segunda-feira, 15 de julho de 2019

Cinema Futures, DocLisboa 2016, DocLisboa'16, Michael Palm



Publicado originalmente no site MAGAZIN HD, em 22 de Outubro de 2016

DocLisboa ‘16: Cinema Futures, em análise

 Por José Vieira Mendes

Cinema Futures, DocLisboa 2016, DocLisboa'16, Michael Palm

Numa altura em que a projecção em película praticamente não existe nas salas, ‘Cinema Futures’, o filme-ensaio do realizador austríaco Michael Palm lança novamente o debate sobre o analógico e os avanços da revolução digital.


Estreado em Venezia Classici 2016 e premiado nesta secção, Cinema Futures como o nome indica é um filme dedicado ao futuro do cinema. No entanto, não directamente em relação aos modos de ver ou olhar o cinema, mas antes aos modos de preservar as memórias do cinema, num contexto acelerado da revolução digital. Foi assim que para comemorar o seu 50º aniversário e discutir o que está por vir nos filmes, que o Film Museum austríaco entregou em 2014, ao escritor e cineasta Michael Palm, — célebre igualmente pelo seu excelente filme-ensaio Low Definition Control (2011) — a tarefa de realizar este Cinema Futures, um documentário filmado no mundo inteiro, de forma a tentarmos compreender sobre vários pontos de vista o futuro do cinema na era digital.


Em Cinema Futures, o realizador Michael Palm coloca em primeiro lugar algumas perguntas cruciais sobre o futuro do cinema. A revolução digital chegou tarde ao cinema e foi vista principalmente como um avanço tecnológico. Hoje em dia e numa época onde as fitas de celulóide analógicas estão a desaparecer, e dada a diversidade de formatos de imagem digital móveis, há muito mais coisas em jogo. Estão os arquivos de filmes do mundo condenados a desaparecer? Poderão realmente os ficheiros substituir as fitas de celulóide? Para onde irão todas as imagens armazenadas em discos rígidos quando estes se tornarem obsoletos daqui a uns anos? A película de celulóide e o analógico irão mesmo desaparecer? Estamos perante uma massiva perda colectiva da memória audiovisual? O cinema tal como o conhecemos vai morrer de uma forma tão comovente ou estaremos apenas a assistir a uma mudança?

Estas resposta são dadas por cineastas como Apichatpong Weerasethakul, Martin Scorsese, Christopher Nolan e por teóricos e filósofos como Nicole Brenez e Jacques Rancière, por arquivistas (Paul Klamer, da Biblioteca do Congresso do EUA), por restauradores (da Sony Pictures), historiadores do cinema (Tom Gunning e David Bordwell) e artistas (Tacita Dean), curadores de museus da imagem, que desta forma procuram orientar os espectadores numa viagem sobre as memórias do cinema, ao mesmo tempo sobre o futuro do cinema na era da imagens digitais em movimento. 


Devemos aceitar que um filme é transitório, não pode durar para sempre, é como um sonho. Como a nossa vida não é eterna, é uma das frases-chave de Cinema Futures, esta do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul. Cinema Futures explora sobretudo a mutação dos formatos dos filmes rodados em película para o digital, e das consequências que esta mudança pode ter ao nível artístico, de produção, distribuição e conservação.

Podemos profetizar a morte de filmes rodados em película, mas na verdade, aos media digital e analógicos — ou mesmo as nossas memórias pessoais, fotografias e videos de família, DVD e CD com os filmes e músicas que gostamos mais —, coloca-se agora a questão do armazenamento, reprodução e migração dos meios de comunicação. Para Palm, os filmes digitais são como simulacros do presente como em Blade Runner, de Ridley Scott, (1982), onde os replicants estavam destinados a viver por apenas quatro anos, que é mais ou menos a duração média de uma forma digital até ser substituída por outro processo mais avançado.


Os conservadores e arquivistas de filmes estão cientes disto, porque os arquivos filmícos são como museus, ou seja arquivos de memória capazes de recolher a história do cinema e da memória colectiva. Ainda segundo Palm os arquivos não afectam apenas a percepção do passado, mas determinam tambémm o potencial e as possibilidades do futuro.

Por outras palavras, Cinema Futures lida com o futuro da história do cinema, porque a história recolhida nos arquivos permite que façamos novas descobertas ao mesmo tempo que proporcionam novas oportunidades aos filmes anteriores. E é este aspecto da defesa de um arquivo utópico, que permite descobrir e trazer à luz algo que nunca tinha sido visto antes.


Cinema Futures é assim um documentário sobre o presente e o futuro do cinema e do cinema na era digital. É narrado em episódios individuais, aforismos cinematográficas, colocando cenários futuros, transmitindo medos culturais e esboçando ao mesmo tempo utopias promissoras, para as imagens em movimento. O filme tenta acompanhar a transição de um tempo e de uma história de fitas de celulóide fotoquímicas e analógicas, com cerca de 120 anos de idade, para esta idade imaterial e radicalmente evanescente e virtual de fluxos de dados da imagem digital.

O foco principal é um amor ao cinema, embora um amor desprovido de nostalgia. O que está em jogo é acima de tudo a técnica cultural específica e a experiência do filme analógico, a preservação do património audiovisual nos arquivos de cinema e televisão, o armazenamento, restauração e conservação de imagens em movimento em fitas de cinema e em magnéticos, e as promessas de salvação dessas imagens, feita através da pseudo-eternidade dos bits e bytes. No início logo substitui ‘um filme de…’ por ‘uma file de…’.

Cinema Futures é assim um filme que oscila entre as crenças tecnológicas do progresso e as visões apocalípticas do apagamento total de nossa memória audiovisual. Por um lado, há o conceito do digital como uma forma de superar o efémero — e por outras palavras, que pode assegurar o acesso democrático ao nosso património audiovisual. Por outro lado, há a visão do nosso presente como um futuro que remete para uma ‘idade escura’, na qual os filmes não serão mais preservados, porque se tornaram um objeto físico. E o cinema é uma infra-estrutura tecno-social, composta de dados obsoletos e digitais que se vão tornando ilegíveis.

