quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Projecionistas estão desaparecendo na era do cinema digital

O projecionista Jesse LoCascio inspeciona uma impressão fotoquímica no 
Jacob Burns Film Center em Westchester, Nova Iorque. (Fonte: Yahoo Finance)

A licença de operador cinematográfico de Lou Rivierzo.
Fonte: Cortesia de Joe Rivierzo

Publicado originalmente no site Yahoo Finanças, em 13 de setembro de 2019

Projecionistas estão desaparecendo na era do cinema digital

“Meu pai costumava dizer que nós poderíamos cumprir pena por uma ofensa criminal, porque a sala de projeção era parecida com uma cela prisional”, disse ao Yahoo Finance Joe Rivierzo, da terceira geração de projecionistas da sua família.

Rivierzo passou o início da sua carreira projetando filmes nas telas do cinema. Ele e seus colegas projecionistas tinham o trabalho de assegurar que o filme corresse suavemente na sala minúscula localizada atrás das fileiras de assentos vermelhos cheios de espectadores comendo pipoca.

“Se tudo corresse bem, você não precisava descer para nada”, acrescentou ele.

O trabalho é tão discreto que, uma vez, Rivierzo foi esquecido dentro da cabine de projeção quando o cinema inteiro foi evacuado devido a uma ameaça de bomba.

“Você precisava ter um certo perfil”, diz Rivierzo, referindo-se à natureza solitária da profissão. “Nós éramos os últimos a tocar no filme depois de todo aquele talento ter sido reunido. O pessoal da luz, do som, atores, roteiristas... para que eu pudesse arruinar um blockbuster ou um clássico”.

Joe Rivierzo, do Sindicato de Projecionistas Local 306 em Nova Iorque.
Fonte: Yahoo Finance

“Meu avô operava o projetor o dia inteiro”

Rivierzo – que aprendeu o trabalho com seu pai, Lou, que também aprendeu com seu pai, Dominick – viu o cinema crescer diante de seus olhos cobertos pelas lentes de seus óculos. Imigrante italiano, o avô de Rivierzo operava um projetor – acompanhado por um piano, porque os filmes com som ainda não existiam – em um cinema de Vaudeville, em Nova Iorque.

“Os pianistas mudavam duas vezes por dia, mas meu avô operava o projetor o dia inteiro. Embora fossem engrenagens em sincronia, ele era mais lento do que o pianista. Então, meu pai trazia o jantar do meu avô e à noite, após a escola, e ajudava a ajustar o ritmo”, conta.

Rivierzo conhece bem a história da profissão de operador do projetor de cinema, e vivenciou esta forma de arte conforme a sua carreira se desenvolveu. Agora, depois de mais de três décadas, ele testemunha a queda do projetor e do projecionista com a chegada das mídias digitais.

“A transição para o digital: foi aí que a minha carreira na cabine de projeção praticamente chegou ao seu fim, depois de 37 anos”, diz. “Alguém está naquela cabine agora. São rapazes mais novos trabalhando em computadores e programando a exibição de uma semana inteira de filmes”.

Richard Peña — Professor de Estudos Cinematográficos da Universidade de Columbia.
 Fonte: Yahoo Finance

Os especialistas não estão surpresos com o que está acontecendo.

“As formas e os estilos de arte vêm e vão”, disse ao Yahoo Finance Richard Peña, professor de estudos cinematográficos da Universidade de Columbia. Peña também atuou como diretor do Festival de Cinema de Nova Iorque de 1988 a 2012, e viu a revolução digital chegar ao cinema em primeira mão.

“Às vezes eu uso o exemplo do blues. Morei em Chicago por oito anos e sempre fui fã de blues, e me tornei ainda mais fã enquanto estava lá. O que eu quero dizer é: alguém realmente acha que o blues ainda é uma arte viva?”

E acrescentou: “Todas as forças da história estão seguindo na direção digital, e eu não acho que elas vão voltar atrás”.

“Ele era muito rápido”

Lou Rivierzo trabalhando como projecionista.
Fonte: Cortesia de Joe Rivierzo

Texto e imagens reproduzidos do site: br.financas.yahoo.com

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A memória do cinema nos periódicos antigos


Publicado originalmente no site OUTROLADO, em 18 de outubro de 2019 

A memória do cinema nos periódicos antigos

Por Paulo Roberto Elias

 Vale a pena visitar no site da Biblioteca Nacional os periódicos antigos sobre cinema. Destaque para a revista Cine Repórter, com informações históricas dos fornecedores de material para salas de exibição e cabines.

É profundamente lamentável, mas um número enorme de dados sobre os antigos cinemas está há décadas difíceis de achar, até mesmo em livros sobre o assunto. Uma das mais significativas decepções que eu tive foi quando eu comecei a pesquisar sobre as cabines dos cinemas.

Um grande exibidor carioca, como, por exemplo, Severiano Ribeiro, não guardou um inventário de projetores, segundo eu fui informado quando estive em visita à sede da empresa. Depois, conversando com dois de seus ex-funcionários, eu percebi que a situação era pior do que eu pensava. Isso sem falar que o acesso ao próprio sindicato dos operadores se mostrou infrutífero.

Sem acesso a uma biblioteca especializada em algum assunto é impossível fazer pesquisa bibliográfica. E foi assim que eu quase não consegui fazer trabalho satisfatório nesta área. Por sorte, eu conheci o Ivo Raposo, que corajosamente edificou uma réplica do Metro-Tijuca e até hoje eu o considero uma das pessoas com o melhor volume de conhecimento sobre cabines em geral e sobre as instalações dos cinemas daqui do bairro.

E em um dado momento eu tive o privilégio de conhecer e fazer amizade com Orion Jardim de Faria, um dos mais importantes realizadores da área de cinema no Brasil. Orion sabia tudo de cinema, de produção à exibição. E foi com essas pessoas, junto com o Milton Leal, ex-presidente do sindicato dos operadores, que eu aprendi o que sei até hoje sobre o assunto.

Em anos recentes, o meu leitor João Carlos Reis Pinto me faz um contato via in70MM, e me manda uma generosa contribuição, que ele havia achado: o acervo digitalizado do jornal Última Hora. Através dele eu fiz uma penosa pesquisa, coletando anúncios e datas de filmes projetados em 70 mm no Rio de Janeiro, e no final publiquei esses meus resultados. De certa forma, eu fiquei aliviado nesta pesquisa, porque os meus tempos de 70 mm já se vão muito longe, em grande parte dele eu estava afundado nos estudos e depois na família e no trabalho, ficando assim a memória de qualquer um mais do que falha nos detalhes e datas. O parque de exibição de filmes em 70 mm no Brasil foi enorme, particularmente no eixo Rio – São Paulo.

A digitalização do periódico Cine Repórter

Embora existam indícios de que estariam digitalizadas várias publicações sobre cinema, o fato é que muito pouco deste acervo pode ser achado.

