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sexta-feira, 10 de julho de 2020

José Zagati










Mini Cine Tupy

José Zagati, catador de papelão de Sitio das Madres, assentamento na periferia de São Paulo, montou uma pequena sala de cinema na garagem de sua casa, com materiais encontrados no lixo, para poder exibir filmes para as crianças da vizinhança.

O cinema funciona todos os domingos e a sessão começa assim que anoitece.

Se não chover: é que o projetor fica desprotegido na calçada, para que tenha maior distância da tela.

A entrada é franca.

Texto e imagens reproduzidos do site: jangada.org

Mini Cine Tupy


FOTO HISTÓRICA

Cristina Aguilera/Divulgação/PMTS
Reproduzida do site: otaboanense.com.br

Mini Cine Tupy

No início dos anos 2000, Zagatti, catador de sucata, monta seu próprio cinema na periferia de Taboão da Serra, o Mini Cine Tupy. 

De graça, passava filmes para crianças que ganhavam ainda pipoca e refrigerante.

O grande mini-cine Tupy

Foto: Eduardo Toledo

Publicado originalmente no site [otaboanense], em 23 de abril de 2012

O grande mini-cine Tupy
Por Sérgio Vaz

Esses dias assisti a um filme brasileiro chamado “Tapete vermelho” do diretor Luiz Alberto Pereira que conta a saga de um pai que promete ao filho leva-lo ao cinema para ver um filme do Mazzaropi.

Ao sair da roça, em sua busca, percorre várias cidades do interior e descobre que as salas de cinemas já não são tão populares como nos tempos do seu pai (a maioria delas virou templos evangélicos). Um filme para quem ama a sétima arte, e para quem curte o impagável Matheus Nacthergaele, um dos melhores atores do país.

Estou falando disso porque sou amante do cinema e porque também me lembrei de uma outra paixão: as pessoas simples que atuam na realidade. Cinema + pessoas simples = Zagati. Luz!

Para quem não conhece, no horário comercial Zagati é catador de papel, e, por conta disso, seus dias são quase invisíveis nas grandes salas coloridas onde são decididos nossos papéis de coadjuvantes, nesse curta-metragem que é a vida. Nada disso! Isso é para quem interpreta o filme errado. O Mazzaropi de Taboão achou um projetor no lixo, criou o mini-cine Tupy para que as crianças da periferia também possam sonhar aos domingos com o mundo dentro de um saquinho de pipoca. Já é até filme. Câmera!

Zagati é um ser humano como poucos, por isso sofre como muitos. Arte é sofrimento e ser uma pessoa boa atrai muitas pessoas ruins. Sabe como é… nessa vida tem muito vilão no papel de mocinho, e é muito difícil chegar ao fim da película sem que alguém sangre no final.

Sendo o que é, Zagati é um dos melhores personagens da vida real dessa cidade e de outras cidades do mundo. As crianças que lotam seu cinema sabem do que eu estou falando. Aliás, um sorriso no rosto é o valor da entrada.

O seu mini-cine Tupy é o nosso cinema Paradiso, que é outro filme belíssimo sobre amor ao cinema. Esse longa, de Giuseppe Tornatore, conta a história de Toto, um menino que amava ir ao cinema, e se torna amigo do velho Alfredo, projecionista do local no único cinema na cidade.

Aí segue uma verdadeira história de amizade e amor ao cinema. O filme é lindo, assista. A história maravilhosa do Zagati passa diante dos nossos olhos, sem cortes e sem efeitos especiais, conheça. Ação!

Texto e imagem reproduzidos do site: otaboanense.com.br

quinta-feira, 1 de junho de 2017

José Luiz Zagati (1950 - 2016)

Foto: Arquivo/Eduardo Toledo/ O Taboanense.
Postada por Máquina de Cinema, para ilustrar a presente matéria.

Texto publicado no site Taboão em Foco, em 27 de outubro de 2016.

Zagati, o catador de sucatas que amava cinema, morre aos 66 anos de câncer

Da redação do Taboão em Foco

Morreu na noite desta quarta-feira (26 de outubro de 2016) José Luiz Zagati (66 anos), o catador de sucatas, que transformou a garagem de sua casa em Taboão da Serra em um cinema e passava filmes para crianças carentes. Ele estava internado no Instituto do Câncer onde fazia tratamento contra a doença. O enterro aconteceu na manhã desta quarta (27) no Cemitério da Saudade. Ele deixa 9 filhos.

Zagati era um catador de sucatas apaixonado por filmes. Durante anos, aos domingos, transformava a garagem da sua casa no “Mini-Cine Tupy” e passava filmes em película 16 mm para as crianças do bairro Jardim Record, com direito a pipoca.

Sua história ganhou páginas de jornais, estampou sites, matérias nas principais emissoras de televisão e culminou com os documentários “Mini-cine Tupy”, de Sérgio Block e “Zagati” , de Edu Felistoque , que lhe rendeu o troféu Kikito, Oscar do cinema brasileiro.

Em entrevista há anos a Rede Record, Zagati contou como construiu o cinema. “Comecei com os materiais encontrados no lixo, inclusive as primeiras cadeiras. E eu recebo doações de pessoas. Pessoas que tem filme em casa vem me trazer, encontram no lixo projeto quebrado, outros vem me trazer fitas de vídeos. A gente começou tirando um pouquinho do que ganho. Se tenho dez reais, tiro dois e deixo para o cinema. Se você quer fazer mesmo aquilo que tem dentro do coração, você consegue do nada”, disse.

A jornalista Cristina Aguilera, que fazia de forma voluntária o papel de assessora de imprensa, conta um pouco da importância dele.

“Acompanhei e divulguei a história desde início. Zagati deu notoriedade para a cidade de Taboão da Serra, sua história foi divulgada nas mais importantes mídias do país e também no exterior. Hoje ele é referência quando se fala em cinema, sua história virou vários documentários, ele ganhou o troféu kikito, que é o Oscar do cinema nacional. Muitos que amam a sétima arte se perguntam como um simples catador de sucatas conseguiu construir um cinema. Talvez porque não tivessem conhecido Zagati, sua força, orgulho e amor pelo cinema”, diz Cristina.

