sexta-feira, 23 de junho de 2017

Como funcionam os projetores de cinema


Projetor de Cinema antigo

Quem nunca ficou curioso para saber como funcionam os projetores de cinema ao olhar para a janela da sala de projeção enquanto esperava o filme começar? Pois é! Todos que costumam ir ao cinema, pelo menos uma vez na vida, já se perguntaram o que rola por trás daquele vidro!

Agora vamos conhecer os princípios básicos dos projetores cinematográficos e algumas curiosidades sobre as salas de projeção!

A função básica de um projetor de cinema é fazer com que a película do filme em 35mm seja projetada em uma tela, normalmente a uma velocidade de 24 frames por segundo. Para isso é necessário que ele contenha:

• Um sistema de bandejas, motores elétricos, rodas dentadas e cambers, que armazenam e movem a película na velocidade e posição correta;

• Uma fonte de luz, espelhos e um condensador, que irão iluminar a película;

• Um obturador e outro tipo de condensador (janela de abertura), que fará a luz incidir na película e passar pela lente no momento correto;

• Um sistema de leitura de áudio; e claro:

• Uma lente, que projetará a imagem em grande escala na tela do cinema.

Veja abaixo um esquema que mostra os componentes básicos de um projetor:

2 - Exemplo dos componentes básicos de um projetor

Continua não entendendo nada? Vamos começar a explicação pelas películas de cinema!
Como já falamos aqui no Pipoca de Pimenta, para obtermos a sensação de movimento, precisamos enxergar uma seqüência de imagens estáticas a uma velocidade mínima de 12 imagens por segundo. No cinema, essa velocidade é de 24 frames por segundo e na TV, normalmente é de 30 frames por segundo.

As películas de cinema são fitas que contém uma seqüência de frames, ou seja, imagens estáticas dispostas seqüencialmente, que serão reproduzidas de forma que a cada 1 segundo, 24 imagens sejam projetadas na tela. Ao lado dos frames fica a faixa de áudio, onde é gravado o som do filme, e nas bordas ficam os furos de tração, que se encaixam nos dentes de engrenagens, também chamados de rodas dentadas, os quais possibilitam o movimento da película pelo projetor.

3 - Filme de película de 35mm

Os filmes em película de 35mm tem um alto custo de produção pois cada segundo do filme corresponde a 45,7 centímetros da película. Sendo assim, em 1 minuto de filme, temos 27,5 metros de película, em 1 hora de filme teremos 1.650 metros, e num filme de 2 horas, teremos 3.300 metros! Juntando mais 20 minutos de propagandas, avisos e trailers, vamos ter 3.850 metros de película!

Devido ao tamanho dos longas-metragens, os distribuidores os dividem em rolos separados. Um filme de duas horas, por exemplo, será enrolado em 5 ou 6 rolos de até 600 metros cada.

4 - Rolo de filme em película de 35mm pequeno (até 600 metros por rolo)

Antigamente, os filmes eram exibidos utilizando dois projetores. Enquanto um projetor passava o primeiro rolo do filme, o segundo projetor ficava preparado para exibir o segundo.Enquanto o segundo rolo era exibido, o terceiro rolo era colocado no primeiro projetor e assim por diante. Cabia ao projecionista, nome dado ao profissional encarregado de projetar o filme, fazer a troca de projetores no momento correto. Se você costumava ir ao cinema antigamente você deve se lembrar do sinal que auxiliava o projecionista a fazer essa troca. Faltando apenas 11 segundos para o rolo acabar, um pequeno círculo aparece no canto superior direito da tela, e quando resta apenas 1 segundo de rolo, ele aparece novamente indicando o momento exato no qual o projecionista deve apertar o botão que desliga o primeiro projetor e que liga imediatamente o segundo.

Sendo assim, o projecionista podia então colocar o primeiro rolo em outra sala para exibir o mesmo filme, e conforme os rolos fossem acabando, ele os recolocava nos projetores das salas seguintes até que a última sala exibisse o rolo final.

Isso permitiu a construção de Cinemas Multiplex, um conjunto de salas num mesmo cinema. Hoje aqueles com 15 a 20 salas são chamados de Cinema Megaplex.

Nos cinemas atuais o sistema de exibição em rolos menores não é mais utilizado, já que as bandejas, discos onde ficam enroladas as películas, permitem exibir o filme todo em um único projetor.

5 - Projetor e bandejas na sala de projeção

Sendo assim o projecionista agora fica encarregado de montar o filme em uma única bandeja, ou seja, ele deve literalmente emendar os rolos das propagandas, avisos do cinema, trailers e os rolos do próprio filme para formar o rolo completo que será exibido de forma contínua. Para isso ele utiliza uma tesoura, um rolo de fita adesiva especial para películas cinematográficas e um aparelho (foto abaixo) que auxilia na montagem e no corte exato da fita adesiva nos furos de tração.

6 - Coladeira de película de 35mm

7 - Projecionista emendando a película de 35mm

Depois que a película está completa e montada na bandeja de entrada, o projecionista pode então colocar o filme na entrada do projetor e iniciar a sessão!

Para o projetor exibir o filme, a película precisa avançar um frame, parar por uma fração de segundo, e em seguida avançar para o próximo quadro. Antigamente, para fazer isso, o projetor continha uma alavanca, conhecida como garra, que ficava responsável por mover o filme utilizando os seus furos de tração. Hoje os projetores contêm rodas dentadas intermitentes, que giram o suficiente para puxar o filme um quadro, parar por um instante e rodar novamente, também utilizando os furos da película, mas de forma mais precisa e sem gastá-los excessivamente. Os cambers, pequenos rolamentos com molas, ficam responsáveis por esticar o filme auxiliando sua passagem pelas rodas dentadas.

8  - Película passando pelas rodas dentadas do projetor

Um dos elementos principais do projetor é sua fonte de luz. Antigamente eram usadas lâmpadas de arco voltaico de carvão, mas elas possuem uma vida útil muito curta. Atualmente as lâmpadas de gás xenônio são as mais usadas, têm uma vida útil de aproximadamente 6 mil horas e chegam a custar 5 mil reais cada! A lâmpada fica posicionada no centro do projetor, em um compartimento próprio, e envolta em um refletor parabólico de espelhos. Os espelhos refletem a luz direto para um condensador (conjunto de lentes), que intensifica e focaliza a luz na lente do projetor.