A Biblioteca Nacional Digital (clique em Hemeroteca Digital) possui um acervo considerável do periódico Cine Repórter, abrangendo os números entre 1946 até o início de 1962 (deste ponto até 1966 com poucos números digitalizados).

O leitor pode ter uma ideia da estrutura da revista, que era dedicada principalmente ao mercado exibidor, lendo um número publicado em 1958. O número mostra, por exemplo, que o fabricante de poltronas da marca Kastrup foi o fornecedor de todos os cinemas da cadeia Metro, 3 no Rio e 1 em São Paulo. Algumas dessas poltronas foram salvaguardadas em Conservatória, pelo Ivo Raposo.

A Hemeroteca da Biblioteca Nacional também mostra os números da revista Cinearte, entre 1926 e 1942, mas estes são mais dirigidos aos fãs de cinema do que para a montagem das cabines e salas de exibição. A propósito, entre os anúncios da Cinearte eu achei um sobre o Leite de Colônia, produto de limpeza de pele que é vendido até hoje. A fábrica ficava aqui perto, na Rua Félix da Cunha, Tijuca, e pertencia à família Studart. Na minha época de menino, ao passar por lá, sentia-se o cheiro forte do produto se espalhar pela rua toda. A fábrica ficou longo tempo fechada, e depois cedeu lugar a um edifício qualquer.

Foi muito mais em Cine Repórter que os artigos e anúncios mostravam o movimento nas salas exibidoras.

Na década de 1950 as primeiras aparelhagens com leitor magnético de 4 pistas começaram a ser instaladas nos cinemas, para exibir filmes em CinemaScope com este tipo de trilha. Foi nesta época que a marca americana Simplex teve nos modelos X-L o seu grande momento no mercado exibidor carioca, particularmente nas instalações do grupo Severiano Ribeiro.

O Simplex X-L continuou sendo a base dos projetores montados pela Strong, com o nome de PR-1014 (ou Simplex 35), largamente usado nas salas tipo cineplex stadium.

Os projetores Simplex originais foram usados nas instalações dos cinemas da cadeia Metro, com cabeças magnéticas Westrex R10. Dois desses projetores estão devidamente preservados na réplica do Metro-Tijuca, em Conservatória. Segundo especialistas, o Simplex era um projetor “feito para durar”. E foi mesmo!


Na revista Cine Repórter aparecem também anúncios de diversos fabricantes brasileiros, entre eles os projetores Triumpho, empresa criada por Rocco Canteruccio, associado a Cosmo Lamanna, em São Paulo:
  

Pode-se ver também o anúncio dos projetores Incol, bem antes do modelo 70/35, usado para Super Cinerama e 70 mm plano:
  

Triumpho e Incol competiram durante anos pela instalação em cabines de cinema, com capacidade de enfrentamento das melhoras marcas norte-americanas, como Simplex, Century, ou dos projetores ingleses Gaumont-Kalee.

Recomendada para estudiosos e fãs de cinema

Se não fosse pelas pessoas acima mencionadas neste artigo, eu estaria a ver navios, literalmente, sem ter noção da herança cinematográfica que foi deixada para trás. A ausência constrangedora de um museu de cinema foi decisiva neste processo.

A iniciativa de Conservatória fez o Ivo Raposo se preocupar em mostrar aos visitantes uma série de projetores, dois dos quais da marca Prevost para 35 e 70 mm, os quais eu tive a chance de ver funcionando, quando estavam instalados em uma das cabines do Ivo.
  

Em duas ocasiões distintas eu vi projetores em exposição, um deles na entrada lateral do supermercado Extra e outros dois no UCI da Barra da Tijuca, que eu pretendo mostrar em artigo próximo. O do Extra eu não cheguei a me aproximar para ver que projetor era aquele e/ou porque ele foi colocado ali.

Só isso não basta, no que me concerne a ideia de exibição de projetores deveria estar inserida no contexto de um museu com esta finalidade.

Enquanto isso, eu recomendaria a todos os interessados em pesquisa de cinema a vasculhar a hemeroteca do site da Biblioteca Nacional. É bom lembrar que acervos similares são pagos e de difícil acesso a quem precisa. Portanto, aproveitem.  Outrolado_

Texto e imagens reproduzidos do site: outrolado.com.br

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Projetores DLP® Cinema® - som Christie Vive Audio™ no Centerplex Aracaju


Publicado originalmente no site [christiedigital], em 6 de setembro de 2017

A Centerplex no Brasil escolhe projetores de cinema Christie e Christie Vive Audio

SãoPaulo, Brasil - (06 de setembro de 2017) - Christie®, líder na criação e entrega das melhores experiências visuais e de áudio do mundo, tem o prazer de anunciar que seus projetores DLP® Cinema® e sistemas de som de cinema Christie Vive Audio™ foram escolhidos para equipar o novo multiplex Centerplex Aracaju Parque Shopping, localizado no Estado de Sergipe, no nordeste do país.

O multiplex terá sete telas, das quais cinco serão equipadas com projetores Christie CP2215, uma com o Christie CP4220 e a maior com um Christie CP4230. Além disso, todas as salas contarão com o sistema de som de cinema Christie Vive Audio™, utilizando a eficiente tecnologia de driver de fita e um design exclusivo de matriz em curva em um único gabinete compacto para fornecer cobertura excepcionalmente uniforme em todos os auditórios. A maior tela também estará equipada com Dolby Atmos®, uma tecnologia de som de última geração que coloca e move o som por toda a sala para verdadeiramente imergir o público nos efeitos de música e áudio.

O Centerplex Aracajú Parque Shopping também planeja implantar os flat panels de LCD da Christie para ajudar a elevar a experiência no lobby a um novo nível, oferecendo displays altamente atrativos e digitalmente dinâmicos para cativar o público enquanto estiverem na fila para comprar seus bilhetes e pipoca.

"Estamos fortemente empenhados em oferecer as melhores tecnologias de cinema do mercado para o nosso público desfrutar dos melhores visuais e áudio no nosso mais novo complexo de cinema em Aracajú", disse Marcio Lima, CEO da Centerplex. "A Christie fez seu próprio nome com base na qualidade de seus produtos e no serviço que oferece no Brasil, sem mencionar a tranquilidade que nos dá por trabalharmos com um fabricante com um histórico comprovado e uma história na indústria do cinema". Lima acrescentou que "à medida que expandimos para o mercado brasileiro, esperamos continuar nossa parceria produtiva com a Christie, que nos ajuda a oferecer aos nossos clientes a melhor qualidade para a experiência no cinema".

Voltando a atenção para o áudio, Lima explicou: "Christie Vive Audio™ é um sistema extraordinário que, com sua acústica incrível, uma excepcional correspondência de timbre e baixa distorção adequa-se perfeitamente às nossas necessidades e assegura que nossos convidados desfrutem de uma experiência cinematográfica espetacular".