Recentemente, ela criou uma ‘vakinha’ virtual para arrecadar dinheiro e ajudar a família a custear as despesas que passaram a ter após a doença.

Texto reproduzido do site: taboaoemfoco.com.br

sábado, 14 de janeiro de 2017

Vida Solidária – O catador de imagens e cidadãos


Vida Solidária – O catador de imagens e cidadãos
Por Cláudia Piche*

Jornalista com 18 anos de experiência, sabe que, em TV ou em revista, retratar o perfil de um personagem exige acima de tudo uma história interessante, e sensibilidade e inteligência para contá-la. É isso o que o leitor de Idéiasocial terá neste perfil de José Luiz Zagati, o catador de papel que construiu um cinema em Taboão da Serra. Como jornalista de TV, Cláudia acostumou-se a casar imagem com texto, o que explica a forma inusual e a concessão metalingüística deste perfil: a vida do cinéfilo comunitário é contada aqui a partir de uma seqüência de cenas e imagens.

E aí seu Zé, vai ter filme hoje?

Se a resposta for afirmativa, uma fila de crianças começa a se formar na entrada do Mini Cine Tupy, na Gleba C, do Jardim Record, bairro pobre da periferia de Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Com a ajuda de alguns amigos e poucos comerciantes locais, mais as economias conseguidas no lixo, como catador de sucata, é ali que está construído o sonho de José Luiz Zagati, ou simplesmente Zagati como é conhecido. Um sonho que ele começou a sonhar ainda bem pequeno, aos 5 anos de idade, em Guariba, sua terra natal, na região de Ribeirão Preto, interior de São Paulo.

No colo da irmã, entrou pela porta de emergência no único cinema da cidade para assistir a um filme que ele sequer lembra do nome. Sabe que tinha cavalos e homens de chapéu. (Anos mais tarde, a irmã diria tratar-se de “Billy the Kidy”). Foi encanto definitivo. “Quando vi aquela sala escura, a luz que vinha do projetor, a imagem em movimento na tela, tive a certeza de que era aquilo que queria para a minha vida: ter uma sala e passar filmes para que as pessoas pobres, como eu, tivessem essa oportunidade” – conta Zagati, com os olhos marejados. E ele conseguiu. No dia 21 de dezembro de 2003, aos 53 anos de idade, inaugurou uma pequena sala de quatro metros de largura por dez de comprimento, tela de 2,5 x 3,0m e 50 cadeiras, algumas plásticas, encontradas no lixo; outras doadas por amantes de antigas salas de cinema. Corta!!!

Ainda no mesmo ano em que Zagati descobriu o cinema (1955), sua família mudou-se para Taboão da Serra. Mas só cinco anos depois, aos 10 de idade, o menino voltaria à sala de projeção, agora do extinto Cine Tupy, no Largo do Taboão. Para conseguir o dinheiro do ingresso (e do saquinho de pipoca, claro!!), Zagati engraxava sapatos e enchia caixas d’água da vizinhança. “Todo sábado, eu mesmo passava a ferro de carvão minha melhor roupa e ia para o Cine Tupy. Não importava o filme: via os cartazes, as pessoas na fila e achava tudo maravilhoso!”

As suas brincadeiras infantis também eram variações remendadas sobre a sétima arte. “Divertia-me em recortar as revistas de fotonovela da minha irmã e pegar sabão escondido da minha mãe, para colar as figuras numa tábua de madeira e fingir que era um filme.”

Aos 12 anos, ele construiu seu primeiro projetor: com uma caixa de madeira, lente de óculos e uma lanterna, divertia a família exibindo trechos de um filme que encontrara na rua. Só depois de adulto descobriria que eram cenas de Chico Fumaça, de Mazzaropi, ainda hoje, seu maior ídolo do cinema nacional.

Depois de trabalhar como pedreiro, borracheiro e montador de baterias de automóvel, em 1990, aos 40 anos de idade, Zagati ficou desempregado. E decidiu catar papel na rua para sustentar a família (cena atual do Zagati junto aos 9 filhos e 6 netos). Na medida em que puxava o carrinho de sucata pelas ruas do Taboão, ia encontrando, no lixo, a matéria-prima para alimentar o sonho do cinema: pedaços de película que emendava com durex! Faltava, no entanto, o mais importante: o projetor. Um dia, conheceu o dono de um projetor de filmes 16mm que o utilizava para exibição de filmes em igrejas. Tentou comprá-lo, mas não conseguiu. Um mês depois, o homem o procurou em casa e, sabendo que Zagati tinha conhecimento em mecânica, propôs que ele consertasse o seu carro em troca de uma informação sobre onde poderia adquirir um projetor. Zagati não teve dúvidas: passou o sábado trocando suspensão de automóvel para conseguir uma indicação imprecisa, sem o nome da loja, apenas algumas poucas descrições do lugar.

Já na segunda-feira, foi atrás do equipamento, numa peregrinação pela região da Santa Efigênia, rua tradicional do comércio de eletroeletrônicos do centro de São Paulo. Estava quase sucumbindo, quando viu uma lojinha de uma porta só na rua do Triunfo, entulhada de computadores e aparelhos de TV usados. Perguntou pelo tal projetor, sem se dar conta de que estava tropeçando num exemplar único. O vendedor – “um tal senhor Virgílio” – recorda Zagati – colocou sobre o balcão, testou, mostrou que o áudio funcionava. E disse o preço: 80 reais. “Aí eu falei assim: olha, eu moro em Taboão da Serra. Vou até lá buscar o dinheiro e volto para levar o projetor. O vendedor botou de volta no chão e mal me olhou na cara.” Zagati lembra que, para economizar tempo e dinheiro, pegou um ônibus da Estação da Luz até o Jardim Macedônia, “torcendo para que ele não parasse nos semáforos”, e literalmente correu alguns quilômetros até sua casa em Taboão. Lá, recolheu os exatos 80 reais que tinha como economia ( “coincidências não existem” – frisa Zagati): 50 obtidos com a venda de sucata e outros 30 ganhos como presente de aniversário do filho mais velho. De volta à rua do Triunfo, o vendedor mal acreditou: “O senhor é mineiro??” – perguntou, querendo dizer que mineiros são pessoas de palavra. “Não, sou paulista. Mas paulista também tem palavra” – respondeu. “Essa eu não podia deixar passar, né??”