O que será das imagens e das memórias do nosso tempo e de tempos passados, quando eles já não tiverem um análogo, que corresponde evidentemente a uma presença física? À luz das rápidas mutações e da maneira como os filmes são produzidos em geral ninguém pode prever com precisão o que o futuro nos reservará e o que poderá acontecer. Cineastas, arquivos de filmes e arquivos de televisão estão agora a enfrentar este debate urgente. As coleções de arquivos começaram só agora a ser digitalizadas e armazenadas em grandes servidores. Quanto tempo estes dados permanecerão legíveis e acessíveis nesta Arca de Noé digital? O que vamos ganhar e perder com isso? Estas questões vão continuar!

O MELHOR: o extraordinário significado desta verdadeira viagem ao mundo das imagens em movimente, procurando incessantemente responder a questões tão complexas;

O PIOR: a viagem às vezes é um pouco monótona, um bocadinho talking heads, e afasta-se definitivamente nos modos de ver para se centrar unicamente na questão do armazenamento.

Título Original: Cinema Futures
Realizador:  Michael Palm
Documentário | 2016 | 126 min


 Texto e imagens reproduzidos do site: magazine-hd.com

Relíquias do emblemático Cine Mariani de Monte Gordo, em Portugal

 Um projetor de arco, dos anos 50, a carvão, para películas de 35 milímetros,
 e que ainda funciona, cartazes que […]








Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

Publicado originalmente no site SULINFORMAÇÃO, em 28 de Outubro de 2017

À descoberta das relíquias do emblemático Cine Mariani de Monte Gordo

Por Pedro Lemos

Um projetor de arco, dos anos 50, a carvão, para películas de 35 milímetros, e que ainda funciona, cartazes que anunciam filmes de outros tempos, como “O Último Couplet”, “Carmen” ou “Sozinho em Casa”, e bobines a embelezar todo o espaço. O emblemático Cine Mariani, em Monte Gordo, fechou em 2008, após décadas de história, mas a exposição que está patente no antigo espaço faz recuar no tempo.

Numa viagem pelo mundo da sétima arte, também se encontra outras relíquias, como um amplificador antigo, fotos dos artistas que se punham nos cartazes e até um microfone que possivelmente foi utilizado quando os filmes tinham de ser narrados.

Ainda assim, houve objetos que tiveram de continuar guardados, como um amplificador antigo, dos anos 40 ou 50, devido ao seu peso e dificuldade no transporte.

Todos estes objetos acabam por ser memórias e, para as recordar, nada melhor do que Iuri Mariani Maló, neto de Evaristo Mariani, o célebre proprietário do Cine Mariani, que tinha origem italiana, apesar de ter nascido em Portugal.

«Todo este material teve muito uso», começa por explicar, em conversa com o Sul Informação. Foi no âmbito da Mostra Internacional de Cinema “FRONTEiRAS” que surgiu a ideia «de ir ao baú» buscar alguns destes objetos e expô-los.

Uns estavam guardados ali, no espaço do antigo Cine Mariani, que é hoje a Casa da Cultura de Monte Gordo, da qual Iuri é um dos responsáveis, outros na casa da viúva de Evaristo Mariani, «que fez uma pesquisa ao longo de semanas», explica.

E mesmo depois do fim do festival “FRONTEiRAs”, que terá lugar esta noite, dia 28 de Outubro, alguns dos objetos continuarão expostos, como a câmara de projeção e parte dos cartazes. Para hoje, sábado, no âmbito do festival, está agendada a exibição de três filmes: às 18h00, “The Jigsaw”, uma curta metragem de oito minutos, e “Le Havre”, do realizador finlandês Aki Kaurismaki. Já às 21h00 estará, na tela do Cine Mariani, o clássico “Seven Chances”, de Buster Keaton.

Mas embarquemos na história do emblemático Cine Mariani. Da década de 50 do século XX até 2008, aquele foi, muitas vezes, ponto de paragem obrigatório para os turistas que enchiam Monte Gordo, de Maio a Setembro. Muitos deles eram espanhóis, o que explica que, entre o espólio do cinema agora exposto, se veja muitos cartazes e fotos de filmes castelhanos, com as grandes estrelas da época, como Sara Montiel.

O espaço foi, até 1999, totalmente diferente do que é hoje. Naquilo que é agora a sala de cinema, à direita de quem entra, estava o projetor que exibia os filmes numa tela branca… que era a parede. «Às vezes, a meio de uma cena, via-se passar uma osga», recorda Iuri, entre risos.

E mais: na altura, o Cine Mariani apenas tinha uma parte da sala coberta, enquanto a restante, mais próxima da tela, era ao ar livre.

Certo é que, todas as noites, de Maio a Setembro, havia duas sessões. Por ali passaram filmes com o clássico “Casablanca” ou êxitos mais recentes como “Die Hard” ou “Sozinho em Casa”. «Havia pessoas que já tinham visto os filmes, mas que os reviam aqui», recorda Iuri.

Nos anos 90, deu-se uma «quebra do negócio», devido à dificuldade de um cinema mais pequeno lutar contra os grandes. Assim surgiu a possibilidade de «destruir o antigo cinema e fazer este novo espaço», algo que Evaristo Mariani acabou por aceitar.

Só que o Cine Mariani nunca mais seria o mesmo… «Quando foi reativado, em 2004, já foi apanhar um período ingrato para estes cinemas mais pequenos. Foi um fim inglório: estar a combater com os centros comerciais… As condições de aluguer de filme já tinham encargos diferentes. O meu avô não podia ter aqui uma estreia – os filmes tinham de passar numa casa grande primeiro», diz Iuri, amargurado.