Ricardo Laporta, Gerente de Vendas de Território de Cinema, Christie Brasil, disse: "Estamos orgulhosos de que o Centerplex escolheu nossos projetores de cinema e o nosso sistema de som Christie Vive Audio™ para ajudar o Aracajú Parque Shopping a ser o principal destino de entretenimento. A combinação dos projetores de cinema digital Christie e o som imersivo do Vive Audio™ significa que o Centerplex pode fornecer as imagens mais nítidas complementadas pelo desempenho de áudio superior da Vive ".

Com 35 anos de história, o Centerplex Cinemas tornou-se um dos maiores exibidores de cinema do Brasil. No momento atual, o Centerplex possui mais de 60 telas através dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Alagoas e Pernambuco.

Sobre a Christie

A Christie Digital Systems USA, Inc. é uma empresa global de tecnologias visuais e de áudio e é uma subsidiária de propriedade total da Ushio Inc., Japão, (JP: 6925). Consistentemente estabelecendo padrões por ser a primeira a comercializar alguns dos projetores mais avançados do mundo, sistemas de exibição completos, e soluções de áudio de cinema; a Christie é reconhecida como uma das mais inovadoras empresas de tecnologia visuais no mundo. Desde soluções de exibição de varejo até Hollywood, centros de comando de missão crítica para salas de aula e simuladores de treinamento, as soluções de exibição e projetores Christie capturam a atenção do público em todo o mundo com imagens dinâmicas e impressionantes, acompanhadas de um som incrível. 

Visite www.christiedigital.com para mais informações.

Texto e imagem reproduzidos do site: christiedigital.com

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O cinéfilo das Alagoas


Fotos reproduzidas do site: alagoas24horas



Texto publicado originalmente no blog do Majella, em 03 de maio de 2011

O cinéfilo das Alagoas
Por Geraldo de Majella

Elinaldo Soares Barros [1947], crítico de cinema, cinéfilo, jornalista e professor de educação artística, nasceu em Maceió, dois dias antes do natal de 1947, no dia 23 de dezembro, filho do casal José Soares Filho e Elita Soares Barros. Estudou no Colégio Estadual e na Universidade Federal de Alagoas, onde iniciou as suas atividades político-culturais, sendo eleito segundo secretário do Centro Acadêmico do Instituto de Letras e Artes (ILA), na gestão de Élcio Verçosa, no biênio 1968/69.
Licenciado em Letras pela Ufal em 1970, trabalhou como professor do Colégio Guido de Fontgalland e a partir de 1974 no Curso de Educação Artística do Centro de Estudos Superiores de Maceió (Cesmac).

A segunda metade da década de 1960 foi o período em que a ditadura militar recrudesceu e a censura às manifestações artísticas e políticas atingiu o seu ápice. Nesse momento difícil, um grupo de jovens cinéfilos organiza o Cinema de Artes em Maceió, tendo à frente Radjalma Cavalcanti, Gildo Marçal Brandão e Imanoel Caldas.

Todos esses jovens tinham em comum o gosto pelo cinema e pelas artes, alguns também pela política. Nem todos eram vinculados à política, mas ao movimento estudantil e suas vertentes.
Elinaldo, estudante de Letras e já cinéfilo, frequentava desde a infância os cinema de bairro, que existiam naquela época: o cine Lux, na Ponta Grossa, o Ideal, na Levada, e o Royal, no centro. Integrou essa turma de difusores da sétima arte em Maceió.

O jornalismo na década de 1960 em Alagoas ainda tinha um aspecto romântico e boêmio. Nem todas as seções do jornal eram profissionalizadas; o caderno de cultura era uma dessas áreas do jornalismo que necessitavam de colaboradores, e foi a partir da critica de cinema e até mesmo das crônicas esportivas que intelectuais e jovens universitários passaram a colaborar mais assiduamente.

Os primeiros trabalhos publicados de sua autoria foram crônicas esportivas no Diário de Alagoas. Com o fim desse jornal, passou a escrever criticas de cinema no Jornal de Alagoas, que na naquela época era o mais antigo jornal do Estado, órgão de comunicação impressa onde mais publicou, inclusive assinando uma coluna chamada “Cinema”.

Colaborou ainda em outros jornais diários e semanais como: Gazeta de Alagoas, Tribuna de Alagoas, O Jornal e O Diário. Escreveu em 1985, para o jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Voz da Unidade, o artigo “Uma Visão Histórica do Cinema de Alagoas”. Ainda escreveu nos jornais e revistas que foram surgindo e logo em seguida despareciam, em alguns casos sendo obrigados a fechar por força da pressão econômica. Foi o caso da revista Última Palavra. Versátil, também colaborou com o jornal semanal da arquidiocese de Maceió, O Semeador.

A longeva atividade de critico de cinema, toda ela exercida como colaborador nos jornais e nas televisões de Alagoas, o coloca na condição do mais influente intelectual nessa área. Formou várias gerações de professores, jornalistas e de espectadores.

Foi comentarista de cinema na Tv Gazeta, afiliada da Rede Globo. Atualmente é comentarista da Tv Pajuçara, afiliada da Rede Record em Alagoas. Em companhia do médico e acadêmico Ismar Gatto e de Maria Flora de Melo Soares, sua esposa, produziu um programa que marcou época no rádio alagoano: “Difusão Cultural”, veiculado pela Radio Educativa FM.

Na década de 1970 o Diretório Central dos Estudantes da Ufal organizou alguns Festivais Estudantis de Música Popular. Imediatamente foi convocado pelas lideranças estudantis para colaborar.

Na condição de funcionário da Secretaria de Cultura participou da organização de outros eventos importantes, como o Festival de Fotografia, o Salão de Humor, o Festival de Verão de Marechal Deodoro e vários Seminários de Literatura. Ainda foi diretor, por dois anos, do Museu da Imagem e do Som (Misa).

O maior e mais significativo momento do cinema alagoano ocorreu entre 1975 e 1982, período em que foi criado o Festival do Cinema Brasileiro de Penedo (AL), um evento de excepcional importância para os cineastas locais e também para a produção nacional, com sede na cidade barroca ribeirinha de Alagoas. Os festivais atraíram público, cineastas e produtores de várias partes do país e passou a ser uma das referências do cinema nacional. Em todos os festivais de cinema trabalhou na organização, pois na época era funcionário do Departamento de Assuntos Culturais (DAC) da Secretaria de Educação do Estado de Alagoas.

É crítico de cinema em Alagoas desde 1969. São 42 anos de atividades ininterruptas. Em 2010, foi relançado em segunda edição o livro Panorama do Cinema Alagoano, sob o patrocínio do Cesmac.

