terça-feira, 30 de outubro de 2018

Acervo da antiga Cinédia

Alice Gonzaga e Bebel Assaf, filha e neta do fundador da Cinédia  
Foto: Vânia Laranjeira

Publicado originalmente no site Cultura RJ, em 19.07.2011

Preciosidades do cinema, num casarão na Glória

Acervo da antiga Cinédia é acalentado pela família de Adhemar Gonzaga, seu fundador

Sempre que vai à Feira de Antiguidades da Praça XV, no Centro do Rio, a pesquisadora Alice Gonzaga se ressente com um anacronismo. "Olho para o chão e vejo, estendidas, imagens de pessoas com quem eu convivia", diz, sobre as fotos antigas oferecidas para venda, acrescentando que, dia desses, flagrou a si própria, ainda menina, num dos registros.

Desde os 6 anos de idade, Alice, hoje com 76, dedica-se a resguardar dos efeitos do tempo imagens importantes para a memória cultural do Brasil. Filha do jornalista e cineasta Adhemar Gonzaga, fundador da mítica Cinédia? nada menos que o primeiro estúdio cinematográfico do país -, ela preserva, num casarão histórico no bairro da Glória, parte essencial da cinematografia brasileira, além de registros raros do começo do século passado que lançam luz a produções de outros países.

"A maioria das pessoas pensam que só guardamos material da Cinédia. Mas a parte mais preciosa do nosso acervo são fotografias e documentos de produções alemãs, dinamarquesas americanas e francesas das décadas de 1920 e 1930. Temos aqui imagens que não existem mais em seus países de origem, porque foram destruídas pela guerra", conta.

O "aqui" refere-se à casa na Rua Santa Cristina que, rebatizada com o nome Cinédia, abriga há três anos os arquivos que antes habitavam os estúdios de Jacarepaguá. Por lá estão guardados equipamentos que testemunharam as primeiras filmagens brasileiras; fotos, cartazes, contratos e documentos de filmes de diferentes fases e estilos do cinema nacional; cerca de 40 fitas de obras produzidas pela Cinédia original. Mas não apenas isso. Colecionador voraz desde a infância, Adhemar Gonzaga preservou em seus arquivos um vasto material sobre o cinema e a cultura ao redor do mundo, o que inclui desde recortes de jornal até fotos que recebia divulgando produções estrangeiras. Alice herdou a mania do pai, e continua engordando os arquivos, que contam com mais de 250 mil imagens.

Em família

Além da abrangência do acervo da Rua Santa Cristina, o que surpreende no trabalho atual da Cinédia é o caráter familiar que o sustenta. Fora Alice, trabalham no arquivo duas de suas filhas: Bebel e Maria Eugênia. Juntas, as três administram e cuidam do acervo, rejeitando qualquer possibilidade de abri-lo a parcerias públicas ou privadas.

"Eu defendo esse arquivo com unhas e dentes. Quero tê-lo sob meus olhos, garantindo sua integridade", justifica a matriarca, ela própria um arquivo vivo. Grandes figuras da cultura brasileira eram, afinal, personagens corriqueiros em sua vida desde o berço. "Eu gostava de ir à costureira com a Carmem Miranda, quando criança. Só lamentava que o caminho fosse tão breve: bastava uma caminhada até a Lagoa, no Edifício Lombardi". Com Humberto Mauro, grande colaborador dos estúdios Cinédia, Alice teve pouco contato. Mas conviveu longamente com o casal Vicente Celestino e Gilda de Abreu. "O Vicente era muito simpático e alegre, não tinha nada daquela tristeza toda de O ébrio. Mas a Gilda era muito mandona. Foi ela que segurou a carreira do Celestino, era a cabeça do casal", conta.

Sem qualquer patrocínio, a Cinédia atual tem a base de sua receita na venda de reproduções de fotos e de trechos de filmes. "Na internet há bastante coisa, mas a qualidade não é a mesma", justifica. Há 1 ano, duas salas do casarão são usadas para cursos, que vão da música aos quadrinhos. O acesso ao acervo, porém, acontece de forma mediada. Quem descreve é a própria Alice: "Os pesquisadores devem me procurar, explicar o objetivo da pesquisa e eu mesma separo o material. Infelizmente, isso é pago, de acordo com o volume de informações envolvidas. Afinal, precisamos manter essa casa".

