quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Cinema à moda antiga

Archimedes Lombardi, mentor do Cineclube Ipiranga. (Foto: Nabor Jr. -- Flickr)

Cinema à moda antiga
Por Júlio Simões *

É noite e a porta de vidro que dá acesso à uma sacada está aberta, mostrando a luz de um trem que faz barulho no horizonte. Venta, e o vento levanta a cortina, lambendo os objetos situados em um criado-mudo ao lado da porta. O interior do quarto ao qual pertence a porta de vidro também sente sua presença leve, assim como o restante da mobília e um papel com os recados anotados pela mulher para o marido, que se ausentou sem dar explicação. O silêncio do vento só é interrompido pelo som da campainha da casa. A mulher, uma inválida que permanece a maior parte do dia sentada na cama, se assusta e coloca rapidamente um lenço na boca, como se tentasse conter o grito de horror. O desespero se justifica porque ela havia acabado de ouvir dois homens planejarem pelo telefone a execução de um crime para aquela noite, perto dali.

A campainha segue tocando. Uma, duas, três vezes. A casa está vazia, e o centro da sala de entrada, iluminado apenas pelos feixes de luz incidentes da área externa, indica isso. As enormes escadas em círculo, também mal iluminadas, formam um caracol que liga a sala de entrada aos quartos, onde está a única habitante da casa no momento.

Com a campainha tocando cada vez mais forte, ela decide deixar a cama e caminha com dificuldade (sua invalidez está nas pernas), se equilibrando na mobília até chegar à porta do quarto. “Quem é? Quem é? Espere um minuto, eu estou indo! Você pode me ouvir? Estou sozinha aqui!”, grita ela, enquanto caminha com dificuldades. “Quem é, pelo amor de Deus, quem é? Eu não posso ir até aí embaixo. Eu estou no último andar, e eu estou doente”, completa, aumentando a aflição na voz.

De repente, sem qualquer motivo aparente, a campainha cessa. A mulher diminui os gritos, mas segue falando sozinha, desta vez como se tivesse certeza de que algo está acontecendo. “Oh, espere um minuto, não vá embora. Preciso de ajuda. Por favor. Por favor, não vá. Não pode me ouvir? Não pode me ouvir?”, prossegue o apelo, sem sucesso.

Alguns segundos depois, o silêncio volta a dominar completamente o ambiente. Pelo menos até o primeiro toque do telefone, que faz a mulher voltar às atenções novamente para dentro do quarto. O rosto permanece assustado, o som da música de suspense sobe. Até que...

Em um movimento brusco, porém silencioso, o velho pula de uma das poltronas azuis e, ainda no escuro, alcança as cortinas pretas e a porta fechada. Ultrapassa o obstáculo num instante e logo aperta o passo até o pequeno cubículo de dois metros quadrados, cujo acesso é por uma meia-porta e uma escadinha tortuosa. Lá dentro, em segundos, sobe em um pequeno banco de madeira e puxa com força um rolo do tamanho de uma pizza, trocando-o por outro aparentemente idêntico.

Na platéia, a meia-dúzia de presentes permanece estática, em silêncio, como se estivesse em pause. A luz da sala segue apagada e apenas uma ou outra sombra é vista pela fresta da cortina e da porta entreaberta. A cena, do suspense “Uma Vida Por Um Fio”, de 1948, certamente prendeu a atenção dos espectadores. Pelo menos enquanto o primeiro rolo de 16 mm estava rodando no velho projetor Kodak Pageant 120M, “provavelmente de 1965”, como arrisca Archimedes, o responsável pela exibição naquela noite.

É ele, um senhor alto, com poucos e desarrumados cabelos brancos, nariz bastante rechonchudo, olhos pequenos e uma imponente barriga que estica as camisas sociais claras ao limite, quem cuida dos filmes exibidos ali. Bem-humorado, daqueles que perde o amigo, mas não desperdiça a piada, Archimedes Lombardi é o senhor do Cineclube Ipiranga, que há 17 anos resiste no bairro, grande parte deste tempo na Biblioteca Roberto Santos, onde até hoje funciona todo santo sábado.

A saga do colecionador, porém, começa muito antes do intervalo entre a primeira e segunda parte do filme. Ainda durante a tarde, Archimedes separa alguns rolos e duas caixas pretas com as alças já surradas em um canto de seu bagunçado escritório, localizado no coração do bairro do Ipiranga, em São Paulo. Às cinco e meia, recolhe todo este material e o coloca no porta-malas de um velho Fiat Uno Mille branco, que quase sempre precisa de uma ajuda para ligar. Porém, nada que o faça chegar com menos de uma hora de antecedência no compromisso marcado religiosamente para as 19 horas.

Archimedes quase sempre viaja sozinho, mas vez ou outra tem a companhia do discípulo Vinícius ou de algum convidado especial para a sessão. Na chegada à biblioteca, relembra em voz alta a rotina: “E lá vamos nós novamente. Já se vão 17 anos...”, resmunga, como se comentasse consigo mesmo, enquanto carrega com dificuldade os materiais para a exibição. Este jeito saudosista de comemorar a chegada ao destino, porém, não carrega qualquer sentimento ruim ou de obrigação, como pode parecer. Pelo contrário. O prazer de Archimedes é exibir seus filmes antigos para quem quiser ver.

Tanto que costuma pedir sugestões aos próprios espectadores antes de levar uma lista de possibilidades à Secretaria da Cultura, que fica responsável por programar os filmes do mês. Muito destes já fazem parte da própria coleção do cinéfilo, mas outros tantos são cedidos pelo discípulo Vinícius ou por outros colecionadores da rede de amigos, a “Associação Brasileira de Colecionadores de Filmes 16 mm” (ABCF), fundada em 1992.