9 - Lâmpada de projetor cinematográfico

Após sair do compartimento da lâmpada, a luz concentrada se depara com o obturador do projetor. O obturador é um sistema que contém uma lâmina de metal que realiza um ciclo de 24 rotações por segundo. A lâmina bloqueia a luz e só permite que ela passe em certo momento de sua revolução. Esse bloqueio é sincronizado com o avanço da película, de forma que a luz só incide na mesma no momento exato em que cada frame está parado em sua posição correta. Sem o obturador o filme teria imagens tremidas e fantasmas pela tela, além do espectador perceber que a película está em movimento.

10  - Obturador impedindo a passagem da luz enquanto há a troca de frame pela garra

11  - Obturador permitindo a passagem da luz enquanto o frame está parado na Janela de Abertura

Depois de passar pelo obturador, antes de atingir o filme, a luz também se depara com outro tipo de condensador, também conhecido como Janela de Abertura. Este é uma espécie de moldura removível de metal que impede a luz de atingir certas partes da película, permitindo que o projetor ilumine apenas o frame do filme. Sem o condensador nós veríamos nas proximidades da tela as faixas de áudio e até mesmo os furos de tração da fita. Eles existem em diversos tamanhos e variam de acordo com as telas de cinema e o tipo de película utilizada no filme.

12 - Condensador ou Janela de Abertura sobre a película

A luz então passa pela película, que entra no projetor de cabeça para baixo, e em seguida passa pela lente, onde a imagem é invertida e ampliada. Na maioria dos projetores a lente é removível, possibilitando ao projecionista mudá-la de acordo com o formato do filme. As lentes mais comuns são a Plana e a CinemaScope. A maioria dos projetores mais novos tem um sistema de lentes integradas, o projecionista só precisa girar o disco que tem as lentes fixadas para trocar de uma para outra. Após sair da lente, a luz passa pela janela da sala de projeção e finalmente chega à tela!

13 - Lente de projetor cinematográfico

Mas o processo todo ainda não acabou… Não estamos nos esquecendo de algo? Sim, o som do filme!

Após passar pela lente, a película continua seu caminho até chegar ao leitor de áudio, que fica logo abaixo do projetor. O áudio é interpretado pela leitura das faixas magnéticas gravadas ao lado dos frames na película. O leitor converte as informações em sinais elétricos que são enviados aos amplificadores que, por sua vez, enviam-nos direto às caixas de som espalhadas pela sala do cinema.

Como o leitor de áudio fica alguns centímetros abaixo da lente do projetor, para que a imagem e o som fiquem em perfeita sincronia, o áudio do filme é gravado nas faixas magnéticas de 19 a 20 frames adiantados.

14 - Leitor de áudio do projetor (Acima da bandeja de saída)

Finalmente a película é enrolada novamente na bandeja de saída e, dependendo do projetor, sai de forma que não precisa ser rebobinada, dessa forma, está pronta para exibir o filme na próxima sessão!

Durante muitos anos os projecionistas desenvolveram diversas técnicas inovadoras que permitiram a automação dos projetores de cinema. Uma das mais interessantes e úteis é a Marca Impressa. Trata-se de um pequeno pedaço de metal preso na borda da película do filme em um ou mais locais específicos. Quando a película estiver passando pelo projetor, a marca impressa de metal passa no momento certo por dois contatos elétricos, fechando o circuito e funcionando como um interruptor. A partir daí pode-se programar diversas funções automáticas, tais como apagar as luzes laterais da sala, alterar a lente do projetor, mudar o formato de áudio dos trailers para o filme e até mesmo abrir ou fechar as cortinas que cobrem as laterais da tela de projeção quando esta não é totalmente utilizada.

15 - Projetor de película de 35mm da rede Cinemark

Hoje em dia, apesar de ainda haver alguns cinemas menores que utilizam projetores antigos, a maioria dos cinemas já conta com equipamentos modernos e automatizados que facilitam o trabalho dos projecionistas e mantém a qualidade dos filmes exibidos em todas as sessões, como é o caso dos projetores digitais!

Mas isso é assunto para uma próxima vez!

Por Lucas T. R. Lopes.

Texto e imagem reproduzidos do site: pipocadepimenta.com

O Canto da Projeção









A cabine de projeção do Cinema São Luiz, localizado no terceiro andar do estabelecimento fixado no Edifício Duarte Coelho, é um lugar repleto de equipamentos raros e históricos utilizados para projetar filmes, contando com 3 antigas máquinas que funcionam até hoje. Porém, com a chegada do equipamento digital, no começo dos anos 2010, o cinema decidiu se modernizar e utilizar as máquinas de última geração para exibir os filmes em cartaz, mas sem tirar a clássica essência cinematográfica.

Nesta galeria, você pode conferir algumas fotos dos equipamentos de antigamente, além de um vídeo mostrando a transição da clássica projeção para a nova no Cinema São Luiz, com explicações do projecionista Miguel Tavares, que há 24 anos presta seus serviços ao cinema com muita simpatia e profissionalismo.

Texto e imagens reproduzidos do site: unicap.br



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A sala de projeção do Cinema São Luiz é uma verdadeira viagem no tempo para
 os amantes da sétima arte. Agora, que tal viajar mais uma vez para o passado 
conferindo a reportagem sobre os antigos cinemas de rua do Recife? 
Clique no link abaixo:

http://www.unicap.br/webjornalismo/ocantodocinema/site/

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Cine Humberto Mauro - 30 anos

Na projeção. Alípio José Ferreira, 78, admirador dos clássicos que viu da cabine.

Publicado originalmente no site O Tempo Magazine, em 11/10/2008.

Cine Humberto Mauro - 30 anos. 

Resistência e memória

Por Marcelo Miranda. 

O Cine Humberto Mauro sempre se caracterizou tanto pela ousadia de suas programações - com mostras e retrospectivas de cinemas vindo dos países mais inusitados, como Rússia, Hungria, Suécia e, nos anos 80, até mesmo da Alemanha Oriental - quanto por formar diversas gerações de cinéfilos. O pesquisador e professor Ataídes Braga está ligado às duas vertentes. Ele freqüenta o Cine Humberto Mauro desde o final dos anos 70, quando tinha 16 anos, e guarda todos os folhetos de programação desde aquela época. O objetivo é publicar o livro "Cachoeiras e Filmes", em processo bastante adiantado. Ataídes pretende registrar todas as mostras que já passaram pela sala em suas três décadas - e mesmo antes. "Já tenho muito material do período pré-inauguração do cinema", conta ele. O título da publicação homenageia o patrono da sala - Humberto Mauro dizia que "cinema é cachoeira". "Era um espaço de formação política, que insistia em exibir filmes e gerar variadas discussões", afirma o pesquisador. "Hoje, ainda mantém a resistência de não se render a filmes comerciais e seguir com debates", avalia.