A PRIMEIRA PROJEÇÃO A GENTE NUNCA ESQUECE…

“Eu tinha aqueles pedaços de filme em casa, aí no primeiro domingo, à tarde, pendurei um pano numa parede, coloquei o projetor na mesa (treinei um pouquinho em casa, antes, para botar o filme, o som…). E não falei nada para as crianças lá do Sítio das Madres, o bairro onde morava. Tinha muita criança carente. ‘O que é isso seu Zagati??’ É cinema!! E passei então aqueles pedaços de filme que tinha encontrado no lixo. Com aquela curiosidade de criança, olhavam no pano e na luz, não entendiam como funcionava. Não tinha sentido, porque era só pedaço de filme emendado. Mas foi muito importante para mim. Era a primeira vez que aquelas crianças, e até adultos também, viam cinema…”

Isso foi em 1997. Só um ano depois, ele conseguiria seu primeiro filme completo. Àquela altura, já havia feito contato com a Associação Brasileira de Colecionadores de Filmes 16mm, cujas reuniões passou a freqüentar todos os sábados, depois de contar sua história ao presidente da casa. Num dos encontros, ganhou de presente de Arquimedes Lombardi o filme Cruéis Dominadores, uma fita americana de 1951, em preto e branco. “Não via a hora de acabar a reunião para passar o meu filme com começo, meio e fim. Cheguei em casa quase uma hora da madrugada. No domingo de manhã, mal agüentei esperar amanhecer para pegar os dados do filme, que eu não conhecia, e fazer a cartolina com as informações sobre a estória que seria exibida à noite.” Além do elenco, e do nome do diretor, Zagati escreveu: “Hoje, o Mini Cine Tupy apresenta Cruéis Dominadores, às 19 horas.”

“Era um belo domingo, e o pessoal todo endinheirado, gastando, indo pra feira, não podia deixar de ver o cartaz. Caprichei no anúncio do filme. Aí era um cinema de verdade! ” Sem conter as lágrimas, Zagati lembra que nessa noite veio muita gente: uns traziam cadeiras, outros bancos, outros, ainda, blocos de concreto. “Tinha um barzinho do seu Barriga ao lado, bem montado, que vendia refrigerante e salgadinho. Foi o melhor dia de venda pra ele. Vendeu muito!! Todo mundo tomava sorvete, refrigerante, falava do filme. Estava inaugurado o Mini Cine Tupy.”

Dessa noite em diante, o novo cinema comunitário do Taboão da Serra passou a ter programação semanal, sempre aos domingos, com os filmes que Zagati trazia emprestado da Associação dos Colecionadores. Durante a semana, a cada 10 reais obtido por ele com a venda de sucata, dois eram poupados para a compra do milho de pipoca, porque, afinal de contas, cinema sem pipoca não é cinema de verdade!

CESTA BÁSICA DA CULTURA

O que faz um homem pobre, da periferia de Taboão da Serra, oferecer cultura, de graça, para crianças e adultos de poucas oportunidades, em vez de distribuir, por exemplo, leite em pó, roupas, remédios ou cestas básicas? Zagati nunca freqüentou nenhum seminário sobre terceiro setor, por isso desconhece o fim do paradigma assistencialista no campo das ações sociais. Mas sua resposta é certeira. Do alto da sabedoria dos sonhadores, diz: “Cesta básica é uma coisa que acaba. Cultura não: a pessoa vai colher mais tarde o que ela aprende agora. A cultura permanece com a pessoa, amadurece com ela.”

Com suas projeções dominicais de cinema, Zagati é, há cinco anos, um distribuidor comunitário de cultura. Sejam na garagem de sua casa ou no meio da rua de outros bairros, já alcançados pela fama de Zagati, as suas sessões apenas são canceladas debaixo de um argumento incontestável: a chuva.

Um dia, observando que as escolas da região permaneciam fechadas aos domingos, ele cismou de consegui-las emprestadas para as projeções do Mini Cine Tupy. Achou o telefone da Secretaria de Cultura de Taboão, foi até um orelhão e pediu para falar com ninguém menos do que o titular da pasta. Obviamente não conseguiu. Mas como desistir é palavra riscada do seu dicionário, voltou para casa, trocou de roupa e seguiu rumo à Prefeitura, determinado a conversar com o secretário cujo nome nem mesmo sabia. Acabou sendo recebido por uma assessora que, diante da veemência de Zagati, lhe propôs, dias depois, a realização do primeiro festival de cinema brasileiro de Taboão da Serra, no auditório da secretaria. Ponto para Zagati, que daí para a frente, nunca mais seria um anônimo…

A FAMA QUE NÃO TRAZ CAMA…NEM MESA

A história do catador de papel que se transformou em coordenador de um festival de cinema, e de quebra acumulava uma surpreendente trajetória de superação e perseguição de um sonho, atraiu emissoras de televisão e jornais de grande circulação. Tamanha superexposição acabou rendendo a Zagati um outro convite, desta vez da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. “O secretário da época me chamou e perguntou quanto ganhava como catador de papel. Disse que tinha estabelecido uma meta de 10 reais por dia, o mínimo para sustentar minha família.” Assim ele foi contratado, em 2000, com salário de 300 reais por mês. Trocou o carrinho de sucata pela função de promotor de eventos de cinema do governo do Estado, cargo que exerce até hoje. No começo, exibia seus filmes nas favelas da Grande São Paulo. Depois, nos asilos de idosos. E até no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, onde esteve por duas vezes.

Uma saga tão rica – claro – só poderia mesmo virar cinema. Três curtas metragens nacionais já levaram às telas a história de Zagati (ver quadro) e um longa com roteiro pronto está em fase de captação de recursos. A TV francesa também produziu um documentário.