O rigor nos procedimentos possivelmente afasta candidatos à pesquisa, a própria Alice admite. "Sou chata", diz, bem-humorada. Algumas pessoas acabam conquistando, porém, regalias. É o caso do escritor Ruy Castro, que recorreu às raridades do acervo quando escreveu a biografia de Carmen Miranda. "Meu sonho é convencê-lo a escrever agora a biografia do Adhemar Gonzaga", revela a pesquisadora, que acalenta o hábito de chamar o pai e as filhas pelo nome próprio. "Precisamos zelar pelo profissionalismo", justifica.

Mas há outros sonhos que Alice enumera. Um deles é conseguir digitalizar os filmes feitos pela Cinédia. Há pouco tempo, cinco deles foram restaurados, graças ao apoio da Petrobras. "Queremos restaurar outros, mas preciso recobrar o fôlego. Os laboratórios no Brasil têm um processo muito demorado. Às vezes eu penso se não seria mais fácil fazer esses restauros em Amsterdã", brinca.

Outro sonho é criar um Museu do Cinema. E convencer algum carnavalesco a transformar em samba-enredo o filme Alô, alô Carnaval. "Cada número musical seria uma ala", imagina.

Juliana Krapp

Texto e imagem reproduzidos do site: cultura.rj.gov.br

domingo, 28 de outubro de 2018

Uma homenagem a Herbert Holetz


O cinéfilo generoso

Uma homenagem a Herbert Holetz no Dia do Cinema Brasileiro
Sylvio Zimmermann Neto – Presidente da Fundação Cultural de Blumenau

No Dia do Cinema Brasileiro, não há como deixar de citar o cinéfilo regional Herbert Holetz. O blumenauense descobriu sua paixão ainda criança, quando a mãe o levava junto dos irmãos às sessões de “O Gordo e o Magro”, “Tarzan” e aos desenhos animados de Walt Disney. Lá, deleitava-se com o momento conforme as cortinas vermelhas abriam-se: era o mundo mágico da fotografia diante dos olhos.

Já na adolescência conheceu Reynaldo Olegário, gerente do Cine Garcia, que lhe ensinou os segredos da sétima arte. Quando a família de Holetz saiu do bairro Garcia para morar na região central de Blumenau, ele viu a oportunidade de ir ao cinema com mais frequência. Planejou um modo de conseguir assistir aos filmes sem precisar pagar: na época havia a “sessão de elite” no Cine Busch, que enumerava as cadeiras no último horário de exibição. Assim, o pequeno Herbert auxiliava o público para situá-los em seus lugares dentro da sala e, em troca, assistia ao longa-metragem.

Essa paixão refletiu-se na vida profissional; e de lanterninha passou à gerência do Cine Busch. Depois de trabalhar 40 anos no cinema, o estabelecimento acabou fechando e o cinéfilo se viu obrigado a deixar o lugar. Não conseguindo abandonar seu fascínio, contribuiu de várias maneiras com a Fundação Cultural de Blumenau, com a doação de filmes em películas, cartazes, filmadoras e projetores. Para organizá-los, ele trabalhou voluntariamente no arquivo histórico durante sete anos, até que passou a ser contratado para iniciar o Cine Arte na Fundação.

Embora Holetz não esteja mais exercendo atividades conosco, não deixamos essa paixão de lado. O Cine Arte completa em 2013 dez anos de existência, mantendo a programação idealizada por Herbert Holetz. Atualmente o Cine Arte acontece todas as segundas-feiras às 19h30 no Cine Teatro Edith Gaertner. A exibição é separada por temas que variam do faroeste ao cinema brasileiro.

Não há data melhor para lembrar o querido senhor Holetz do que no Dia do Cinema, cuja vida é permeada pelas histórias da grande tela e, por meio delas, nos ensina a apreciar e respeitar a sétima arte. Nossos agradecimentos públicos a este homem que coloca generosidade e gentileza em cada pequeno gesto, que contribui para encher o mundo com mais emoção, que deixou sua marca na história de Blumenau compartilhando seu patrimônio mais precioso: a cultura.

Fonte: Fundação Cultural de Blumenau – Arquivo Histórico José Ferreira da Silva.

