sábado, 18 de agosto de 2018

Cine Santana, em São José dos Campos/SP.




Funcionário do Cine Santana, Edson Neves mostra o projetor da década de 50.
Foto: Rogério Marques/OVALE

Publicado originalmente no site O Vale, em 20 outubro de 2017

Aos 65 anos, último cinema de rua resiste à época do 'the end' no Vale

Cine Santana, na zona norte de São José, mantém-se em atividade, resistindo à fase de expansão das grandes redes de filmes

Julia Carvalho@carvalho8123
São José dos Campos

Inaugurado em 12 de outubro de 1952, o Cine Santana, na zona norte de São José dos Campos, completa 65 anos. É o último cinema de rua da RMVale ainda em funcionamento, resistindo à tendência das grandes redes de filmes e à ocupação dos antigos salões por grandes lojas ou igrejas.

Como comemoração, o Cine Santana tem uma programação especial até o dia 27. O cinema, com capacidade de 800 espectadores, teve como proprietários iniciais José Quirino da Costa, José Francisco Natali e Fernando Navajas.

Possuía dois projetores de 35 milímetros, com iluminação a carvão (carbureto), proporcionando que o filme não tivesse que ser interrompido para troca dos rolos, fato comum nas salas de projeção da época.

Foi criado para exibição de filmes e apresentações de teatro, dança, entre outras manifestações artísticas. Nas décadas de 50 e 60, exibiu películas de Mazaroppi, de grandes produções cinematográficas nacionais, da Atlântida e da Vera Cruz, além de filmes internacionais.

Recebeu também grandes espetáculos, como Roberto Carlos, entre outros nomes.

O barbeiro Odilon de Moura, 70 anos, diz que o Cine Santana preserva a emoção de sua juventude. "O cinema era o grande acontecimento de meus fins de semana. Com amigos, eu vinha de Monteiro Lobato até o bairro de Santana para assistir aos filmes de Mazzaropi, comer pipoca e namorar'", conta.

TELONA.

Hoje, o espaço tem capacidade para cerca de 300 pessoas e possui 14 oficinas do programa Arte nos Bairros, que atende cerca de 200 alunos, além do projeto em parceria com o Museu de Imagem e Som do Estado de São Paulo (Ponto MIS), por meio do qual é exibida, todo mês, uma seleção de filmes nacionais e internacionais.

Há três anos, o empresário Ricardo Neves, que é apaixonado por cinema, sai de Itajubá (MG), onde mora, para passar os filmes em película de 35 milímetros no cinema.

"Quando eu era garoto trabalhei em um cinema muito parecido com o Cine Santana, por isso me apaixonei por este projeto e resolvi adotá-lo para que as pessoas conheçam um pouco do verdadeiro cinema".

O espaço cultural fica aberto de segunda à sexta-feira, das 8h às 22h.

Texto e imagens reproduzidos do site: ovale.com.br

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Imagem Museu do Cinema Roque Araújo e alunos do Distrito dos Humildes



Texto publicado originalmente no site O Brasileirinho, em 03/11/2017

Memória do cinema nacional abre as portas para jovens estudantes

By Jackson Rubem

Imagem Museu do Cinema Roque Araújo e alunos do Distrito dos Humildes

Imagina ter a oportunidade de conhecer a memória viva do cinema brasileiro, integrante do Cinema Novo, lembrado pela parceria com Glauber Rocha, um dos mais reconhecidos cineastas baianos. Os estudantes da Escola Municipal Geraldo Dias de Souza, localizada no Distrito de Humildes em Feira de Santana, visitaram e conheceram de perto o histórico acervo de Roque Araújo, localizado na famosa Rua 25 de Junho em Cachoeira.

O Museu do Cinema Roque Araújo abriga objetos datados de 1898 e raridades como a segunda versão do projetor dos irmãos Lumière, famosos por dar origem ao que conhecemos hoje por cinema. Também pode ser observado o Kodascop, de 1910 e um projetor alemão ainda em funcionamento.

São mais de 60 anos de vida dedicados ao cinema muito deles em produções junto com Glauber Rocha e Roberto Pires. Ainda em atividades, o último filme de Roque Araújo e o “O tiro – um disparo de amor e prazer” (2016) que ainda não foi lançado no Brasil. “Parei de contar meus filmes faz 20 anos”, diz Araújo que quando contava estava na casa das 180 produções.

Araújo conta que a história com Cachoeira vem de quando ele ministrava cursos na cidade através de um dos terreiros culturais da cidade e na oportunidade colocava o parte do acervo em exposição. “Fiz uma exposição que ficou cinco meses na universidade e o poder público pediu para trazer esse acervo para a cidade, esse museu seria aberto em Salvador”, disse. A casa cedida pela prefeitura ainda não foi assumida, por problemas burocráticos. O imóvel da Rua 25 de Junho foi cedido pelo IPAC.

O museu tem também um objetivo social, com a missão de disponibilizar cursos de cinema, para funções de continuísta, cenógrafo, dublê, dublador, figurinista, ator, roteirista, costureira, eletricista, cenotécnico, técnico de som entre outros. Araújo, somente em Cachoeira, tem 750 peças, nem todas estão expostas, por falta de espaço, em Salvador o cineasta tem 3.400, em Porto Seguro, expostas estão cerca de 690 câmeras e no Rio de Janeiro, 1.890 peças. “O que me levou a isso foi descobrir que no Brasil tem museu de tudo. Arte Moderna, Imagem e Som, Arte Sacra, então inventei fazer o único museu que não tem no país , para trazer as futuras gerações o que gerou a sétima arte. Então aqui dentro você encontra de tudo”, comenta o cineasta, que trouxe para Cachoeira parte dos equipamentos do estúdio Som Mil, que fica no Rio de Janeiro.

Sobre Glauber Rocha, Roque se orgulha em dizer que trabalhou com o cineasta em todas as produções, inclusive foi ator (um dos cangaçeiros) em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. “Trabalhei com Glauber e ele me tinha como uma pessoa da família, conheci ele ainda jovem em Salvador”, lembra-se Araújo, que completa. “Se vivo ele continuaria fazendo cinema e seria ministro da Cultura”, categoriza.

Professor Reginaldo Santos

Texto reproduzido do site: obrasileirinho.com.br

sábado, 16 de junho de 2018

Amor à arte mantém o Cine Veneza

 Projetor de última geração reproduz filmes em 4K (ultra HD) e com som digital (Dolby)

 Primeiros projetores são preservados pelo proprietário

Único representante da “época de ouro” dos cinemas da cidade é mantido pelo próprio
 dono para não fechar as portas. Sala tem capacidade para receber até 220 espectadores
 Fotos: Jota Gomes/Diário da Amazônia

Publicado originalmente no site do Diário da Amazônia, em 03/06/2015 

Amor à arte mantém o Cine Veneza

Os cinemas de rua perderam espaço para as salas de cinema dentro de shoppings.

Por Emerson Machado

Os cinemas de rua marcaram época em todo o Brasil, sendo que em várias cidades eles se tornaram pontos de encontro de sociedades inteiras. Em Porto Velho, a história do cinema começou na década de 1950, quando a família Lacerda inaugurou o Cine Lacerda. Com alguns empreendimentos no decorrer dos anos, muitos tiveram as portas fechadas e, atualmente, apenas o Cine Veneza sobrevive na capital.