Obras de Elinaldo Barros: Panorama do Cinema Alagoano, apresentação de Jorge Barbosa, capa e montagem fotográfica de Esdras Gomes, Maceió, DAC/Senec/Sergasa, 1983; Cine Lux: Recordações de um Cinema de Bairro, Maceió, Edicult/Secult, 1987 (prêmio da AAL em 1988); Rogato: a Aventura do Sonho das Imagens em Alagoas, com uma Apresentação Quase Desnecessária, de José Maria Tenório Rocha, Maceió, Secult [1994]; O Povo Diante das Lentes, in Arte Popular de Alagoas, de Tânia Pedrosa, p. 105.

Texto reproduzido do blog: majellablog.blogspot.com

Elinaldo Barros é puro cinema


Publicado originalmente no site ALAGOAR, em 07  de agosto de 2010 

Elinaldo Barros é puro cinema

Por Larissa Lisboa*

Elinaldo Barros Soares é um alagoano que vive cinema. Nascido em dezembro de 1946, na Rua Santa Fé, no bairro da Ponta Grossa em Maceió, quando completava 51 anos do surgimento do cinema. Teve em sua vizinhança o Cine Lux e o Cine Ideal. Brincava com pedaços de película e com gibis para montar suas exibições e contar histórias dos filmes.

Ir ao cinema era uma programação em família, divertimento com os amigos, e ao gostar do filme ele não media esforços em assistir mais algumas vezes. Passava cotidianamente pela porta do Cine Lux, era só ver um cartaz com um artista conhecido ou com uma arte bonita que atendia ao chamado da sessão. Aos poucos, aumentou e aprimorou sua paixão, transformando-a em profissão e vida. Conseguiu ainda somá-la com outras paixões, escrever e ensinar.

Formou-se em Letras pela faculdade de Educação em 1970, mas, desde 1965, já colaborava no Diário de Alagoas escrevendo comentários esportivos. Não custou para trocar o futebol pelo cinema. Em 1967, começou a lecionar inglês e português, e foi convidado para escrever sobre cinema para o Jornal de Alagoas. Aprendeu a escrever sobre cinema e transpassar sua vivência de cinéfilo.

Por fim, colaborou com os principais jornais do Estado, com crônicas e resenhas sobre cinema. Assumiu a missão de professor de escola pública em 1971. Lecionou português no Colégio Guido de Fontgalland, de 1970 a 1998, e a disciplina Cinema no Centro de Ensino Superior de Maceió (Cesmac), de 1978 a 2009.

A partir 1977, tornou-se jurado do Festival de Cinema de Penedo, também participou de sua organização a partir de 1978 e realizava coberturas do Festival para jornais. Elinaldo é autor de três dos poucos registros sobre o cinema em Alagoas, Panorama do Cinema Alagoano (1983), Cine Lux – Recordações de um Cinema de Bairro (1987) e Rogato – A Aventura do Sonho das Imagens em Alagoas (1994). Teve atuações na Ematur, Secretaria de Cultura do Estado, Teatro Deodoro, Museu da imagem e Som e na Secretaria de Educação do Estado, onde colaborou com Ranilson França.

A partir de 1990 (na TV Gazeta) e até os dias de hoje (na TV Pajuçara) faz comentários sobre filmes em cartaz nos cinemas da cidade. Em 1995, consolidou a Sessão de Arte no Maceió Shopping (antigo Iguatemi), que está completando 15 anos de atividade neste ano. No dia 06 agosto, Elinaldo será homenageado com o lançamento da 2ª edição de Panorama do Cinema Alagoano no Centro Cultural Sesi, e com a exibição de um documentário sobre ele realizado por Pedro da Rocha, O catador de fotogramas.

Onde os nossos caminhos se cruzam

Em 2003, meu primeiro ano de jornalismo na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), fiquei surpresa ao descobrir no curso a disciplina de Fundamentos do Cinema. E ao saber que existia um escritor e pesquisador sobre Cinema Alagoano, vi a oportunidade de organizar uma palestra sobre com os professores Almir Guilhermino e Elinaldo Barros.

Tive a oportunidade de entrevistar Elinaldo algumas vezes para a elaboração de artigos e trabalhos da faculdade. E ao tomar conhecimento da existência de seus livros, busquei apreciá-los. Cine Lux é um registro das recordações de sua infância, adolescência e dos altos e baixos da história de um dos grandes cinemas de bairro de Maceió. Rogato é uma coletânea de registros pesquisados por Elinaldo para contar a trajetória do primeiro realizador de filmes em película em nosso estado, o italiano Guilherme Rogato.

Panorama do Cinema Alagoano é fruto da imersão de ter vivenciado as sete edições do Festival de Cinema de Penedo em que esteve presente, só não pode comparecer na primeira edição. Registra todos os filmes que concorreram no Festival, destaca as curiosidades de alguns filmes, de sua produção, dos realizadores. Panorama foi sua primeira publicação, com incentivo de José Maria Tenório Rocha que publicou a cartilha Subsídios à história da cinematografia em Alagoas (1974). Elinaldo criou um panorama do cinema alagoano desde o seu princípio em 1921 até o ano da publicação do livro, 1983.

E ao ler Panorama em 2005 fiquei extremamente curiosa para saber o que tinha acontecido com o cinema alagoano depois de 1983. Culminei por definir que o meu Trabalho de Conclusão de Curso seria uma maneira de atualizar e colaborar com o registro que Elinaldo havia iniciado. Em 2008, foi apresentado o Catálogo da Produção Audiovisual Alagoana, que ainda não foi publicado, mas que tem parte do seu conteúdo em www.audiovisualagoas.com.br.

Entrevistei Elinaldo, em 2008, para o documentário que fiz sobre Celso Brandão, e o que mais me impressionou foi a habilidade que ele teve diante da câmera, pois apenas indiquei o que gostaria de ouvi-lo falar e ele concisamente narrou a trajetória de Celso como cineasta. Em 2009, inspirada nas recordações de Elinaldo e com o depoimento dele e mais dois personagens, realizei o documentário, Contos de Película, uma sessão de cinema que marca o encontro de um projecionista, um crítico de cinema e um cinegrafista. Mais recentemente tive a honra de poder colaborar com a revisão da 2ª edição de Panorama do Cinema Alagoano. E será uma realização para todos que conhecem Elinaldo compartilhar desta homenagem.

As conversas com Elinaldo são sempre cinematográficas, e desejo que desperta é de ouvir mais. Estórias e histórias sobre episódios de suas lembranças, sobre os cinemas de bairro, os grandes clássicos de cinema, as produções alagoanas ou sobre muitos dos filmes que o marcaram. A cronologia da vida de Elinaldo é um longa encantador para os cinéfilos alagoanos.
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Sobre Larissa Lisboa - Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (2008), especialista em Tecnologias Web para negócios (ebusiness), pela Fejal - CESMAC (2010), atualmente é analista em audiovisual do SESC Alagoas. Tem experiência em produção de ações formativas, mostras e documentários, e em curadoria de filmes; na análise e gestão de conteúdo online; e na catalogação de vídeos, com ênfase na produção audiovisual alagoana. Idealizadora e coordenadora do Alagoar (site sobre o audiovisual alagoano) e Diário Refletido (comunidade fotográfica).