A PROGRAMADORA. Herdeira de um cargo que já passou por dezenas de nomes - Helvécio Ratton, Rafael Conde, Mônica Cerqueira, José Zuba Jr e Daniel Queiroz, entre outros -, a jornalista Ana Siqueira é a diretora de programação da sala desde janeiro deste ano. "O contexto de um trabalho como este mudou muito. O Cine Humberto Mauro surgiu numa época em que os cinemas de rua estavam no auge, não havia DVD nem internet e os cineclubes funcionavam com toda a força. Atualmente, a existência de uma sala como a nossa tem ainda mais diferencial", diz Ana, que enxerga o cine como "um abrigo" para o que não teria vez em outros lugares e, ainda assim, é relevante de ser exibido. A vida de Ana literalmente é paralela ao Cine Humberto Mauro. Ela nasceu apenas um mês depois da inauguração da sala. Obviamente, desde cedo passou a freqüentá-la. Soa uma bela coincidência, portanto, que Ana esteja grávida - quando o filho (ou filha) tiver a sua idade, o Cine Humberto Mauro vai estar completando 60 anos.

O PROJECIONISTA. Aos 78 anos, Alípio José Ferreira se orgulha de ser o mais longevo projecionista ainda em atividade em Belo Horizonte. Nascido em Conselheiro Lafaiete, Alípio está no ofício há 51 anos. "Comecei ainda como ajudante, mexendo nos rolos de filme", relembra ele. Impressiona a quantidade de cinemas onde trabalhou. Alípio faz questão de tentar seguir a cronologia, mas se perde quando percebe ter deixado algum local para trás. No saldo, entram, por exemplo, os extintos Cine Rosário, Cine Tamoios, Roxy, Guarani, Havaí, Pompéia, Serrador, Astória e Salgado Filho. Ele entrou para o Cine Humberto Mauro em 1987. "O que me faz permanecer na profissão é simplesmente porque eu gosto", resume. De filmes, claro, também é fã. Seus favoritos - vistos da cabine de projeção dezenas de vezes - são todos clássicos: "... E o Vento Levou", "O Morro dos Ventos Uivantes", "O Mágico de Oz" e "Cidadão Kane".

O PORTEIRO. Outro funcionário antigo na casa, curiosamente José Horta de Oliveira, 65, entrou no mesmo ano de Alípio. Nasceu também no interior, em Bom Jesus do Galho, e está na capital há 33 anos. Antes do Cine Humberto Mauro, Horta trabalhava no Cine Nazaré e no Cine Regina - sempre como recepcionista. "É um serviço muito bom, mas que exige um pouco de paciência porque cada pessoa é de um jeito", comenta ele. "Hoje está mais complicado, os jovens são muito desobedientes." A função de José Horta consiste em estar à disposição dos freqüentadores da sala no que ele puder ajudar - "tento não deixar fazer barulho na sala e também controlo o ar-condicionado". Entre um momento de folga e outro, consegue dar uma espiadinha nos filmes em exibição. "Aqui é interessante porque passa filme de arte, né? E de tudo quanto é país." Dos que se lembra, conta gostar muito de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e assume ser fã dos franceses Gérard Depardieu (ator) e François Truffaut (diretor).

A MOSTRA. Nas celebrações dos 30 anos do Cine Humberto Mauro, a sala exibe, de 15 de outubro (próxima quarta-feira) ao dia 26, 12 filmes escolhidos por 12 dos antigos programadores do lugar. "Foi uma idéia que a gente teve de ir atrás dessas pessoas e mostrar como elas fazem parte dessa história que está sendo formada", explica Ana Siqueira. Cada ex-curador teve liberdade de escolher um título a ser exibido na mostra (veja quadro). "Com as escolhas particulares de todos eles, conseguimos formar um retrato bastante diversificado e condizente ao perfil do Cine Humberto Mauro!, conclui.

Texto e imagem reproduzidos do site: otempo.com.br

O Projecionista Almeida


Há 34 anos projetista garante boa imagem nos cinemas

Apenas um profissional do meio cinematográfico sente de imediato a reação do público ao seu trabalho: o projecionista. Imagem fora de foco, legendas abaixo da tela ou problemas no som provocam assobios e vaias imediatas. José Luis de Almeida certamente não sabe o que é isso. Considerado um dos melhores do ramo, ele se dá ao luxo de se dedicar apenas a festivais de cinema - é responsável pela projeção de alguns dos principais no Brasil. Profissional há 34 anos, Almeida conta que se interessou pela projeção aos 9 anos. "Meu pai tinha um pequeno restaurante ao lado do antigo Cine Cingapura, na Vila Maria, e os projecionistas, clientes assíduos, deixavam-me entrar e assistir da cabine", lembra ele. "Com 13 anos, já me tornei ajudante de projeção e na prática era eu quem fazia tudo." A semelhança com o menino Toto, do filme Cinema Paradiso, também foi notada por Almeida. "Quando vi o filme pela primeira vez, emocionei-me duplamente", conta. Almeida trata de desmistificar a imagem que todo mundo faz dos projecionistas, ou seja, de que assistem a todos os filmes. "Na verdade, a gente não consegue ver boa parte das películas, pois estamos ajustando o equipamento, trocando rolos e coisas assim", lamenta ele, que adora cinema. Engenheiro eletrônico, em pouco tempo ele foi trabalhar na Kodak. Tornou-se especialista em imagens, projeção e projetores. Chegou a criar um aparelho que melhorava a intensidade de luz dos projetores de 16 milímetros e é também um especialista em desenhar salas de projeção. O projeto do novo Cinesesc é dele. "É um dos melhores conjuntos de som e imagem do Brasil", garante. O projecionista conta que já exibiu filmes em praças com 10 ou 20 mil pessoas. Sua maior emoção foi em Juazeiro, na projeção de Milagre em Juazeiro, de Volney de Oliveira, que tem várias cenas com José Dumont interpretando Padre Cícero. "Era época de romaria e havia cerca de 100 mil pessoas na praça mas as pessoas estavam tão fascinadas, tão concentradas, que dava para ouvir o barulho dos grilos no mato", lembra. Nessa ocasião, os mais de 30 anos de experiência em projeções não o impediram de tremer nas bases. A distância entre o projetor e a tela era de 70 metros, a maior que ele já havia feito e o som vinha de um caminhão desses que é usado em trios elétricos. Almeida sentiu a responsabilidade. "Quando vi aquele mar de gente eu gelei, pois imaginei o que fariam comigo se a luz falhasse ou o projetor não funcionasse." Mas o fim foi feliz, como nos filmes de Hollywood.