De acordo com o Dr. Francisco Alves Lacerda, que ainda hoje é o proprietário do Cine Veneza, relembrar a época em que os cinemas eram uma sensação em Porto Velho é algo que faz com alegria. “Sempre gostei muito de cinema, cresci gostando desta arte e lembrar de quando investíamos no entretenimento de Porto Velho é algo que faço com orgulho”, contou ao Diário.

Entretanto, Dr. Lacerda afirma que o único sobrevivente desta época de ouro dos cinemas da família na capital é mantido pelo próprio dono para não fechar as portas. “Hoje em dia o Cine Veneza não se mantém por si só, mas eu me recuso a fechar as portas, pois é um lugar que ainda preserva o que Porto Velho já teve e tem no ramo do entretenimento”, destaca.

PIRATARIA É A GRANDE VILÃ

Lacerda ainda revelou que a pirataria de DVDs nos anos 2000 foi um dos momentos mais difíceis para o mercado do cinema em Porto Velho. “Na época que a pirataria se instaurou na cidade, precisamos fechar o Cine Brasil – que era um dos que mais atraíam o público da cidade. Filmes como ‘Anaconda’ tinham tanto apelo que os espectadores chegavam a formar filas que contornavam o quarteirão”, relembrou empolgado.

O Cine Brasil ficava na avenida Sete de Setembro e fechou as portas em 2007 – quando o negócio se tornou insustentável. Sobraram então o Cine Rio (que ficava no antigo Rio Shopping, outro empreendimento que passou por dificuldades nos últimos anos) e o Cine Veneza, que ainda recebe o público na rua Joaquim Nabuco, centro da capital rondoniense. “Fechamos o Cine Rio mais recentemente, que ainda recebia certo público, mas as dificuldades no Rio Shopping atingiram todas as lojas”, disse.

Apesar de tanta riqueza histórica e várias salas fechadas, o Cine Veneza continua firme na batalha de levar entretenimento aos porto-velhenses. Segundo o Dr. Lacerda, o público do Cine Veneza agora é mais familiar – pais e mães que decidem levar os filhos para assistir a algum filme. “Por isso, as animações fazem bastante sucesso e enche a sala, então conseguimos um público considerável para os padrões atuais”, revela.

DIFICULDADES NO DECORRER DA HISTÓRIA

A família Lacerda, que desde cedo investia em entretenimento para a capital de Rondônia e também em outras cidades do Estado, abriu os estabelecimentos para projetar filmes em Porto Velho porque via como um nicho a ser explorado. “Construir e manter uma sala de cinema é muito caro, então é preciso ter amor pelo que se faz para que dê certo. Por muito tempo deu certo, mas as coisas passaram a ficar cada vez mais difíceis”, admitiu.

Ele relembra que nos primórdios do cinema em Porto Velho, as pessoas se reuniam em peso para assistir aos filmes – que, às vezes, chegavam a levar dois ou três anos para serem exibidos aos porto-velhenses. “Eram poucos filmes disponibilizados pelo País e eles iam passando de cidade em cidade até chegar a Porto Velho, então, muitas vezes, quando eles chegavam já tinha se passado três anos do lançamento”, lembrou.

A chegada da televisão local também abalou os negócios da família Lacerda. “Quando chegou a televisão as pessoas deixaram de ir ao cinema porque preferiam ver o que passava na TV. A programação era feita com comediantes e outras personalidades da época e chamava a atenção dos espectadores”, acrescentou. A transmissão televisiva nacional também foi relatada como algo que dificultou os negócios. “A Globo chegou com a inovação de passar filmes que eram até recentes, que talvez chegasse aos nossos cinemas meses depois”, contou.

CONCORRENTE TROUXE VANTAGENS

Depois do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), o Corpo de Bombeiros pediu que o Cine Veneza passasse por diversas adequações. Hoje em dia, o cinema não conta mais com as cortinas vermelhas e o carpete, mas tem um poderoso sistema de emergências para os possíveis 220 espectadores – caso todas as poltronas sejam ocupadas. “Ficamos três meses fechados depois daquele incêndio para fazer as adequações e aproveitamos para aprimorar a tecnologia do cinema”, explica Dr. Lacerda.

As informações são confirmadas por Eduardo Aldunede, administrador do Cine Veneza há 8 anos. “O Dr. Lacerda entende de cinema, ele ama esta arte, então ele busca o melhor para o Cine Veneza. Temos equipamentos de última geração e um som potente de qualidade para receber os espectadores”, conta Aldunede. A cabine de projeção conta com sistema de som digital (Dolby), dois projetores de última geração – um deles que reproduz filmes em 4K (ultra HD) – e duas relíquias para preservar memórias: projetores antigos que são de valor inestimável para o dono.

Outro ponto destacado pelo administrador é a série de vantagens que o Cine Araújo (que é instalado dentro do Porto Velho Shopping) trouxe para Porto Velho desde 2008, depois de ter abocanhado parte dos espectadores nos primeiros anos de funcionamento, inclusive para o próprio Cine Veneza. “A concorrência do Cine Araújo, no shopping, nos fez modernizar o Cine Veneza, aumentamos a qualidade para um público que merece conforto e uma sessão perfeita”, afirma.

E com relação ao momento econômico da cidade e do País, Dr. Lacerda declara que mesmo com tantas dificuldades não pretende fechar o Cine Veneza. “Já pensei em fechar sim. Mas não consigo. Então pensei em reformular, construir mais uma sala e passar a administração para a minha filha, mas ainda não decidi. Muitos amigos me perguntam se eu fechei ou vou fechar o cinema, eu garanto que não. É o meu xodó”, finaliza.

Texto e imagens reproduzidos do site: diariodaamazonia.com.br

terça-feira, 12 de junho de 2018

Do corte à projeção

Películas de 16mm e 35mm são a grande relíquia do local. 
"Pra um filme, é preciso quatro rolos", explica Seu Vavá

Publicado originalmente no site do jornal O Povo, em 29/01/2018

Do corte à projeção

Sempre ligado ao cinema, sua paixão, Seu Vavá não só aprendeu a mexer com a técnica — é ele quem corta os filmes, projeta, etc. — como também saiu do Estado para montar cinemas de bairro por algumas cidades do Brasil. “Já estava com 24 anos, ainda era solteiro (só casei em 1955). Como eu já tinha conhecimento de eletrônica, pagaram outro curso pra mim”, relembra.

Quando terminou todos os estudos, já tinha conhecimento de rádio, cinema e televisão. “Aí fui pra São Paulo. Quando o Cinema Familiar (outro local onde ele trabalhou) fechou, comecei a receber convite pra fazer montagem de cinema em Belém, Castanhal (PA), Santarém (PA), Imperatriz (MA), etc”.

É clara também sua lembrança dos tempos difíceis pelos quais o cinema passou no Brasil daquela época. “Trabalhei direto de 1970 a 1973. Aí veio exatamente a crise e, como não tinha como escapar, o meu cinema fechou também. Aí no prédio, colocaram então uma oficina mecânica”.

"Esses shoppings de hoje em dia têm umas televisões grandes!"
Raimundo Carneiro de Araújo (Seu Vavá) Proprietário do Cine Nazaré

Antes do Cine Nazaré, Seu Vavá se aventurou por outras profissões. “Já trabalhei com moldura de quadro, daqueles (em formato) oval que hoje em dia nem tem mais, trabalhei com conserto de fechadura, móveis”. Mas seu negócio era conseguir um emprego no cinema. “Até que um dia, um padre me convidou pra fazer a limpeza do Cine Familiar (bairro Otávio Bonfim)...”