Texto e imagem reproduzidos do site: alagoar.com.br

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Monsieur Leloup e seus Cadernos de Cinema

O professor Gérard Leloup registra, em cadernos, 
todos os filmes a que assiste no cinema
Fotos Marcelo Soares 

Publicado originalmente no site da REVISTA CONTINENTE, em 01/01/2019

Monsieur Leloup e seus Cadernos de Cinema 

Do Quartier Latin ao Bairro de Casa Forte, professor de francês percorre há 70 anos salas de exibição e vive num mundo de filmes

Por Marcelo Abreu *

Quem frequenta cinemas no Recife já deve ter encontrado com ele. Poucos, no entanto, talvez imaginem que aquele senhor alto, de olhos claros e nariz proeminente, ombros um pouco curvados pelos anos, que senta nas últimas cadeiras, geralmente sozinho, caladão, seja uma enciclopédia de cinema, assíduo de salas de exibição desde os anos pós-Segunda Guerra Mundial, quando era adolescente e vivia em Paris. Gérard Leloup é um francês que mora no Recife, entre idas e vindas, desde 1966. Foi professor da Aliança Francesa e ainda hoje dá aulas particulares de francês.

No apartamento onde mora no Bairro de Casa Forte, zona norte do Recife, Leloup mantém uma mesa comprida na qual atende a seus alunos. Sobre a mesa, há folhas de papel, borrachas, lápis, canetas, tesoura, óculos. E alguns cadernos grandes sobre cujas páginas o professor cola o ingresso de cada filme visto recentemente. Como sabe que o tempo apaga as informações impressas nos ingressos, anota à mão, nas páginas dos cadernos, a data de exibição, o local e ficha técnica de cada filme. “Estou um pouco atrasado com as anotações”, explica o professor, mostrando ingressos recentes que precisam ser catalogados. Os cadernos vão se acumulando – páginas e mais páginas preenchidas com nomes de filmes, diretores, atores, produtores, roteiristas, montadores – e eles se tornam a memória em detalhes de um homem apaixonado pela sétima arte há, pelo menos, 70 anos.

Apesar de nunca ter sido um profissional do cinema, Gérard Leloup conhece a área como poucos. Nascido em Paris em 1935, não viu muitos filmes na infância devido à eclosão da Segunda Grande Guerra, quando tinha quatro anos, e a subsequente ocupação da cidade pelos alemães. Por precaução, foi mandado pelos pais para um vilarejo fora da capital, para ficar com a avó. Aos 10 anos, com a liberação de Paris, retornou à cidade grande e começou a frequentar, inicialmente, os cinemas do seu bairro, o Quartier de la Gare, no décimo-terceiro arrondissement, perto da Igreja de Notre Dame de la Gare.

“Todo sábado à noite, meus pais levavam toda a família para ver um filme”, relembra Leloup de uma prática comum, décadas atrás, em boa parte do mundo. Através de um primo mais velho, funcionário de um cinema no interior, conseguia ingressos para pré-estreias no imponente Colisée, na Avenida Champs-Élysées, em Paris. Numa dessas oportunidades, viu um dos filmes que mais lhe encantou na vida: Othello, de Orson Welles, lançado em 1951.

AUGE DA CINEFILIA

“Filmes que são considerados de arte, hoje, naquele tempo passavam normalmente. Obras de diretores como René Clair, Marcel Carné, Jean Delannoy”, lembra o professor, que estava em Paris também durante o surgimento da nouvelle vague. “Vi muitos filmes de Godard na época, como A chinesa. Lembro que o púbico não gostou muito, mas eu gostei.”

Acompanhava tudo pelas revistas especializadas como Positif e Cahier du Cinema. No Quartier Latin (até hoje um bairro boêmio de estudantes, livrarias e cinemas), Leloup percorria a Rue des Écoles – com seus três cinemas, entre eles o Grand Action, onde lembra ter se impressionado como “um ciclo de Claude Chabrol”. Na Rue Christine fica até hoje o Studio Christine 21 (antes Action), um de seus cinemas preferidos. “É o que mais frequentei, pela programação e pelo ambiente”. Também viu muitos filmes no Champo (na esquina da Rue des Écoles com Champolion), que festejou recentemente seus 80 anos de existência.

O professor vai relembrando com gosto as salas que marcaram sua vida. “Na Rue de Rennes também tem um bom que é o L’Arlequin.” Frequentava o Saint-André des Arts (na rua do mesmo nome). O Studio des Ursulines, um dos mais antigos da cidade, também estava entre os seus preferidos.

O professor Gérard Leloup na sala do Cinema do Museu (Fundaj)

NO RECIFE

Funcionário do Ministério da Educação de seu país, hoje aposentado, Gérard Leloup ensina língua francesa desde os 20 anos. Em 1966, foi emprestado ao Ministério das Relações Exteriores e cedido à Aliança Francesa, instituição responsável pelo ensino da língua no mundo todo. Acabou vindo parar na representação da Aliança no Recife. Aqui, casou-se com uma pernambucana e tiveram uma filha em 1974.

Dos primeiros anos no Recife, lembra bem os cinemas do centro, como Art-Palácio e o Trianon e também o Coliseu, em Casa Amarela, onde, para sua surpresa, viu o clássico soviético O encouraçado Potemkim (1925), de Serguei Eisenstein, exibido durante os anos do regime militar.

Nunca se interessou em fazer cinema propriamente, mas chegou a utilizar uma câmera no formato super-8 para fazer umas imagens caseiras. Tem como hobby a fotografia. Durante muitos anos usou uma câmera Rolleicord (até que lhe roubaram na Bahia) e depois uma Yashica japonesa, ambas máquinas de alta qualidade para filmes no formato 6 x 6, utilizadas então por grandes nomes da fotografia. Hoje, Leloup fotografa numa câmera digital simples, sobretudo durante o Carnaval, em Olinda, e manda as fotos para alunos e amigos no Brasil e na França.

Mas o que ocupa o seu tempo livre são as idas ao cinema. Atualmente, frequenta sobretudo o Cinema do Museu, da Fundaj, e o Cine Rosa e Silva, que exibem filmes mais ao seu estilo. Chegou a ir muito ao Plaza, em Casa Forte, mas afastou-se, devido à programação comercial cada vez mais voltada aos blockbusters para adolescentes. Dia desses, conta, foi reconhecido por uma funcionária da bilheteria, que lhe perguntou o motivo da sua ausência.