A bitola, criada em 1923, foi bastante utilizada por amadores até o começo dos anos 1990, mas acabou perdendo espaço para o VHS, que era mais prático, popular e de fácil conservação. Hoje, em tempos de DVDs e Blu-rays, o 16 mm é um artigo raro fadado à extinção.

A própria coleção de Archimedes foi diminuindo ao longo dos anos. No auge, o cinéfilo chegou a ter aproximadamente 800 filmes empilhados em casa, 10 vezes mais do que a quantidade que acumula atualmente. Além da degradação de muitos rolos, que facilmente se deterioram devido à dificuldade de conservação e a baixa qualidade do material (a simples umidade do ar pode comprometer a integridade deles), a decisão de se desfazer de grande parte da coleção também teve um lado filosófico.

“Tem gente por aí que não empresta e nem exibe, gosta apenas de dizer que tem 500 filmes na coleção. Mas adianta alguma coisa ter um monte de rolo empilhado, sem qualquer utilidade?”, questiona Archimedes, antes de admitir outro “inimigo” de suas fitas. “E também minha mulher reclamava muito. Ela odeia cinema”, conta, sem esclarecer se a posição da esposa foi determinante ou não na decisão de se desfazer da coleção.

O fato é que boa parte de seus rolos acabaram sendo vendidos à Vinícius, colecionador mais jovem do que ele e, segundo o próprio Archimedes, com maior vontade e competência para preservar os filmes. “Ele é muito mais organizado do que eu. Além de conservar melhor os rolos, tem todos cadastrados no computador, tudo organizadinho”, explica o velho, revelando as práticas do amigo, que acredita ter aproximadamente 700 filmes, quase todos catalogados.

A amizade entre os dois e o conseqüente envolvimento do discípulo com as sessões de sábado começou quando Vinícius descobriu que era mais interessante colecionar rolos de 16 mm do que Super-8 ou VHS. “Eu nunca imaginei que existissem tantos filmes antigos e completos disponíveis. Em Super-8 eram apenas trechos curtos, um resumo do filme em 20 minutos. Um saco de assistir”, conta o jovem de apenas 34 anos, aproximadamente 10 dedicados a coleção.

Desde então, Vinícius começou a juntar filmes e mais filmes, até que um dia sua busca por novos títulos esbarrou em Archimedes. “Nós dois queríamos uma fita italiana que eu acabei comprando. Não me lembro qual era o nome dela, só sei que eu acabei emprestando para ele e depois troquei por duas preto e branco, já que aquela valia mais por ser colorida e legendada. No final, acabou voltando tudo para mim quando eu comprei quase todos os filmes que ele tinha”, sorri.

Apesar da afinidade, Vinícius Del Fiol é, em muitos aspectos, diferente de Archimedes. Franzino e baixo, sempre mantêm os cabelos negros minuciosamente arrumados e o tom de voz bastante calmo, características que denunciam seu jeito metódico e introspectivo. É do tipo de colecionador que prefere acumular títulos, daqueles que exibe apenas para dar “ritmo de jogo” ao filme, evitando que o rolo se deteriore rapidamente.

No entanto, quando está responsável pela sessão do dia, o cinéfilo se mostra bastante dedicado na função, mesmo que ela só renda R$ 100 por exibição, valor que pouco ajuda na compra de novos filmes e nos custos de manutenção das máquinas. Para se ter uma idéia, os rolos custam de R$ 100 a R$200, enquanto o conserto pode chegar até a R$ 400, preço de um novo projetor.

Ainda assim, Vinícius vê alguma vantagem em deixar sua casa em Santo Amaro para exibir filmes no Ipiranga. “Eu faço disso aqui o meu momento de lazer. Durante a semana é impossível tirar a máquina do guarda-roupa para projetar. Por isso é que eu digo que isso é uma obrigação que se torna lazer”, arremata Vinícius, que atua como professor universitário do curso de Publicidade na Faculdade Anhembi-Morumbi. “Embora agora tenha o lado financeiro, já que somos fomentados pela Secretaria da Cultura, isso aqui é apenas uma brincadeira. O meu trabalho de verdade é a faculdade”.

Por isso mesmo, Vinicius não vê o que faz todo sábado como um ato de resistência. “Vejo como uma brincadeira mesmo. É aquela coisa: a hora que enjoar e der na telha isso aqui acaba. Só acho que seria interessante tentar atrair outro público, mais jovem do que esse. Falta sermos mais conhecidos, embora seja complicado para qualquer programa cultural de São Paulo concorrer com a divulgação que acontece aí fora. É engraçado porque geralmente a pessoa vem e diz ‘puxa, que legal, não sabia que isso existia’”, divaga.

A necessidade de renovação levantada por Vinícius se justifica pelo fato de a maioria do público já ter mais de 60 anos de idade. O grupo cativo é formado por aposentados e moradores da região, embora haja exemplos de gente que atravessa a cidade apenas para assistir aos filmes antigos exibidos por Archimedes e Vinícius. É o caso de José Maria Passalaqua, que mesmo aos 71 anos ainda tem fôlego para deixar sua casa na região central e partir rumo ao Ipiranga todo sábado.

Disposto e falante, Zé Maria é daqueles que não mede esforços para assistir um filme. Freqüenta tanto o Centro Cultural São Paulo e a Cinemateca, localizados em regiões mais centrais, quanto cinemas distantes, como o do Shopping Metrô Itaquera, na Zona Leste. Em poucos minutos de conversa, é possível concluir que aquele senhor de aparência frágil, rosto fino, bochechas levemente flácidas e olhar caído é um cinéfilo compulsivo. Pelas suas próprias contas, assiste a mais de 10 filmes por semana, de todos os gêneros possíveis e nas mais variadas salas. Reluta em listar seus gêneros preferidos, mas admite que detesta documentários por serem “chatos demais”.