Depois veio o Cine Nazaré. Fechado por conta da crise, Seu Vavá conseguiu reativá-lo. “Até então, eu continuava pagando o aluguel do prédio. Tive muita dificuldade pra conseguir ele, tive que fazer as maiores estripulias. A luta foi grande, mas eu consegui vencer. Ele é de minha propriedade”.

E essa paixão, Seu Vavá, seguiu para os filhos? “Ave Maria, eles não querem nem saber! Eu até entendo o porquê: eu os colocava, ainda crianças, pra trabalharem comigo...”.

A memória do cinema permanece, até segunda ordem, com seu único guardião.

Texto e imagem reproduzidos do site: opovo.com.br

quinta-feira, 7 de junho de 2018

REGISTRO: Cinema em transição: da película ao digital

Foto: Antonio Paz/JC

Publicado originalmente no site do Jornal do Comércio, em 30/10/2012

REGISTRO: Cinema em transição: da película ao digital

Por Priscila Pasko

A luz da projeção de um filme ilumina as poltronas de uma sala de cinema vazia, quando o Cinespaço Wallig, no Bourbon Shopping Wallig, ainda não tinha sido inaugurado. Enquanto a imagem é exibida à audiência inanimada, lá atrás, de onde parte o facho de luz, técnicos em mecânica, eletrônica e elétrica caminham apressados de um lado ao outro entre as sete cabines de projeção. Diálogos soltos de diferentes filmes se fundem nos corredores juntando-se aos ruídos dos últimos ajustes. Um cinema não é feito apenas de público, filme e pipoca, mas, sobretudo, dos bastidores que fomentam essa engrenagem.

Em uma das janelas envidraçadas, antes de fazer um reparo, dois funcionários estão sentados sobre uma maleta de ferramentas. Mas logo todos voltam ao trabalho. Se é noite ou dia, ninguém sabe, a noção do tempo se perde no ambiente refrigerado pelo potente ar-condicionado.

São as consequências enfrentadas por equipes de empresas que montam a estrutura de um cinema. Muitas vezes, a rotina de trabalho ultrapassa 15 horas por dia.  “Almoço e janto no shopping. Só vejo a luz do sol no trajeto até aqui”, conta o carioca Valter dos Santos, de 48 anos, prestes a se aposentar daqui a cinco.

A rotina deste técnico montador está prestes a acabar, para a felicidade de sua filha de oito anos, que cobra a presença do pai, afinal, ele costuma ficar, em média, até um mês fora de casa, montando salas de cinema pelo Brasil afora. “Comecei como bilheteiro. E, como sempre gostei de máquinas, acabei gostando da coisa e com isso lá se vão 30 anos. Comi e me vesti por meio desta profissão. Mas, apesar de curtir, estou me cansando. Mesmo assim, estou preocupado. Quero parar, mas se eu adoecer por falta disso?”, indaga, aflito, Santos.

Se depender do avanço tecnológico no segmento cinematográfico, profissionais como Valter sentirão muitas saudades de casa, já que a tecnologia está renovando as salas e cabines, o que exige a presença de profissionais. Um exemplo disso é a sala Imax, que tem previsão de ser inaugurada em dezembro no Cinespaço Wallig. A tecnologia desenvolvida pela Sony apresenta ao espectador uma tela com 14m de altura e 21m de largura, tamanho que equivale a um edifício de cinco andares.

É justamente esta magia que o espectador busca, desde quando a imagem de uma locomotiva afugentou espectadores durante a primeira exibição pública dos irmãos Lumière, em 1895. “O público se transforma em função também desse viés tecnológico”, explica o coordenador do curso de superior de Tecnologia em Produção Audiovisual da Pucrs, João Guilherme Barone. “A partir do momento em que o público se acostuma a isso (tecnologia), ele passa a desenvolver outras capacidades de recepção. O cinema não é mais apenas o que se vê na sala escura. Isso é um tipo de cinema muito original ainda, mas já se oferecem outras maneiras de ver o conteúdo audiovisual.” Barone lembra que a atração do público, ligada à tradição do espetáculo artístico, ainda exerce atração na natureza humana: “O digital não elimina isso”.

Película com os dias contados

No entanto, não é o protagonismo da tecnologia na projeção de imagens que incomoda os mais puristas da sétima arte, mas a substituição de sua fonte que, durante mais de 100 anos, registrou 24 quadros por segundo. Sim, o fim da película já foi preconizado.

Na opinião do crítico de cinema do Jornal do Comércio, Hélio Nascimento, se for para mudar, que seja para melhor. “Porque, neste caso, não faria sentido tirar a projeção de película e inserir a digital. Agora, quando o equipamento (digital) é bom, é extraordinária a qualidade (da imagem). Até arriscaria dizer que é melhor do que a projeção de película, mas isso acontece raramente ainda”, lamenta. Nascimento aponta que alguns equipamentos digitais ainda encontram problemas, resultando em imagens “sem luz, contraste, quase sem cor”, o que já não acontece com a película, quando a cópia é boa.  

A previsão é de que em 2014 a película não seja mais distribuída pelos grandes estúdios, mas apenas o formato digital. O coordenador do curso superior de Tecnologia em Produção Audiovisual da Pucrs, João Guilherme Barone, salienta que, na França, no ano passado, 52% dos filmes rodados eram em formato digital, um marco histórico.

Automaticamente, a redução na circulação de filmes em película implica aumento na produção do formato digital. “A questão do armazenamento do material digital é dramática, pois a preservação dos arquivos é muito mais complexa e cara do que película, que tem a garantia de 100 anos, se armazenada em condições ideais”, adverte o professor.

Atrás da janela de projeção

Para Fernando Costa, magia do cinema está na película.
Foto: Marco Quintana/JC

Considerando o alto custo de conservação dos filmes em arquivos digitais - cerca de cinco vezes mais do que a película - e os valores nada modestos de equipamentos que façam tais projeções, as pequenas salas de cinema temem o futuro. “Inapelavelmente terei que mudar para projeção digital, porque já não trabalho mais com determinadas distribuidoras em função disso”, conta o diretor do Guion Center, Carlos Schmidt. “Essa fase de transição não está me agradando muito. Um projetor hoje custa cerca de R$ 200 mil. Estou ao sabor do vento”, lamenta.

Na visão de profissionais do ramo, os reflexos já afetam - mesmo que timidamente - a presença do público nas salas de cinema do circuito alternativo, por exemplo. “Quando inauguramos este espaço, em 1999, havia forte presença de universitários. Mas com a possibilidade de fazer download de filmes, perdeu-se o hábito”, lamenta o programador da Sala P. F. Gastal, Marcus Mello.

Enquanto o processo de criação, projeção e armazenamento do cinema sofre as mudanças inevitáveis, na sala de projeção, o som da película estalando no equipamento ainda é a trilha sonora de muitos projecionistas. “A condição de eu trabalhar aqui e a minha identificação com o cinema está justamente em montar um filme de 35 mm”, conta um dos projecionistas da Sala P. F. Gastal, Fernando Costa, há cerca de dez anos na função.