CENSURA NA ARGENTINA

Em 1974, Gérard Leloup foi transferido para a Aliança Francesa da cidade de Santa Fé, no norte da Argentina, onde morou seis anos e vivenciou o duro período da ditadura militar no país, implantada em 1976. Ele tornou-se o responsável pelo cineclube semanal que acontecia na Aliança da cidade, exibindo filmes em cópias de 16 milímetros, emprestados pelo serviço cultural da Embaixada da França.

Mesmo sendo sessões que reuniam poucos curiosos, as exibições tinham de ser aprovadas pelos censores militares. Certa vez, eles encrencaram com o filme La chienne (1931), de Jean Renoir, com Michel Simon, porque o título em espanhol – La perra (A cadela) – era considerado pesado. “Passamos de toda forma numa sessão secreta para petit comitê e ninguém entendeu o motivo da proibição”, relembra. Em Santa Fé nasceu seu filho, em 1976.

Em 1980, voltou ao Recife com a família e ficou mais 10 anos. Ensinou a centenas de alunos na Aliança, nas instalações da Rua Gervásio Pires e depois no Parque 13 de Maio. Com a crise econômica no Brasil em 1990, regressou à França por cinco anos. Aposentado desde 1995, voltou de vez ao Recife. Passou a se dedicar às aulas particulares. O cinema, é claro, também é um dos temas presentes nas aulas de conversação como os alunos.

JARDINS DE GROSELHA

Todos os anos, no entanto, o professor passa alguns meses no seu país de origem, entre maio e setembro, durante o verão no Hemisfério Norte. Fica na casa da família em Orsonville, vilarejo de 337 habitantes, localizado a 75 km ao sudoeste de Paris. Em torno da casa, mantém um jardim com flores e fruteiras que dão peras, morangos e groselhas. O vilarejo fica na região agrícola chamada La Beauce, onde há lavouras de trigo, beterraba e batata. Leloup divide o tempo entre a família, suas fruteiras e os cinemas de Paris.

Ele tem também uma relação muito próxima com Créteil, cidade da região metropolitana de Paris, onde morou quando jovem. Nos anos 1990, chegou a fazer parte do conselho de administração do Cinéma du Palais, um espaço do tipo que os franceses chamam de cinéma d’art et d’essai (especializado em filmes não comerciais). Ainda hoje é mantido como cinema de rua, com três salas. Atualmente, além do Palais, ele frequenta sobretudo o UCG Ciné Cité Les Halles, que mantém 16 salas dentro de um centro comercial da capital.

Acompanha tudo com as publicações semanais como L’officiel des Spetacles e o Pariscope, que servem de guias para a programação cultural. “O problema é que a quantidade de salas é fantástica, Paris é sem dúvida a cidade no mundo que tem mais cinemas”, diz, entre feliz e resignado.

PENSANDO NOS FILMES

Após a separação do segundo casamento, Leloup passou a morar só. A filha nascida no Recife vive na França e ele se encontra com ela e os dois netos nas temporadas de verão. O filho, nascido na Argentina, morou até recentemente em Caruaru. Ele tem televisão no seu apartamento no Bairro de Casa Forte, mas quase não liga o aparelho. Cinéfilo modelo, ele vai ao cinema sozinho. Excetuando os blockbusters de aventura, acompanha tudo, sem preconceitos. Vê com interesse a produção recente do Brasil e de Pernambuco. Mas seus filmes preferidos são mesmo os clássicos. Além de Othello, de Welles, cita como os preferidos Blow-up – Depois daquele beijo (1966), de Michelangelo Antonioni, e O boulevard do crime (1945), de Marcel Carné.

Quando encontra, nas salas de espera, amigos ou ex-alunos, troca algumas palavras, sempre cordial, formal e sorridente. Mas o foco é exclusivamente no filme. Incomoda-se com o crescente uso de celulares e com o hábito de se comer pipoca nos cinemas. Não vê isso na França, pelo menos nas salas que frequenta. “Eu deixo o celular em casa. Para que levaria? Franchement!. Na Franca seria un scandale.”

Instado a fazer uma comparação entre a plateia francesa e a brasileira, diz que tem outra coisa que lhe incomoda. É a pergunta que geralmente acontece após as sessões: “Você gostou do filme?”. “Aqui é uma pergunta comum e me irrita um pouco. Tenho de fazer esforço para dizer, ‘sim, gostei’. Você pode até gostar de um filme ruim e não gostar de um filme excelente. São coisas muito pessoais.”

Ele diz que aproveita os momentos depois das exibições para pensar. “Eu vou ao Cinema do Museu a pé, gosto de andar porque você pensa no que viu e, se o filme é forte, você está perturbado, é difícil dar uma opinião logo depois”. Depois das sessões, volta para casa caminhando, guarda-chuva na mão, refletindo sobre as próximas anotações nos seus cadernos de cinema. No Recife ou em Paris, os anos passam e Gérard Leloup mantém firme sua adesão à cinefilia à moda antiga. Se não estiver nas sessões do Museu, é porque está na França. Cuidando de suas groselhas e flanando pelos cinemas do Quartier Latin.

Marcelo Abreu é jornalista, escritor, autor de livros-reportagem como De Londres a Kathmandu e Viva o Grande Líder!

Texto e imagens reproduzidos do site da revistacontinente.com.br

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Cinema Futures, DocLisboa 2016, DocLisboa'16, Michael Palm



Publicado originalmente no site MAGAZIN HD, em 22 de Outubro de 2016

DocLisboa ‘16: Cinema Futures, em análise

 Por José Vieira Mendes

Cinema Futures, DocLisboa 2016, DocLisboa'16, Michael Palm

Numa altura em que a projecção em película praticamente não existe nas salas, ‘Cinema Futures’, o filme-ensaio do realizador austríaco Michael Palm lança novamente o debate sobre o analógico e os avanços da revolução digital.


Estreado em Venezia Classici 2016 e premiado nesta secção, Cinema Futures como o nome indica é um filme dedicado ao futuro do cinema. No entanto, não directamente em relação aos modos de ver ou olhar o cinema, mas antes aos modos de preservar as memórias do cinema, num contexto acelerado da revolução digital. Foi assim que para comemorar o seu 50º aniversário e discutir o que está por vir nos filmes, que o Film Museum austríaco entregou em 2014, ao escritor e cineasta Michael Palm, — célebre igualmente pelo seu excelente filme-ensaio Low Definition Control (2011) — a tarefa de realizar este Cinema Futures, um documentário filmado no mundo inteiro, de forma a tentarmos compreender sobre vários pontos de vista o futuro do cinema na era digital.