Desses momentos mais complicados, há uma história que o neto de Evaristo Mariani costuma contar. «Numa noite de 2006 ou 2007, estava agendada a exibição de um filme para às 21h30. À tarde passou cá um senhor, perto das 18h00, e comprou dois bilhetes que foram os únicos vendidos para essa noite. Quando chegou perto da hora do filme, após o meu avô já ter esperado para ver se chegava mais alguém, foi ao pé dele e disse-lhe que não ia conseguir dar a sessão, porque nem compensava arrancar com as máquinas todas».

O que é que este espectador resolveu fazer? Perguntou a Evaristo qual era o mínimo de bilhetes vendidos que precisava para arrancar com a sessão.

O proprietário do Cine Mariani respondeu-lhe: 10. «Então o senhor, que até era proprietário de um restaurante aqui em Monte Gordo, disse ao meu avó que lhe comprava mais oito bilhetes! », conta Iuri. E assim arrancou a sessão, apenas com dois espectadores, apesar dos 10 bilhetes vendidos…

Enquanto vai percorrendo a exposição, Iuri Mariani Maló diz que «algumas pessoas ainda se lembram» de objetos que estão expostos, como fotografias de filmes dos anos 80 e 90. «Isto faz parte da nossa história, da minha família. Isso toca-me de maneira particular», atira.

Desses tempos idos, de maior sucesso do que quando se venderam 10 bilhetes para duas pessoas, Iuri ainda guarda recordações. Tanto aquele local, como todo espaço têm muita história. «Naquela altura, morávamos aqui perto da Igreja. As pessoas, durante a tarde, iam bater à porta de casa da minha avó para reservarem logo os bilhetes para a noite! Havia duas sessões sempre cheias», recorda.

E toda a família ajudava para o sucesso do Cine Mariani. «Lembro-me de ser miúdo e todos tínhamos funções no cinema. O meu avô estava na projeção, a minha avó na bilheteira, a minha mãe à porta, eu e um primo levávamos as pessoas aos lugares», diz Iuri.

Por agora, ainda não há novas exibições regulares ali no antigo Cine Mariani. Tal deve-se, sobretudo, ao facto de o projeto da Casa da Cultura de Monte Gordo ainda estar numa fase embrionária. A ideia, porém, é já no próximo Verão começar a haver projeções.

Para Iuri, a exposição tem sido «muito importante para o espaço». «Esta é uma mostra de cinema para um público mais interessado, não tanto o comum espectador. Quem gosta realmente de cinema tem mais curiosidade em ver estes objetos antigos».

Por exemplo, para se perceber a diferença em relação às atuais projeções digitais, a máquina que está exposta no Cine Mariani utilizava carvões que garantiam a luz para que a máquina funcionasse. Ou seja, o carvão em combustão fazia com que houvesse luminosidade para a projeção do filme. Simples…mas muito perigoso.

Era com este tipo de relíquias que Evaristo Mariani, um verdadeiro apaixonado pelo que fazia, se habituou a trabalhar. Mesmo depois do fecho do espaço, todos os dias, às 8h00, ia para o seu cinema, nem que fosse para olear as máquinas e manter o espírito de um local ao qual se entregou de corpo e alma.

O proprietário do Cine Mariani acabaria por morrer em 2014, já com 88 anos de vida (a maior parte deles dedicados à sétima arte). Mas Iuri não tem dúvidas: «o meu avô ia ficar feliz ao ver esta exposição. Ele guardava tudo isto religiosamente. Tinha tudo um grande valor para ele».

Texto e imagens reproduzidos do site: sulinformacao.pt

sábado, 15 de junho de 2019

Colecionador fala sobre relíquias do cinema


Texto publicado originalmente no site Cine Potiguar, em 18/07/2011

Gazeta do Oeste: relíquias do cinema potiguar

Colecionador fala sobre relíquias do cinema

Geraldo Pires adquiriu parte do acervo do Cine Pax; entre as raridades, um projetor a carvão, além de cartazes e filmes

Por Mário Gerson (Da Redação)

Atendendo por trás de um balcão a fregueses diversos, o homem de óculos e olhar sereno não tem o mesmo ar quando entra no pequeno compartimento de uma casa, localizada ao lado do comércio da família. Lá, Geraldo Pires se transforma. É outra pessoa quando começa a falar sobre os projetores raros que coleciona, os rolos de 16 e 35 milímetros, filmes que não estão mais disponíveis no mercado, além de uma grande coleção de cartazes de cinema – são quase 300 – todos eles pertenciam ao antigo Cine Pax, fechado há alguns anos na cidade. “Tenho o cartaz do primeiro filme exibido no Pax, em 1943: Formosa Bandida! Luiz Pinto doou para minha coleção”, salienta, enquanto pega um rolo de filme, dos quase 100 rolos antigos de sua coleção. “Todo mês tenho que limpá-los. Uma vez perdi muitos deles. Para mantê-los perfeitos, exige-se atenção. Senão, o clima, o tempo, tudo pode danificá-los”, explica. “Além deles, tenho 4.186 filmes em VHS”, diz, sorrindo.

O andar lento, a forma como fala da coleção, tudo isso desperta atenção quando o visitante entra na sala reservada para o acervo. Uma de suas peças mais raras é o projetor a carvão, que pertenceu ao Cine Imperial – e logo depois ao Pax – adquirido pelo valor de R$ 4.600,00. “30% do que ganho, no comércio da família, é destinado para o meu hobby, filmes, películas antigas, filmadoras raras e projetores”, diz, ao mostrar a coleção nas estantes de aço.

Na entrada da casa, a primeira peça é o projetor do Cine Imperial. “São dois homens ou mais para transportá-lo e naqueles carrinhos! Ele pesa muito”, destaca. Em aço fundido, a peça é uma raridade que ele está “ajeitando aos poucos”, para depois ser utilizada num projeto ousado do comerciante.

Há outros projetores raros. Um deles é o de 16 milímetros, de fabricação australiana. “Este é uma joia rara. É um projetor mudo”, fala, com alegria. “Tenho amigos que também gostam de cinema, assim como eu, e colecionam. Posso citar um grande conhecedor do assunto e que tem um importante acervo, nesse sentido: Carlos Frederico. Mora em Natal e conhece bem a área”, destaca.