Outra figurinha carimbada do cineclube é Cândido Martinez. Embora tenha origem espanhola e seja natural do interior de São Paulo, o senhor de 77 anos e pouco mais de 1,60m de altura poderia facilmente ser confundido com um típico italiano, dada a baixa estatura, o bigode ralo, o forte sotaque paulistano e a presença constante de uma boina encobrindo seus fios completamente brancos.

Por ser morador do Ipiranga há muitos anos, Cândido também acompanhou o auge e decadência dos cinemas do bairro. Entre as décadas de 1950 e 1980, funcionaram na região salas importantes como Sammarone, Maracanã e Anchieta. O primeiro ficou aberto até 1969, enquanto o segundo esteve em atividade até meados da década de 1970. Já o terceiro resistiu até 1982, quando fechou as portas e deixou bairro conhecido como cenário do grito da independência de Dom Pedro I sem qualquer cinema.

Quem também freqüentava as enormes salas de cinema do bairro e agora não perde uma exibição de Archimedes e Vinícius é Maria Mendes Martins Centoamore, de 71 anos. Apesar do jeito acanhado, a senhorinha de ombros curvos, cabelos longos sempre presos e roupas tão comportadas como as de uma beata admite a preferência por filmes românticos e musicais, especialmente os do ídolo Elvis Presley.

O músico norte-americano, que atuou em mais de 30 filmes, também já foi tema de algumas sessões no cineclube. Para atrair o público, Archimedes divulgou a programação especial aos freqüentadores por carta, e-mail e telefone, além de ter convidado imitadores do cantor para se apresentarem antes da sessão e assistirem ao filme, em um evento que lotou a biblioteca de fãs de Elvis, inclusive dona Maria.

Outro evento que agitou o cineclube foi a exibição de episódios do seriado “O Vigilante Rodoviário”, popular nos anos 1960, que contou com a presença do ator Carlos Miranda e do diretor Ary Fernandes. Até hoje, Archimedes mantém no escritório, entre pilhas de papel da gráfica da qual é dono e onde se ocupa durante a semana, uma foto tirada com o Inspetor Carlos, que compareceu caracterizado com o vistoso uniforme bege da Polícia Rodoviária. Sucesso de público.

Quem também já visitou o Cineclube Ipiranga foi Anselmo Duarte, diretor do único filme brasileiro vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, o clássico “O Pagador de Promessas”, de 1962. Archimedes lembra que a presença do ator, diretor e roteirista surpreendeu aos espectadores e até a si mesmo. “Eu mandei um e-mail para ele falando sobre a exibição do filme, mas não tinha ideia de que ele poderia aparecer. No fim, ele acabou vindo, assistiu ao filme, deu autógrafo, foi atencioso”, relembra o cinéfilo, contando orgulhoso dos “feitos” alcançados.

Em 17 anos de cineclube, muitas outras sessões especiais foram programadas e encheram a pequena sala de projeção da biblioteca (que atualmente comporta 101 pessoas), assim como o arejado salão de entrada, onde os freqüentadores costumam se reunir para conversar antes do início da sessão. É comum ouvir discussões acaloradas que vão de opiniões sobre o filme programado para o dia até perguntas complexas que desafiam o cérebro de qualquer cinéfilo, quase sempre ao estilo “qual era mesmo aquele filme lá com aquele ator?”.

Mesmo que a presença do público não seja equivalente a de um cinema comum, as sessões comandadas por Archimedes e Vinícius costumam registrar números muito melhores do que as outras realizadas pela Secretaria da Cultura na própria biblioteca. A exibição de “Uma Vida Por Um Fio”, por exemplo, contou com 18 pessoas na platéia, número um pouco abaixo do comum, mas ainda assim muito maior do que o único herói registrado algumas horas antes, na exibição do documentário “Rolling Stones - Gimme Shelter”. Sim, apenas um espectador acompanhou o filme sobre a banda naquela tarde.

Por tudo isso é que Archimedes não mede esforços para levar adiante o compromisso. Quando começou, o cinéfilo tinha mais de 800 fitas, morava num sobrado pequeno que hoje pertence a filha e sofria muito de rinite. “Olhei para tudo aquilo e pensei: ‘isso é muita coisa só para mim, isso é loucura’. Foi aí que dei a ideia para o Leão [Antônio Leão da Silva Neto, pesquisador de cinema] de montarmos um esquema para exibir nossos filmes”, conta.

O ano era 1992 e o bairro já sofria há 10 sem uma sala de cinema sequer. Com o apoio de Leão e alguns outros amigos, Archimedes descobriu que o salão da biblioteca, na época chamada de Genésio de Almeida Moura, estava disponível. “Tinha quatro dedos de poeira, baratas, ratos, enfim, isso aqui estava completamente abandonado”, lembra o cinéfilo, que pediu a limpeza da sala e, como primeira ação, promoveu uma mostra de filmes, que também incluía a exposição de quadros e alguns eventos musicais.

Com o sucesso da iniciativa, acabou sendo convidado a usar o espaço para exibir seus filmes semanalmente. Ficou por lá até 2004, quando deixou a biblioteca para realizar a Sessão Cineclube no Sesc Ipiranga, que oferecia melhor infra-estrutura. Em meados de 2007, a sessão foi cortada da programação e só voltou no ano seguinte, já novamente na biblioteca onde tudo havia começado. Hoje, 17 anos depois, Archimedes mantém o cineclube e até cuida de uma nova programação, a Sessão Nostalgia, que acontece sempre às quartas-feiras e exibe filmes clássicos em DVD.

Já sobre o futuro, seja seu, da coleção ou até do cineclube, Archimedes se mostra passivo e até um pouco conformado. “O dia em que eu fritar...”, inicia Archimedes, antes de ser interrompido pelo repórter, que não entende a metáfora. “O dia em que eu morrer, ‘fritar’, sabe?”, esclarece em seguida, com um tom natural demais para quem está comentando o próprio fim.

