamental esse exercício de rever, não só filmes, mas coisas da nossa própria vida. Ficar revendo nossos roteiros, se questionar a si mesmo, qual é o nosso lugar, eu sempre procurei me questionar, sempre procurei ter esse autoquestionamento. Será que eu estou na zona de conforto, será que estou me acomodando, nesse lugar que é mais confortável para mim, mais fácil? Será que estou vendo esse filme sob o mesmo ponto de vista? Que já é um ponto de vista enrijecido, entendeu? Aprender mais, considerar outras possibilidades, esse é um desafio contínuo, constante e difícil, você sempre se reavaliar, se questionar, e também entender os nossos limites. Quando a gente escreve, se implicar na escrita, se colocar na escrita. É justamente isso, é importante percebermos que a pessoa que escreve sobre um filme não tem como achar que é uma coisa neutra, que não se envolve com a escrita. Ela tem que ver que também é uma pessoa que sofre, que vive, que tem um corpo, que sofre todos os condicionantes desse mundo, e que isso influencia sua análise. O crítico não pode estar fora do mundo para poder escrever.

*Teresa – Sim, a gente também é uma composição, muitas coisas nos compõem e nos determinam. Somos uma construção, não é mesmo?

*Ikeda – Totalmente! E é isso que nos faz ricos e nos faz, com nossas dores e delícias, problemas e precariedades…acho que é algo importante, honesto da crítica quando o crítico assume esse lugar, esse lugar de fala, digamos assim “entre aspas”, com todas as suas dificuldades e fragilidades, quando um crítico se compromete no ato da escrita…

*Teresa – O meio cinematográfico não é um tanto elitizado, ou seja, para poucos?

*Ikeda – Ele é sim. Eu acho que o meio artístico em geral, a cultura e a arte, produzir cultura e arte no Brasil, consumir cultura e arte no Brasil é algo que historicamente sempre foi considerado elitista. O cinema também é isso, porque no cinema se cria essa ilusão de que precisa se ter dinheiro para fazer um filme, ter mercado e tudo isso. Ao mesmo tempo, eu sempre falo para meus alunos assim: ”Se hoje o cinema é elitista, eu considero que vinte anos atrás, quando eu iniciei, ele era ainda mais elitista do que é hoje, porque hoje com o digital, com as tecnologias digitais, você pode fazer um filme no celular, você pode fazer críticas, eu por exemplo, não sou jornalista, eu comecei a escrever na Internet, eu abri um site, antes você só podia escrever em jornais, em revistas, eu sou de uma geração que começou a escrever direto na Internet. Só para concluir, a produção e consumo de cinema hoje ainda são elitistas, mas quando eu comecei no cinema, há 20 anos era bem mais elitista, então se a gente tem alguma esperança, tomara que daqui a 20 ou 40 anos a gente possa dizer também, que é bem menos elitista do que é hoje.

*Teresa – Mas você vê esse movimento sendo feito, de democratização do cinema?

*Ikeda – Vejo sim, eu acredito nesse movimento e vejo sim um movimento nessa direção. Mas eu acho que esse movimento poderia dar passos mais acelerados, ele ainda é relativamente lento, mas eu vejo sim um movimento de redução desse elitismo. E espero que com o tempo haja uma aceleração, um aprofundamento desse movimento. Hoje mais pessoas estão fazendo cinema, as periferias, os interiores, também pessoas periféricas, antes excluídas, invisibilizadas, historicamente e socialmente excluídas.Poderiam ter muito mais, mas hoje é bem mais do que antes.

Teresa – Sobre a sua estadia no Nordeste, Ceará. Você é do Rio, qual é a sua conexão com o Nordeste?

Ikeda – Eu sou uma pessoa do Rio, mas eu conheci alguns amigos cineastas do Ceará, cheguei a dar umas palestras como crítico, alguns cursos em Fortaleza. Daí em 2010, abriu o curso de graduação em cinema na Universidade Federal do Ceará. Isso é importante falar, porque eu fiz cinema na UFF, e quando eu entrei no curso em 2000, só tinham três universidades públicas de cinema. Eram só a UFF no Rio, a USP em São Paulo e a UNB em Brasília. No Nordeste, nenhuma; no Sul, zero; no Norte, também zero. Então veja, era muito elitista. A partir de 2007, começaram a surgir cursos de cinema no Nordeste por causa do REUNI, programa de expansão das universidades públicas federais, no governo Lula. UFPE, UFPB, UFRB no interior da Bahia por exemplo, entre várias outras, começaram a surgir a partir daí. Agora tem UFRN, UFS, várias outras, e também universidades privadas e outros cursos livres, públicos e privados. Em 2010 surgiu o Curso de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal do Ceará. E aí teve um concurso e eu fui aprovado nesse primeiro bloco de concursos que aprovou essa primeira leva de seis a oito professores que contribuíram para ajudar a montar o curso. Eu trabalhava na ANCINE, Agência Nacional de Cinema, pois eu sou do Rio, nascido e criado no Rio, já era concursado, trabalhava num órgão público, mas eu deixei o Rio, deixei a ANCINE, e mergulhei nesse desafio de expandir o cinema no Nordeste, no Ceará, dentro da Universidade, daí eu embarquei nessa aventura.