Texto reproduzidos do site: cultura.estadao.com.br

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Paraná dá adeus ao pioneiro das salas de cinema

 Zito Alves acompanhou as transformações nas salas de cinema da capital.

Harry Luhm teimou e o amigo Zito modificou o projetor 35mm
que guarda na oficina nos fundos de sua casa.

Publicado originalmente no site da Folha de Londrina, em 29/08/2008

Paraná dá adeus ao pioneiro das salas de cinema

Na semana em que morreu o projecionista Zito Alves, a FOLHA conversou com profissionais da área na cidade. Uma profissão em extinção?

Deu no obituário dos jornais da última quarta-feira, dia 27. ‘‘Zito Alves Cavalcanti, 83 anos, comerciante.’’ Citado como memória viva da exibição cinematográfica no Estado, no Dicionário de Cinema do Paraná, de Francisco Alves dos Santos, Zito Alves morreu poucos dias antes de completar 84 anos.

  De sua memória, ficam os textos que escreveu em jornais, o livro ‘‘No giro da manivela’’, de 1996, em que registra histórias ao modo de crônica, com especial atenção às décadas de 40, 50 e 60, de salas de cinema no Paraná – muitas das quais foi o responsável pela instalação, como as da Cinemateca, Luz, Groff e Ritz.

  Deixou, também, alguns depoimentos registrados em vídeo – um deles gravado para o projeto ‘‘Memória Viva do Paraná’’, do extinto Bamerindus. Naturalmente, restam, ainda, as lembranças das pessoas de seu convívio.

  ‘‘Eu ligava para ele todo dia 31 de agosto para dar os parabéns’’, lembra, saudoso, o amigo Harry Luhm, 78. No aniversário de 70 anos de Zito, há 14 anos, Luhm reuniu a turma no hoje extinto Cine Plaza, na Praça Osório, contando para o amigo que assistiriam a ‘‘Pandemônio’’ (1941), uma das comédias favoritas do aniversariante. Chegando lá, a projeção começou com uma surpresa: uma frase em homenagem a Zito, que respondeu emocionado ao presente.

  Em 1973, Zito abriu a Paracine, empresa especializada na manutenção de salas de cinema. Em 1982, Francisco Amancio da Silva começava a sua vida na Sétima Arte, aos 19 anos, como porteiro do Cine Avenida. Abandonando a função de lanterninha pouco depois, passaria a ser o projecionista da sala. ‘‘Fui privilegiado em pegar a época do carvão’’, lembra Amancio, comentando a tecnologia das máquinas que projetavam com a luz emitida pelo mineral em chamas.

  Sobre o contato com Zito, Amancio diz que foi graças a ele que aprendeu muitas coisas sobre cinema. Nas salas de projeção da Fundação Cultural, onde trabalha há 19 anos, conversaram várias vezes. ‘‘Lembro que ele chegava xingando os projecionistas por serem preguiçosos. Muitas vezes o chamavam apenas para apertar um parafuso’’, relatou.

‘Isso não vai funcionar,

Mr. Luhm’

Harry Luhm é um dentista aposentado cheio de idéias. Um dia chegou para Zito Alves e pediu para que fizesse algumas adaptações no projetor 35mm que tinha em casa. Alves não acreditava que as modificações surtiriam efeito, mas acabou topando o desafio do amigo. ‘‘Quando ele viu que, realmente, funcionava, me parabenizou. Foi muito gratificante, pois eu escutava aquilo de alguém que, realmente, entendia de cinema’’, lembra.

  Da época em que era menino, Luhm recorda das sessões em que Zito estava na cabine de projeção. Se ele era eficiente no ofício? ‘‘É um tipo de trabalho que quando não se nota nada de errado, é porque está bom’’, diverte-se.

  Zito começou como assistente de operador do Cine Broadway, em julho de 1941, aos 16 anos, tal como registra o livro ‘‘24 Quadros - Uma viagem pela Cinelândia Curitibana’’, das jornalistas Luciana Cristo e Nívea Miyakawa.

  Depois, foi chefe de cabine, gerente do Cine Lido, por 19 anos, e, ainda, dono de três salas diferentes. Uma época em que os cinemas de rua da cidade eram diversos e em que era comum que os projecionistas tivessem seus assistentes.

  Os tempos são outros, mas a história continua. Dirceu, filho de Zito, segue à frente da Paracine, responsável pela manutenção de boa parte das salas de cinema da Capital.

Rafael Urban (Equipe da Folha).

Texto e imagens reproduzidos do site: folhadelondrina.com.br

Morre Cid Linhares, projecionista dos cinemas de rua de Curitiba...


Morre Cid Linhares, projecionista dos cinemas de rua de Curitiba nos últimos 50 anos

Projecionista era funcionário da Fundação Cultural desde 1987 e era o profissional mais antigo da cidade na arte de projetar filmes.

Para o projecionista de cinema Cid Linhares, o segredo para bem exercer seu ofício era, em primeiro lugar, gostar de cinema. Depois, segundo ele, um bom projecionista precisava ter a consciência de que “acabaram os sábados, domingos, feriados, dias santos e festas”.

 “Tem um aniversário marcado você não pode ir. Um casamento você não pode ir. Um operador de cinema não pode falhar em seu compromisso que é exibir o filme no horário certo”, disse Linhares para uma plateia de jovens operadores há cinco anos na Cinemateca de Curitiba.

Cid Linhares foi enterrado nesta quarta-feira (3). após dedicar 50 dos seus 64 anos de vida a profissão de projecionista de cinema. Em sua carreira, atuou em quase todos os cinemas de rua da cidade. Era servidor da Fundação Cultural de Curitiba e projecionista da Cinemateca desde o dia 5 de outubro de 1987.

Numa entrevista à Gazeta do Povo publicada em 2012, Linhares se orgulhava de nunca ter danificado um só rolo de filme. “Os filmes eram muito fracos e pegavam fogo”. Segundo ele, o ritual da projeção era simples. “Cada filme vem em cerca de cinco rolos de película fotográfica. É o operador que monta e revisa todas as produções antes de colocar no projetor e passar para o público”.