Neste universo, a tarefa de montar um filme e vê-lo projetado é transmitida por uma espécie de herança, que alcança bilheteiros, trabalhadores de serviços e quem mais espiar com certa frequência o que acontece dentro de uma sala de projeção. “Não existe vestibular para operador de cinema”, lembra Fernando, que faz questão de exibir à reportagem um trecho do filme Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988).

Rota alternativa

Até que o projecionista monte e exiba o filme, uma seleção é feita pelo programador da sala em questão. No caso da Capital, apenas para citar as do circuito alternativo - são dez no total ,- é preciso manter alguma identidade para atrair o público e não ter conflito entre os títulos. “Porto Alegre tem um circuito alternativo muito privilegiado, proporcionalmente, além de ser a cidade que mais tem salas de cinema por espectadores. Fazendo a relação entre sala e habitantes, nosso circuito é o mais generoso”, destaca Marcus Mello, programador da Sala P. F. Gastal, na Usina do Gasômetro.

Por outro lado, o programador do Cine Santander, Glênio Póvoas, pensa que está cada vez mais complicado programar uma sala de cinema. “Os custos de distribuição são tão elevados que, às vezes, chegam a patamares que não damos conta”, lamenta. Quanto ao retorno de público ou bilheteria, Póvoas concorda com a pluralidade de opções, o que também ajuda a dispersar espectadores. “Porto Alegre tem muita sala alternativa e uma concentração muito grande no Centro da cidade”, conclui. Por isso, a sala procura apostar em pequenas mostras, entre outros eventos, como festivais de cinema, que também costumam ser exibidos no espaço.

Enquanto a programação das salas comerciais geralmente é pautada pelo mercado e pelo que as majors oferecem, as salas alternativas procuram outros requisitos, dependendo do perfil que pretendem apresentar.

No caso do Guion Center, o formato da grade assumiu essa identidade pela dificuldade em adquirir determinadas cópias comerciais. Mesmo assim, o diretor do local mostra restrição ao termo: “Nunca quis exibir filmes de um só gênero. Mas acabei enveredando para um tipo de filme mais alternativo, palavra muito ruim para qualificar o que é extremamente comercial em seu país de origem”, afirma Carlos Schmidt.

Outra sala que mantém um conceito forte é a P. F. Gastal, que procura dar destaque ao cinema brasileiro e latino-americano, além de trabalhar com a formação do público, dirigida a estudantes da rede municipal, como explica Mello: “Também damos espaço à cinematografia chamada periférica, que está à margem do cinemão americano, que ocupa quase 90% do mercado”. O programador pensa que uma sala pública tem que ser espaço de divulgação de outro tipo de cinematografia, como as produções europeias e orientais, por exemplo.

Na verdade, não existe propriamente uma data que marque o início da função no circuito alternativo, explica o crítico de cinema Hélio Nascimento. “O termo programador de cinema alternativo está diretamente relacionado a salas especializadas em uma programação selecionada. Mas, atualmente, o conceito de cinema de arte perdeu um pouco de sua força, mas ainda é uma referência e território de resistência.” (PP).

Texto e imagens reproduzidos do site: jornaldocomercio.com

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A experiência de ter trabalhado em um cinema


Publicado originalmente no site SONOTAS, em 8 de fevereiro de 2016 

A experiência de ter trabalhado em um cinema

Por João Gabriel Neves de Macedo 

Recordo-me de ter estudado cinema na disciplina de História da Comunicação durante a graduação e até participei da elaboração de uma Oficina de Cinema para o ensino médio no último ano do curso de História. Mas, apesar da admiração pela sétima arte (até então), nunca tinha imaginado trabalhar em um cinema.

Um dia, acabei entregando um currículo em um cinema e logo recebi uma ligação para participar de uma entrevista. Durante a entrevista fui alertado sobre o horário de trabalho (horário de shopping). A princípio, confesso que fiquei relutante com o horário, mas eu estava realmente precisando de um emprego. Então, após a entrevista (sexta feira), teria o final de semana (com várias estreias) para “sentir” o novo “trampo”.

A primeira coisa com que tive que me acostumar foi com o uniforme: uma camisa, uma calça tactel e um tênis All Star©. Usar o uniforme não era tão simples assim, porque você tinha que zelar muito bem por ele (lavar e passar), chegar antes do horário para vesti-lo (normas da empresa), tirá-lo antes de ir para o intervalo (normas da empresa), colocar ele antes de voltar do intervalo (normas da empresa) e tirá-lo, novamente, antes de ir embora (normas da empresa). Ufa! Não tem coisa melhor que a hora de ir embora.

Então, o jovem recém-graduado em história que estava realizando uma pós-graduação em música, amante de Haydn Mozart e Beethoven foi encarregado de passar o esfregão no saguão do cinema. Tinha mesmo que “começar varrendo o chão da fábrica”. A instrução era passar o esfregão no chão em forma de oito deitado, ou seja, infinitamente! Assim, a herança cultural portuguesa sobre o preconceito em realizar determinados tipos de trabalho não pode me deter e o chão ficou brilhando (até que no saguão tinha uma vista bacana de um dos parques da cidade).

Depois recebi ordens para limpar uma das salas após uma sessão. Se você não sabe, ainda não existem salas “autolimpantes”. Ao término de um filme, após os créditos e todos saírem da sala, entra em ação um grupo de dois ou três (dependendo do estado da sala) funcionários para realizar a limpeza. Enquanto um recolhe os copos (às vezes cheios) o outro vem varrendo do meio para o corredor e limpando as poltronas. Tem que ser rápido porque dentro de poucos minutos irá começar outra sessão.

“Cara, minhas pernas doem” – Eu dizia para mim mesmo enquanto recebia os óculos na saída da sessão 3D. Nas primeiras semanas, sentia muitas dores nas pernas porque tinha que ficar muito tempo em pé. Recordo-me das reclamações de minha mãe sobre sentir dores nas pernas após um dia intenso no trabalho e hoje posso dizer que a “velha” estava certa.

Por algumas vezes também operei a máquina que realizava a limpeza dos óculos 3D. Colocava-os em grades e depois as grades dentro da máquina (uma espécie de lava louças). A agua quente junto com um produto químico desinfetava-os. Depois de secos todos eram embalados manualmente.

No cinema também trabalhei na bomboniere do cinema. O lucro de um cinema está ligado ao consumo de produtos em sua bomboniere. Na bomboniere trabalhei no caixa e as vezes ajudava servindo pipoca e refrigerante.

Durante a jornada de trabalho às vezes visitava a sala de projeção (o que era proibido para os funcionários) e conversava com os operadores sobre o trabalho na cabine. Até que um dia fui chamado na sala da gerência e comunicado que eu, um “reles mortal”, iria trabalhar na projeção.

Quando as atividades na sala de projeção começaram, contei com a ajuda do meu amigo Lucas Dinato, um cara que, realmente, entende do assunto.
  

  
O cinema tinha dois projetores manuais e 3 digitais. O barulho das maquinas era intenso. Por isso, tínhamos que utilizar protetor auricular. Tudo que o Lucas me ensinava eu anotava em uma pequena agenda (até um tempo atrás eu ainda tinha ela) e posteriormente acabei escrevendo um manual.