Texto e imagens reproduzidos do site: arquivodeblumenau.com.br

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Cinema Paroquial

Foto reproduzida do site nofilmschool.com e postada pelo blog, 
para simples ilustração do presente artigo

Meninos, Eu vi – Cinema Paroquial

Por Marcos Calaça, jornalista (UFRN)

O padre Antas lançou o Cinema Paroquial, em Pedro Avelino, nos anos de 1960 e permaneceu até meados da década de 70, até a sua morte. O Cinema tinha palco para teatro, sala para máquinas cinematográficas na parte de cima e cadeiras que não deixavam a desejar a nenhum prédio cinéfilo do Estado. O cinema era uma grande novidade, um negócio fascinante que tinha chegado à cidade. Para a meninada, assistir um filme era uma alegria imensurável. Após a sessão, os meninos saíam do cinema para casa contanto os melhores momentos do filme, do sofrimento do artista principal, que no final era o vitorioso. 

A propaganda dos filmes era feita de uma maneira muito peculiar e interessante. Em armações de madeira e compensado, as fotos de divulgação fornecidas pelas distribuidoras eram coladas e, com tinta azul xadrez, eram escritos o nome do filme e dos artistas principais, além de uma frase copiada dos folhetos de divulgação. As armações ou tabuletas de compensado eram colocadas em pontos estratégicos da cidade e tinham várias informações sobre o filme, como horário, elenco, fotos e algumas frases de efeito, como emocionante, não percam, sensacional, espetacular. Era a mídia e o marketing da época. Quando o filme era famoso e caro, a propaganda se tornava mais agressiva: Dois garotos andavam por toda a cidade, com a tabuleta nas mãos, e a meninada corria para ver o filme do domingo à noite, após a missa. Era cinema cheio na certa. Três chamadas alertavam para o início do filme, não sei se do agudo para o grave, ou o contrário.

No início, havia apenas uma máquina para exibição dos filmes e quando ela quebrava precisava ser consertada na mesma hora, caso contrário teria que devolver o valor dos ingressos, pois o tempo de permanência do filme na cidade, através do contrato, não permitia que a exibição fosse feita no dia seguinte. Seu Caldas era perito em consertar rapidamente a máquina. Ele desmontava, descobria o defeito e consertava em menos de dez minutos. Quando surgia um defeito o público não se incomodava pois sabia que dentro de poucos minutos tudo estaria normalizado. Muito tempo depois, o operador começou a trabalhar com duas máquinas, um rolo em cada uma delas.

Eu imagino que seu Caldas tinha apenas uma preocupação concreta no cinema, era a preocupação da mudança de um rolo para outro. Como projecionista ficava atento à sinalização de, no máximo, dez segundos, sem o telespectador perceber.

Francisco Caldas colaborou com essa manifestação cultural, e que o Cinema Paroquial recebia filas de crianças, jovens e adultos numa época telúrica.

Naquela época o faroeste ou bang-bang era o gênero preferido da meninada que ficava atenta a xerifes, pistoleiros, bandidos, mocinhos, diligências, índios etc. Depois do filme, seu Caldas direcionava o público para ficar atento ao seriado Flash Gordon no Planeta Marte. Cada seriado terminava num momento de emoção e de incerteza para que o público ficasse atento para o próximo episódio e, consequentemente, o filme também.

Para agradar ao público, o filme deveria ter muita ação. Os preferidos eram os de cowboy, de piratas, de aventuras e de Tarzan. Os astros preferidos eram Antony Quynn, James Cagney, Alan Ladd, Gary Cooper, Humphrey Bogard, John Wayne, Johnny Weissmuller, Gordon Scott, Lex Barker, Burt Lancaster, Franco Nero. As artistas eram Alex Smith, Bárbara Stanwick e Ann Sheridan, Dorothy Hart, Katherine Hepburn e Maureen D'Sullivan. Toda sexta-feira santa era exibido o filme "Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo", com casa lotada.

Por fim, o cinema se acabou, mas os filmes continuam na minha mente. Infância feliz.

Texto reproduzido do site: marcos.calaca.zip.net 

Uma vida no cinema

"Baiano" posa com o antigo projetor do Cine Pedutti,
 equipamento, como ele, já “aposentado”...

Publicado originalmente no site Debate News, em 16 de agosto de 2017 

O aposentado Walter Gomes da Silva, que trabalhou a vida inteira no cinema, vai receber menção honrosa.