Zagati fez fama. Mas não consegui deitar na cama! É certo que as andanças por São Paulo o levaram para mares nunca dantes navegados. No entanto, o sonho ainda não estava completo: era preciso construir uma sede própria para o Mini Cine Tupy, até para que algumas sessões não tivessem de ser canceladas pela chuva. Foram três anos investindo parte do salário na compra de material de construção para levantar a tão sonhada sala, na frente da casa onde mora. Para essa tarefa, não teve o financiamento de nenhuma empresa socialmente responsável, nem contou com a benção de nenhuma fundação ou o aporte das muitas ONGs internacionais que despejam algumas centenas de dólares em empreendimentos sociais no Brasil. O único apoio que teve veio das pessoas mais simples, gente com a mesma origem dele: a comunidade de Heliópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, colaborou com uma vaquinha de mil reais!!

Até hoje, Madalena, mulher de Zagati, não se conforma. Para ela, a fama não melhora em nada a vida da família. “Isso me dói muito. Ela e muita gente que até zomba de mim não sabem o quanto ganho com isso. Não ganho dinheiro, mas nunca fiz por dinheiro. Imagine cobrar 50 centavos que seja de uma criança de periferia”, desabafa. “A criança de periferia, nasce aqui, cresce aqui, casa aqui, morre aqui e nunca vai ao cinema!! Acho que deve ser assim em todas as periferias do Brasil.”

IMPACTO SOCIAL

Para tristeza de Madalena, a vida de Zagatti pode não ter mudado além da fama nacional e internacional que passou a ter. Mas a vida de sua comunidade mudou muito. Embora nem mesmo o catador de sucata saiba dizer quanto e como. Homem simples, de poucas letras, faltam-lhe as palavras certas: ao tornar acessível para pessoas de baixa renda um bem cultural como o cinema, o seu esforço contribui para educar e construir a cidadania. “Quando a gente bota aqui um monte de crianças, ou até adultos, para assistir um filme, além de sair da rua, e estar num lugar seguro, algumas delas com certeza vão ter um futuro promissor, porque estão vendo uma coisa boa para sua formação. A gente mostra um outro caminho, uma outra direção”. Com a expressão de quem nunca pensou muito sobre o assunto, ele continua: “Algumas crianças aqui já quiseram fazer teatro, por causa dos filmes. Outras, quando vêem a gente dar entrevista, falam que querem ser jornalistas. Penso que algumas dessas crianças podem ser prefeito, vereador, e até presidente da República no futuro”, filosofa o catador de cidadãos.

Nas sessões do Mini Cine Tupy, há exemplos vivos que confirmam a crença do cinéfilo. Andréia, de 12 anos, freqüenta o cinema de Zagati desde pequena. Está na sexta série do ensino fundamental. E nunca repetiu de ano. Diz que assistir aos filmes ajuda a ter melhores idéias para as redações na escola. A mãe de Andréia, Eliandra Oliveira Sales, tem mais duas filhas: Bruna, de 14 anos, e Stefanie, de dois meses, que “freqüenta o cinema desde que estava na barriga”, orgulha-se. Eliandra conta que uma vez foi ao shopping do Taboão porque as filhas queriam “conhecer um cinema de verdade”. Chegando lá, o dinheiro só dava pra dois ingressos. “Elas não quiseram entrar sozinhas porque falei que era muita escuridão lá dentro. Voltamos pra trás. Mas elas perceberam que o cinema daqui não é muito diferente.” Eliandra, que freqüenta as projeções de Zagati desde que elas aconteciam na rua e cada um levava sua cadeira, confessa que só foi mesmo umas poucas vezes ao cinema comercial: “Acho que umas quatro.” E arremata: “Prefiro o daqui. É perto de casa, de graça e o seu Zé explica muita coisa boa pra gente!!”

Atualmente, as sessões do Mine Cine Tupy também complementam o programa “Agente Jovem” – uma parceria do governo federal com as prefeituras municipais – em que adolescentes entre 15 e 17 anos em situação de vulnerabilidade social recebem ajuda financeira para permanecer na escola, além de participar de atividades profissionalizantes e culturais extra-classe. Zagati dedica duas sessões por semana ao atendimento do projeto. Mas não recebe nenhum dinheiro extra – apenas o salário de monitor estadual que hoje gira em torno dos 600 reais.

Além disso, uma vez por mês atende pacientes psiquiátricos de um centro comunitário da região. Segundo Zagati, eles vêm a pé acompanhados de psiquiatras e enfermeiros. “Hoje não é mais como antes, que os pacientes ficavam presos. Você tem que conversar com eles, arrumar a cabeça deles. Aqui eles se sentem normais, porque assistem o filme, conversam com todo mundo, comem pipoca. Não sei como explicar, mas eles sentem que fazem parte da sociedade!!” . Falou, dr. Zagati!!

EMPREENDEDOR SIM!! POR QUÊ NÃO??

A narração dessa história pessoal na boca de Zagati soa invariavelmente como um roteiro de cinema. Ouvi-la traz a impressão de que ele mesmo se enxerga como um personagem da telona, coisa que já o foi, e continua sendo, nos tantos filmes sobre sua vida. Mas, para além do personagem, é possível enxergar claramente um Zagati empreendedor social, embora, muito provavelmente, ele não se enquadre neste ou em qualquer outro conceito. Em princípio, ao ser provocado, estranha até mesmo o termo empreendedor, mas rende-se ao fato de que ele cabe sim dentro dele: “Nunca tive essa intenção. .. Mas, por tudo o que aconteceu, chegar aonde chegou, acho que posso me considerar um empreendedor! Estou conseguindo realizar coisas importantes….”

Qual o significado da palavra empreendedor, afinal? Zagati pensa um pouco. E arrisca: “Empreendedor é aquela pessoa que o patrimônio cresce. Tudo o que ele se propõe a fazer dá certo e ele tem a certeza de que vai dar certo. É, sou um empreendedor. Social!”

De fato, o patrimônio de Zagati cresceu. E se modernizou. Além da sede própria, o Mine Cine Tupy tem, hoje, uma coleção com 8 projetores 16mm, mais uns 4 ou 5 em super 8, além de um VHS e, claro, o DVD – preferência unânime da garotada (muitas das fitas de Zagati, entretanto, estão danificadas, por falta de acondicionamento apropriado do arquivo).