*Teresa – Você falando do Ceará me fez lembrar de Pernambuco. A gente quando pensa em cinema no Nordeste, pensa logo em cinema pernambucano. Por quê? E os outros estados? A sua área de interesse como crítico contempla todos os estados em sua produção? Na verdade, queria que comentasse se o cinema conta o país que a gente vive, expõe ele, desnuda ele. Se o cinema revela pra gente as nossas inadequações.

*Ikeda – Na verdade, eu escrevo sobre cinema em geral. Sobre várias cinematografias. Mas a minha área maior de pesquisa é sobre cinema brasileiro. E eu me interesso muito, como já estava falando, sobre outros tipos de cinema, aqueles não hegemônicos. Existe uma concentração no eixo Rio e São Paulo, uma concentração que é cultural e é também econômica etc. Então quando optei por morar no Nordeste eu fui com vontade de conhecer outros nordestes, uma cultura rica e ampla ao extremo, mas muito estigmatizada. Por muito tempo a cultura e o cinema no Nordeste ficaram muito concentradas nesse lugar do regionalismo clássico, ligado apenas à falta, a elementos como a seca, o sertão, o cangaço, e eu tenho interesse em pensar o Nordeste para além desses estereótipos associados à região. Vejo outras possibilidades de representação do Nordeste, dos espaços geográficos e humanos do Nordeste. O cinema nordestino é muito rico, eu ando publicando muito sobre esse cinema. Sobre o cinema pernambucano, como você disse, que tem uma marca muito forte, mas esse cinema é feito em Recife. A gente sempre se refere a produção cinematográfica no Nordeste tendo em vista muito mais a produção de três cidades: Recife, de Fortaleza e Salvador. Mas o Nordeste também tem outras cidades e também o interior e com a transformação digital a gente tem filmes sendo produzidos no Brasil inteiro, no Nordeste inteiro, então eu me interesso muito pelo cinema produzido nos interiores. Hoje, por exemplo, o Rio Grande do Norte e Alagoas, são dois estados que estão crescendo muito em sua produção. Alagoas daqui a dois ou três anos, você vai ver alguns longas metragens, alguns curtas metragens que já estão surgindo e com muita potência sendo exibidos em festivais nacionais e até mesmo internacionais. O cinema paraibano, outro exemplo, é maravilhoso, mesmo com muito poucos recursos eles conseguem produzir coisas fantásticas. O problema é que a gente desconhece a nossa produção. E esse é um desafio muito grande. O cinema brasileiro produz coisas muito interessantes, mas muito pouco conhecidas. As vezes participam de um festival ou outro…a gente tem esse desafio também do mercado, da distribuição, as salas de cinema são todas em Shoppings, agora tem a Netflix, a televisão, ou seja, a gente tem poucos espaços independentes, os nossos grandes filmes circulam pouco. E isso é um grande desafio, criar espaços para que o público consiga interagir, no interior, nas periferias, consiga ter acesso a essa produção.

*Teresa – As escolas tinham que incluir o cinema em suas propostas pedagógicas e isso devia ser lei, cursos de cinema nas escolas de ensino médio e fundamental.

*Ikeda – Já é lei cinema nas escolas mas não vai pra frente de fato. Investir também na formação de professores, numa rede cineclubista. A gente precisa investir de forma radical em formação de público. O dinheiro está muito concentrado na produção e pouco relativamente na distribuição dos filmes já produzidos e especialmente na formação de plateia, na formação de novos públicos, no estímulo ao pensamento crítico. É por isso que gosto muito de ir aos festivais que são pontos de encontro, onde os artistas se conhecem, trocam ideias e também estimulam debates com o público.