Uma vida no cinema

Por Sérgio Fleury Moraes

Pouca gente conhece Walter Gomes da Silva. Mas o apelido de “Baiano do Cinema” imediatamente remete à lembrança dos “anos dourados” do antigo Cine Pedutti, de Santa Cruz do Rio Pardo, que uniu gerações através da “sétima arte”. Hoje aposentado, Walter será homenageado pela Câmara de Vereadores na noite desta quinta-feira, 17, quando vai receber o título honorífico de “honra ao mérito”.

O projeto foi apresentado pelo vereador Cristiano Neves (PRB) em março. Na mesma noite, também receberá o título de cidadão o funcionário aposentado Osmar Aparecido Costa Ribeiro, que trabalhou muitos anos na antiga Usina de Reciclagem de Lixo e na Codesan. Desta vez, o projeto teve como autor o vereador Cristiano de Miranda (PSB).

A entrega dos dois títulos será a partir das 19h30 de quinta-feira no plenário da Câmara de Santa Cruz do Rio Pardo, em sessão solene.

Walter Gomes, o “Baiano do Cinema”, mostra antigos
 boletins com a programação semanal do cinema

No caso de Walter “Baiano” Gomes, é uma homenagem ao trabalhador cuja vida se confunde com o cinema de Santa Cruz do Rio Pardo, cidade onde nasceu e mora até hoje.

“Baiano”, que devido à profissão teve o “cinema” acrescentado ao apelido, trabalhou desde adolescente no antigo Cine Pedutti, que em 1985 foi adquirido pelo município, no governo de Onofre Rosa de Oliveira, e transformado no “Palácio da Cultura Umberto Magnani Netto”. Antes, foi engraxate e cobrador de ônibus. No cinema, foi “lanterninha” — funcionário que percorre os corredores com uma pequena lanterna nas mãos — e projetor de filmes, além de bilheteiro e porteiro. Ele também distribuía boletins de programação do antigo cinema.

Contratado pela prefeitura, Baiano continuou operando os antigos projetores de filmes até se aposentar. Em várias entrevistas ao jornal, ele contou que se orgulha de ter vivenciado namoros que se transformaram em casamentos da sociedade. Ele, na verdade, “vigiava” os casais para as famílias.

Walter costumava destacar as filas enormes que os filmes de Mazzaropi provocavam nos anos 1960 e 1970, algumas vezes com até dois quarteirões. Em décadas como operador do projetor, Walter ensinou o ofício a muitas pessoas.

No entanto, “Baiano” também participou de ações beneméritas. Durante muitos anos, ele foi o “Papai Noel” da praça central de Santa Cruz do Rio Pardo nos finais de ano. Distribuindo balas e sorrisos, sempre levou alegria às crianças.

Texto e imagens reproduzidos do site: debatenews.com.br

Antigo cinema do Colégio Estadual do Paraná (CEP)

Publicado originalmente no site do CEP, em 9 de julho de 2016 

Antigos projetores comprovam que já funcionou um cinema no CEP 

Poucas pessoas sabem, mas o Colégio Estadual do Paraná (CEP) também já serviu como palco para importantes projeções cinematográficas que encantaram estudantes e a sociedade curitibana nas décadas de 50, 60 e 70. Os antigos projetores, que ainda funcionavam com geradores de energia para queima de carvão, comprovam esta parte da história do colégio quando ainda serviam para importantes exibições feitas no auditório (cineteatro), com capacidade para cerca de mil pessoas.
  
 Seu Dante e as máquinas do cinema antigo

“Foi certamente um momento importante para história do colégio e também da cidade, afinal, a sociedade curitibana, e sua comunidade estudantil, dispunha de uma ampla sala de cinema dentro da escola, o que era possivelmente inovador para aquela época”, afirma João Paulo Lourenço Ortiz (Seu Dante), antigo funcionário e voluntário junto ao atendimento técnico.

Projetores antigos (destaque para o gongo na parede)

Os projetores ainda podem ser encontrados na antiga sala de projeção, no primeiro pavimento. Lá, estão as máquinas pesadas da marca Ciclex, de fabricação americana (conforme etiquetas original). As especificações técnicas mostram ainda que para o funcionamento adequado da lâmpada exigia-se uma geração de energia para 15-24 Volts. Também um complexo sistema de engrenagem era acompanhado por técnicos especializados, responsáveis pelo controle e movimentação do filme que passava na frente de poderosas lentes para amplificação a imagem final na tela de apresentação.