Passar o filme pelo projetor era algo bastante difícil no começo, as curvas e medidas tinham que ser exatas. Caso contrário poderia danificar o filme riscando-o ou estourar a fita. Após alguns dias, eu estava habilitado a “soltar” as sessões sozinho.

Projetor Manual

Éramos em três operadores. Na cabine a correria é grande, porque você tem que soltar um filme em uma sessão, rebobinar a película para começar outra, trocar a lente do projetor (dependendo do filme). Sendo três salas embaixo e duas em cima.

Em meu primeiro dia sozinho na sala de projeção tudo corria bem. Eu estava conseguindo atender a demanda das sessões. Então, quase no final do expediente, ouço um barulho na cabina, uma espécie de estouro. Ao verificar, deparei-me com uma das rodas onde colocávamos a película para projeção caída e o filme danificado. Verifiquei que, após rebobinar a película e coloca-la na parte superior não apertei o parafuso suficientemente e conforme o movimento de rotação ela veio ao chão e com isso o filme foi danificado, a película partiu!


Entrei em desespero, mas sabia que precisava contorna a situação. Então, chamei o gerente (que também já havia trabalhado na projeção) e rapidamente “grampeamos” a película e colocamos para rodar novamente (Ufa fico aflito só de lembrar, que sufoco!)

Outra situação complicada foi quando não conseguia acertar o foco após efetuar a troca da lente (essa foi outra ocasião que precisei acionar o gerente).

O filme não é propriedade do cinema. Muitas pessoas acham que o cinema detém os títulos mesmo depois da sua exibição. Ocorre que as distribuidoras realizam a distribuição para os cinemas, sendo que a exibição é realizada por tempo determinado, conforme o contrato. Os filmes são entregues em formato película e em um tipo de HD externo. Os projetores podem ser manuais ou digitais. No projetor manual temos todo o trabalho de passar o filme por dentro dos grampos e presilhas. Já o projetor digital, funciona como um PC com um tipo de player para realizar a leitura do formato do arquivo que está o filme.

Tínhamos que tomar muito cuidado com o processo de arrefecimento dos projetores. Pois, o calor da lâmpada é suficiente para provocar um incêndio ou cegar uma pessoa. Também éramos responsáveis pela temperatura das salas.

A hora de ir embora é sempre um momento de descontração entre os colegas de trabalho. Íamos juntos caminhando e comendo pipoca até o terminal. Os colegas de trabalho eram os melhores, galera “alto-astral” (mantenho contato com alguns até hoje).

Quando ocorriam as pré-estreias o trabalho ia até mais tarde para o operador que ficava (isto quer dizer $$$)

Este texto é apenas um relato do que foi trabalhar no cinema. Apesar do pouco tempo que fiquei, o aprendizado foi grandioso.

Desejo agradecer ao nobre amigo Lucas Dinato pelo empenho em me ensinar a arte da projeção e lembra-lo que “A maravilha do Cinema consiste em um motor trifásico puxando duas rodas”; ao amigo e gerente Higor; amiga Josiane Oliveira (mulher batalhadora) e ao pessoal guerreiro Renan Pofirio, Daniele Kois, Mayara Cristina, Isabela Vitoria Araujo, Carol Nasser, Juliene Vieira, Pamela Fernanda, Renan Souza, Ronaldo Koiš, Jacqueline Netto,Elyton.

P.S. Ah, uma vez roubaram meu celular na área dos funcionários se alguém (funcionários) souber de alguma coisa por favor me avise. É… talvez seja um pouco tarde para isso, mas não perdi as esperanças. KKK

Texto e imagens reproduzidos do site: sonotas.wordpress.com

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Projecionista Everaldo Neres


Cinema Mágico - Foto: Énio Sésar - Projecionista Everaldo Neres 

“Minha história como funcionário da FAAP começou em 1994 no Departamento de Cinema e me tornei projecionista no auditório anos depois. 

Esta sala foi o lugar que despertou minha paixão pelo cinema e que hoje me colocou dentro dos sets de filmagem como eletricista. 

Participar da exibição dos filmes é algo diferente, mágico. 

Era possível sentir uma energia muito boa neste pequeno espaço ao fundo da sala, com os rolos de filme que se usavam até o fim dos anos 2000. 

Fiz exibições memoráveis, como o lançamento do filme Tetro, que contou com a presença do próprio diretor, Francis Ford Coppola, aqui na FAAP. 

Mas a experiência que mais me marcou foi a pré-estreia de Cidade de Deus. A responsabilidade era muito grande, com um público de mais de 500 pessoas. Me dediquei bastante. 

Ao final, ouvi o Fernando Meirelles comentar que a projeção havia sido muito bem realizada, e isso me deixou muito contente. 

Até hoje, sempre que posso, faço questão de ser o projecionista das pré-estreias no auditório.”

Texto e imagem reproduzidos do site: revista.faap.br

Cine Humberto Mauro completa 40 anos

 O mais antigo funcionário da sala, Mercídio Scarpelli, conhecido por todos como Cid, já foi ameaçado de morte por cinéfilos que se sentiram "roubados"

 Sala recebeu mostras completas de Charles Chaplin, Alfred Hitchcock e Howard Hawks

Sala foi reformada em 2013, recebendo equipamentos de projeção e som de última geração

Publicado originalmente no site Hoje em Dia, em 09/04/2018

Cine Humberto Mauro completa 40 anos
Por Paulo Henrique Silva

Projecionista do Cine Humberto Mauro há mais de 30 anos, Mercídio Scarpelli já sentiu na pele até aonde pode ir o amor ao cinema. “Nosso projetor era aquele de rolinhos, que tinham que ser trocados a cada dez minutos. Quando estava exibindo ‘Ben-Hur’, houve uma pequena diferença de cenas nesta passagem e um espectador foi à minha fala me dizer que eu estava roubando filme!”, lembra ele, divertido.

Apesar do medo que ficou, precisando ser acompanhado até o ponto de ônibus por um policial que estava na plateia, na hora de ir para casa, Scarpelli gosta de contar essa história para diferenciar o tipo de público da sala do Palácio das Artes, que comemorará 40 anos de atividades em outubro.
Criada após um grupo de cinéfilos de Belo Horizonte se reunir para ver filmes no Grande Teatro, o cinema não perdeu o papel: dar acesso a obras importantes de todo mundo.

Mônica Cerqueira foi responsável por dar a cara que o cinema tem hoje, apresentando uma programação regular e diversificada. Antes de virar a coordenadora, ela era uma das secretárias da presidência que sonhava um dia em trabalhar no cinema, uma de suas paixões.

A oportunidade chegou, mas não sem polêmica. “O pessoal da área pediu a minha destituição nos jornais e na Coordenação de Cultura do Estado. Afinal, quem era aquela menina? Não era do cinema”, recorda Mônica, que acabou ficando dez anos à frente do espaço, criando mais tarde outras salas cult, como o Savassi Cineclube e o Usina.

Criou mais controvérsia ao exibir um filme dos Beatles, até então visto como entretenimento puro. “Queria que a sala fosse conhecida, queria abrir a roda. Ele ficou aquecido e nunca deixei isso esfria", lembra Mônica, que, para não perder público, cheogu a substituir o projecionista que havia quebrado a perna. "Não iria fechar a sala após chegar a esse ponto. Então eu mesmo fui ser a operadora”.