Entre outras peças do acervo, as que merecem também destaque são os rolos com filmes em 35 e 16 milímetros, além das filmadoras. “Tenho uma filmadora – infelizmente está em Fortaleza – que funciona à corda. Dávamos corda e depois filmávamos. Esta outra, manual, que utilizei também até a década de 70, só filma três minutos. Fiz alguns documentários com ela. É a Rollei, Super 8, à pilha”, diz.

No entanto, é do projetor Natco – 1945 – americano – pós-Segunda Guerra Mundial, de quem fala com certo orgulho. “Ganhei de um amigo, sob a condição de nunca me desfazer dele. Muitas pessoas já ‘colocaram dinheiro’ no Natco, que veio para o Brasil trazido por um libanês. Ele fugia da Segunda Guerra. Foi para os Estados Unidos, mas descobriu que o Brasil lhe dava mais condições de melhor moradia e calma. Hoje, ele está comigo e já neguei muitas ofertas. É uma peça linda, em todos os aspectos. Para um colecionador, uma raridade”, frisa, mostrando, também, entre os rolos antigos, o cartaz do primeiro filme de Vera Fischer, Anjo Loiro. “A ditadura militar proibia mostrar os seios. Por isso, estão cobertos”, comenta, sorrindo.

Aos 54 anos, Geraldo Pires diz que continuará apaixonado pelo cinema e que, antes da inauguração do shopping local, ainda chegou a conversar com a direção, acerca de uma sala para exibição de filmes. “À época, eles procuraram Luiz Pinto, com a proposta de uma sala ao preço de um milhão de reais. Conversei com eles também, mas não tive retorno. Logo depois, veio o cinema. As pessoas diziam que ele duraria pouco, mas não foi o que aconteceu. Hoje, temos um cinema e um bom mercado de filmes. Mossoró comporta, sim, investimentos dessa natureza. Até mais”, explica, frisando que continua com o sonho de abrir uma sala de cinema e expor o material da coleção.

Geraldo não é apenas fascinado pelo cinema. Máquinas fotográficas e discos também fazem parte do acervo. Um deles, o mais raro, é o Abbey Road, lançado em 26 de setembro de 1969, pela banda britânica Os Beatles. “Já colocaram R$ 500,00 neste disco. Não vendo. Tudo que está aqui é da coleção”, comenta, mostrando a raridade, presente de um amigo.

‘Quero levá-lo para uma cidade do interior e fundar um cinema’

Um dos sonhos do colecionador e amante da sétima arte não poderia ser outro: “Colocar para funcionar este projetor a carvão o mais rápido possível e montar um cinema”, fala, entre um sorriso e outro. “Aos poucos, o Luís, que projetava os filmes do Pax, está fazendo a lubrificação. Estou avaliando uma cidade do interior do Estado, para levar este meu projeto. Uma delas é a cidade serrana de Martins. Acho que lá seria um lugar ideal para se montar uma sala de cinema”, explica.

Comportando lâmpadas de 1.000 watts – que variam entre R$ 300,00 e R$ 600,00 – colocar o antigo projetor para funcionar é um dos objetivos do colecionador. Um detalhe é que as lâmpadas são sensíveis. “Tenho que guardá-las com cuidado, pois não se pode tocar diretamente no vidro”, explica, mostrando uma delas. “Um dos meus sonhos é adquirir um projetor moderno, de rolo deitado, 35 milímetros, bifásico, com lâmpadas de 700 watts e claridade de 2.000”, comenta.

Atualmente, quatro projetores de 16 milímetros estão em perfeito estado de funcionamento e outros ainda serão montados. “Vou continuar colecionando, passando adiante minha paixão pelo cinema, pela boa sétima arte. Meu filho também gosta e tudo que sei passo para ele. Acho que a história do cinema na cidade não pode morrer. Não vai morrer”, diz.

Para a irmã, Gladys Pires, Geraldo sempre foi um apaixonado pelo cinema. “Ele foi um dos que mais frequentaram o antigo Cine Pax. É um apaixonado pela área”, fala, enquanto o irmão, ao lado, abre a parte inferior do projetor a carvão: “Faltam apenas alguns ajustes”, finaliza.

Texto reproduzido do site: cinepotiguar.wordpress.com

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Um personagem do cinema de Ourinhos


Publicado originalmente no site Jornal Biz, em 8 de março de 2019

Um personagem do cinema de Ourinhos

Quem frequentou os cinemas de Ourinhos nos últimos trinta anos com certeza já se deparou com um personagem que se mistura ao ambiente cheio e cartazes de filmes. Roberto Carlos Argenta, o Beto, vai completar 53 anos no próximo dia 11, e seu envolvimento com a sétima arte começou em 1987 quando foi contratado para trabalhar como lanterninha no Cine Peduti. Na verdade, essa história teve início antes. Seu pai, João Argenta Neto, trabalhou no Cine Ourinhos, onde hoje é o Teatro Municipal.

“Eu nunca trabalhei lá, mas assisti a muitos filmes do Mazzaropi e faroestes”, lembra Beto. Embora o pai tenha morrido quando ele tinha apenas três anos, Beto atribui a ele sua paixão pelo cinema. Já seu nome vem de uma paixão da avó, o cantor Roberto Carlos: “Eu também gosto, tenho vários discos de vinil dele”.

Na era dos filmes em rolos, na sala de projeção do Cine Peduti. 
Foto: arquivo pessoal

Beto conta que ficou tão entusiasmado quando foi contratado pela primeira vez, que chegava às 7 horas no cinema: “Não acreditei quando me chamaram, nem dormi. As pessoas me perguntavam por que eu chegava tão cedo. Eu pedia uma vassoura e ia varrer, ia fazer qualquer coisa, queria aprender”.