Filmes antigos

Seu Dante também afirma que o gerador precisava ficar acomodado em uma sala fechada, imediatamente abaixo da sala de projeção. “O barulho do equipamento não podia interferir nas transmissões”, confirma o antigo funcionário. Uma sineta, utilizada para anunciar o inicio da apresentação, ainda está fixada no local original, ao lado de uma antiga vitrola que também era usada para garantir música no ambiente antes e nos intervalos das exibições.

Gaveteiro de filmes

Segundo Dante, várias produções foram apresentadas no cineteatro desde a fundação. Um convênio era firmado com o Cine Palácio, que ficava na área central da cidade. “Todos os filmes que entravam em cartaz no cine Palácio eram depois enviados para serem exibidos no Estadual”, conta. Todos os equipamentos utilizados nas projeções cinematográficas dentro do CEP fazem parte do patrimônio histórico do colégio, que, este ano, completa 170 anos de existência.

Antigo toca-disco

Fonte: Sérgio Zaccaria (Zac)

Texto e imagens reproduzidos do site: cep.pr.gov.br

sábado, 18 de agosto de 2018

Cine Santana, em São José dos Campos/SP.




Funcionário do Cine Santana, Edson Neves mostra o projetor da década de 50.
Foto: Rogério Marques/OVALE

Publicado originalmente no site O Vale, em 20 outubro de 2017

Aos 65 anos, último cinema de rua resiste à época do 'the end' no Vale

Cine Santana, na zona norte de São José, mantém-se em atividade, resistindo à fase de expansão das grandes redes de filmes

Julia Carvalho@carvalho8123
São José dos Campos

Inaugurado em 12 de outubro de 1952, o Cine Santana, na zona norte de São José dos Campos, completa 65 anos. É o último cinema de rua da RMVale ainda em funcionamento, resistindo à tendência das grandes redes de filmes e à ocupação dos antigos salões por grandes lojas ou igrejas.

Como comemoração, o Cine Santana tem uma programação especial até o dia 27. O cinema, com capacidade de 800 espectadores, teve como proprietários iniciais José Quirino da Costa, José Francisco Natali e Fernando Navajas.

Possuía dois projetores de 35 milímetros, com iluminação a carvão (carbureto), proporcionando que o filme não tivesse que ser interrompido para troca dos rolos, fato comum nas salas de projeção da época.

Foi criado para exibição de filmes e apresentações de teatro, dança, entre outras manifestações artísticas. Nas décadas de 50 e 60, exibiu películas de Mazaroppi, de grandes produções cinematográficas nacionais, da Atlântida e da Vera Cruz, além de filmes internacionais.

Recebeu também grandes espetáculos, como Roberto Carlos, entre outros nomes.

O barbeiro Odilon de Moura, 70 anos, diz que o Cine Santana preserva a emoção de sua juventude. "O cinema era o grande acontecimento de meus fins de semana. Com amigos, eu vinha de Monteiro Lobato até o bairro de Santana para assistir aos filmes de Mazzaropi, comer pipoca e namorar'", conta.

TELONA.

Hoje, o espaço tem capacidade para cerca de 300 pessoas e possui 14 oficinas do programa Arte nos Bairros, que atende cerca de 200 alunos, além do projeto em parceria com o Museu de Imagem e Som do Estado de São Paulo (Ponto MIS), por meio do qual é exibida, todo mês, uma seleção de filmes nacionais e internacionais.

Há três anos, o empresário Ricardo Neves, que é apaixonado por cinema, sai de Itajubá (MG), onde mora, para passar os filmes em película de 35 milímetros no cinema.

"Quando eu era garoto trabalhei em um cinema muito parecido com o Cine Santana, por isso me apaixonei por este projeto e resolvi adotá-lo para que as pessoas conheçam um pouco do verdadeiro cinema".

O espaço cultural fica aberto de segunda à sexta-feira, das 8h às 22h.