Atualmente, o empreendimento de Zagati está constituído juridicamente como uma OSCIP – a Associação Cultural Zagati – resultado do cumprimento de uma promessa de campanha do atual prefeito de Taboão da Serra. O próprio Zagati confessa, no entanto, desconhecer os benefícios do título. Os apoiadores do Mini Cine Tupy continuam os mesmos de todo o sempre – a comunidade, claro, o Depósito Trianon e o Center Rebelo – duas pequenas lojas de material da construção – além da Imobiliária Pirajuçara, “que ajuda nas festas de Natal e do Dia das Crianças com os comes e bebes e mais os brinquedinhos para as crianças” – diz.

Mas, efetivamente, o principal patrimônio do empreendedor Zagati não pode ser medido pelo passivo de imóvel e equipamentos. Está na mudança que promove na comunidade. “O que cresce é o que a gente está dividindo, partilhando com as pessoas, que é o cinema, a cultura. Então acredito que é um grande empreendimento”.

CINEMA PARADISO TUPINIQUIM

Para o leitor que se ressentiu até aqui da inevitável e obrigatória comparação da saga do Mini Cine Tupy com o filme de Giuseppe Tornatore (Cinema Paradiso, 1989), ok, aqui vai ela!

Zagati vê, sim, muita semelhança entre a história dele e a do projecionista Alfredo e seu ajudante, Toto. Ao contrário do menino da ficção, no entanto, Zagati não deixou sua comunidade para retornar mais tarde como um cineasta de sucesso. Continua fazendo cinema, à sua moda, na mesma periferia pobre da mesma Taboão da Serra onde chegou 51 anos atrás.

Quem disse, porém, que ele não sonha em ser cineasta???

“Acabo de dirigir um curta metragem, em VHS, chamado Pai. Trata do problema dos transplantes e da doação de órgãos no Brasil. O roteiro é de um rapaz aqui da comunidade, o Luiz Bezerra, que é ator. Além de dirigir o filme, interpreto Pedro, personagem principal, pai de Luiz.”, conta com certa timidez.

Zagati revela, ainda, que tem outro roteiro pronto, escrito por ele: O Pescador de Lambari – “um drama sertanejo”. Mas é também aqui, na periferia de Taboão da Serra, que ele pretende escalar seu elenco. Em seus filmes – atente para o plural! – Zagati quer tratar as questões da comunidade. E exibi-lás, obviamente, no Mini Cine Tupy.

Ele ainda não tem uma câmera na mão. Mas, com certeza, anda cheio de idéias na cabeça…

FIM

Filmes já produzidos sobre a história de Zagati

Zagati
 Direção: Nereu Cerdeira e Eduardo Felistoque/ SP
Ano de Produção: 2001
Formato: 35mm/PB/documentário dramatizado
Tempo: 17min
Onze prêmios em festivais nacionais, entre eles o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio Canal Brasil no Festival de Cinema de Gramado em 2002.

Mine Cine Tupy
Direção: Sérgio Block/ RJ
Ano de Produção: 2002
Formato: vídeo/colorido/documentário
Tempo: 6 min

Z.inema
Direção: Carol Thomé
Ano de Produção: 2005
Formato: vídeo/colorido/videorreportagem documental
Tempo: 20 min

*Cláudia Piche é repórter de TV. Com passagens pelo SBT, TV Bandeirantes, CNT e TV Cultura, foi finalista do Prêmio Embratel 2005, na categoria Televisão, pela série 30 anos sem Vladimir Herzog.

Texto reproduzido do site: ideiasustentavel.com.br

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Do lixo fez-se um sonho


Publicado originalmente pelo site Eco Desenvolvimento, em 18/07/2010.

Do lixo fez-se um sonho

Se a história contada nas próximas linhas fosse um filme, o roteiro começaria com a história de um sonhador e terminaria com um final feliz. Mas como filme não é, há muito que se contar sobre os percalços, dificuldades, otimismo e força de vontade. José Luiz Zagati, paulista de 60 anos, amante do cinema e catador de sucata colocou na cabeça o sonho de construir uma sala de cinema na periferia onde mora. Com poucos recursos, foi no lixo que encontrou a oportunidade para mudar a realidade daquele local.

A história já virou até documentário, dirigido pelo paulista Eduardo Felistoque e premiado em festivais de curtas-metragem pelo país. “Através do lixo eu encontrei uma luz no fim do túnel para ajudar a dar dignidade a todas aquelas crianças”, conta Zagati.

Os filmes favoritos são Cinema Paradiso e os de Mazzaropi. Quando perguntado sobre as dificuldades da vida, Zagati mostra que tem um misto da inocência dos filmes de Mazzaropi com a delicadeza de Totó, do italiano Cinema Paradiso: “Que venham as dificuldades, porque quanto mais dificuldade, mais eu tenho força para lutar”.

EcoD: O que te motivou a fazer um cinema em casa?

Zagati: Eu sempre pensei em fazer isso, desde criança. Quando eu fui ao cinema pela primeira vez, lá no interior onde eu morava, eu tinha cinco anos de idade. Foi minha irmã que me levou. O encanto nasceu ali, em 1955, a magia do cinema me pegou, o ambiente, o público. Eu passei toda a minha infância e juventude em Taboão da Serra, e aqui tinha o Cine Tupy, que me lembrava muito o cinema lá do meu interior.

Desde criança que eu gostava de brincar de fazer cinema. Com meus nove, dez anos, eu ainda não podia ir às salas, daí recortava histórias em quadrinhos e revistas de fotonovela que minha irmã trazia da casa da patroa e colava com sabão numa tábua. Isso pra mim já era estar vendo cinema. Mas nunca tive condições de fazer cinema de verdade. Então, em 1990, desempregado, comecei a catar papel e materiais para vender em ferro-velho. Era daí que eu tirava o sustento da minha família, e foi com esse trabalho que eu tive a felicidade de encontrar muitas coisas referentes ao cinema. Acredito que foi assim que nasceu a ideia do nosso cineminha.

E como você começou a construi-lo?

Em 1996, eu comecei uma verdadeira peregrinação no centro de São Paulo. Eu ia em distribuidoras e procurava por filmes, projetor ou qualquer coisa relacionada. Com muita insistência e procura, eu consegui entrar em contato com a Associação Brasileira de Colecionadores de Filmes em 16mm. Essa associação faz exibições de filmes todo final de semana. Eu passei a frequentar as reuniões e foi assim que eu consegui o meu primeiro longa-metragem completo para ser exibido, já que antes eu tinha apenas trechos de filmes encontrados no lixo. Em agosto de 1998, batizei o nosso cineminha de Mini Cine Tupy, uma homenagem ao extinto Cine Tupy.