*Teresa – Qual seria o papel do cinema, além desse que a gente aplaude, ou seja, o de polemizar, denunciar, de trazer questões importantes à tona, de buscar aquilo que está escondido, ir para periferias, escancarar mesmo a sociedade de classes em que a gente vive, sem censura…

*Ikeda – Eu creio que o papel do cinema e a arte como um todo, o papel fundamental é mostrar que nós humanos não somos meras máquinas de reprodução do capital, porque a gente está num mundo cada vez mais acelerado, onde as pessoas acham que a solução de suas vidas é trabalhar mais. É ter mais dinheiro, é trocar seu celular, trocar seu carro, comprar o tênis tal, portanto, o papel do cinema, da arte e da cultura é expandir nossa experiencia sensível. É fazer com que a gente não se torne meros robôs de reprodução do capital, mas que a gente possa ser tocado por coisas simples. Que a gente possa sentar numa praça e ouvir o movimento dos pássaros, porque a gente está num mundo em que não ouvimos mais o movimento dos pássaros, só o barulho dos carros, das britadeiras construindo prédios. Então o papel do cinema e da arte é fazer com que a gente não perca essa sensibilidade. O segundo ponto é fazer com que a gente consiga conviver com as diferenças, porque o mundo está tomado pela massificação, pela homogeneização. Então acho que o papel do cinema, da arte e da cultura é fazer a gente perceber que cada pessoa é diferente, com diferentes formas de pensar, de agir e de ser, fazendo a gente aprender sobre singularidade, que essa é a riqueza da nossa sociedade, então o cinema vem de encontro a autodescoberta. Que cada pessoa pode ser ela mesma, que cada pessoa é diferente, e que não há problema nisso. E esse é o papel maior do cinema. O nosso grande projeto deve ser sempre a busca pela liberdade.

*Teresa – Outros festivais estão acontecendo, além de Gramado e Tiradentes? Cresceu o número de festivais? Quais são os mais antigos?

*Ikeda – O Festival de Gramado e o de Brasília são os mais antigos e tradicionais do Brasil, dedicados exclusivamente ao cinema brasileiro. Eles já têm 50 anos. Tiradentes, agora neste ano, foi a 28ª edição. Tem o Festival do Rio, tem a mostra de São Paulo, tem outros festivais, como o Cine PE, em Pernambuco, o Guarnicê no Maranhão, o Cine Ceará em Fortaleza, e tem também muitos outros festivais, por exemplo, aqui em Campos do Jordão está fazendo 10 anos, um festival do interior. Quer dizer, tem muitos outros festivais, uns que tem mais mídia, menos mídia. Por exemplo, Campos do Jordão é uma cidade que não tem uma sala de cinema. Tem muitas cidades que só tem sala de cinema em shopping. Os cineclubes também são pontos importantes para uma exibição coletiva de cinema, as pessoas não vêem os filmes só em sua casa, no Netflix, mas vêem o filme coletivamente numa sala de cinema.

*Teresa – Sobre os festivais de cinema, a gente pode dizer que eles têm um papel de inclusão, não é?

*Ikeda – Sim. E a cultura também é um hábito. Se a pessoa não tem o hábito de ir ao cinema, ao museu, às vezes por não ter uma companhia para ir, acaba ficando na sua zona de conforto. Ela tem o seu trabalho, vai para casa, fica no seu celular, on seu joguinho, fica vendo Netflix. Igual a todos nós, também nós do setor da cultura precisamos ampliar as nossas zonas de conforto. Se tivesse um festival de dança, será que a gente do cinema iria? Entendeu?

Teresa – E sobre o Festival “Curta Campos do Jordão”? O que você teria a dizer sobre esse festival, onde eu tive a satisfação de te conhecer. Qual foi o seu papel nesse evento que já se repete há dez anos? Preciso dizer que somente a Arte poderia me aproximar de pessoas e de conversas tão geniais como essa que estamos tendo.

Ikeda – Eu conheci o trabalho que o Cervantes e o Paulo vêm desenvolvendo por meio do Cineclube Araucária, que se reúne toda terça-feira para debater filmes. Era presencial em Campos do Jordão, mas, com a pandemia, passou a ser online, e eu de Fortaleza passei a participar quando eles começaram a debater o cinema japonês dos anos 1950 e 1960. Passaram Filhos de Hiroshima e Ilha Nua, dois filmes do Kaneto Shindo, eu soube e disse “puxa, em pleno 2022 e tem um grupo debatendo esses filmes, filmes do cinema japonês dos anos 1950, quero ver quem são!!!” (risos). Depois disso fui conhecendo as pessoas e fui convidado pelo festival, para lançar meus livros, para dar palestras, e agora como membro do júri. O Cervantes e o Paulo são muito apaixonados pelo cinema, e vêm desenvolvendo um trabalho muito bacana, formando uma rede afetiva de pessoas que passaram a desenvolver laços afetivos estimulados pelo cinema, pela vontade de ver e conversar sobre cinema. Isso é muito importante.