Por suas mãos passaram as projeções de clássicos do cinema, como Ben-Hur, e sucessos de bilheteria, como Ghost. O primeiro é um de seus filmes preferidos, junto com outros épicos, como Os Dez Mandamentos e O Rei dos Reis. Já o blockbuster... “Foi um saco. Ghost ficou um ano e meio passando. Eu não aguentava mais”.

Na época, ele também lamentava a lei a recém promulgada lei antifumo que o privava de um dos companheiros de solidão da sala de projeções. “Quem trabalha aqui é um solitário. Os melhores amigos do projecionista eram o café e o cigarro”.

Como projecionista, Linhares rodou o Brasil e testemunhou a transformação cultural no hábito de frequentar salas de cinema. “A coisa mais gostosa do meu tempo de cinema era ver a pessoa ter reação, sentir o cheiro de cinema. Hoje não existe mais. Está se perdendo a essência”, diz...

Texto e imagem reproduzidos do site: gazetadopovo.com.br

domingo, 18 de junho de 2017

Projecionistas revelam paixão pelo cinema...


Publicado originalmente no site UAI, em 23/12/2011.

Projecionistas revelam paixão pelo cinema e apontam seus filmes preferidos.

Profissionais são responsáveis pela qualidade do som e da imagem de quem frequenta as salas de exibição de BH.

Por Thaís Pacheco.

Marcelo Amâncio tem 54 anos, cinco filhos e está casado com a segunda mulher. Nascido e criado em Belo Horizonte, estudou até o 6º ano do ensino fundamental e tem um dom para eletrônica – conserta aparelhos do gênero para amigos e clientes. Também tem um sistema de som, com caixas e picape, para aluguel ou para que ele mesmo toque em festas.

Valdir Guimarães, de 62, é casado, tem dois filhos e um hobby: cuidar das plantas que ficam na sua casa, um de seus lugares preferidos. Chegou a BH vindo do município de Rio Vermelho, região do Serro, para tentar uma vida melhor na capital como vendedor ambulante.

Edson Teixeira tem 39 e nasceu em Ferros, Minas Gerais. Solteiro, quando não está no trabalho fica em sua casa no Bairro Riacho, em Contagem, e gosta de ver TV e jogos de futebol.

Essas vidas completamente distintas se unem por uma paixão em comum: o trabalho de projecionista de cinema. O mais novato dos três é Edson, na profissão há 22 anos. Marcelo Amâncio está no ramo há 36 e Valdir há 34.

O motivo que os faz ficar tanto tempo no ofício é o mesmo, o prazer do trabalho no cinema em função solitária, silenciosa e que requer responsabilidade com a diversão alheia. Ofício, inclusive, pouco lembrado. “Eles só se lembram que existimos quando nós menos queremos”, brinca Valdir, com o fato de o público só olhar para a cabine de projeção quando há problemas na tela.

Mas os motivos que os fizeram chegar até essa profissão são distintos e curiosos. Marcelo é um apaixonado pela sétima arte. “Ali na Rua Aarão Reis tinha o Edifício Central, com as companhias de filmes. Lá ficavam Metro, Fox e outras, que faziam sessão para revisar filmes”, lembra o técnico, sobre a necessidade de revisar filmes para cortar e consertar trechos danificados. “Ficava catando aqueles pedacinhos e levava para casa para fazer slide na parede, com lâmpada e lente de aumento. Até conhecer o Joaquim, um amigo do bairro que me levou para aprender a fazer projeção no Cine Acaiaca”, conta Marcelo, que entrou no cinema aos 18 anos e nunca mais saiu.

Edson, de geração mais nova, começou a carreira numa sala de shopping, o Del Rey. Quem o ensinou foi Zé Vieira, outro projecionista da velha guarda, até hoje na ativa, na rede Cineart do Boulevard Shopping. Ele não se lembra ao certo de qual foi o primeiro filme que operou a projeção, mas um dos mais marcantes do início da carreira e que ele gosta até hoje foi Meu primeiro amor, (de 1991, com Macaulay Culkin). Antes de iniciar a carreira, aos 22 anos, tinha sido balconista. Quando conseguiu uma vaga de porteiro no cinema, pediu para cobrir férias dos projecionistas. Assim como Marcelo, desde então nunca cogitou outra profissão.

Valdir chegou em Belo Horizonte para ser vendedor ambulante. Aprendeu o ofício de alfaiate e passou a confeccionar calças. Um dia, um amigo lhe disse: “Venha ser projecionista à noite. Você ganha mais dinheiro e não precisa deixar de ser alfaiate”. Lá foi ele para seu primeiro emprego de carteira assinada, aos 28 anos, no Cine Santa Efigênia, sem imaginar que ficaria na empresa pelo resto de sua vida. “A Cinema e Teatro Minas Gerais fechou em 31 de janeiro e eles fizeram o acerto com todo mundo. No dia 1º de fevereiro, a Cineart, que comprou a empresa, me contratou. Faz 34 anos que estou com esse pessoal”, conta ele, que, assim como Edson, sempre trabalhou em dois cinemas. Atualmente, ao lado de Marcelo e Edson, integra o quadro do Usiminas Belas Artes, além do Shopping Cidade.

NOITE E DIA Casos para contar não faltam para Valdir. “Se tivesse anotado todos os filmes que já passei na vida, hoje dava uma história. Mas não o fiz porque jamais pensei que ia ficar tanto tempo nesse negócio”, diz. Um dos primeiros filmes que lembra de tê-lo marcado ao projetar foi Dona flor e seus dois maridos.

Cada um deles tem olhares diferentes sobre o cinema. Edson não quer nem saber de filmes quando sai do trabalho. “Sem chance de assistir em casa. Pesadelo”, brinca. Marcelo é um árduo defensor do 35 milímetros: “Podem melhorar o áudio, mas não há nada na imagem que supere o 35. Você nunca vai ver, por exemplo, uma legenda branca se confundir com uma camisa branca num 35 milímetros”. A Valdir coube a responsabilidade de lembrar o lado ruim da profissão: “Perdi aniversários de filhos, formatura e casamentos, porque o horário é complicado”.

De fato, projecionista não tem Natal, ano-novo, feriado, férias, tampouco horário. Edson e Valdir trabalham das 12h às 18h no Belas Artes e às 18h30 vão para os shoppings, onde ficam até cerca de 23h40. Marcelo é folguista no Belas.

“Conheço projecionista que não conseguiu ir a velório de parente por não encontrar um folguista”, conta Edilson Fernandes, de 40 anos. Frequentador de cinema e cabines de projeção desde os 15 anos, começou a carreira no Cine São Francisco, em Sabará, onde nasceu e mora até hoje. Trabalhou na área por mais de 20 anos, durante a noite, e manteve a profissão de mecânico de dia.