Em Cinema Futures, o realizador Michael Palm coloca em primeiro lugar algumas perguntas cruciais sobre o futuro do cinema. A revolução digital chegou tarde ao cinema e foi vista principalmente como um avanço tecnológico. Hoje em dia e numa época onde as fitas de celulóide analógicas estão a desaparecer, e dada a diversidade de formatos de imagem digital móveis, há muito mais coisas em jogo. Estão os arquivos de filmes do mundo condenados a desaparecer? Poderão realmente os ficheiros substituir as fitas de celulóide? Para onde irão todas as imagens armazenadas em discos rígidos quando estes se tornarem obsoletos daqui a uns anos? A película de celulóide e o analógico irão mesmo desaparecer? Estamos perante uma massiva perda colectiva da memória audiovisual? O cinema tal como o conhecemos vai morrer de uma forma tão comovente ou estaremos apenas a assistir a uma mudança?

Estas resposta são dadas por cineastas como Apichatpong Weerasethakul, Martin Scorsese, Christopher Nolan e por teóricos e filósofos como Nicole Brenez e Jacques Rancière, por arquivistas (Paul Klamer, da Biblioteca do Congresso do EUA), por restauradores (da Sony Pictures), historiadores do cinema (Tom Gunning e David Bordwell) e artistas (Tacita Dean), curadores de museus da imagem, que desta forma procuram orientar os espectadores numa viagem sobre as memórias do cinema, ao mesmo tempo sobre o futuro do cinema na era da imagens digitais em movimento. 


Devemos aceitar que um filme é transitório, não pode durar para sempre, é como um sonho. Como a nossa vida não é eterna, é uma das frases-chave de Cinema Futures, esta do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul. Cinema Futures explora sobretudo a mutação dos formatos dos filmes rodados em película para o digital, e das consequências que esta mudança pode ter ao nível artístico, de produção, distribuição e conservação.

Podemos profetizar a morte de filmes rodados em película, mas na verdade, aos media digital e analógicos — ou mesmo as nossas memórias pessoais, fotografias e videos de família, DVD e CD com os filmes e músicas que gostamos mais —, coloca-se agora a questão do armazenamento, reprodução e migração dos meios de comunicação. Para Palm, os filmes digitais são como simulacros do presente como em Blade Runner, de Ridley Scott, (1982), onde os replicants estavam destinados a viver por apenas quatro anos, que é mais ou menos a duração média de uma forma digital até ser substituída por outro processo mais avançado.


Os conservadores e arquivistas de filmes estão cientes disto, porque os arquivos filmícos são como museus, ou seja arquivos de memória capazes de recolher a história do cinema e da memória colectiva. Ainda segundo Palm os arquivos não afectam apenas a percepção do passado, mas determinam tambémm o potencial e as possibilidades do futuro.

Por outras palavras, Cinema Futures lida com o futuro da história do cinema, porque a história recolhida nos arquivos permite que façamos novas descobertas ao mesmo tempo que proporcionam novas oportunidades aos filmes anteriores. E é este aspecto da defesa de um arquivo utópico, que permite descobrir e trazer à luz algo que nunca tinha sido visto antes.


Cinema Futures é assim um documentário sobre o presente e o futuro do cinema e do cinema na era digital. É narrado em episódios individuais, aforismos cinematográficas, colocando cenários futuros, transmitindo medos culturais e esboçando ao mesmo tempo utopias promissoras, para as imagens em movimento. O filme tenta acompanhar a transição de um tempo e de uma história de fitas de celulóide fotoquímicas e analógicas, com cerca de 120 anos de idade, para esta idade imaterial e radicalmente evanescente e virtual de fluxos de dados da imagem digital.

O foco principal é um amor ao cinema, embora um amor desprovido de nostalgia. O que está em jogo é acima de tudo a técnica cultural específica e a experiência do filme analógico, a preservação do património audiovisual nos arquivos de cinema e televisão, o armazenamento, restauração e conservação de imagens em movimento em fitas de cinema e em magnéticos, e as promessas de salvação dessas imagens, feita através da pseudo-eternidade dos bits e bytes. No início logo substitui ‘um filme de…’ por ‘uma file de…’.

Cinema Futures é assim um filme que oscila entre as crenças tecnológicas do progresso e as visões apocalípticas do apagamento total de nossa memória audiovisual. Por um lado, há o conceito do digital como uma forma de superar o efémero — e por outras palavras, que pode assegurar o acesso democrático ao nosso património audiovisual. Por outro lado, há a visão do nosso presente como um futuro que remete para uma ‘idade escura’, na qual os filmes não serão mais preservados, porque se tornaram um objeto físico. E o cinema é uma infra-estrutura tecno-social, composta de dados obsoletos e digitais que se vão tornando ilegíveis.

O que será das imagens e das memórias do nosso tempo e de tempos passados, quando eles já não tiverem um análogo, que corresponde evidentemente a uma presença física? À luz das rápidas mutações e da maneira como os filmes são produzidos em geral ninguém pode prever com precisão o que o futuro nos reservará e o que poderá acontecer. Cineastas, arquivos de filmes e arquivos de televisão estão agora a enfrentar este debate urgente. As coleções de arquivos começaram só agora a ser digitalizadas e armazenadas em grandes servidores. Quanto tempo estes dados permanecerão legíveis e acessíveis nesta Arca de Noé digital? O que vamos ganhar e perder com isso? Estas questões vão continuar!

O MELHOR: o extraordinário significado desta verdadeira viagem ao mundo das imagens em movimente, procurando incessantemente responder a questões tão complexas;

O PIOR: a viagem às vezes é um pouco monótona, um bocadinho talking heads, e afasta-se definitivamente nos modos de ver para se centrar unicamente na questão do armazenamento.

Título Original: Cinema Futures
Realizador:  Michael Palm
Documentário | 2016 | 126 min


 Texto e imagens reproduzidos do site: magazine-hd.com

Relíquias do emblemático Cine Mariani de Monte Gordo, em Portugal

 Um projetor de arco, dos anos 50, a carvão, para películas de 35 milímetros,
 e que ainda funciona, cartazes que […]








Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

Publicado originalmente no site SULINFORMAÇÃO, em 28 de Outubro de 2017

À descoberta das relíquias do emblemático Cine Mariani de Monte Gordo

Por Pedro Lemos

Um projetor de arco, dos anos 50, a carvão, para películas de 35 milímetros, e que ainda funciona, cartazes que anunciam filmes de outros tempos, como “O Último Couplet”, “Carmen” ou “Sozinho em Casa”, e bobines a embelezar todo o espaço. O emblemático Cine Mariani, em Monte Gordo, fechou em 2008, após décadas de história, mas a exposição que está patente no antigo espaço faz recuar no tempo.

Numa viagem pelo mundo da sétima arte, também se encontra outras relíquias, como um amplificador antigo, fotos dos artistas que se punham nos cartazes e até um microfone que possivelmente foi utilizado quando os filmes tinham de ser narrados.

Ainda assim, houve objetos que tiveram de continuar guardados, como um amplificador antigo, dos anos 40 ou 50, devido ao seu peso e dificuldade no transporte.