O prédio do Cine Peduti, onde hoje está localizado o Shopping Cinemarti. 
Foto: arquivo pessoal

O Cine Peduti funcionava no prédio onde hoje é o Shopping Cinemarti, possuía uma grande sala com 1.315 lugares, e na fachada eram fixadas placas pintadas por artistas da cidade, reproduzindo cartazes dos filmes.

Placa do filme Karate Kid II, um grande sucesso de público da década de 1990.
Foto: arquivo pessoal

Na frente da tela havia uma cortina vermelha, que se abria quando o filme estava para começar. Um sistema de ar refrigerado ajudava a suportar o calor: “Tinha um ventilador enorme que puxava o ar de fora, que era ligado numa chave embaixo da tela. No teto, havia umas bolas pretas por onde saía o ar”. Como muitos frequentadores do cinema daquela época, Beto lembra que antes dos filmes era exibido o Canal 100, um cinejornal que apresentava eventos importantes do país, principalmente imagens de jogos de futebol.

Como lanterninha, Beto se lembra dos casais de namorados que se entusiasmavam demais e acabavam sendo retirados do cinema. E como todo moleque de sua época, ele conta que também aprontou durante as sessões de cinema:

“MINHA MÃE FALAVA PARA O SEU ROMEU QUE SE EU FIZESSE BAGUNÇA ERA PARA MANDAR PARA FORA. NA HORA DE COMEÇAR O FILME A MOLECADA BATIA O PÉ NO CHÃO DE MADEIRA E ASSOBIAVA NO PAPEL DE BALA… AQUELA BAGUNÇA”.

Alguns anos depois, no Cine Peduti, ele trabalhou com Romeu Silva, conhecido gerente de cinema da cidade, e sua mulher Glorinha, conhecida pelas famosas balas de café vendidas no cinema.

Depois de atuar como lanterninha, Beto passou a trabalhar na cabine operando o projetor: “O Carlinhos Bianchi me ensinou a montar filmes, e depois trabalhei com o Gilson (Biguá), que entrou em 1986 como gerente”. Beto lembra com saudade do tempo em que a tecnologia de exibição de filmes era bem diferente dos dias atuais: “Trabalhei na projeção no tempo dos rolos de filme, e de vez em quando algum queimava. Hoje é HD, tem que baixar o filme na internet”.

Beto ainda guarda diversos rolos de filmes.

Além da tecnologia, as antigas salas deixaram de existir, e os cinemas de calçada deram lugar aos cinemas de shopping, onde os filmes se perdem em meio ao burburinho das lojas e das praças de alimentação. Para ele, não foi só os cinemas que mudaram. “Para os casais de outras épocas, a ida ao cinema era um evento especial. Eu acho que a programação de cinema hoje visa a meninada, os casais não vem mais”.

Inúmeros cartazes decoravam as paredes da sala de projeção do Cine Peduti.
Foto: arquivo pessoal

Beto diz que das coisas que fez no cinema, o que mais gostou foi de “mexer com os rolos de filmes, montar as películas”.  Mas ele não esconde sua paixão pelos filmes, principalmente as produções do passado: “Gosto muito dos filmes do Mazzaropi, e outros como Dio come ti amo, Sansão e Dalila, Spartacus, Os 10 mandamentos… eu tenho todos esses filmes”.

Seu sonho é montar um projeto de exibição de filmes, que ele já batizou de Cinema Nostalgia. “Eu arrumaria um datashow, um som, e ia passar só filmes raros. Ninguém pagaria, as pessoas levariam um quilo de alimento que seria doado para quem precisa”.

Com tantos anos de cinema, Beto também se recorda com bom humor de alguns apuros que passou durante as projeções. O mais inusitado foi quando durante a exibição do filme Gremlins 2, quando em uma das cenas um bichinho entra numa cabine, corta o filme e a fita pega fogo. Beto, que operava o projetor, se engana e corta também o filme achando que o fogo era real. Logicamente a plateia não perdoou, e Beto teve de ouvir alguns palavrões pelo deslize. Quando soltou o filme novamente, o bichinho do filme dizia: “Te peguei, te peguei”.

Texto e imagens reproduzidos do site: jornalbiz.com

quarta-feira, 22 de maio de 2019

sábado, 18 de maio de 2019

Um cinema que ficou mudo



Publicdo originalmente no site do Portal do Envelhecimento, em 18/03/2014 

Um cinema que ficou mudo
Por Alcides Freire Melo

No endereço de número 54 da Rua Padre Graça, Parque Araxá, em Fortaleza, ainda moram importantes personagens do cinema mundial. Os cowboys Butch Cassidy (Paul Newman) e Sundance Kid (Robert Redford), amigos inseparáveis, e Etta (Katharine Ross), namorada de Sundance que, depois de incansáveis fugas pararam neste endereço. Rick (Humphrey Bogart) e Isla Lund (Ingrid Bergman), também. E, desde 2010, ouvem em silêncio absoluto, no mesmo endereço, o piano de Elliot Carpenter, interpretado por Dooley Wilson, “As Time Goes By”, no Rick’s Café Américain, em Casablanca. Seu Vavá, também. Personagem desde que nasceu, quando a pedido do pai, foi batizado com o nome de Getúlio Vargas. E hoje, aos 81 anos é Seu Vavá, proprietário do Cine Nazaré, na Rua Padre Graça, 54.

Atores, atrizes, beijos, crimes misteriosos, tiros e histórias de um grande amor ou paixões vistas a partir de uma “janela indiscreta”, ainda estão fechados em latões redondos e enferrujados a espera de um grande milagre. O milagre da luz, para ascender o velho projetor do Cine Nazaré que, há anos, não cobra ingresso. Cobra esperanças, projeta sonhos ao revelar as infinitas marcas deixadas pelos pés do Seu Vavá, gravadas no carpete empoeirado da fama. Embora rebatizado de Expedito, agora por escolha própria, para acabar com o primeiro personagem que interpretou na vida, continua Seu Vavá, que chora e faz chorar, quando fala da atriz mais importante de sua vida, sua mulher, Maria Carneiro de Araújo.