Entre vários cinemas e filmes, um em especial o marcou. “Nunca vou me esquecer de quando entrei no Palladium e passei Voltar a morrer. Uma sala de 70 lugares é bom, mas sair de lá para trabalhar numa sala de mil lugares, cartão-postal de BH, rodando cinco sessões por dia, todas lotadas, é um marco”, lembra.

Há dois anos, Sebastião tomou a difícil decisão de dar um tempo no ofício em prol de um pouco mais de tempo livre e vida social, mas será sempre grato à sétima arte. “Posso dizer que conheço um pouquinho do mundo inteiro. É o que vou sentir mais falta do cinema, desse intercâmbio. Rodava filmes que vinham do Iraque, Rússia, Índia, lugares aonde nunca irei. É uma janelinha para o mundo, que mostra coisas lindas, lugares, situações, pensamentos e coisas que a gente nem imaginava que existia. Ajudou-me emocionalmente e a compreender o mundo. Sou uma pessoa mais completa por conta do cinema”, conclui.

Texto reproduzido do site: uai.com.br

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O homem escondido


Publicado originalmente no site somosVÓS, em 16 de novembro de 2015.

O homem escondido.

Com José Natal • Por Flávia Oliveira, Igor de Melo, Michele Boroh.

A primeira película que projetou, ele nem lembra mais. É que foram 45 anos de tantos filmes assistidos pela janelinha da sala de projeção, tantos dramas, bangue-bangues e romances, que o tempo se encarregou sozinho de enrolar os rolos de memória na máquina da cabeça. Seu José Natal chegou ao Cine São Luiz em 1960, dois anos depois da inauguração, e lembra com altivez da época em que, para colocar os pés no cinema, era preciso estar de paletó e gravata. Aos quase 73 anos (a serem completados no dia 25 de dezembro, é claro), seu Natal tem a vida marcada pelo cinema no centro da cidade. Foi lá onde o moço loiro e de olhos azuis arrumou o primeiro emprego, conheceu o amor da vida inteira – a dona Liduína, que trabalhava na bomboniere – tirou o sustento da família de três filhos e comprou a primeira Rural.

“Eu lembro mesmo é da primeira vez que a película prendeu na roda dentada do projetor. Fiquei agoniado demais. Mas todo mundo que ia ao cinema na época já sabia que isso acontecia durante a exibição do filme, então no máximo gritavam um ‘ó o rolo aí!’, não havia muito xingamento. Quer dizer, sempre tinha um engraçadinho que reclamava colocando a minha mãe no meio”, brinca. Mais tarde, o projecionista assustado aprendeu a emendar os rolos rapidamente (um filme de duas horas vinha em cinco ou seis) e virou até instrutor dos projecionistas mais novos. “Já rodei por tudo o que é sala dessa cidade. Se algum outro funcionário faltasse, lá estava eu pra cobrir o turno, e acontecia muito de um dia eu ver filme religioso e no outro, os do Jangada [antigo cinema no Centro que passava produções eróticas]. Era uma coisa, né?”, lembra, rindo. “Na verdade, eu passava mais tempo no cinema do que em casa”, conclui.

Os filmes preferidos, vistos sempre lá de cima, eram os de bangue-bangue e aventura, como “Ben-Hur” e todos de John Wayne, além das comédias de Mazzaropi. Para as produções mais novas, torce o nariz, o que faz as idas ao cinema hoje em dia serem muito raras. Quando saiu do Cine em 2005, época que o grupo Severiano Ribeiro anunciou o fechamento e o Sistema Fecomércio arrendou a sala, seu Natal foi para a portaria do Emiliano Queiroz, Teatro do Sesc Fortaleza. Diante das poltronas agora há um palco e não mais a tela do cinema, e o desenrolar das estórias acontecem ali, ao vivo, com personagens de carne e osso. De vez em quando, pela janela da bilheteria do teatro, algum espectador o reconhece ainda dos tempos do São Luiz. “Eu sempre fico surpreso com isso, porque eu ficava mais numa salinha, como hoje estou aqui, mas acho que eu fiz parte dessa história e teve alguém que viu, né? Agora eu sou do teatro, e quem sabe, alguém vai lembrar de mim por aqui também”, diz. (Flávia Oliveira).

Texto e imagem reproduzidos do site: somosvos.com.br

De projecionista a especialista

Imagem postada por Máquina de Cinema, para ilustrar a presente entrevista.

Publicado originalmente no Diário de Cuiabá, em 10 de maio de 2010.

Aníbal Alencastro - De projecionista a especialista
Por Evaldo de Barros (Especial para o Diário de Cuiabá)

O Prof. Aníbal Alencastro, é natural do Distrito de Nossa Senhora da Guia, município de Cuiabá sendo seus pais José Vieira de Alencastro e D. Otília Duarte Alencastro. Casado com Vera Fernandes Alencastro o casal possui, como ele costuma afirmar, quatro maravilhosas filhas: Cibele, Otília, Rachel e Juliana e para trazer mais alegria ainda, veio o neto Antônio Pedro.

Com 66 anos bem vividos, aluno da Professora Oló na Escola Modelo Barão de Melgaço já viveu em vários bairros de Cuiabá e conhece tudo sobre cinema.

Está quase mudando para Chapada dos Guimarães e fomos entrevistá-lo antes de subir a serra.

DC Ilustrado: O sr. se tornou o mais categorizado estudioso do cinema em Cuiabá. Como isso aconteceu?

PROF. ANÍBAL: O cinema propiciou as minhas primeiras profissões de Cartazista e Projecionista iniciadas em 1958, no Cine São Luiz, no Porto. Desde essa época nasceu a paixão pelo cinema, resultando no meu segundo livro sobre os “Anos Dourados de Nossos Cinemas” editado em 1996.

DC Ilustrado: No Museu do Estado que o sr. dirigiu até recentemente, falta verba, apoio ou vontade política para torná-lo mais representativo da nossa história?

PROF. ANÍBAL: O Estado de Mato Grosso infelizmente, ainda não entendeu o potencial que tem um Museu para uma cidade, instituição das mais importantes na complementação cultural e na formação de um cidadão. Embora, ligado diretamente à Secretaria de Cultura, infelizmente, os gestores públicos não dão atenção devida a esta atividade. Ainda mais, que o repasse monetário destinado à Secretaria, pelo Estado, é irrisório. Na verdade a Secretaria de Cultura sobrevive de projetos de Fundos Culturais, tendo inclusive dificuldades nas suas necessidades básicas.