“Quando isso acontecer, eu já disse para a minha filha que ela tem que pegar todas as coisas e ver o que ainda tem valor no mercado. Aí, como ela conhece um pouco disso, falei para ela reunir aquele pessoal que gosta e “quebrar” [dividir] tudo para fazer dinheiro. Se quiser guardar uma máquina ou um rolo de filme para mostrar que um dia isso tudo existiu, tudo bem”, prevê Archimedes, que silencia após a frase. Segundos depois, decreta: “Agora, se deixar na mão da minha mulher, ela vai jogar tudo isso no lixo”, complementa o cinéfilo de 67 anos, agora já em tom menos sério e confessional, provocando risos.

A seriedade só retorna quando o assunto é novamente o cineclube. “O Vinícius pode até tocar isso aqui lá para frente, mas o problema é que ele não é do bairro e precisa vir de longe para exibir. Eu já conheço muita gente, inclusive dos jornais onde eu sempre divulgo as sessões. Para ele, ficaria mais difícil tocar essa parte...”

“Posso interromper para guardar a máquina?”, pede Archimedes, já se levantando da cadeira e seguindo para o cubículo onde o aguarda o velho Kodak Pageant. A segunda parte do filme já havia acabado há algum tempo e nenhum outro espectador permanecia na biblioteca àquela hora. A conversa animada com o repórter havia quebrado a rotina do cinéfilo, que quase sempre recolhe os materiais e segue para casa, embora algumas vezes prolongue as discussões sobre cinema com algum amigo na pizzaria mais próxima.

Enquanto desmonta a máquina, com movimentos rápidos que exigem força e experiência adquirida nos anos que observou o trabalho de amigos no Cine Anchieta, Archimedes se abre. “Sabe... Eu ainda não desisti porque tem muito filminho que a gente tem e que não saiu em DVD. Só que o projetor de 16 mm você precisa ficar atento com as trepidações, com possíveis problemas, enquanto com o DVD é só por o disquinho lá e o filme já está na tela”, compara.

“Por isso eu digo que já estou meio cansado...”, admite, enquanto se prepara para carregar o material trazido para a sessão. Apesar da dificuldade, Archimedes nega ajuda e leva sozinho o pesado projetor em uma das mãos e dois rolos de filmes embaixo do braço. Alguns metros depois, troca as últimas palavras com o porteiro e o repórter, entra no carro que novamente custa a ligar e, antes de se perder no horizonte de ruas altas e baixas do bairro do Ipiranga, se despede: “Até sábado que vem”.

*Reportagem produzida no segundo semestre de 2009 durante o curso de pós-graduação em Jornalismo Literário na ABJL. Foi publicada na Revista Up! #19, em outubro do mesmo ano.

Texto e imagem reproduzidos do site: chamaojulio.com

Seu Holetz, uma bela memória do cinema do Cidade das Flores Nascimento

Foto: Jandyr Nascimento/Agencia RBS

Publicado originalmente no site A NOTÍCIA, em 25/10/2017

Seu Holetz, uma bela memória do cinema do Cidade das Flores Nascimento

Rubens Herbst relembra as conversas com o gerente cinéfilo do antigo Cine Cidade

Por Rubens Herbst

Podem conferir, nostalgia é a palavra de ordem na caixa de comentários de cada nova notícia publicada no AN a respeito das novas salas de cinema do Shopping Cidade das Flores (que inauguram neste sábado). Elas resplandecem com uma recepção acolhedora, poltronas recém-saídas da fábrica e tecnologia de última geração, mas chegam carregando as memórias de quem viu filmes ali em outros tempos. Foi só dez, 15, 20 anos atrás, mas o quanto não muda - nós, os hábitos, a empresa exibidora, o shopping, o próprio cinema - num intervalo desses, não é mesmo?

Este jornalista "gastou" o carpete vermelho do antigo Cine Cidade, de tanto que andou por ali. Guarda até hoje os tíquetes de Kill Bill volumes 1 e 2 e de uma sessão à meia-noite da ópera-rock Tommy (1975), e agora lembra até com certo carinho do cheiro de mofo e dos assentos em frangalhos de quando os dois espaços agonizavam. Mas nenhuma lembrança é tão querida, nenhum filme ou companhia é tão memorável quanto as conversas com seu Holetz, o gerente do cinema.

Herbert Holetz era um senhor já avançado na idade, de parcos cabelos brancos, magro e olhar profundo, mas absolutamente cativante em sua simpatia e empolgação no que se referia à arte de fazer filmes. O homem era um arquivo vivo,  com um fervor especial em relação a era de ouro de Hollywood. Mas se atualizava, tanto que fazia questão de assistir a tudo (ou quase tudo) que era exibido em seu "território" - porém, gostava de fazê-lo sozinho, numa sessão particular, sem os indesejáveis cochichos e ruídos de refrigerantes sendo sugados. Para ele, assistir a um filme era quase um ato religioso.

Isso fazia de seu Holetz muito mais do que um simples gerente. Além de supervisionar o bom andamento das salas, ele fazia questão de pegar o ônibus até o AN para entregar pessoalmente a grade de programação, fotos e releases de imprensa das estreias da semana. Ali, na redação, ficávamos uns bons minutos em conversas cinematográficas (com o perdão do trocadilho), que não raras vezes continuavam em sua sala no shopping, localizada no andar superior, ao lado do projetor e em meio a um sem-número de cartazes e outros materiais. Seu Holetz era um maníaco colecionador da história do cinema, e não havia jornal ou revista que resistisse ao seu ímpeto por mais informação.

Assim passei muitas tardes no Cine Cidade, e sem sequer pisar na sala de exibição. Estar na presença de seu Holetz já era uma aula de cinema, mas sua simplicidade e seu afeto eram a arte do calor humano em si.