O processo era o seguinte: eu trabalhava de segunda a sexta na rua, frequentava as exibições dos filmes no sábado, pegava o filme emprestado, exibia no cineminha e devolvia na semana seguinte. Todo final de semana eu tinha filme e público a revelia. É ótimo levar o cinema para essas pessoas que não tem acesso. É uma forma que eu tenho de ajudar as pessoas, sabe? Sei lá, colocar alguma coisa na cabeça de cada um que mora ali.

Como é a relação da comunidade com o cinema?

É impressionante. As pessoas da periferia não tem acesso à cultura cinematográfica. É claro que isso vem mudando, mas com o surgimento da televisão, menos pessoas vão ao cinema, porque assistem aos filmes em casa. Muitos vem aqui, de crianças a idosos, e é muito boa essa relação. Eu acompanhei o crescimento de muitas dessas crianças. Tem um menino, por exemplo, que hoje faz faculdade de Direito, que se apaixonou por cinema por causa do cineminha. E uma senhora, que saiu do Morumbi, bairro rico de São Paulo, e veio até aqui para assistir a um filme. Foi tão emocionante, que ela chorou como criança.

Então o cineminha foi crescendo...

Sim. Eu continuei com esse sonho, com insistência e foi dando resultados. A imprensa apareceu, fui ganhando mais fitas de vídeo, achei 16 cadeiras de cinema no lixo. Montei o cinema numa garagem pequena e, por causa dessa falta de espaço, eu procurei por ajuda da Secretaria de Cultura do município de Taboão da Serra. Assim eu consegui realizar a primeira mostra de cinema em um teatro local. Entretanto, o problema do espaço continuava. Foi aí que eu, com muito esforço, comprei um terreno, onde sobre a laje eu construi uma sala de cinema de forma muito simples. São 50 cadeiras, sempre ocupadas, para assistir aos filmes todos os domingos à noite.

Quantos filmes têm no acervo?

Em VHS temos quase dois mil filmes, todos doados. O que não impede que eu alugue um DVD de um filme que a pouco tempo estava no cinema e hoje eu posso passar para tantas pessoas, tudo de graça e ainda garanto a pipoca.

Já sofreu muito preconceito com a profissão de catador de lixo?

As pessoas acham que o catador sempre está morrendo de fome e não é bem assim. Depende de como a pessoa aproveita o dinheiro, sabe? Sempre aproveitei cada centavo, porque eu consigo ganhar um dinheiro e ainda dividir com as outras pessoas. Eu sou uma pessoa muito feliz, porque eu acho que já fiz a minha parte, já cumpri a minha missão, agora eu só vou terminando. Acho que foi esse trabalho de catador, e nenhum outro, que realizou o meu maior sonho que era fazer uma sala de cinema. Sou muito grato a minha função de catador, e enquanto eu puder trabalhar, vou continuar fazendo isso. Esse trabalho só me deu felicidade.

Acha que ver seu trabalho sendo transformado em um cinema, com reconhecimento em todo o país, as pessoas passaram a ver o lixo de outra forma?

Sim. Eu acho que essa mudança comportamental vai surgir aos poucos, algumas pessoas reciclam, outras não, mas com o tempo todo mundo vai ter consciência disso. As crianças vão crescer com esse pensamento e se tornarão adultos preocupados com o meio ambiente. Pelo menos é o que eu espero que aconteça.

Quais os planos para o futuro?

Quero que Deus me proteja, abençoe o nosso trabalho e que se não for para melhorar, mantenha o que está acontecendo agora.

O que te inspira a continuar com o projeto, mesmo com tantas dificuldades?

Sei lá, tantas coisas! Mas acho que o mais importante é o amor. Acho que o que move tudo é o amor. O amor ao que se faz é a maior motivação.

Texto e imagem reproduzidos do site: ecodesenvolvimento.org

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Zagati - Uma declaração de amor ao cinema


Matéria do Jornal Diário de São Paulo de 1º de março de 2004 

Zagati - Uma declaração de amor ao cinema.
Por Luciana Ackermann.