Texto e imagens reproduzidos do site: ovale.com.br

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Imagem Museu do Cinema Roque Araújo e alunos do Distrito dos Humildes



Texto publicado originalmente no site O Brasileirinho, em 03/11/2017

Memória do cinema nacional abre as portas para jovens estudantes

By Jackson Rubem

Imagem Museu do Cinema Roque Araújo e alunos do Distrito dos Humildes

Imagina ter a oportunidade de conhecer a memória viva do cinema brasileiro, integrante do Cinema Novo, lembrado pela parceria com Glauber Rocha, um dos mais reconhecidos cineastas baianos. Os estudantes da Escola Municipal Geraldo Dias de Souza, localizada no Distrito de Humildes em Feira de Santana, visitaram e conheceram de perto o histórico acervo de Roque Araújo, localizado na famosa Rua 25 de Junho em Cachoeira.

O Museu do Cinema Roque Araújo abriga objetos datados de 1898 e raridades como a segunda versão do projetor dos irmãos Lumière, famosos por dar origem ao que conhecemos hoje por cinema. Também pode ser observado o Kodascop, de 1910 e um projetor alemão ainda em funcionamento.

São mais de 60 anos de vida dedicados ao cinema muito deles em produções junto com Glauber Rocha e Roberto Pires. Ainda em atividades, o último filme de Roque Araújo e o “O tiro – um disparo de amor e prazer” (2016) que ainda não foi lançado no Brasil. “Parei de contar meus filmes faz 20 anos”, diz Araújo que quando contava estava na casa das 180 produções.

Araújo conta que a história com Cachoeira vem de quando ele ministrava cursos na cidade através de um dos terreiros culturais da cidade e na oportunidade colocava o parte do acervo em exposição. “Fiz uma exposição que ficou cinco meses na universidade e o poder público pediu para trazer esse acervo para a cidade, esse museu seria aberto em Salvador”, disse. A casa cedida pela prefeitura ainda não foi assumida, por problemas burocráticos. O imóvel da Rua 25 de Junho foi cedido pelo IPAC.

O museu tem também um objetivo social, com a missão de disponibilizar cursos de cinema, para funções de continuísta, cenógrafo, dublê, dublador, figurinista, ator, roteirista, costureira, eletricista, cenotécnico, técnico de som entre outros. Araújo, somente em Cachoeira, tem 750 peças, nem todas estão expostas, por falta de espaço, em Salvador o cineasta tem 3.400, em Porto Seguro, expostas estão cerca de 690 câmeras e no Rio de Janeiro, 1.890 peças. “O que me levou a isso foi descobrir que no Brasil tem museu de tudo. Arte Moderna, Imagem e Som, Arte Sacra, então inventei fazer o único museu que não tem no país , para trazer as futuras gerações o que gerou a sétima arte. Então aqui dentro você encontra de tudo”, comenta o cineasta, que trouxe para Cachoeira parte dos equipamentos do estúdio Som Mil, que fica no Rio de Janeiro.

Sobre Glauber Rocha, Roque se orgulha em dizer que trabalhou com o cineasta em todas as produções, inclusive foi ator (um dos cangaçeiros) em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. “Trabalhei com Glauber e ele me tinha como uma pessoa da família, conheci ele ainda jovem em Salvador”, lembra-se Araújo, que completa. “Se vivo ele continuaria fazendo cinema e seria ministro da Cultura”, categoriza.

Professor Reginaldo Santos

Texto reproduzido do site: obrasileirinho.com.br

sábado, 16 de junho de 2018

Amor à arte mantém o Cine Veneza

 Projetor de última geração reproduz filmes em 4K (ultra HD) e com som digital (Dolby)

 Primeiros projetores são preservados pelo proprietário

Único representante da “época de ouro” dos cinemas da cidade é mantido pelo próprio
 dono para não fechar as portas. Sala tem capacidade para receber até 220 espectadores
 Fotos: Jota Gomes/Diário da Amazônia

Publicado originalmente no site do Diário da Amazônia, em 03/06/2015 

Amor à arte mantém o Cine Veneza

Os cinemas de rua perderam espaço para as salas de cinema dentro de shoppings.

Por Emerson Machado

Os cinemas de rua marcaram época em todo o Brasil, sendo que em várias cidades eles se tornaram pontos de encontro de sociedades inteiras. Em Porto Velho, a história do cinema começou na década de 1950, quando a família Lacerda inaugurou o Cine Lacerda. Com alguns empreendimentos no decorrer dos anos, muitos tiveram as portas fechadas e, atualmente, apenas o Cine Veneza sobrevive na capital.