Texto e imagem reproduzidos do site: anoticia.clicrbs.com.br

Marcos Antônio Ferreira da Costa - O Marcos Cinema

Marcos Antônio Ferreira da Costa – ou simplesmente Marcos Cinema, como é conhecido 
Foto: Matheus Britto

Do site Jaboatao PE., publicado em novembro/2018

Jaboatão dos Guararapes/PE. exibe clássicos em 16mm

A Prefeitura do Jaboatão dos Guararapes, por meio da Secretaria Executiva de Turismo, Cultura, Esportes e Lazer, promoveu mostra Cinema à Moda Antiga. A sessão foi parte da 1ª Mostra Cultural do Jaboatão dos Guararapes e aconteceu na Casa da Cultura Nobre de Lacerda, em Jaboatão Centro. Na ocasião, foram exibidos os clássicos “Tarzan”, de 1932, e “O Cangaceiro”, de 1953, todos filmados em 16mm. Os filmes fazem parte do acervo pessoal do cinéfilo Marcos Cinema, que é um dos homenageados do evento. Entradas gratuitas.

Cinéfilo nostálgico

Motorista aposentado, Marcos Antônio Ferreira da Costa – ou simplesmente Marcos Cinema, como é conhecido – é um homem analógico. Morador de Jaboatão Centro, seu amor pela sétima arte o levou a figurar entre os homenageados da primeira edição da Mostra Cultural do Jaboatão dos Guararapes. Desde os 16 anos de idade, Marcos coleciona projetores de película 16mm, fotografias e cartazes antigos. Atualmente, o cinéfilo tem mais de 40 películas e garante que está sempre revendo as obras de seu acervo pessoal.

Apesar de confessar que já se rendeu aos dotes da modernidade e que encara assistir um filme no Youtube, Marcos não esconde o apego à Era de Ouro de Hollywood: “Tentei assistir ao novo filme do Tarzan e não consegui chegar nem na metade. Johnny Weissmuller é o Tarzan, nenhum outro tem o mesmo porte, a mesma qualidade de atuação. Eu assisto coisas novas, vejo filmes no Youtube, mas nada é mais prazeroso que o barulho de um projetor antigo numa sala de cinema”.

Fonte: jaboatao.pe.gov.br

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Acervo da antiga Cinédia

Alice Gonzaga e Bebel Assaf, filha e neta do fundador da Cinédia  
Foto: Vânia Laranjeira

Publicado originalmente no site Cultura RJ, em 19.07.2011

Preciosidades do cinema, num casarão na Glória

Acervo da antiga Cinédia é acalentado pela família de Adhemar Gonzaga, seu fundador

Sempre que vai à Feira de Antiguidades da Praça XV, no Centro do Rio, a pesquisadora Alice Gonzaga se ressente com um anacronismo. "Olho para o chão e vejo, estendidas, imagens de pessoas com quem eu convivia", diz, sobre as fotos antigas oferecidas para venda, acrescentando que, dia desses, flagrou a si própria, ainda menina, num dos registros.

Desde os 6 anos de idade, Alice, hoje com 76, dedica-se a resguardar dos efeitos do tempo imagens importantes para a memória cultural do Brasil. Filha do jornalista e cineasta Adhemar Gonzaga, fundador da mítica Cinédia? nada menos que o primeiro estúdio cinematográfico do país -, ela preserva, num casarão histórico no bairro da Glória, parte essencial da cinematografia brasileira, além de registros raros do começo do século passado que lançam luz a produções de outros países.

"A maioria das pessoas pensam que só guardamos material da Cinédia. Mas a parte mais preciosa do nosso acervo são fotografias e documentos de produções alemãs, dinamarquesas americanas e francesas das décadas de 1920 e 1930. Temos aqui imagens que não existem mais em seus países de origem, porque foram destruídas pela guerra", conta.

O "aqui" refere-se à casa na Rua Santa Cristina que, rebatizada com o nome Cinédia, abriga há três anos os arquivos que antes habitavam os estúdios de Jacarepaguá. Por lá estão guardados equipamentos que testemunharam as primeiras filmagens brasileiras; fotos, cartazes, contratos e documentos de filmes de diferentes fases e estilos do cinema nacional; cerca de 40 fitas de obras produzidas pela Cinédia original. Mas não apenas isso. Colecionador voraz desde a infância, Adhemar Gonzaga preservou em seus arquivos um vasto material sobre o cinema e a cultura ao redor do mundo, o que inclui desde recortes de jornal até fotos que recebia divulgando produções estrangeiras. Alice herdou a mania do pai, e continua engordando os arquivos, que contam com mais de 250 mil imagens.

Em família

Além da abrangência do acervo da Rua Santa Cristina, o que surpreende no trabalho atual da Cinédia é o caráter familiar que o sustenta. Fora Alice, trabalham no arquivo duas de suas filhas: Bebel e Maria Eugênia. Juntas, as três administram e cuidam do acervo, rejeitando qualquer possibilidade de abri-lo a parcerias públicas ou privadas.

"Eu defendo esse arquivo com unhas e dentes. Quero tê-lo sob meus olhos, garantindo sua integridade", justifica a matriarca, ela própria um arquivo vivo. Grandes figuras da cultura brasileira eram, afinal, personagens corriqueiros em sua vida desde o berço. "Eu gostava de ir à costureira com a Carmem Miranda, quando criança. Só lamentava que o caminho fosse tão breve: bastava uma caminhada até a Lagoa, no Edifício Lombardi". Com Humberto Mauro, grande colaborador dos estúdios Cinédia, Alice teve pouco contato. Mas conviveu longamente com o casal Vicente Celestino e Gilda de Abreu. "O Vicente era muito simpático e alegre, não tinha nada daquela tristeza toda de O ébrio. Mas a Gilda era muito mandona. Foi ela que segurou a carreira do Celestino, era a cabeça do casal", conta.