Todos estes objetos acabam por ser memórias e, para as recordar, nada melhor do que Iuri Mariani Maló, neto de Evaristo Mariani, o célebre proprietário do Cine Mariani, que tinha origem italiana, apesar de ter nascido em Portugal.

«Todo este material teve muito uso», começa por explicar, em conversa com o Sul Informação. Foi no âmbito da Mostra Internacional de Cinema “FRONTEiRAS” que surgiu a ideia «de ir ao baú» buscar alguns destes objetos e expô-los.

Uns estavam guardados ali, no espaço do antigo Cine Mariani, que é hoje a Casa da Cultura de Monte Gordo, da qual Iuri é um dos responsáveis, outros na casa da viúva de Evaristo Mariani, «que fez uma pesquisa ao longo de semanas», explica.

E mesmo depois do fim do festival “FRONTEiRAs”, que terá lugar esta noite, dia 28 de Outubro, alguns dos objetos continuarão expostos, como a câmara de projeção e parte dos cartazes. Para hoje, sábado, no âmbito do festival, está agendada a exibição de três filmes: às 18h00, “The Jigsaw”, uma curta metragem de oito minutos, e “Le Havre”, do realizador finlandês Aki Kaurismaki. Já às 21h00 estará, na tela do Cine Mariani, o clássico “Seven Chances”, de Buster Keaton.

Mas embarquemos na história do emblemático Cine Mariani. Da década de 50 do século XX até 2008, aquele foi, muitas vezes, ponto de paragem obrigatório para os turistas que enchiam Monte Gordo, de Maio a Setembro. Muitos deles eram espanhóis, o que explica que, entre o espólio do cinema agora exposto, se veja muitos cartazes e fotos de filmes castelhanos, com as grandes estrelas da época, como Sara Montiel.

O espaço foi, até 1999, totalmente diferente do que é hoje. Naquilo que é agora a sala de cinema, à direita de quem entra, estava o projetor que exibia os filmes numa tela branca… que era a parede. «Às vezes, a meio de uma cena, via-se passar uma osga», recorda Iuri, entre risos.

E mais: na altura, o Cine Mariani apenas tinha uma parte da sala coberta, enquanto a restante, mais próxima da tela, era ao ar livre.

Certo é que, todas as noites, de Maio a Setembro, havia duas sessões. Por ali passaram filmes com o clássico “Casablanca” ou êxitos mais recentes como “Die Hard” ou “Sozinho em Casa”. «Havia pessoas que já tinham visto os filmes, mas que os reviam aqui», recorda Iuri.

Nos anos 90, deu-se uma «quebra do negócio», devido à dificuldade de um cinema mais pequeno lutar contra os grandes. Assim surgiu a possibilidade de «destruir o antigo cinema e fazer este novo espaço», algo que Evaristo Mariani acabou por aceitar.

Só que o Cine Mariani nunca mais seria o mesmo… «Quando foi reativado, em 2004, já foi apanhar um período ingrato para estes cinemas mais pequenos. Foi um fim inglório: estar a combater com os centros comerciais… As condições de aluguer de filme já tinham encargos diferentes. O meu avô não podia ter aqui uma estreia – os filmes tinham de passar numa casa grande primeiro», diz Iuri, amargurado.

Desses momentos mais complicados, há uma história que o neto de Evaristo Mariani costuma contar. «Numa noite de 2006 ou 2007, estava agendada a exibição de um filme para às 21h30. À tarde passou cá um senhor, perto das 18h00, e comprou dois bilhetes que foram os únicos vendidos para essa noite. Quando chegou perto da hora do filme, após o meu avô já ter esperado para ver se chegava mais alguém, foi ao pé dele e disse-lhe que não ia conseguir dar a sessão, porque nem compensava arrancar com as máquinas todas».

O que é que este espectador resolveu fazer? Perguntou a Evaristo qual era o mínimo de bilhetes vendidos que precisava para arrancar com a sessão.

O proprietário do Cine Mariani respondeu-lhe: 10. «Então o senhor, que até era proprietário de um restaurante aqui em Monte Gordo, disse ao meu avó que lhe comprava mais oito bilhetes! », conta Iuri. E assim arrancou a sessão, apenas com dois espectadores, apesar dos 10 bilhetes vendidos…

Enquanto vai percorrendo a exposição, Iuri Mariani Maló diz que «algumas pessoas ainda se lembram» de objetos que estão expostos, como fotografias de filmes dos anos 80 e 90. «Isto faz parte da nossa história, da minha família. Isso toca-me de maneira particular», atira.

Desses tempos idos, de maior sucesso do que quando se venderam 10 bilhetes para duas pessoas, Iuri ainda guarda recordações. Tanto aquele local, como todo espaço têm muita história. «Naquela altura, morávamos aqui perto da Igreja. As pessoas, durante a tarde, iam bater à porta de casa da minha avó para reservarem logo os bilhetes para a noite! Havia duas sessões sempre cheias», recorda.

E toda a família ajudava para o sucesso do Cine Mariani. «Lembro-me de ser miúdo e todos tínhamos funções no cinema. O meu avô estava na projeção, a minha avó na bilheteira, a minha mãe à porta, eu e um primo levávamos as pessoas aos lugares», diz Iuri.

Por agora, ainda não há novas exibições regulares ali no antigo Cine Mariani. Tal deve-se, sobretudo, ao facto de o projeto da Casa da Cultura de Monte Gordo ainda estar numa fase embrionária. A ideia, porém, é já no próximo Verão começar a haver projeções.

Para Iuri, a exposição tem sido «muito importante para o espaço». «Esta é uma mostra de cinema para um público mais interessado, não tanto o comum espectador. Quem gosta realmente de cinema tem mais curiosidade em ver estes objetos antigos».

Por exemplo, para se perceber a diferença em relação às atuais projeções digitais, a máquina que está exposta no Cine Mariani utilizava carvões que garantiam a luz para que a máquina funcionasse. Ou seja, o carvão em combustão fazia com que houvesse luminosidade para a projeção do filme. Simples…mas muito perigoso.

Era com este tipo de relíquias que Evaristo Mariani, um verdadeiro apaixonado pelo que fazia, se habituou a trabalhar. Mesmo depois do fecho do espaço, todos os dias, às 8h00, ia para o seu cinema, nem que fosse para olear as máquinas e manter o espírito de um local ao qual se entregou de corpo e alma.

O proprietário do Cine Mariani acabaria por morrer em 2014, já com 88 anos de vida (a maior parte deles dedicados à sétima arte). Mas Iuri não tem dúvidas: «o meu avô ia ficar feliz ao ver esta exposição. Ele guardava tudo isto religiosamente. Tinha tudo um grande valor para ele».

Texto e imagens reproduzidos do site: sulinformacao.pt