De acordo com o Dr. Francisco Alves Lacerda, que ainda hoje é o proprietário do Cine Veneza, relembrar a época em que os cinemas eram uma sensação em Porto Velho é algo que faz com alegria. “Sempre gostei muito de cinema, cresci gostando desta arte e lembrar de quando investíamos no entretenimento de Porto Velho é algo que faço com orgulho”, contou ao Diário.

Entretanto, Dr. Lacerda afirma que o único sobrevivente desta época de ouro dos cinemas da família na capital é mantido pelo próprio dono para não fechar as portas. “Hoje em dia o Cine Veneza não se mantém por si só, mas eu me recuso a fechar as portas, pois é um lugar que ainda preserva o que Porto Velho já teve e tem no ramo do entretenimento”, destaca.

PIRATARIA É A GRANDE VILÃ

Lacerda ainda revelou que a pirataria de DVDs nos anos 2000 foi um dos momentos mais difíceis para o mercado do cinema em Porto Velho. “Na época que a pirataria se instaurou na cidade, precisamos fechar o Cine Brasil – que era um dos que mais atraíam o público da cidade. Filmes como ‘Anaconda’ tinham tanto apelo que os espectadores chegavam a formar filas que contornavam o quarteirão”, relembrou empolgado.

O Cine Brasil ficava na avenida Sete de Setembro e fechou as portas em 2007 – quando o negócio se tornou insustentável. Sobraram então o Cine Rio (que ficava no antigo Rio Shopping, outro empreendimento que passou por dificuldades nos últimos anos) e o Cine Veneza, que ainda recebe o público na rua Joaquim Nabuco, centro da capital rondoniense. “Fechamos o Cine Rio mais recentemente, que ainda recebia certo público, mas as dificuldades no Rio Shopping atingiram todas as lojas”, disse.

Apesar de tanta riqueza histórica e várias salas fechadas, o Cine Veneza continua firme na batalha de levar entretenimento aos porto-velhenses. Segundo o Dr. Lacerda, o público do Cine Veneza agora é mais familiar – pais e mães que decidem levar os filhos para assistir a algum filme. “Por isso, as animações fazem bastante sucesso e enche a sala, então conseguimos um público considerável para os padrões atuais”, revela.

DIFICULDADES NO DECORRER DA HISTÓRIA

A família Lacerda, que desde cedo investia em entretenimento para a capital de Rondônia e também em outras cidades do Estado, abriu os estabelecimentos para projetar filmes em Porto Velho porque via como um nicho a ser explorado. “Construir e manter uma sala de cinema é muito caro, então é preciso ter amor pelo que se faz para que dê certo. Por muito tempo deu certo, mas as coisas passaram a ficar cada vez mais difíceis”, admitiu.

Ele relembra que nos primórdios do cinema em Porto Velho, as pessoas se reuniam em peso para assistir aos filmes – que, às vezes, chegavam a levar dois ou três anos para serem exibidos aos porto-velhenses. “Eram poucos filmes disponibilizados pelo País e eles iam passando de cidade em cidade até chegar a Porto Velho, então, muitas vezes, quando eles chegavam já tinha se passado três anos do lançamento”, lembrou.

A chegada da televisão local também abalou os negócios da família Lacerda. “Quando chegou a televisão as pessoas deixaram de ir ao cinema porque preferiam ver o que passava na TV. A programação era feita com comediantes e outras personalidades da época e chamava a atenção dos espectadores”, acrescentou. A transmissão televisiva nacional também foi relatada como algo que dificultou os negócios. “A Globo chegou com a inovação de passar filmes que eram até recentes, que talvez chegasse aos nossos cinemas meses depois”, contou.

CONCORRENTE TROUXE VANTAGENS

Depois do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), o Corpo de Bombeiros pediu que o Cine Veneza passasse por diversas adequações. Hoje em dia, o cinema não conta mais com as cortinas vermelhas e o carpete, mas tem um poderoso sistema de emergências para os possíveis 220 espectadores – caso todas as poltronas sejam ocupadas. “Ficamos três meses fechados depois daquele incêndio para fazer as adequações e aproveitamos para aprimorar a tecnologia do cinema”, explica Dr. Lacerda.