Não é nenhuma “maldição”, mas, uma vez que se passa pelos bastidores do Cine Humberto Mauro, o vínculo com o espaço parece se tornar vitalício, com as pessoas sempre retornando a ele, de uma forma ou de outra.

Ana Siqueira foi coordenadora da sala em 2008 e saiu para ter a sua filha, Rosa. Voltou cinco anos depois, para ficar à frente do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Belo Horizonte, criado em 1994 por José Zuba Jr., outro nome fundamental na história do Humberto Mauro.

“É muito gratificante trabalhar num cinema que tem esse perfil. Além da possibilidade formativa, tendo na plateia gente que mais tarde estaria dirigindo seus filmes, havia o trabalho cotidiano com a história do cinema. Não passava um dia sequer que eu não entrava na sala, mesmo que por alguns minutos”, registra Ana.

A história de Bruno Hilário, atual gerente da sala, começa em 2009, quando entrou como estagiário na gestão de Daniel Queiroz. “Na época, eu estudava cinema e tinha no Humberto Mauro um espaço democrático que unia divertimento e filmes de diferentes lugares”, destaca.

Ele acompanhou de perto a transformação da sala, primeiramente aos olhos do próprio Palácio das Artes, que passou a dar ao cinema o mesmo status de suas óperas e apresentações de balé. “Foi muito significativa essa passagem para gerência, ganhando maior autonomia e um lugar mais estabelecido na política interna”, observa.

Assim o Humberto Mauro se tornou referência nacional na realização de mostras retrospectivas, várias delas acontecendo na gestão de Rafael Ciccarini. Eram verdadeiras buscas arqueológicas, com cópias vindas do exterior, para não deixar nenhum filme de fora.

Acompanhadas por debates e catálogos, as mostras de Alfred Hitchcock, Charles Chaplin e Howard Hawks chamaram a atenção para a programação oferecida pela sala pública.

"É um lugar democrático, que abriga todos os tipos de filmes", observa atual gerente

A busca por ampliação e diversificação do público levou o cinema a um grande desafio, há quatro anos, quando passou a exibir filmes que não exatamente clássicos absolutos do cinema mundial.

“Quando promovemos uma mostra de Elvis Presley, um grupo muito reduzido de cinéfilos chegou a questionar. Não esquecemos os clássicos, mas buscamos dar uma outra cara”, destaca Hilário.

O cinema realizou, em seguida, mostras de “Star Wars”, de filmes de terror dos anos 90 e, com início nesta quinta-feira, uma dedicada às obras de artes marciais.

“Os filmes não são exibidos sem contextos. Há toda uma discussão que se dá em torno deles, propondo um outro olhar”, explica o atual gerente, lembrando que a quadrilogia “Pânico” foi apresentada no mesmo dia, coincidentemente, que a Cinemateca Francesa promovia uma sessão especial destes filmes.

No lado de infra-estrutura, a sala também passou por uma grande reforma em 2013, com novos sistema de som e imagem, tornando-se uma das primeiras de Belo Horizonte a ter projeção em DCP (Digital Cinema Packpage), que substitui as películas.

“O Cine Humberto Mauro se tornou um templo do cinema. Não só como um lugar sagrado, como a casa do cinema, mas também este lugar democrático, que abriga todos os tipos de filmes. Falar do valor de uma obra é sempre subjetivo e que temos nos permitido é chegar a risco, a um confronto. Isso é promover o diálogo”, analisa.

Texto e imagens reproduzidos do site: hojeemdia.com.br

quinta-feira, 5 de abril de 2018

A era de ouro do cinema em Bagé


A era de ouro do cinema em Bagé

Ferreira  

IV Festival de Cinema da Fronteira

Mas há que se destacar que Bagé possui uma personalidade ilustre, que, apesar de não ser realizador de cinema, encheu de sons e imagens os sonhos de muitos bajeenses, desde 1956. Empreendedor, empresário, contraditório, sonhador. Todos esses são sinônimos para definir Aristides Kucera, 86 anos.

O primeiro contato com as exibições foi em 1949, quando abriu seu primeiro cinema em Santiago. Mudando-se para São Gabriel em seguida, foi responsável pela abertura de mais dois empreendimentos. Em 1956, recebeu a proposta de compra de seu primeiro cinema em Bagé, o Cine Presidente, situado na esquina das ruas Fabrício Pillar com Juvêncio Lemos, a famosa “Baixada Bajeense”. Os primeiros filmes exibidos por ele foram: “Os Três Corsários” e “A Vida de Puccini”.
Após um ano de sucesso nas exibições do cinema em Bagé, Kucera enfrentou sua primeira prova de fogo. Conforme Elizabeth Macedo de Fagundes, na obra Inventário Cultural de Bagé, após 40 anos, o antigo Cine Teatro Avenida havia sido demolido em 1954. Porém, reconstruído, em 1957 foi reinaugurado. Na época, o cinema foi considerado um dos mais luxuosos e modernos do Rio Grande do Sul, contando com calefação, renovação de ar, poltronas estufadas e equipamento de exibição de qualidade de ponta. “Naquela noite, todas as sessões do cine Presidente tiveram o público total de 13 pessoas. Eu percebi, ali, que se não fosse embora daqui, era o fim para mim”, relata ele.

Mas com espírito empreendedor do proprietário, o cinema seguiu funcionando de forma normal. Seguia apresentando os filmes, que incluíam os clássicos de Oscarito. Em seguida, o empresário mostrou o espírito arrojado para os negócios e, através de uma parceria com outros dois empresários de fora da cidade, comprou os três maiores cinemas da cidade: Avenida, Glória e Capitólio. A isso, somavam-se o antigo Cine Presidente, na baixada, e o novo, na Marechal Floriano, no prédio do antigo Apolo. Essa foi a época de ouro do cinema bajeense. “Esse foi o negócio que mudou a minha vida em Bagé”, define ele.

Com grande público nos três principais cinemas, decidiu, então, fechar os dois cines Presidente, no início da década de 1960. Mas não parou por aí o interesse da sociedade pela sétima arte. Adquiriram salas de exibição em diversas cidades do Estado, chegando a ter 22 salas próprias funcionando concomitantemente. Mas o negócio bem sucedido cobrava seu preço. “Eu passava mais na estrada do que em casa. Ficava viajando mais de 20 dias por mês, visitando os cinemas das outras cidades. Tenho 86 anos e só tive três férias na vida”, conta.

Nessa mesma época, adquiriu cinemas em Dom Pedrito, Rosário do Sul, Cacequi, Alegrete, Quaraí, Cachoeira do Sul, Cassino e dois em Porto Alegre (Rosário e Estrela). Na ocasião, chegou a administrar 27 empreendimentos no RS.

A primeira grande crise dos cinemas aconteceu na segunda metade da década de 60, com a criação de uma lei que colocava como questão obrigatória a exibição de filmes nacionais em, no mínimo, 142 dias do ano. “Naquela época não havia uma grande produção, não tinha uma demanda para atender essa lei. O jeito era passar tudo o que conseguíamos obter de material”.

Kucera, à contragosto, começou a exibir alguns filmes nacionais de produção mais baixa, que começaram a afastar as famílias do cinema. “A maioria dos filmes tinha cenas fortes, era pornografia barata. Os pais começaram a afastar os filhos do cinema por causa disso”, relata.