*Teresa – Finalizando, eu não poderia deixar de te perguntar sobre a premiação mais glamourosa do cinema, o OSCAR. O que você pensa dessa premiação?

*Ikeda – O problema é quando a gente pensa que a solução do cinema brasileiro é o Oscar. É maravilhoso o nosso cinema ser reconhecido nos festivais importantes, Veneza, Berlim, Gramado, Campos do Jordão, no Oscar, ou seja, em todos os lugares, isso é bacana, um reconhecimento artístico, não há problemas nisso. O problema que eu vejo é quando as pessoas pensam que essa premiação é o maior sinal de sucesso, tipo, parece que agora que chegamos ao Oscar é que estamos dando certo. Isso é que me preocupa. Sucesso não precisa ser algo como ganhar prêmios, o sucesso num trabalho artístico é conseguir ter uma trajetória coerente, contínua, um prêmio é bacana, mas eu acho que na arte e na cultura onde existe a ideia de abrir nossos corações e mentes, não é saudável pensar em algo competitivo, em notas em hierarquização, o sucesso não pode ser medido dessa forma, entendeu? O sucesso do artista é perseverar e a longo prazo. Essa coisa de valorar a arte, muitas vezes é uma estratégia de mercado. O Oscar tem sem dúvidas efeitos positivos para o cinema brasileiro, mas nosso cinema precisa ser percebido pela nossa sociedade para muito além dele.

Texto e imagem reproduzidos do site: entrementes com br

terça-feira, 7 de julho de 2026

Cinéfilo de quatro costados Júlio César de Miranda

Foto compartilhada do site: carmattos com

Publicação compartilhada do site MAM RIO

Julio Cesar de Miranda
Por José Eugênio Guimarães 

Por mero acaso conheci o iluminista e cinéfilo de quatro costados Júlio César de Miranda em 1991, se a memória não falha. Minha esposa fora premiada com um aparelho de videocassete. As locadoras de Niterói não ofereciam acervos diferenciados aos apreciadores de cinema. As estantes locais eram dominadas pelo rame-rame das grandes produções e lançamentos há pouco vistos nas salas de exibição. Eu ―louco por obras raras do período silencioso; de plagas europeias, asiáticas e brasileiras tão distantes de merecer relançamento nos cinemas e exibição nas madrugadas da TV ―não conseguia me satisfazer.

Até me deparar com uma matéria no suplemento “Rio Show” de “O Globo”. A seção dedicada a vídeos publicou extensas linhas sobre à locadora Polytheama situada em Copacabana nas proximidades da Galeria Alaska. Não pensei duas vezes: “é esta!”, afirmei ao meus botões. Distante de Niterói? Sem problemas! É para lá que irei! Cheguei fissurado e, desordenadamente, tomado de ansiedade, pus-me a examinar os títulos expostos e a separar vários. Certamente, percebendo minha ansiedade e o fato de ser completo desconhecido, acercou-se um senhor de olhar firme e penetrante. Quis saber se procurava algo específico. Resposta: “Ah! Tenho muitas especificidades e todas, parece, estão aqui! É tanta coisa preciosa, difícil de encontrar… Nem sei por onde começar”.

Calmamente, ele recolheu os estojos de VHS (era o que havia até então) de minhas mãos e perguntou o óbvio: “Quem é você?” Sobrou o embaraço; nem sabia o que dizer. Dei alguma resposta da qual não guardo lembranças. O problema, prestes a atrapalhar tudo, era a confiança – principalmente pelo fato de morar do outro lado da Baía da Guanabara. Por sorte, algo em minha cara feia extravasa insuspeição. Cadastrei-me! Levei três filmes para casa. Deveria devolvê-los em dois dias. Findo o prazo, cheguei em cima do laço e esbaforido devido a um engarrafamento. Júlio César de Miranda, que havia me atendido da primeira vez, exclamou aliviado: “Ah! Nossa! Olha ele aí!” Sequer tive tempo de escolher outra remessa. Sei que a existência de um cliente de Niterói provocou admiração durante algum tempo. 