E assim, uma a uma, com as histórias do Seu Vavá, as lágrimas caem e abrem furos na poeira das poltronas vermelhas – cem ao todo -, que um dia pertenceram ao famoso Cine São Luiz.

Agora refletem o brilho da lâmpada fluorescente que faz de conta ser abajur e, viram estrelas brilhantes projetando dor e saudades da esposa, nos tempos em que Maria ficava na bilheteria. É a magia do homem, do cinema, que usava a moviola para cortar as imagens, durante os anos da ditadura militar, como cenas de sexo ou de argumentos políticos esquerdistas e subversivos. Hoje, Seu Vavá usa a velha moviola para cortar o tempo, aproximar o passado do presente e fazer recortes nas histórias doídas e voltar a sorrir.

Na oficina que fica ao lado do cinema, Seu Vavá, de mãos ainda habilidosas, conserta ventiladores, aparelhos de som e ferros elétricos. Também já foi “ator” no filme “O Cangaceiro”, de Lima Barreto.

Na verdade, foi só a mão para rodar a manivela do projetor de filmes mudos.

O portão de ferro, com o cartaz escrito a mão, anunciando Branca de Neve para as 17 horas, um dia do número 54, da Rua Padre Graça, se fecha e Seu Expedito, aos 81 anos, vira o solitário ator Vavá, diretor de sonhos e inventor de uma porção mágica, para fazer voltar a ter vida o Cine Nazaré.

Texto e imagens reproduzidos do site: portaldoenvelhecimento.com.br

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Homenagem a Seu Vavá e seu Cine Nazaré

 Foto reproduzida do blog: gurgel-carlos.blogspot.com

 Foto reproduzida do site: papocult.zip.net

Seu Vavá na platéia do Cine Nazaré
Imagem reproduzida do site youtube.com

Foto reproduzida do: blogdofarias.com

Memória - Projeto Cine Mu(n)do

Sergio Poroger fotografa Cine Nazaré para o projeto Cine Mu(n)do.

Publicado originalmente no site do jornal O POVO, em fevereiro de 2019

A sessão de cinema das cinco

Memória - Com o projeto Cine Mu(n)do, fotógrafo paulista Sergio Poroger registra cinemas de rua no Brasil e no exterior para valorizar a influência histórica da sétima arte na sociedade

Por Bruna Forte

O escritor colombiano Gabriel García Márquez comentou, certa feita, que "um cinema à hora da matinê se parece a um museu. Ambos têm um ar gelado, uma quietude funerária. E, entretanto, é a hora preferida dos verdadeiros cinéfilos. O verdadeiro cinéfilo vai ao cinema sempre sozinho". As sessões às três e cinco da tarde, desenroladas preguiçosamente no cair da tarde, eram características comuns em Fortaleza entre 1908 e 1959. Salas como Amerikan Kinema, Polytheama, Cinematógrafo Di Maio ou Art-Nouveau, Riche, Cine Diogo e Majestic-Palace se espalhavam pelas praças e avenidas da Capital, levando projeções aos olhares curiosos de quem descobria então o prazer da sétima arte. Atualmente enclausurados em shoppings, os cinemas de rua praticamente desapareceram ao longo da história - mas, na contramão do esquecimento, o fotógrafo paulista Sérgio Poroger percorre cidades ao redor do mundo fotografando "aqueles cinemas que resistem de forma heroica".

Jornalista graduado pela Universidade de São Paulo nos anos 1980, Sérgio começou a fotografar há 10 anos. "A coisa audiovisual sempre foi muito presente dentro de mim e a fotografia foi uma forma de manifestar as minhas emoções", explica. No flerte com as imagens, conheceu o trabalho de outros jornalistas e fotógrafos como William Eggleston e Robert Frank - o último, um suíço radicado nos Estados Unidos nos anos 1940 e autor do livro The Americans. Inspirado pela contemplação atenta aos detalhes simples e cotidianos de Frank, Sérgio lançou-se a uma viagem de carro por locais como Geórgia, Tennessee e Mississippi para registrar o percurso sonoro do sul norte-americano. Da experiência quase beatnik, o paulista lançou o livro de fotos Cold Hot. Agora, volta-se aos cinemas para explorar a influência histórica da experiência cinematográfica na sociedade. O novo projeto chama-se Cine Mu(n)do.

Em Fortaleza para lançar Cold Hot no Museu da Fotografia no fim de fevereiro, Sérgio dedicou-se a descobrir os cinemas de rua ainda resistentes na Cidade - como o Cineteatro São Luiz e o Cine Nazaré. "Ao contrário do Cold Hot, que eu fotografei só os Estados Unidos, eu resolvei ampliar e fotografar os personagens que habitam na magia de alguns lugares do mundo. Minha ideia é ampliar para mais cidades do Ceará em breve", adianta. Sérgio pretende registrar ainda salas de projeção antigas no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Pernambuco.

"Procuro fotografar o bilheteiro, o projetista, essas figuras marcantes dos cines de rua. A minha ideia é resgatar essa arte pulsante, já que a tendência mundial é que esses cinemas sejam engolidos. Em Fortaleza, fotografei sessões do Cineteatro São Luiz e a incrível troca do letreiro", explica Sérgio. Inaugurado em 1958 e tombado como patrimônio histórico em 1991, o Cine São Luiz resiste no Centro da Cidade com uma programação diversa em filmes, espetáculos, peças de teatro e festivais.

Sérgio também percorreu as ruas do Parque Araxá para conhecer o Cine Nazaré, que descobriu por meio de uma reportagem do Vida&Arte no início de 2018. Cuidado com atenção pelo aposentado Raimundo Carneiro de Araújo, o conhecido Seu Vavá, o cinema das cadeiras vermelhas inaugurado em 1941 é o último cinema de bairro ativo em Fortaleza. "O Seu Vavá é um cara incrível e me contou toda a história do Cine Nazaré. Sinceramente, eu vou manter isso daqui para sempre", emociona-se o fotógrafo. "Ele recebe os espectadores, organiza algumas sessões especiais em 35 milímetros, convida os amigos... É interessante porque ele recebeu do Cine São Luiz as poltronas antigas, sucatas que ele aproveita e são as cadeiras do Cine Nazaré hoje. Minha visita foi incrível, ele projetou o filme em rolo mesmo, foi lindo", complementa.