Mas Bagé só sofreria com a perda de um cinema em 1978, com o fechamento do Glória. O fechamento do Capitólio veio logo em seguida, em 1982. Os outros dois empreendimentos só viriam a fechar décadas mais tarde. O Avenida encerrou suas atividades em 1995, tendo sido consumido por um incêndio em 1996. Nunca mais foi reativado. Já o Glória ganhou uma nova chance. Em 1998 reabriu, funcionando apenas na parte de cima da antiga sala. Encerrou definitivamente as exibições em 2000. Atualmente, o prédio abriga uma igreja evangélica. Muito da grande quantidade de material que o empresário ainda guardava foi queimada no incêndio do Edifício Avenida, em 1996, que destruiu as dependências já desativadas do cinema.

Com uma grande história de amor pela arte, Kucera ainda hoje é reconhecido. Foi escolhido como presidente de honra do III e IV Festival de Cinema da Fronteira. Hoje, ele reconhece o esforço dos realizadores locais como uma ascensão da cidade a uma nova era de ouro da sétima arte. “O festival surgiu de uma necessidade de incrementar o cinema na região. Ainda é um evento pequeno, mas tenho certeza de que vai crescer muito ainda”, afirmou.

Mesmo a idade avançada não impede Kucera de fazer planos. Ele conta que, mesmo hoje, sonha com a reabertura do Cinema Avenida. “Ainda hoje me pego pensando como seria se eu reabrisse, mas, em seguida, descarto o pensamento. Só posso adiantar que vem novidade por aí”, revela, fazendo mistério sobre a novidade.

Dizem que a primeira vez em um cinema a gente nunca esquece. Essa máxima se faz verdade, pelo menos para dois antigos frequentadores dos cinemas locais. Este foi o elo entre os amigos Valquir Marques, 67 anos, auditor fiscal aposentado, e o projecionista Valdenir dos Santos Veleda, 58 anos.
Marques relembra a primeira vez que foi ao cinema. “Fui com meu irmão mais velho no Cine Glória pela primeira vez em 1953. Eu tinha uns sete, oito anos. Quando entrei, foi aquele susto. Não lembro o filme a que eu fui assistir, mas recordo o meu choque com aquela tela enorme. Hoje em dia é até comum, mas, na época, quando só tínhamos o rádio, foi estarrecedor. Nem sei definir o que senti”, conta.

Já Veleda recorda que costumava assistir aos filmes que o padre Álvaro Muraro exibia aos estudantes do São Pedro. Mas a primeira vez que adentrou a sala de exibição do Glória foi escrita a crônica de um amor anunciado, que dura até hoje. A paixão virou profissão e Veleda nunca precisou se afastar das telas, assim como um dos personagens de seu filme preferido, o Totó de “Cinema Paradiso”. “Foi unir o útil ao agradável”, diverte-se o projecionista.

Os dois amigos, aproximados pelo amor ao cinema, também conquistaram a amizade de Kucera. Os três reúnem-se seguidamente para conversar sobre o assunto preferido: cinema. Marques, inclusive, já elaborou um roteiro para filmar um documentário sobre a vida do empresário. “Tem muita história para contar, é uma vida inteira dedicada às exibições. Tem material para muitas horas”, adianta.

Fábrica de sonhos

Com o advento do cinema, no final do século XIV, a atração se espalhou pelo mundo inteiro e se transformou em uma grande paixão. Era na tela que o público projetava seus sonhos e conhecia um pouco mais do mundo, que até então era restrito àqueles filhos de classes abastadas. O cinema possibilitou um sem fim de fantasias, que alimentavam, não só as crianças, com aventuras semanais como Flash Gordon e Tarzan, mas também davam sabor à vida e som às risadas dos adultos, com os filmes de Charles Chaplin, Buster Keaton e O Gordo e o Magro.

Bagé, em toda a sua história, sempre deu muito espaço às artes. Não poderia deixar de ser assim com a arte que sempre teve grande aceitação da população . Conheça, abaixo, algumas das fábricas de sonhos da cidade:

*- Cinema Apolo: de propriedade de Francisco Santos, foi construído em 1934. O projeto e a construção ficaram a cargo de Lourenço Lahorgue. Fechou na década de 1950 e cedeu espaço ao Cine Presidente, de Kucera.

*- Cinema Petrópolis: foi inaugurado em 1° de janeiro de 1930, no local onde hoje funciona a Padaria Globo, em frente à praça Santos Dumont. Um incêndio ocorrido em 1937 destruiu o prédio e matou uma mulher e uma criança que estavam na casa do zelador. Após o sinistro, não foi reconstruído.

*- Cine Teatro Glória: foi inaugurado em 7 de fevereiro de 1947, pertencente ao Circuito de F. Cupelo & Cia. Ltda. O filme exibido na inauguração foi “Dois Marujos e uma Garota”. O cinemascope do Cine Glória foi inaugurado em 11 de novembro de 1955. Foi fechado pela primeira vez no final da década de 1970 e reaberto em 1998, permanecendo dois anos em funcionamento. Atualmente, funciona no prédio uma igreja.

*- Cine Teatro Coliseu: a casa de espetáculos foi inaugurada ainda no século XIV, quando eram realizadas touradas e exibições circenses. Em 1897, durante a apresentação de uma companhia de ginástica, houve a explosão de um depósito de querosene que alimentava os bicos de iluminação. Três menores e um adulto morreram em consequência. Em 1907, começou a exibição de filmes da empresa Maciel & Coca, de Livramento, que percorria o Estado com o cinema ambulante. Em 1931, foi inaugurado o sistema sonoro. Cerrou suas portas em 15 de janeiro de 1946. O prédio que atualmente abriga a área é o Centro Antoniano.

*- Cine Capitólio: foi inaugurado em 12 de janeiro de 1934 pelo empresário Salim Kalil. Na noite de 29 de março de 1941 um incêndio se espalhou e destruiu o prédio, com danos apenas materiais. Foi reconstruído e reinaugurado em 1942. Fechou suas portas de vez em 1982.

*- Cine Teatro Avenida: Inaugurado em 1914.O cinema falado chegou a Bagé em agosto de 1929 e foi no cinema Avenida sua primeira apresentação. O filme “La Cumparsita” foi acompanhado de uma orquestra típica argentina com a música Remember. Em 21 de setembro de 1931, houve a estreia do cinema sonoro, com o filme “Bancando o Lorde”, do cantor Harry Richmann. Foi demolido em 1954 e um novo cinema inaugurado em 1957, junto com o conjunto residencial Condomínio Avenida. O cinema foi desativado em 1995 e um grande incêndio, em 1996, destruiu as dependências da sala de cinema.

* Inventário Cultural de Bagé – Elizabeth Macedo de Fagundes

Fonte: jornal Minuano

Texto e imagem reproduzidos do site: alternet.com.br

Projecionistas levam suas vidas nos corações dos cinemas do Recife


O projecionista Thaynam Lázaro trabalha no Cinema do Museu
Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem

Publicado originalmente no site do Jornal da Cidade, em em 16/03/2018

Projecionistas levam suas vidas nos corações dos cinemas do Recife

Profissionais praticamente invisíveis, os projecionistas colecionam histórias enquanto projetam outras nas telonas dos cinemas

Por Rostand Tiago

O cinema como experiência abraça uma gama de elementos. É um ritual que começa ao se programar em casa, deslocar-se e sentar em uma sala escura com estranhos, ficando totalmente vulnerável a uma luz que vem das profundezas do local. Por trás desta luz, que projeta as imagens das narrativas (ou não-narrativas), há alguém, de carne e osso, que acaba por acumular histórias ao projetar outras. A visão ampla da sala de exibição e os percalços da profissão ajudam nisso. E assim, estes projecionistas, profissionais invisíveis, levam suas vidas nos corações dos cinemas da cidade.