Desde então estive presente em várias etapas da Polytheama, religiosamente. A existência de lojas físicas ficou proibitiva para o estabelecimento. Mesmo assim, Júlio – sempre apoiado pela esposa Lúcia – não desistiu de oferecer títulos os melhores e sempre selecionados. Passou a entregar os filmes desejados pela clientela em domicílio. Claro, não em Niterói! Mereci o privilégio de ir à residência dos Miranda para apanhar o que desejava e, nisso, tive o prazer de desfrutar de alguns momentos de convívio com a família. Outras vezes ia ao organizadíssimo depósito do acervo nas proximidades da residência, em Botafogo, anos depois mudado para o Largo de São Francisco quando os Miranda estabeleceram residência na Tijuca. A Polytheama esteve comigo sempre, até 2012 ―quando as inevitáveis contingências da vida me impediram de continuar. Mesmo assim, Júlio continuou presente até recentemente.

Vez ou outra conversávamos por telefone sobre filmes novos e antigos, publicações jornalísticas, livros e, claro, a deprimente situação política do país. Ele não se conformava com os rumos do Brasil vilipendiado pela selvageria da direita golpista e destruidora galvanizada pelo neoliberalismo. Foi um choque saber de seu falecimento. Aparentava um vigor que não deixava imaginar que partiria em definitivo nas proximidades de completar 80 anos neste 2022. 

A Polytheama e Júlio César de Miranda me permitiram descortinar uma parte significativa do universo “oculto do cinema”, pleno de realizações das quais só vira menções em livros, compêndios e conversas com aficionados. Que fartura! Quanta riqueza! Graças a ambos pude organizar mostras particulares com títulos incontáveis de David Wark Griffith e acompanhar o processo de afirmação e emancipação do cinema narrativo. A Nouvelle Vague, o Realismo Poético Francês, o Neorrealismo italiano, o cinema russo de todas as épocas, variados e raros filmes brasileiros, realizações japonesas, cubanas, chinesas e mexicanas, o John Ford das minhas mais profundas obsessões e influências paternas, o cinema noir, Robert Bresson, Carl Dreyer, todo o Bergman… Tudo havia na Polytheama. Era o mundo e Júlio se apresentava no papel de muito cioso e organizado guardião, o dono da chave.

Sabia de tudo. Não havia assunto que o inibisse. Levantava a voz contra os mais variados desmandos. Deixava-se dominar por uma espécie de fúria saneadora em muito parecida ao pai que me apresentou ao cinema. Vai ver, por causa disso, gostava imensamente dele e tanto fiquei abalado ao tomar ciência de que havia falecido. Era um iluminista generoso e íntegro, um dos últimos exemplares de um tipo particular de homem. Humanista! Sempre o terei comigo. Tenho uma memória poderosa e sei que, dele, sinto e sentirei muitas saudades. 

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Por ocasião da mostra “Homenagem a Julio Cesar de Miranda”, este espaço busca ainda ser uma espécie de memorial, um local onde estão recolhidos uma série de breves depoimentos escritos ou em vídeo enviados por muitos de seus amigos e companheiros de vida. Assista aos filmes na Cinemateca do MAM online de 1º a 30 de abril de 2022.

Texto reproduzido do site: mam rio/cinemateca/julio-cesar-de-miranda

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Publicação compartilhada do site CARMATTOS, de 7 de novembro de 2021

Julio, o homem que amava o cinema

No tsunami de notícias tristes que temos recebido nesse período nefasto da vida brasileira, uma me abalou de maneira muito pessoal. Acabo de perder um grande amigo, quase um irmão de trocas, cinefilia e solidariedade recíproca. Julio Cesar de Miranda faleceu na madrugada de hoje.

Julio era alguém com quem eu falava quase todos os dias, fosse para comentar filmes, fosse para discutir a situação política do país. Ele sofria tanto quanto eu com o fascismo instalado entre nós, mas com uma diferença: tinha sempre uma ideia milagrosa sobre como sairíamos desse buraco. Não poucas vezes me instou a ajudá-lo a mandar alguma mensagem para o Lula ou alguém do PT, com um conselho, uma recomendação, um caminho de solução. Era um dos poucos ex-comunistas que compreendiam o papel do PT no Brasil contemporâneo.