DC Ilustrado: Há quem diga que a TV vai acabar com o cinema. Mas o filme Chico Xavier, em exibição, está dando surra nos amantes da TV, chamados telespectadores. É uma virada na escolha do povo ou o filme bom jamais perderá espaço?

PROF. ANÍBAL: Na minha opinião, o cinema sempre foi e sempre será um clássico, e nunca vai acabar, ainda mais agora com tanta tecnologia digital, o eterno cinema tende a melhorar e nunca perderá o lugar de destaque como a Sétima Arte. A televisão, embora seja uma arte muito presente no cotidiano das nossas vidas, possui uma argumentação breve, incidindo a tendência mercantilista e consumista, ou seja, o que é produzido hoje, já se esqueceu amanhã, e com isso a beleza da arte fica de lado. No meu entendimento, considero a televisão mais como uma “imprensa visual” com notícias e informações rápidas e precisas, além de entretenimento para o nosso passatempo.

DC Ilustrado: Na sua opinião quais os dez maiores filmes já produzidos e exibidos em Cuiabá?

PROF. ANÍBAL: Definir bons filmes não deixa de ser uma incógnita! É como escolher cores! Porém, podemos conceituar através da preferência do público, recentemente o sucesso do filme “Avatar” de James Cameron, uma bela ficção ou mesmo o filme documentário que descreve a vida de “Chico Xavier”. Anos atrás tivemos alguns sucessos que marcaram a preferência do público brasileiro, como: “Carlota Joaquina”, “O Quatrilho” e atualmente “Meu Nome Não é Johnny” que traz uma perspectiva aos filmes realistas. Os épicos modernos do cinema internacional, como: “Coração Valente”, “Gladiador”, “ET, o Extra Terrestre”, por exemplos, são produções que valorizam o cinema atual. Mas, como um cinéfilo de carteirinha, nunca esquecerei os Clássicos, como: “Assim Caminha a Humanidade” – Rock Hudson, “Tempos Modernos” – Charles Chaplin, “Casablanca” – Humphrei Bogart, “Os Dez Mandamentos” – Charlton Heston e “Da Terra Nasce os Homens” – Gregory Peck. O cinema em Mato Grosso teve uma grande alavancada promovida pelos festivais produzidos pelo cineasta Luis Borges e como fruto desse maravilhoso trabalho, tivemos diversas produções cinematográficas de excelente qualidade, mas a que mais me marcou foi o “curta” do Amaury Tangará, “Pobre é Quem Não Tem Jeep”, mesmo na sua simplicidade, atingiu em cheio os nosso sentimentos.

DC Ilustrado: O fechamento do Cine Tropical foi uma brutalidade ou resultado do pouco público?

PROF. ANÍBAL: O Cine Tropical foi inaugurado em 20 de maio de 1965, com o filme “A Pantera Cor de Rosa”. No início dos anos 70, o maravilhoso cinema veio a declinar em virtude de vários fatores que no nosso entender, consideramos:

- O alto custo da sua construção impossibilitou um retorno econômico rápido para que compensasse os gastos da sua manutenção, certamente se endividando cada vez mais;

- Na época era humanamente impossível manter cheias as suas 1200 poltronas de curvim vermelho, quando o preço das super produções cinematográficas eram caríssimos.

- A chegada da televisão Centro América a Cuiabá a grande novidade do momento, logo os freqüentadores do cinema, empolgados com a telinha, e o conforto de não comparecer as salas de cinemas, além do mais, a concorrência com outros cinemas em Cuiabá

DC Ilustrado: Jercy Jacob foi o criador do rádio cuiabano, segundo voz corrente. E do cinema?

PROF. ANÍBAL: Não desmerecendo que Deodato Gomes Monteiro foi um dos pioneiros do radioamadorismo e montou em 1934, pela primeira vez em Cuiabá, um radiotransmissor onde organizou um estúdio, denominado Rádio Sociedade de Cuiabá, e como ainda não existiam rádios receptores na cidade, certamente, não vingou a pretensa radio.

Mas em 1939 foi oficialmente inaugurada a Radio Clube A Voz D’Oeste, denominação dada pelo seu criador, o professor Jercy Jacob com apoio do interventor Julio Muller. A diretoria formada pelo Prof. Jercy como diretor Técnico, Douglas Canavarros como diretor Comercial, Juvenílio de Freitas o Locutor e Dona Zulmira Canavarros com o apoio artístico.

Os primeiros programas contavam com Nino Ricci e o seu Bandolim, Juvenílio e a sua flauta, Naná de Arruda e o seu piano, dentre outros.

A Rádio A Voz D’Oeste, marcou os melhores momentos culturais da cidade, destacando-se nos anos 50, Rabelo Leite, um dos maiores comunicadores, e produtor de programas radiofônicos como foi “O Domingo Festivo na Cidade Verde”, o primeiro jornal falado criado por Augusto Mario Vieira e May do Couto, João Alves de Oliveira, com as “Crônicas das Doze e Cinco” que tinha o slogan: “A Cidade Vive dos que Vivem Nela”.

O cinema em Cuiabá aparece pela primeira vez, através de um circo que passava pela cidade. Já em 1910 os imigrantes italianos, os irmãos Dorsa, montaram o primeiro cinema, no local onde hoje está a Igreja Presbiteriana na Rua 13 de Junho, pelo que se tem notícia pouco durou o Cinema Mundial, pois fora destruído em conseqüência de um incêndio.

Em seguida aparece o Cine Parisien (Cinema mudo) montado pelo Sr. Manoel Bodstein dentro de um teatro já existente denominado “Amor à Arte”.

Considerado cinema oficial sua existência durou até o final dos anos 30, quando da construção do Cine Teatro Cuiabá, o primeiro cinema sonoro da cidade, inaugurado em 23 de maio de 1942.

DC Ilustrado: Ultimamente, dezenas de cuiabanos que possuem casas em Chapada para finais de semana estão mudando de vez para lá. E dizem que o sr. também já está indo. Como se explica essa migração interna?

PROF. ANÍBAL: “A nossa vida se compara ao do “boi-carreiro”, depois de velho e de prestar seus bons serviços durante toda a vida, não compensa ser abatido, tem é que ficar solto nas campinas verdejantes”. Embora o meu desejo fosse empreender uma viagem de volta para a nossa velha e querida Nossa Senhora da Guia, a altitude e o clima da Chapada são mais convenientes para a nossa saúde, além do que, as duas localidades são bastante próximas uma da outra, e ainda interligadas pelas águas cristalinas do Coxipó-Açu.