Miguel Tavares, 44, tem sua vida ligada a cinemas desde sua juventude. Seu pai trabalhou na construção do extinto Cinema Veneza, localizado na Rua do Hospício, e garantiu um emprego na área de limpeza após o término da obra. Foi por meio dele que Miguel também começou a trabalhar na mesma função no local e foi migrando por vários cinemas, até parar no São Luiz. Lá, começou a frequentar a cabine da projeção e foi aprendendo o ofício de longe, apenas observando. Quando um projecionista precisou tirar férias, surgiu a oportunidade de mostrar sua expertise com o equipamento. Vingou e já trabalha como projecionista há 12 anos.

"Sempre fui apaixonado por cinema, aperreava meu pai para me colocar pra dentro da sessão nos fins de semana e hoje estou aqui, trabalhando no coração do cinema", afirma Miguel. Entre suas histórias enquanto projetava histórias, ele lembra de quando precisou ficar mais de duas horas com a mão dentro do projetor. "O filme de película 'torou' durante a projeção e não podia deixar arranhar a fita, então coloquei a mão lá para impedir isso. A sessão estava lotada, era uma pré-estreia, se parasse a exibição, ia ser o maior vexame. Botei o dedo para a fita correr livre e não tocar em nada por duas horas", relembra.

Situações como essa ficaram mais raras com a transição do equipamento de projeção, que passou da película de 35 mm para o DCP digital, com o projetor adquirido em 2015 pelo São Luiz. "Antes a gente recebia o filme dividido nos rolos e tínhamos que montar em ordem no projetor. Precisava de bastante atenção para o filme não ficar de cabeça pra baixo ou fora da sequência. Agora no digital, tem que ter bastante atenção, colocar o filme certo na playlist, para não ter confusão. Não que a película seja ruim, mas a mudança a qualidade de imagem e som do digital é muito boa", explica. O antigo projetor ainda é mantido e alguns filmes são exibidos nele.

Quem também passou por essa transição tecnológica no cinema foi João Bosco, 54. Entrou profissionalmente para o Cinema São Luiz há 36 anos, em 1982, como técnico de refrigeração. Com o fechamento do cinema em 2006, ele foi transferido para o cinema do Shopping Boa Vista, onde aprendeu o ofício de projecionista. O São Luiz reabriu em 2009 e precisavam de alguém que trabalhasse na cabine e conhecesse o local. Assim, João foi logo convidado para voltar a trabalhar no local, desta vez na cabine de projeção, onde aprendeu também a manipular o equipamento digital com um técnico de São Paulo.

"A película é muito mais complicado. Ela vem dividida, então tem que verificar se está tudo certo, montar parte por parte. Digital é como se sentasse em sua casa, colocasse um DVD e assistisse", afirma.  João Bosco, se orgulha que nesses 12 anos de profissão, nunca ter acontecido nenhum problema em suas projeções e diz ter uma afeição especial aos métodos mais antigos. "Trabalhar com película é uma coisa linda, ir para a bancada, revisar o filme, montar, colocar no projetor, fazer emenda em menos de um minuto caso a fita parta. Digital é mais vazio", conclui João.

Uma história de 20 anos por trás da luz

A projecionista Luciene Arruda possui uma trajetória semelhante a de João Bosco, trabalhando em shoppings e em cinemas menores, com uma carreira cheia de idas e vindas. Tudo começou há 20 anos, quando Luciene se candidatou para trabalhar na bomboniere do cinema do Shopping Recife. A administração do local avaliou o currículo dela e preferiu colocá-la na cabine de projeção, já que tinha alguns cursos da área de eletrotécnica na bagagem. “Tive um treinamento de dez dias lá, aprendi na porrada mesmo, nem sabia como era uma sala de cinema por dentro. Vi todas as máquinas e fiquei ‘meu Deus, vou conseguir mexer nisso não’”, conta Luciene.

Ela venceu as máquinas e trabalhou no complexo sistema de exibição de um cinema multiplex, com dez salas. "Era muita sala para organizar, então a gente não ficava necessariamente na cabine, ficávamos em uma central de monitoramento das cabines. Quando dava algum problema, a gente ia para as cabines e resolvia", conta. Passou dois anos nessa jornada mais movimentada, até que foi chamada para trabalhar na Prefeitura do Recife, no Teatro do Parque no Cine Apolo. Foi conciliando a vida entre a projeção e os estudos de graduação em pedagogia por 18 anos. Estava pronta para começar a lecionar quando foi convidada para trabalhar no Cinema do Museu, administrado pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).

Nessas rotinas, adquiriu um arsenal de habilidades em diversos tipos de projeção. Super-8, 16 mm, 35 mm e, mais recentemente, a digital. "Ao trabalhar com uma sala só, é menos corrido. Como só tem um projetor, a possibilidade de ocorrer um erro deve ser zero. Eu faço tudo com muita responsabilidade para isso não acontecer. Eu amo cinema, então tenho concentração máxima entre tela e projetor, para não deixar nada errado", explica.

O "teste das cabeças"

Mesmo com essa possibilidade de algo dar errado ser quase zero, às vezes algo acontece, mas nada que seja irremediável. Uma das pessoas que divide essa responsabilidade com Luciene no Cinema do Museu é Thaynam Lázaro, que desenvolveu técnicas para conferir se está tudo correndo bem. "Nossa profissão é praticamente invisível, o público só lembra da gente quando algo dá errado. Então, eu uso o 'teste das cabeças' para saber se tá tudo bem. Se as cabeças estão viradas para a tela, as coisas estão funcionando certo. Se estão me olhando, é que tem algo errado", elucida Thaynam.

A relação do jovem de 27 anos com a sétima arte vem desde a infância, quando começou aos 9 anos a frequentar sozinho a sessões do acessível cinema do Teatro do Parque, hoje fechado. "Eu estudava no centro da cidade, ia para o Parque e via o mesmo filme um milhão de vezes", afirma. Frequentava também outros cinemas do centro, chegando ao ponto de conhecer os funcionários do cinema do Shopping Boa Vista e conseguir entrar de graça quando as sessões não estavam muito lotadas. Apaixonado, formou-se em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e participou de um curso para se capacitar na área de projeção. Thaynam ainda se envolve com produções no seu tempo livre. 

Segundo ele, o que mais pesa quando pensa na profissão é a responsabilidade com o aparato que lida. "São equipamentos caros, é um órgão público, se quebrar alguma coisa, o cinema meio que fecha. É preciso ter muito cuidado e zelar por tudo", aponta. Esse zelo é sintomático de um profissão que zela também pela experiência cinematográfica para quem faz todo o ritual da ida ao cinema. Afinal, se a sétima arte mudou a vida destes profissionais invisíveis, que ajudam no bombeamento do coração do cinema, nada mais justo do que se esforçarem para que ela continue existindo da melhor forma e mudando outras vidas.

Texto e imagens reproduzidos do site: jconline.ne10.uol.com.br