Tudo para ele era objeto de paixão e intensidade. Não só comigo, mas com uma rede de amigos que construiu desde os tempos em que administrava a histórica locadora Polytheama, nos anos 1980 e 1990, em parceria com o crítico José Carlos Avellar. Entre seus clientes fiéis estavam Nelson Pereira dos Santos, Silvio Tendler, Domingos Oliveira, o crítico e professor José Carlos Monteiro e muita gente boa do cinema. Julio atuava como uma espécie de curador de cineastas, indicando filmes e colaborando na pesquisa. Joel Pizzini e Eryk Rocha são outros que mantinham estreito diálogo com Julio na concepção de alguns de seus filmes.

Mais tarde, com a desmobilização da locadora, Julio passou a atender aos clientes em sua casa ou na sua filmoteca particular, numa sala do Largo de São Francisco, no centro do Rio. Foi curador de diversas mostras de filmes no CCBB e no SESC do Rio, além de manter um cineclube de amigos por muitos anos em sua casa na Tijuca, ao lado da mulher, Lúcia, e do filho Tiago, herdeiro de seu amor pelos filmes.

Figura de peso na cinefilia carioca, conhecido por sua generosidade e pelo entusiasmo que colocava em tudo o que fazia, Julio abre uma cratera imensa no coração de quem privou de sua companhia e amizade. De alguma maneira, ele estará comigo nos filmes que ainda verei por muito e muito tempo.

Texto reproduzido do site: carmattos com

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Publicação compartilhada do site MAM RIO, de 21 de março de 2022

O cinéfilo perfeito
Por Alexei Bueno 

Evocar Julio Cesar de Miranda — e no doloroso momento da perda dos amigos a dominância crescente e um dia absoluta da memória se impõe — é não só um exercício de relembrar grandes filmes, mas, ao lado deles, e inextricavelmente unidos a eles —, o de relembrar momentos preciosos da minha vida, e não há por que disfarçar o caráter estritamente pessoal destas breves linhas.

A generosa, profícua e inesquecível atividade de Julio Cesar entre os amantes do cinema no Rio de Janeiro surgiu, de certa maneira, como uma evolução, uma nova fase do cineclubismo na cidade. Não sei se a história do cineclubismo carioca já foi condignamente escrita, mas o registro é necessário. A definitiva entrada em cena de Julio Cesar, à frente da sua locadora Polytheama, se dá no momento final da época histórica em que a possibilidade única de assistir a um filme dependia da sua exibição pública em película, nos cinemas, na cinemateca ou nos cineclubes. Abria-se, naquele período, com o VHS e depois com o DVD, a possibilidade de ver e rever domesticamente as obras, e, mais do que isto, possuí-las, como já se possuíam havia séculos as obras literárias por meio dos livros, e desde muitas décadas a música, nas variadas formas de registro sonoro. Essa impossibilidade de posse na área do cinema em relação às outras artes era algo de estranhamente injusto, e me recordo que, certa ocasião, numa das sessões de cinema que aconteciam periodicamente na sede do Sindicato dos Engenheiros do Rio de Janeiro, ao me ver sozinho, por ter chegado muito cedo, com as duas latas de uma cópia em 16 mm da Mãe, de Pudóvkin — filme de minha especial veneração —, me aflorou na consciência o insidioso desejo de cometer o crime de furto, já que eu tinha em casa um projetor Bell & Howel da mesma bitola… Enfim, pelo triunfo da ética ou pelo tamanho das latas, a compulsão criminosa não se consumou, o que confesso aliviado.

Com o aparecimento do VHS terminava esse período heroico, e entrava em cena o entranhado amor ao cinema e a boa vontade igualmente heroica de Julio Cesar de Miranda, pessoalmente ou à frente do Polytheama, na divulgação dos grandes filmes e na faina de extinguir a já antiga frustração de tantos cinéfilos, impedidos de possuir determinada obra cinematográfica, e revê-la a qualquer momento, a seu bel-prazer. Justamente nessa época, início da década de 1990, eu trabalhava no editorial da Nova Fronteira, na bela casa da Rua Bambina, em Botafogo, e Julio Cesar morava quase ao lado, na Rua Marquês de Olinda, se não me engano no mesmo endereço do nosso grande Othon Bastos. Todo o mês, por acerto nosso, ele copiava para mim em VHS dez filmes da minha escolha, por preço quase simbólico, pois havia praticamente tudo na sua magnífica coleção, e nunca me esquecerei dos nossos encontros mensais, momento em que ele me entregava a bendita e esperada sacola de filmes.