Ex-catador de papel construiu com as próprias mãos sala para a exibição de filmes na periferia de Taboão da Serra. Sessões e pipocas são gratuitas Foi em uma rua de terra na periferia de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, que o ex-catador de papel José Luiz Zagati, de 53 anos, ergueu com as próprias mãos o MiniCine Tupy. O nome é uma homenagem ao Cine Tupy, no centro da cidade, que fechou há cerca de 30 anos. Em um local humilde e sem o conforto das atuais salas multiplex dos shoppings centers, Zagati promove sessões todos os domingos, com direito até a sacos de pipoca. Tudo é de graça. Ontem foi exibido o filme brasileiro "Cidade de Deus", que disputava o Oscar em quatro categorias. A sala é de tijolos aparentes, o piso, de cimento, e a tela é uma lona branca, encontrada nas andanças de Zagati como catador. São 53 lugares. Há poltronas antigas e cadeiras de plástico, todas doadas por pessoas que admiram o trabalho do projecionista. Nas paredes, cartazes de filmes. Para decorar a parte externa do MiniCine Tupy " que fica na Rua Andradina, 29 ", Zagati contratou um letrista, que desenhou estrelas amarelas com nomes de astros como Frank Sinatra, Mazzaropi, Lima Duarte e Stênio Garcia. Em dezembro, Zagati festejou a colocação da última telha para cobrir o espaço. "Fiz uma festa de inauguração com palhaços, pipoca e cachorro-quente. Agora tem filme mesmo com chuva", diz ele. Primeiro projetor A trajetória até o MiniCine não foi muito fácil: "É o trabalho de uma vida. Deus me deu a incumbência de levar a cultura para a periferia. Sempre sonhei em fazer as projeções". Em 1998, Zagati conseguiu comprar seu primeiro projetor: ele tinha R$ 30 guardados e ganhou mais R$ 50 de presente de aniversário do filho. As apresentações aconteciam em ruas da periferia de Taboão. Enquanto catava papelão, perguntava se as pessoas gostariam de assistir a um filme. Mais tarde, Zagati então voltava ao local, esticava um lençol, pegava emprestada uma tomada de luz, cadeiras e iniciava a sessão. Pai de nove filhos, ele contou que é fascinado pela sétima arte desde os cinco anos, quando entrou em um cinema pela primeira vez, em Guariba, Interior de São Paulo. "Lembro como se fosse hoje. Minha irmã mais velha me levou no colo, vi aquele foco de luz, ouvi o "trrrrr" do projetor e fiquei encantado. Era um bangue-bangue. Foi maravilhoso." Ainda criança, Zagati mudou-se com a família para Taboão. Ele conta que, enquanto o pai bebericava na padaria, ficava deslumbrado na porta do Cine Tupy. "Só fui assistir a um filme lá depois dos 10 anos. Aí passei a ir todos os sábados. Conseguia dinheiro enchendo caixa d"água das vizinhas. Eu mesmo passava a roupa para ir às sessões. Andava uns 6 km." Zagati ganhou boa parte dos 30 filmes que possui da Associação de Colecionadores de Filmes de 16mm. Todos têm mais de 20 anos. O astro caipira Mazzaropi está entre os campeões de audiência. Os filmes mais novos são exibidos em vídeo, como aconteceu com "Cidade de Deus". Ele tem hoje cerca de 20 fitas, mas, atendendo a pedidos, às vezes recorre às locadoras. O cinéfilo recebe apoio da Secretaria Estadual da Cultura, de quem recebe como promotor de eventos. Mas o dinheiro é pouco " menos de R$ 500 por mês. Por isso, sua mulher ainda trabalha como catadora para ajudar no sustento da família. Ex-catador ganhou prêmio A vida de José Luiz Zagati é tema de dois documentários de curta-metragem: "MiniCine Tupy", de Sérgio Block, e "Zagati", de Edu Felistoque e Nereu Cerdeira. Os dois trabalhos narram o cotidiano do projecionista e mostram seu carinho e sua paixão pela sétima arte. Os curtas foram premiados e participaram de diversos festivais. O próprio Zagati já ganhou um prêmio muito especial " um Kikito no Festival de Gramado, como "personalidade do cinema". Os diretores Felistoque e Cerdeira planejam para o ano que vem um longa-metragem sobre Zagati " seria uma ficção, mas baseada na vida do ex-catador de papelão. O projeto já está concluído e foi inscrito no concurso da Petrobras e no programa de incentivo do Ministério da Cultura. "Zagati é um brasileiro sofrido que correu atrás do seu sonho. É o 'Cinema Paradiso' tupiniquim", comenta Cerdeira. Exemplo Para Block, que fez o "MiniCine Tupy", a história de Zagati é um exemplo. Ele descobriu o ex-catador quando fazia uma pesquisa para um filme sobre pessoas que produzem coisas a partir do lixo. O curta foi rodado em quatro dias. Eu não via um filme há 20 anos", diz espectador Crianças, adolescentes e adultos da periferia de Taboão da Serra deslumbram-se com a iniciativa de José Luiz Zagati. Alguns nunca estiveram nas grandes e modernas salas de cinema. O serralheiro Givaldo da Silva, de 44 anos, por exemplo, disse que fazia mais de 20 anos que não assistia a um filme na telona. "Aqui todo mundo gosta. Nunca tinha assistido a um filme do Mazzaropi e do Charles Chaplin, que são maravilhosos", diz ele. Para Silva, a prefeitura de Taboão " além do Governo estadual " deveria oferecer algum tipo de apoio ao ex-catador, porque considera que Zagati faz um trabalho importante para a comunidade local. Valter da Cruz Souza, de 6 anos, contou que o único cinema que conhece é o MiniCine Tupy. "Sempre que tem desenho eu venho. É muito legal. Fica cheio de crianças e a gente ainda ganha pipoca", conta. Gustavo Gomes de Oliveira, de 5 anos, também não conhece outra sala além do MiniCine Tupy. "Gosto porque ele passa um monte de desenho. Assisti o filme do Nemo ('Procurando Nemo') lá", lembra o menino. Para o marceneiro Eroilton Novais de Sousa, de 38 anos, muitos moradores da região não têm condições financeiras de levar os filhos ao cinema " por isso o trabalho de Zagati é elogiável. "Toda vez que meus filhos escutam o barulho do projetor já pedem para que eu os leve ao minicine, mas nem sempre dá tempo", lamenta. O estudante Lucas Rocha França, de 12 anos, disse que passou a gostar mais de cinema a partir das projeções de Zagati. "Só tinha ido duas vezes ao cinema, e já faz muito tempo", afirma o adolescente. Saiba mais Fita italiana rendeu o Oscar Em 1989, "Cinema Paradiso", do italiano Giuseppe Tornatore, recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro. A película retrata a paixão do garoto Salvatore, conhecido como Totó, pela sétima arte. O garoto também guardava pedaços de películas " assim como Zagati. A história, ambientada numa pequena cidade da Sicília, se passa no final do anos 1940, após a Segunda Guerra. Totó torna-se amigo do projecionista Alfredo e descobre a magia do filmes, as histórias de aventuras e de amor. A infância e a adolescência de Totó se desenvolvem como se estivesse em um cinema. Salvatore muda-se para Roma, torna-se um famoso produtor e cineasta e, ao saber da morte de seu amigo, retorna à cidade natal para render-lhe a última homenagem. Então, recorda-se dos mágicos anos de seu passado.

Texto reproduzido do site: zagati.jex.com.br

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Homenagem a Zagati e seu Mini Cine Tupy



 








José Luiz Zagatti



O catador de sonhos
Por Izabela Vasconcelos O. Almeida.

Um cinema feito com materiais encontrados no lixo já fez os olhos de muitas crianças brilharem na periferia de Taboão da Serra.