Sem qualquer patrocínio, a Cinédia atual tem a base de sua receita na venda de reproduções de fotos e de trechos de filmes. "Na internet há bastante coisa, mas a qualidade não é a mesma", justifica. Há 1 ano, duas salas do casarão são usadas para cursos, que vão da música aos quadrinhos. O acesso ao acervo, porém, acontece de forma mediada. Quem descreve é a própria Alice: "Os pesquisadores devem me procurar, explicar o objetivo da pesquisa e eu mesma separo o material. Infelizmente, isso é pago, de acordo com o volume de informações envolvidas. Afinal, precisamos manter essa casa".

O rigor nos procedimentos possivelmente afasta candidatos à pesquisa, a própria Alice admite. "Sou chata", diz, bem-humorada. Algumas pessoas acabam conquistando, porém, regalias. É o caso do escritor Ruy Castro, que recorreu às raridades do acervo quando escreveu a biografia de Carmen Miranda. "Meu sonho é convencê-lo a escrever agora a biografia do Adhemar Gonzaga", revela a pesquisadora, que acalenta o hábito de chamar o pai e as filhas pelo nome próprio. "Precisamos zelar pelo profissionalismo", justifica.

Mas há outros sonhos que Alice enumera. Um deles é conseguir digitalizar os filmes feitos pela Cinédia. Há pouco tempo, cinco deles foram restaurados, graças ao apoio da Petrobras. "Queremos restaurar outros, mas preciso recobrar o fôlego. Os laboratórios no Brasil têm um processo muito demorado. Às vezes eu penso se não seria mais fácil fazer esses restauros em Amsterdã", brinca.

Outro sonho é criar um Museu do Cinema. E convencer algum carnavalesco a transformar em samba-enredo o filme Alô, alô Carnaval. "Cada número musical seria uma ala", imagina.

Juliana Krapp

Texto e imagem reproduzidos do site: cultura.rj.gov.br

domingo, 28 de outubro de 2018

Uma homenagem a Herbert Holetz


O cinéfilo generoso

Uma homenagem a Herbert Holetz no Dia do Cinema Brasileiro
Sylvio Zimmermann Neto – Presidente da Fundação Cultural de Blumenau

No Dia do Cinema Brasileiro, não há como deixar de citar o cinéfilo regional Herbert Holetz. O blumenauense descobriu sua paixão ainda criança, quando a mãe o levava junto dos irmãos às sessões de “O Gordo e o Magro”, “Tarzan” e aos desenhos animados de Walt Disney. Lá, deleitava-se com o momento conforme as cortinas vermelhas abriam-se: era o mundo mágico da fotografia diante dos olhos.

Já na adolescência conheceu Reynaldo Olegário, gerente do Cine Garcia, que lhe ensinou os segredos da sétima arte. Quando a família de Holetz saiu do bairro Garcia para morar na região central de Blumenau, ele viu a oportunidade de ir ao cinema com mais frequência. Planejou um modo de conseguir assistir aos filmes sem precisar pagar: na época havia a “sessão de elite” no Cine Busch, que enumerava as cadeiras no último horário de exibição. Assim, o pequeno Herbert auxiliava o público para situá-los em seus lugares dentro da sala e, em troca, assistia ao longa-metragem.

Essa paixão refletiu-se na vida profissional; e de lanterninha passou à gerência do Cine Busch. Depois de trabalhar 40 anos no cinema, o estabelecimento acabou fechando e o cinéfilo se viu obrigado a deixar o lugar. Não conseguindo abandonar seu fascínio, contribuiu de várias maneiras com a Fundação Cultural de Blumenau, com a doação de filmes em películas, cartazes, filmadoras e projetores. Para organizá-los, ele trabalhou voluntariamente no arquivo histórico durante sete anos, até que passou a ser contratado para iniciar o Cine Arte na Fundação.

Embora Holetz não esteja mais exercendo atividades conosco, não deixamos essa paixão de lado. O Cine Arte completa em 2013 dez anos de existência, mantendo a programação idealizada por Herbert Holetz. Atualmente o Cine Arte acontece todas as segundas-feiras às 19h30 no Cine Teatro Edith Gaertner. A exibição é separada por temas que variam do faroeste ao cinema brasileiro.

Não há data melhor para lembrar o querido senhor Holetz do que no Dia do Cinema, cuja vida é permeada pelas histórias da grande tela e, por meio delas, nos ensina a apreciar e respeitar a sétima arte. Nossos agradecimentos públicos a este homem que coloca generosidade e gentileza em cada pequeno gesto, que contribui para encher o mundo com mais emoção, que deixou sua marca na história de Blumenau compartilhando seu patrimônio mais precioso: a cultura.

Fonte: Fundação Cultural de Blumenau – Arquivo Histórico José Ferreira da Silva.

Texto e imagens reproduzidos do site: arquivodeblumenau.com.br

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Cinema Paroquial

Foto reproduzida do site nofilmschool.com e postada pelo blog, 
para simples ilustração do presente artigo

Meninos, Eu vi – Cinema Paroquial

Por Marcos Calaça, jornalista (UFRN)

O padre Antas lançou o Cinema Paroquial, em Pedro Avelino, nos anos de 1960 e permaneceu até meados da década de 70, até a sua morte. O Cinema tinha palco para teatro, sala para máquinas cinematográficas na parte de cima e cadeiras que não deixavam a desejar a nenhum prédio cinéfilo do Estado. O cinema era uma grande novidade, um negócio fascinante que tinha chegado à cidade. Para a meninada, assistir um filme era uma alegria imensurável. Após a sessão, os meninos saíam do cinema para casa contanto os melhores momentos do filme, do sofrimento do artista principal, que no final era o vitorioso. 