Antes dessa época, como já lembrado, a peregrinação pelos cineclubes, às vezes próximos, às vezes bastante distantes, era a regra, do Cineclube João XXIII, do abnegado Padre Bruno Trombetta, no Leblon, ao Barravento, na Tijuca; da Aliança Francesa do Méier a algumas projeções específicas no cinema da UFF, em Niterói, tudo centrado, no entanto, o que é óbvio, na Cinemateca do MAM, que sobrevivera incólume ao deplorável incêndio de 1978. 

Dessa fase heroica sempre me recordo de alguns momentos de autêntico êxtase estético — e a palavra é êxtase mesmo —, como, para citar muito aleatoriamente alguns que foram dos mais marcantes, e em ordem aproximativamente cronológica: Deus e o Diabo na Terra do Sol, no Cineclube Macunaíma, da ABI; Ivan, o Terrível II (antes de ver a primeira parte, e sem as duas sequências a cores), no Cineclube João XXIII:  tinha 15 anos, e me lembro de haver afirmado, em seguida, que vira o maior filme do mundo;  O encouraçado Potiônkim, após anos de censura, no Cinema 2, em Copacabana; Limite, na Sala Funarte; a Mãe, de Pudóvkin, no Cineclube Barravento; Vampyr, de Dreyer, no MAM; Napoleão, de Abel Gance, num bar e centro cultural em Botafogo; O Velho e o Novo (ou A linha geral), em VHS do Poytheama; O tesouro do Senhor Arno, de Stilller, em casa, em DVD gravado por mim próprio, após ter baixado pelo eMule uma magnífica cópia restaurada pela Cinemateca Sueca.

O caso de O Velho e o Novo, num VHS do Polytheama, como já afirmei, com uma esplêndida banda sonora composta de música barroca — Vivaldi especialmente — criando uma simbiose com as imagens do filme como nunca encontrei igual, é dos mais curiosos. Tratava-se do único filme de Eisenstein — paixão máxima, como deve ser perceptível — que eu nunca vira. Certa noite um amigo me telefonou para dizer-me que havia encontrado uma cópia do próprio na locadora. Com os direitos do fanático e com um autoritarismo de golpe de Estado, peguei um táxi e fui imediatamente até a sua casa, em Copacabana, onde “confisquei” a cópia, que só lhe devolvi após a experiência de assistir a essa que é a mais lírica entre as obras-primas de Eisenstein, visto que — caso único na história do cinema — ele só realizou obras-primas. Pouco depois, obviamente, Julio Cesar me repassava a cópia do filme em VHS, na fornada do mês. 

Caso à parte eram as sessões organizadas por Julio Cesar de Miranda em sua residência na Tijuca, privilegiado encontro de amigos, sempre seguido pela conversa sobre o filme, entre alguns comes e bebes. Seu gosto era tão aberto como a sua coleção, seguramente mais aberto do o meu, apesar de não o julgar nada fechado, mas no qual me parecem sobreviver, talvez, alguns traços pósteros à la Chaplin Club… Outro caso à parte, mas aí de feição pública e da maior importância para a cultura cinematográfica carioca, foram os numerosos ciclos e mostras em cuja organização ele participou, em instituições como o CCBB, o SESC, ou o Centro Cultural dos Correios. Neste último fiz parte, por convite seu, da mesa de abertura da mostra “Cartas de amor no cinema”, a 2 de junho de 2005, quando foi exibido o raro filme Dois seres, do inigualável Carl Dreyer, esse outro monstro que conseguiu a façanha de realizar, em quatro décadas seguidas, quatro dos momentos mais altos de história do cinema: A Paixão de Joana d’Arc, em 1929; Vampyr, em 1932; Dies Irae, em 1943, e Ordet, em 1955. 

Todos esses títulos, todas essas sombras ilustres dos grandes cineastas, de Méliès, Griffith e Sjöström até Godard, até Artavazd Peleshian, até a atualidade, todas essas mostras e ciclos, e todos os incontáveis rostos e vozes das pessoas, às vezes muito próximas, algumas delas igualmente perdidas, que de tudo isso participaram, aparecem-me agora como uma imensa fusão sobre o tão querido semblante de Julio Cesar de Miranda, — uma daquelas fusões de incontáveis imagens, nas quais Gance era o mestre dos mestres —, com seu inolvidável sorriso, o sábio sorriso do esteta e do humanista que ele foi.