As informações são confirmadas por Eduardo Aldunede, administrador do Cine Veneza há 8 anos. “O Dr. Lacerda entende de cinema, ele ama esta arte, então ele busca o melhor para o Cine Veneza. Temos equipamentos de última geração e um som potente de qualidade para receber os espectadores”, conta Aldunede. A cabine de projeção conta com sistema de som digital (Dolby), dois projetores de última geração – um deles que reproduz filmes em 4K (ultra HD) – e duas relíquias para preservar memórias: projetores antigos que são de valor inestimável para o dono.

Outro ponto destacado pelo administrador é a série de vantagens que o Cine Araújo (que é instalado dentro do Porto Velho Shopping) trouxe para Porto Velho desde 2008, depois de ter abocanhado parte dos espectadores nos primeiros anos de funcionamento, inclusive para o próprio Cine Veneza. “A concorrência do Cine Araújo, no shopping, nos fez modernizar o Cine Veneza, aumentamos a qualidade para um público que merece conforto e uma sessão perfeita”, afirma.

E com relação ao momento econômico da cidade e do País, Dr. Lacerda declara que mesmo com tantas dificuldades não pretende fechar o Cine Veneza. “Já pensei em fechar sim. Mas não consigo. Então pensei em reformular, construir mais uma sala e passar a administração para a minha filha, mas ainda não decidi. Muitos amigos me perguntam se eu fechei ou vou fechar o cinema, eu garanto que não. É o meu xodó”, finaliza.

Texto e imagens reproduzidos do site: diariodaamazonia.com.br

terça-feira, 12 de junho de 2018

Do corte à projeção

Películas de 16mm e 35mm são a grande relíquia do local. 
"Pra um filme, é preciso quatro rolos", explica Seu Vavá

Publicado originalmente no site do jornal O Povo, em 29/01/2018

Do corte à projeção

Sempre ligado ao cinema, sua paixão, Seu Vavá não só aprendeu a mexer com a técnica — é ele quem corta os filmes, projeta, etc. — como também saiu do Estado para montar cinemas de bairro por algumas cidades do Brasil. “Já estava com 24 anos, ainda era solteiro (só casei em 1955). Como eu já tinha conhecimento de eletrônica, pagaram outro curso pra mim”, relembra.

Quando terminou todos os estudos, já tinha conhecimento de rádio, cinema e televisão. “Aí fui pra São Paulo. Quando o Cinema Familiar (outro local onde ele trabalhou) fechou, comecei a receber convite pra fazer montagem de cinema em Belém, Castanhal (PA), Santarém (PA), Imperatriz (MA), etc”.

É clara também sua lembrança dos tempos difíceis pelos quais o cinema passou no Brasil daquela época. “Trabalhei direto de 1970 a 1973. Aí veio exatamente a crise e, como não tinha como escapar, o meu cinema fechou também. Aí no prédio, colocaram então uma oficina mecânica”.

"Esses shoppings de hoje em dia têm umas televisões grandes!"
Raimundo Carneiro de Araújo (Seu Vavá) Proprietário do Cine Nazaré

Antes do Cine Nazaré, Seu Vavá se aventurou por outras profissões. “Já trabalhei com moldura de quadro, daqueles (em formato) oval que hoje em dia nem tem mais, trabalhei com conserto de fechadura, móveis”. Mas seu negócio era conseguir um emprego no cinema. “Até que um dia, um padre me convidou pra fazer a limpeza do Cine Familiar (bairro Otávio Bonfim)...”

Depois veio o Cine Nazaré. Fechado por conta da crise, Seu Vavá conseguiu reativá-lo. “Até então, eu continuava pagando o aluguel do prédio. Tive muita dificuldade pra conseguir ele, tive que fazer as maiores estripulias. A luta foi grande, mas eu consegui vencer. Ele é de minha propriedade”.

E essa paixão, Seu Vavá, seguiu para os filhos? “Ave Maria, eles não querem nem saber! Eu até entendo o porquê: eu os colocava, ainda crianças, pra trabalharem comigo...”.

A memória do cinema permanece, até segunda ordem, com seu único guardião.

Texto e imagem reproduzidos do site: opovo.com.br