A propaganda dos filmes era feita de uma maneira muito peculiar e interessante. Em armações de madeira e compensado, as fotos de divulgação fornecidas pelas distribuidoras eram coladas e, com tinta azul xadrez, eram escritos o nome do filme e dos artistas principais, além de uma frase copiada dos folhetos de divulgação. As armações ou tabuletas de compensado eram colocadas em pontos estratégicos da cidade e tinham várias informações sobre o filme, como horário, elenco, fotos e algumas frases de efeito, como emocionante, não percam, sensacional, espetacular. Era a mídia e o marketing da época. Quando o filme era famoso e caro, a propaganda se tornava mais agressiva: Dois garotos andavam por toda a cidade, com a tabuleta nas mãos, e a meninada corria para ver o filme do domingo à noite, após a missa. Era cinema cheio na certa. Três chamadas alertavam para o início do filme, não sei se do agudo para o grave, ou o contrário.

No início, havia apenas uma máquina para exibição dos filmes e quando ela quebrava precisava ser consertada na mesma hora, caso contrário teria que devolver o valor dos ingressos, pois o tempo de permanência do filme na cidade, através do contrato, não permitia que a exibição fosse feita no dia seguinte. Seu Caldas era perito em consertar rapidamente a máquina. Ele desmontava, descobria o defeito e consertava em menos de dez minutos. Quando surgia um defeito o público não se incomodava pois sabia que dentro de poucos minutos tudo estaria normalizado. Muito tempo depois, o operador começou a trabalhar com duas máquinas, um rolo em cada uma delas.

Eu imagino que seu Caldas tinha apenas uma preocupação concreta no cinema, era a preocupação da mudança de um rolo para outro. Como projecionista ficava atento à sinalização de, no máximo, dez segundos, sem o telespectador perceber.

Francisco Caldas colaborou com essa manifestação cultural, e que o Cinema Paroquial recebia filas de crianças, jovens e adultos numa época telúrica.

Naquela época o faroeste ou bang-bang era o gênero preferido da meninada que ficava atenta a xerifes, pistoleiros, bandidos, mocinhos, diligências, índios etc. Depois do filme, seu Caldas direcionava o público para ficar atento ao seriado Flash Gordon no Planeta Marte. Cada seriado terminava num momento de emoção e de incerteza para que o público ficasse atento para o próximo episódio e, consequentemente, o filme também.

Para agradar ao público, o filme deveria ter muita ação. Os preferidos eram os de cowboy, de piratas, de aventuras e de Tarzan. Os astros preferidos eram Antony Quynn, James Cagney, Alan Ladd, Gary Cooper, Humphrey Bogard, John Wayne, Johnny Weissmuller, Gordon Scott, Lex Barker, Burt Lancaster, Franco Nero. As artistas eram Alex Smith, Bárbara Stanwick e Ann Sheridan, Dorothy Hart, Katherine Hepburn e Maureen D'Sullivan. Toda sexta-feira santa era exibido o filme "Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo", com casa lotada.

Por fim, o cinema se acabou, mas os filmes continuam na minha mente. Infância feliz.

Texto reproduzido do site: marcos.calaca.zip.net 

Uma vida no cinema

"Baiano" posa com o antigo projetor do Cine Pedutti,
 equipamento, como ele, já “aposentado”...

Publicado originalmente no site Debate News, em 16 de agosto de 2017 

O aposentado Walter Gomes da Silva, que trabalhou a vida inteira no cinema, vai receber menção honrosa.

Uma vida no cinema

Por Sérgio Fleury Moraes

Pouca gente conhece Walter Gomes da Silva. Mas o apelido de “Baiano do Cinema” imediatamente remete à lembrança dos “anos dourados” do antigo Cine Pedutti, de Santa Cruz do Rio Pardo, que uniu gerações através da “sétima arte”. Hoje aposentado, Walter será homenageado pela Câmara de Vereadores na noite desta quinta-feira, 17, quando vai receber o título honorífico de “honra ao mérito”.

O projeto foi apresentado pelo vereador Cristiano Neves (PRB) em março. Na mesma noite, também receberá o título de cidadão o funcionário aposentado Osmar Aparecido Costa Ribeiro, que trabalhou muitos anos na antiga Usina de Reciclagem de Lixo e na Codesan. Desta vez, o projeto teve como autor o vereador Cristiano de Miranda (PSB).

A entrega dos dois títulos será a partir das 19h30 de quinta-feira no plenário da Câmara de Santa Cruz do Rio Pardo, em sessão solene.

Walter Gomes, o “Baiano do Cinema”, mostra antigos
 boletins com a programação semanal do cinema

No caso de Walter “Baiano” Gomes, é uma homenagem ao trabalhador cuja vida se confunde com o cinema de Santa Cruz do Rio Pardo, cidade onde nasceu e mora até hoje.

“Baiano”, que devido à profissão teve o “cinema” acrescentado ao apelido, trabalhou desde adolescente no antigo Cine Pedutti, que em 1985 foi adquirido pelo município, no governo de Onofre Rosa de Oliveira, e transformado no “Palácio da Cultura Umberto Magnani Netto”. Antes, foi engraxate e cobrador de ônibus. No cinema, foi “lanterninha” — funcionário que percorre os corredores com uma pequena lanterna nas mãos — e projetor de filmes, além de bilheteiro e porteiro. Ele também distribuía boletins de programação do antigo cinema.

Contratado pela prefeitura, Baiano continuou operando os antigos projetores de filmes até se aposentar. Em várias entrevistas ao jornal, ele contou que se orgulha de ter vivenciado namoros que se transformaram em casamentos da sociedade. Ele, na verdade, “vigiava” os casais para as famílias.

Walter costumava destacar as filas enormes que os filmes de Mazzaropi provocavam nos anos 1960 e 1970, algumas vezes com até dois quarteirões. Em décadas como operador do projetor, Walter ensinou o ofício a muitas pessoas.