Texto reproduzido do site: mam rio/cinemateca/o-cinefilo-perfeito

sábado, 4 de julho de 2026

Perdemos Zezé Lippi


Artigo compartilhado do site CINE MOCOCA, de 31 de janeiro de 2020

Perdemos Zezé Lippi

No dia 30 de setembro de 2011, Mococa ficou mais triste, o cinema ficou mais triste, perdemos uma pessoa muito especial, a história do Cine Mococa passa especialmente pelas suas mãos. Conhecido como Zezé Lippi, aquele senhor simpático que todos os dias ali estavam, ora na portaria, ora na sala de projeção, ora sorrindo e brincando com amigos ou cochilando na cadeira esperando o término do filme.

Falava de sua amizade com Mazzaropi. Lippi era assim, de tanto trabalhar com a sétima arte, fundiu-se com ela, era visível em sua alma identificar a comédia italiana, o romantismo em filmes como “Perfume de Mulher” a qual lembrara sempre, e com bom humor dançava como AlPacino, imitando até a cegueira do personagem. Chorava toda vez que lembrava do filme “Cinema Paradiso”, e dizia ser o filme de sua vida, o filme parece ter sido feito especialmente para ele, tamanha identificação com Alfredo, o personagem do filme, interpretado por Phillipe Noiret

Cuidava com muito carinho do projetor, até mais do que o necessário, engraxava peça por peça, e quando aparecia um barulhinho não sossegava enquanto não resolvia, como um médico que cuida de seus pacientes, assim ele fazia com o maquinário de exibição. O Cinema perde muito com sua partida.

Lippi não era ator ou diretor como eles, Lippi era muito mais que isto, era aquele que com carinho se dedicou, quase a vida toda a arte das emoções, a exibição, pois sem ela, eles não existiriam. Era responsável pelas gargalhadas, lágrimas, raiva, motivação, coisas que só a sétima arte sabe fazer. Lippi era do cinema, assim como o cinema era dele, sem ele fica um vazio, um longo silêncio. Muitas vezes seus olhos azuis ficavam fixos olhando para a tela. A Arte imita a vida, o amigo Lippi parece ser a imitação perfeita da sétima arte. Um homem que se dedicou ao cinema, mas que amava sua família, isto ele sempre dizia, e o fruto deste amor, foi o alicerce desta grande família, formada por ótimas pessoas.

Texto e imagem  reproduzidos do site: cinemococa com br

sexta-feira, 3 de julho de 2026

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Morreu o Herbert Holetz, o sujeito mais apaixonado por cinema que conheci.


Artigo compartilhado do Blog de Carlos Tonet, de 20 de setembro de 2013

Herbert Holetz e as Taras de Helena

Morreu o Herbert Holetz, o sujeito mais apaixonado por cinema que conheci.

Aliás, vamos dizer que seja um dos dois: também conheci e conversei com o Walter Mogk, que criou o Cine Mogk e fez ele mesmo, prensando, uma a uma, uma a cada dia, todas as cadeiras do cine que criou.

Conheci o Herbert ainda quando era repórter policial do Santa, há uns 30 anos. Ele era gerente do Cine Bush.

Holetz era um sujeito sério, como todo bom alemão da época, mas eu fazia piadas com ele sobre as pornochanchadas que o Cine Bush passava nos horários tardios. “Ô Holetz, fui levar minha mãe no cinema à meia noite de sábado e estava passando As Freiras Devassas. Isso é uma afronta à moral e aos bons costumes”.

Holetz sempre vinha me cumprimentar e eu aproveitava para brincar com ele: “Holetz, a gente podia produzir um filme eu e tu. Coisa de altíssimo nível, melhor que os filmes do Ingmar Bergman. Vai se chamar As taras de Helena”.

Acabamos ficando amigos.

Alguns jornalistas da época pediam cortesia para o cinema, ou furavam a fila e entravam com a carteira de imprensa.

Ressalte-se de que isso era como fumar, era algo aceito, visto com naturalidade. Era uma espécie de direito adquirido da imprensa.

Mas eu era burro, meio turrão. Me recusava a fazer isso. Ficava na fila e pagava como todo mundo.

Holetz me dava ingressos de vez em quando. Nunca pedi e acabava passando-os a alguém.

Quando ia ao Cine Bush, eu ficava na fila.

Uma ou duas vezes o próprio Holetz veio me pegar pelo braço no meio da fila: “Já falei que tu não precisa pagar”.

Bem, aí eu entrava, mas a culpa era dele…

Grande Holetz, um sujeito pacato, com grande conhecimento de cinema, mas sem ser esnobe nem chato.

Se eu o reencontrar um dia, o Holetz que se prepare: ainda não desisti de filmar com ele “As Taras de Helena”.

Texto reproduzido do blog: carlostonet wordpress com