DC Ilustrado: Quais as maiores alegrias e tristezas de sua vida?

PROF. ANÍBAL: Uma das maiores alegrias da minha vida foi ter nascido em Cuiabá, no distrito da Guia, filho do Seu Zezinho e Dona Otilia, casal maravilhoso, que me trouxe ainda pequeno para a capital e que nos proporcionou conhecimentos culturais e de cidadania.

As tristezas...quase não as lembro, são facilmente esquecidas e absorvidas pelas nossas alegrias!

DC Ilustrado: Alguma grande mágoa?

PROF. ANÍBAL: Nossa grande mágoa, está na desigualdade social da humanidade, muita intolerância humana e mesmo muita maldade, as mudanças dos valores morais! Entre outros.

DC Ilustrado: O rio Cuiabá acabou ou está acabando?

PROF. ANÍBAL: Imaginar, que o Rio Cuiabá, deu o seu nome a nossa cidade e serviu de fonte de alimentação a todos os ribeirinhos e toda população da cidade. Por muito tempo foi o principal elo de comunicação entre Mato Grosso e o litoral brasileiro, bem como o caminho de escoamento da economia da região, num momento em que não havia automóveis, tudo era transportado através das embarcações.

Hoje, o nosso Rio Cuiabá, parece até estar amaldiçoado, pois não basta o seu desprezo, nem mesmo pode ser visto da praça Luis Albuquerque, a visão da sua paisagem está totalmente obstruída por um matagal sujo e mal cheiroso.

O acesso à beira do rio já não existe, nem mesmo para lavagem dos santos, fato tradicional no período junino cuiabano.

A carga de detritos “in natura” despejados pelos imensos esgotos são constantes.

Esgotos (canais) estes, que num passado não muito distante pertenciam à bacia hidrográfica de águas cristalinas onde se via até pequenos peixes como Lambari a exemplo citamos os córregos da Prainha, Barbado, Mané Pinto, Ribeirão da Ponte, dentre outros.

A cada eleição municipal e estadual, se ouvem promessas de certos políticos comprometendo-se no tratamento dos esgotos lançados no Rio Cuiabá. São promessas que nunca se concretizam.

O nosso generoso Rio Cuiabá está condenado à morte, vez que se continuarem as constantes agressões com os depósitos de resíduos poluentes, lixo, bem como o assoreamento do leito em decorrência do desmatamento de suas margens, poderá ocorrer uma “lixiviação”. Aos moldes do que está acontecendo nas nascentes de Rosário Oeste. Será que as autoridades constituídas do nosso Estado não estão vendo essas barbaridades?!

DC Ilustrado: Viver em Cuiabá hoje está pior que antigamente?

PROF. ANÍBAL: Relembrando Ataulfo Alves, embalado nos versinhos de “Meus Tempos de Criança”. Quando dizia: “Eu daria tudo que eu tivesse, pra voltar aos tempos de criança, eu não sei pra que, que a gente cresce se não sai da gente, essa lembrança... Eu era feliz e não sabia...”

Estes singelos versinhos nos retratam a velha Cuiabá da nossa infância, da nossa juventude, da tranqüilidade das nossas serenatas e das nossas amizades, dos namoricos, do respeito aos mais velhos, saudade da professorinha que nos ensinou o BE – A – BA.

Enfim esta era a nossa Cuiabá do passado, mesmo sem estrutura básica de apoio, como: energia, saneamento, entre outros. Mas, havia o que hoje se busca incansavelmente a ... tranqüilidade! Hoje se fala em “qualidade de vida”, baseando-se em tecnologia moderna, mas tudo isso não passa de efeitos especiais como no cinema, pois, a qualidade de vida está na nossa paz e tranqüilidade!

Conclusão:

Aníbal Alencastro é prova incontestável da verdade que encerra o velho ditado: ”Deus ajuda a quem se ajuda”. E ajuda mesmo.

Oriundo de família humilde, trabalhou muito, incansavelmente, para chegar até onde chegou.

É um guerreiro que serve de vivo exemplo para a criançada que está surgindo.

Curta a nossa querida Chapada Prof. Aníbal, mas não se esqueça da Capital eterna de todos os mato-grossenses.

Texto reproduzido do site: diariodecuiaba.com.br

Películas ainda são usadas em cinema de Santos (2012)


Publicado originalmente no site G1, em 08/07/2012.

Películas ainda são usadas em cinema de Santos.

Mesmo com a tecnologia 3D, filmes são rodados manualmente.

Uma das partes mais delicadas do processo é emendar o rolo.

Do G1 Santos;

Quem vai ao cinema geralmente não percebe o trabalho que é feito para que o filme assistido passe na telona. Mas se há atraso na exibição ou algum erro durante a sessão, o trabalho dos projecionistas logo é visto por todos. Caso tudo ocorra bem, os funcionários passam desapercebidos.

 A ação nas salas de projeção começam muito antes do filme ser exibido para o público. O trabalho é inteiro manual e a profissão é passada de projecionista para projecionista. Uma das partes mais delicadas do processo é emendar um rolo de película no outro.

Assim como nos antigos vídeos cassetes, as películas, como são chamados os filmes, devem ser rebobinadas. Para esse processo, o uso da tecnologia ajuda a adiantar o processo que, às vezes, deve ser feito manualmente, caso o aparelho falhe ou não esteja disponível.

Antes do filme montado ser exibido na tela do cinema, a película roda na sala de projeção com a participação da mão de obra humana. Depois de encaixar a película o trabalho é todo automático.

O trabalho é quase o mesmo há décadas, com uma ou outra inovação, como no caso dos filmes em 3D. Diferente dos rolos de película, os filmes 3D chegam em cartucho de memória (HD). O HD é colocado em uma máquina, adaptado, e sem que haja necessidade de emendar ou rebobinar os rolos o filme vai para a sala de cinema.

Para o projecionista Carlos Paixão Ramos, profissional há 15 anos, os filmes em 3D vieram para aliviar seu trabalho. O profissional é responsável pelos cartuchos no cinema onde é funcionário em Santos, e em comparação ao trabalho braçal das projeções de películas, a tecnologia é quase uma brincadeira. “Não faço força. Coloco o HD e depois de todo o procedimento é só dar o play, como em um computador. Agora fico descansando e deixo o pessoal pegando no pesado um pouco”, brinca o profissional.

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com/sp/santos