No entanto, “Baiano” também participou de ações beneméritas. Durante muitos anos, ele foi o “Papai Noel” da praça central de Santa Cruz do Rio Pardo nos finais de ano. Distribuindo balas e sorrisos, sempre levou alegria às crianças.

Texto e imagens reproduzidos do site: debatenews.com.br

Antigo cinema do Colégio Estadual do Paraná (CEP)

Publicado originalmente no site do CEP, em 9 de julho de 2016 

Antigos projetores comprovam que já funcionou um cinema no CEP 

Poucas pessoas sabem, mas o Colégio Estadual do Paraná (CEP) também já serviu como palco para importantes projeções cinematográficas que encantaram estudantes e a sociedade curitibana nas décadas de 50, 60 e 70. Os antigos projetores, que ainda funcionavam com geradores de energia para queima de carvão, comprovam esta parte da história do colégio quando ainda serviam para importantes exibições feitas no auditório (cineteatro), com capacidade para cerca de mil pessoas.
  
 Seu Dante e as máquinas do cinema antigo

“Foi certamente um momento importante para história do colégio e também da cidade, afinal, a sociedade curitibana, e sua comunidade estudantil, dispunha de uma ampla sala de cinema dentro da escola, o que era possivelmente inovador para aquela época”, afirma João Paulo Lourenço Ortiz (Seu Dante), antigo funcionário e voluntário junto ao atendimento técnico.

Projetores antigos (destaque para o gongo na parede)

Os projetores ainda podem ser encontrados na antiga sala de projeção, no primeiro pavimento. Lá, estão as máquinas pesadas da marca Ciclex, de fabricação americana (conforme etiquetas original). As especificações técnicas mostram ainda que para o funcionamento adequado da lâmpada exigia-se uma geração de energia para 15-24 Volts. Também um complexo sistema de engrenagem era acompanhado por técnicos especializados, responsáveis pelo controle e movimentação do filme que passava na frente de poderosas lentes para amplificação a imagem final na tela de apresentação.

Filmes antigos

Seu Dante também afirma que o gerador precisava ficar acomodado em uma sala fechada, imediatamente abaixo da sala de projeção. “O barulho do equipamento não podia interferir nas transmissões”, confirma o antigo funcionário. Uma sineta, utilizada para anunciar o inicio da apresentação, ainda está fixada no local original, ao lado de uma antiga vitrola que também era usada para garantir música no ambiente antes e nos intervalos das exibições.

Gaveteiro de filmes

Segundo Dante, várias produções foram apresentadas no cineteatro desde a fundação. Um convênio era firmado com o Cine Palácio, que ficava na área central da cidade. “Todos os filmes que entravam em cartaz no cine Palácio eram depois enviados para serem exibidos no Estadual”, conta. Todos os equipamentos utilizados nas projeções cinematográficas dentro do CEP fazem parte do patrimônio histórico do colégio, que, este ano, completa 170 anos de existência.

Antigo toca-disco

Fonte: Sérgio Zaccaria (Zac)

Texto e imagens reproduzidos do site: cep.pr.gov.br

sábado, 18 de agosto de 2018

Cine Santana, em São José dos Campos/SP.




Funcionário do Cine Santana, Edson Neves mostra o projetor da década de 50.
Foto: Rogério Marques/OVALE

Publicado originalmente no site O Vale, em 20 outubro de 2017

Aos 65 anos, último cinema de rua resiste à época do 'the end' no Vale

Cine Santana, na zona norte de São José, mantém-se em atividade, resistindo à fase de expansão das grandes redes de filmes

Julia Carvalho@carvalho8123
São José dos Campos

Inaugurado em 12 de outubro de 1952, o Cine Santana, na zona norte de São José dos Campos, completa 65 anos. É o último cinema de rua da RMVale ainda em funcionamento, resistindo à tendência das grandes redes de filmes e à ocupação dos antigos salões por grandes lojas ou igrejas.

Como comemoração, o Cine Santana tem uma programação especial até o dia 27. O cinema, com capacidade de 800 espectadores, teve como proprietários iniciais José Quirino da Costa, José Francisco Natali e Fernando Navajas.

Possuía dois projetores de 35 milímetros, com iluminação a carvão (carbureto), proporcionando que o filme não tivesse que ser interrompido para troca dos rolos, fato comum nas salas de projeção da época.

Foi criado para exibição de filmes e apresentações de teatro, dança, entre outras manifestações artísticas. Nas décadas de 50 e 60, exibiu películas de Mazaroppi, de grandes produções cinematográficas nacionais, da Atlântida e da Vera Cruz, além de filmes internacionais.

Recebeu também grandes espetáculos, como Roberto Carlos, entre outros nomes.

O barbeiro Odilon de Moura, 70 anos, diz que o Cine Santana preserva a emoção de sua juventude. "O cinema era o grande acontecimento de meus fins de semana. Com amigos, eu vinha de Monteiro Lobato até o bairro de Santana para assistir aos filmes de Mazzaropi, comer pipoca e namorar'", conta.

TELONA.

Hoje, o espaço tem capacidade para cerca de 300 pessoas e possui 14 oficinas do programa Arte nos Bairros, que atende cerca de 200 alunos, além do projeto em parceria com o Museu de Imagem e Som do Estado de São Paulo (Ponto MIS), por meio do qual é exibida, todo mês, uma seleção de filmes nacionais e internacionais.

Há três anos, o empresário Ricardo Neves, que é apaixonado por cinema, sai de Itajubá (MG), onde mora, para passar os filmes em película de 35 milímetros no cinema.

"Quando eu era garoto trabalhei em um cinema muito parecido com o Cine Santana, por isso me apaixonei por este projeto e resolvi adotá-lo para que as pessoas conheçam um pouco do verdadeiro cinema".

O espaço cultural fica aberto de segunda à sexta-feira, das 8h às 22h.

Texto e imagens reproduzidos do site: ovale.com.br