Entre capitais nacionais e pequenas localidades ao redor do globo, Sérgio conheceu mais da história dos povos a partir do que vemos e preservamos. "Na região leste dos Estados Unidos, há cinemas mais atípicos. No exterior, é perceptível que sempre havia muita riqueza relacionada ao cinema. No Brasil, o pensamento é outro, é uma coisa bem diferente. Existiam grandes redes que investem em cinemas antigos de rua, mas agora é fundamental não deixar essa realidade se perder", pontua. Com curadoria do renomado fotógrafo Bob Wolfenson, Cine Mu(n)do estreará no Metrô de São Paulo neste mês de março, onde permanecerá por três meses em diferentes estações. O fotógrafo deve voltar ao Ceará ainda no segundo semestre deste ano para continuar os registros no Estado. Até lá, é possível adquirir o livro Cold Hot na livraria do Museu da Fotografia por R$120.

Texto e imagem reproduzidos do site: opovo.com.br

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Cinema Paradiso, por Adilson Luiz Gonçalves

Imagem reproduzida do Google e postado pelo blog, para simples ilustração

Texto publicado originalmente no site Jornal União, em 07/04/2012  

Cinema Paradiso

Por Adilson Luiz Gonçalves*

Herdei de meus pais duas grandes paixões: de minha mãe, a música; de meu pai: o cinema.

Como todas as paixões que se prezem, minha vontade era respirá-las e esmiuçá-las em cada momento, mas a vida não nos concede, com raras exceções, a benção de viver do que nos dá prazer.

A “sétima arte” tem um significado especial em minha vida:

Tive bronquite até os seis anos de idade, com crises frequentes que me impediam de brincar na rua. A alternativa era a televisão.

Eu tinha, então, três anos e me lembro dos filmes de Chaplin, das séries famosas e até do que teria sido o primeiro filme dublado exibido na TV: "As Aventuras do Padre Brown".

A paixão iniciada com aquela televisão em preto e branco ganhou cores e dimensões colossais graças a um dos empregos de meu pai: projecionista de cinema.

Pela sua mão conheci algumas das dezenas salas que existiam em minha cidade, nos anos 1960 e 70.

Frequentei os "Pullmen" vazios das seções vespertinas e comi todas as jujubas, pastilhas coloridas e balas de framboesa que tinha direito. Mas era na sala de projeção que o sonho ganhava a força do fascínio:

Para meu pai não bastava projetar um filme: ele captava seu “espírito”, brincava com o volume para aumentar o impacto de um susto e orgulhava-se de não perder o tempo da transição dos projetores.

Eu tinha o mesmo prazer do menino do filme “Cinema Paradiso” (Nuovo Cinema Paradiso, Itália 1988) ao vê-lo colar a película das cópias usadas ou rebobinar a novinha "em folha" do lançamento. A intensa luz do arco do carvão, de então, iluminava os labirintos que a película percorria até que, polarizada nas lentes, transformava os vinte e quatro fotogramas por segundo em ilusão de movimento. Colocar os discos da música ambiente e acionar o tradicional sinal de início da projeção era o máximo! Eu também fiz parte dos sonhos de muitas pessoas sem saber!

Com o tempo, a TV a cabo, o "home theater" e a especulação imobiliária fecharam quase todas as salas que eu frequentei naqueles tempos.

Hoje, meu pai não projeta mais filmes, mas eu ainda lembro aqueles domingos.

As salas dos shoppings são modernas, mas não têm a mágica das de outrora. Também não tenho mais a liberdade de entrar na sala de projeção e nem meu pai está lá. Tenho que simplesmente me sentar na poltrona, como o adulto em que o menino do filme se transformou, e aguardar que as luzes se apaguem, como sempre, mas sem o inesquecível som dos carrilhões e a emoção das cortinas se abrindo.

No entanto a nostalgia se vai quando a tela se ilumina e surgem as imagens!

Nesse breve lapso de tempo, os medos, neuroses e injustiças da vida se esvaem em benfazeja alienação, redobrando o ânimo para enfrentá-las, depois.

Transporto-me em irresistível arrebatamento para o universo dos cenários, das tramas e dos personagens.

Nesse momento retomo em plenitude a consciência dessa paixão sem medidas que meu pai me transmitiu e entendo que podemos ser eternamente jovens e bons enquanto cultivarmos e transmitirmos nossos sonhos e paixões: também o fiz para meu filho!

-----------------------------------------------
* Adilson Luiz Gonçalves - Eleito para a Academia Santista de Letras - Mestre em Educação - Escritor, Engenheiro, Professor Universitário e Compositor

Texto reproduzido do site: jornaluniao.com.br

sábado, 11 de maio de 2019

Quem somos? A projeção, o projetor ou o projecionista?


Publicado originalmente no site OUNIVERSOCULTO, em 29.07.2018

Memórias e reflexões - Quem somos? A projeção, o projetor ou o projecionista?

Por Antonio Carlos Jorge

Recordo com saudade de minha infância nos anos dourados (fins da década de 50 até meados dos 60), onde morava com minha família na pequena Mongaguá (litoral sul de São Paulo), na ocasião um lugarejo ligado à São Paulo pelo ramal da antiga Estrada de Ferro Sorocabana e desprovido da “modernidade” existente na época, como telefonia e TV, por exemplo.

Assim, vivíamos isolados, com o imenso oceano de um lado e de outro a alta Serra do Mar que se precipita sobre a faixa litorânea, inserindo-nos em uma atmosfera de proteção e aconchego pela exuberante natureza virgem da bela Mata Atlântica, o nosso ninho, o nosso paraíso na Terra.

Às noites nossas diversões, além das conversas e brincadeiras intermináveis entre os amigos, era o Cinema, nosso ponto de encontro obrigatório na praça central, onde nos reuníamos para nos conectar com o que havia de novo através dos filmes. Era essa a nossa única janela para o mundo.

A programação semanal do cinema incluía 4 longas. Com raras exceções, eram películas produzidas nas décadas de 40 e 50, além dos seriados dos anos 30 e Cinejornais, como os de Primo Carbonari, Canal 100 e os belos documentários de Jean Mazon, sempre nos deixando ansiosos, pois esses antecediam a atração principal anunciada pelo serviço de auto-falantes do próprio cinema.

Meu irmão José Moacir Jorge, junto com o Luiz Solha, eram os projecionistas do cinema e isso era muito importante para mim, pois garantia minha entrada franqueada ao cinema e à própria sala de projeção, lugar místico e sagrado, cujo acesso era reservado a poucos “eleitos”.

Como os filmes eram exibidos duas vezes, em dias diferentes, exceto os dos domingos que eram exclusivos, nos dias de estréia eu os assistia da platéia e no segundo dia de exibição, eu ajudava na sala de projeção, rebobinando os rolos dos filmes já processados, deixando-os prontos para serem despachados no dia seguinte. Um longa de acetato é constituído em geral de 5 a 7 rolos, então tinha muita tarefa a ser feita.

Esse era o ambiente em que vivia, rodeado de um mundo imaginário a alimentar meus devaneios infantis, com imagens, cores e sons, compondo sonhos de fantasias, a lembrar muito o poético e belo filme “Cinema Paradiso”, que conta a estória de infância narrada pelo personagem Salvatore di Vita (Totó), que assim como eu, era o ajudante do projecionista Alfredo e que posteriormente se tornaria um cineasta italiano de grande renome (a identidade, naturalmente, para por aí).

Foram sonhos de uma infância perdida mas que continuam a inspirar a minha imaginação de sempre, pois as aspirações são sempre movidas por sonhos.

Assim sempre ficou a indagação: O que é sonho, o que é realidade!

Passados mais de 50 anos, ainda me vem à mente sobre o que de fato somos nós:

O projecionista, o projetor ou a projeção (que é a película exibida na tela ou ecran)?

À primeira vista pode ser uma indagação amalucada, pois como podemos nos comparar uma pessoa àquela que está a projetar, ou a uma máquina, ou ainda a uma simples cena que não tem consistência palpável e material?

No entanto, parece-me ser pertinente esse exercício.

Vejamos:

O projetor é um mecanismo dotado de um sistema onde giram dois carretéis que acondicionam uma bobina de fita com fotogramas que se movimentam a uma velocidade onde são enquadrados contra uma luz projetada a partir de dois carvões de polaridade elétrica opostas, que não se tocam, mas que ficam a uma distância tal que entram em fusão. Essa luz de intenso fulgor é capaz de transferir as imagens estáticas capturadas pelo obturador contra lentes, mas que pela sequência com que passam no obturador se tornam dinâmicas (24 fotogramas por segundo), conduzindo a imagem em aparente movimento à tela de exibição. É uma mera ilusão, pois não percebemos os intervalos das projeções dos quadros.

Assim é o nosso corpo físico, dotado de recursos capazes de fazer com que nos projetemos neste mundo. A capacidade com que exerceremos a projeção depende do bom funcionamento do mecanismo, principalmente no conjunto luz e lentes que garantirão a clareza das imagens obtidas. A luz não pode ser tão intensa a ponto de provocar um curto circuito (quando os dois carvões positivo e negativo se encostam), levando a uma pane. Há a necessidade de estarem a uma distância tal para promover a luz, mas não tão distante, pois não haverá a projeção. Esse é o conjunto corpo físico e corpo vital que interage com o mundo das projeções.

A película por sua vez, constituída por uma sequência de imagens estáticas, ganham, pela dinâmica do movimento, aparente “vida” ao se projetar na tela, com os personagens e roteiros pré-definidos e é aí que nosso mundo se revela, dando falsas aparências de realidade. É justamente neste ambiente que nós acreditamos nos encontrar, onde nos confundimos com as imagens e as representações dos meros personagens (protagonistas ou coadjuvantes) de uma tragicomédia ou drama que transformamos nossas próprias vidas.

Porém, embora não percebamos, somos de fato o projecionista.

O projecionista é aquele que personifica o espírito que nos rege, executando o script escolhido, com a responsabilidade de que esse seja levado a um bom termo até o fim do filme da vida.

Fico a me perguntar se é mero acaso que o fictício protagonista do filme “Cinema Paradiso” que é o próprio projecionista é chamado “Salvatore Di Vita”.

Traduzindo literalmente para o português Salvatore Di Vita é o “Salvador de Vida”, que rege, vive e atua no idílico paraíso, como nós o fazemos na vida real e não nos damos conta dessa realidade.

Somente seremos Seres plenos quando, pelo autoconhecimento, fizermos a união de nossa real identidade (projecionista) com os transitórios papéis que exercemos, servindo de fonte de experiências para o enriquecimento da alma, ainda que sejam sonhos.

Parece-me que se continuamos a nos confundir com a nossa personalidade, como meros personagens com os quais nos identificamos (eu sou isso ou aquilo, eu fiz isso, eu tenho...), continuaremos em devaneios infantis sonhando falsos sonhos sonhados.

Fernando Pessoa, está a nos inspirar em Poesias Inéditas em Nada que sou me interessa:

Nada que sou me interessa.
Se existe em meu coração
Qualquer coisa que tem pressa
Terá pressa em vão.

Nada que sou me pertence.
Se existo em quem me conheço
Qualquer coisa que me vence
Depressa a esqueço.

Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
m sonho do que terei.
Só que o não hei-de ter.

- - - -

Que a paz esteja nos corações.

Texto e imagem reproduzidos do site: ouniversoculto.wixsite.com