A história de José Luiz Zagatti, 56, é conhecida no Brasil e fora dele, ele já foi notícia em mais de 20 jornais, revistas e programas de televisão. O catador de papelão, nascido em Guariba, interior do estado, montou o Mini Cine Tupy, no Jardim Record, em Taboão da Serra, com filmes e projetores encontrados no lixo. Zagatti, que estudou só até a 3ª série do ensino fundamental, criou seu primeiro projetor aos 12 anos e se encantou com o mundo do cinema, cultura que procura levar aos moradores de sua região, mesmo sem apoio financeiro e com uma estrutura simples, mas com muita boa vontade e paixão.

Quando o senhor foi a um cinema pela primeira vez?

Aos cinco anos de idade. Fui com a minha irmã, ela já tinha uns 12 anos de idade. Eu me lembro bem, parece que foi ontem, nunca mais esqueci. Eu fiquei encantado com aquele ambiente do cinema.

Depois dessa primeira vez, o senhor foi a cinemas muitas outras vezes?

O quanto podia. Meu pai sempre ia na padaria ao lado do cinema eu ficava em frente ao cinema, porque para mim era um encanto, aquela lembrança do interior, para mim parecia a mesma imagem. Mas eu era pequeno, quando eu cresci passei a freqüentar esse cinema. Por isso que aqui tem o nome de Mini Cine Tupy, é uma homenagem ao Cine Tupy.

Quando o senhor começou trabalhar como catador de sucata e como achou o seu primeiro projetor?
Eu montei um negócio próprio, faz uns 15 anos. Mas não deu certo, faliu. Fui procurar emprego, mas não achava e a situação foi ficando difícil. Eu pensei: o jeito é catar papelão e vender. Aí comecei a tirar o sustento da minha família e graças a Deus o que eu sempre quis, desde a infância no interior, eu consegui realizar, o sonho de fazer platéia, projetar um filme para as pessoas da periferia, porque encontrei o projetor no lixo.Quando comecei a catar papel passei a encontrar no lixo esses materiais quebrados e fui trazendo para casa e montando.
Para mim era uma riqueza encontrar aqueles materiais Eu montei aquele projetor, emendei aqueles pedaços e rolos de filme e comecei a projetar.

Como foi a sua primeira projeção de filme?

Eu esperei anoitecer, coloquei um lençol na parede e projetei os filmes que eu havia emendado. Esse filme já foi passado na TV Cultura. Era pedaço de um, pedaço de outro, um era chiado, o outro preto e branco. As crianças nunca tinham visto aquilo na vida, elas foram se aproximando curiosas, olhando a luz do projetor, olhando o lençol. “Seu Zagatti o que é isso? Isso é cinema!”, eu respondia. Aí elas sentavam para assistir. Também tinha algumas pessoas no bar e elas saíram e vieram assistir o filme.
O cinema aqui é modesto, é pobre, mas a gente passa filme que é exibido em qualquer cinema. Eu tenho VHS, mas DVD também. Não ficamos só nos filmes antigos.Todo cinema tem pipoca e aqui as pessoas nem pagam para o cinema, nem para a pipoca, porque a maioria das crianças não tem dinheiro nem para comprar pipoca. Elas têm direito. Já que elas não podem ir lá no “cinemão”, venham no cineminha.

O senhor fez o seu primeiro projetor aos 12 anos, alguém te ensinou?
Não, foi intuição. Eu consegui na época um pedaço, um rolo de filme. Aí eu fi z um projetorzinho com uma lente de óculos, uma caixa de madeira e um farolete, não tinha luz na cidade naquela época. Depois coloquei duas tampas de lata para enrolar o filme. Eu projetava aquilo na parede, claro que não tinha som, nem movimento, só fi cava o quadrinho, que eu ia mudando. Era um filme do Mazzaropi, o Chico Fumaça, mas naquela época eu não sabia. Hoje eu sou fã do Mazzaropi.

E como foi criado o cinema? Como o senhor conseguiu ajuda?

Eu fui atrás de colecionadores, pessoas que podiam me emprestar filmes. Eu explicava que era catador de papel, passava filmes para crianças e não tinha dinheiro para comprar filmes.
Passei a freqüentar uma biblioteca que reunia colecionadores e conheci pessoas que me emprestavam filmes, eu trazia para casa e divulgava a exibição para as pessoas do bairro.

Como o senhor continuou esse trabalho de levar o cinema para a periferia?

Eu andava com o meu carrinho, catando papel na rua, via uma parede boa para projetar filme, conversava com o morador daquela casa e explicava que eu queria passar um
lme para as crianças ali. As pessoas não entendiam, eu com aquele carrinho dizendo que que-ria passar filme? Eu passava, mas nem sempre dava certo, porque às vezes chovia e eu tinha que cancelar.
Aí eu pensei que precisava exibir os filmes em escolas. Um dia encontrei um jornal no lixo que tinha o telefone da Secretaria Estadual de Cultura do Taboão.
Decidi ir lá para falar com o secretário, mas foi muito difícil falar com ele, mas eu me sentia no direito de falar com ele, eu precisava conversar. Consegui falar com a assessora do secretário.
Conforme eu fui contando meu trabalho, eles foram se interessando. Depois me convidaram para fazer a 1ª Mostra de Cinema Nacional, foram três dias de filmes. Depois disso eu trabalhei por seis anos na Secretaria Estadual de Cultura. Fui contratado pelo Marcos Mendonça, presidente da Fundação Padre Anchieta, da TV Cultura. Eu levava o cinema para a periferia, para idosos, para a Grande São Paulo.
Mas mudou toda a Secretaria, o Governo e eles queriam que eu fizesse um trabalho interno, que não era nada de cinema, e não é isso que eu quero, eu quero trabalhar com gente. Mas eu fui para vários lugares da cidade, vários asilos naquela época.

As sessões de domingo continuam?

De uns tempos pra cá ficou mais difícil. Nem sempre dá. A lâmpada do meu projetor ficou desgastada e fiquei alguns meses sem poder exibir. O público se distanciou porque sempre que eles vinham e eu dizia que ainda não tinha condições, aí as pessoas se afastaram. Agora que consegui a lâmpada e vou voltar às sessões.

Qual é o seu maior sonho?

Meu sonho é conseguir continuar o meu trabalho, ter estrutura. Eu queria que esse espaço tivesse qualidade, todo o conforto que uma pessoa merece. Eu acho que não tem diferença quem mora no Morumbi e quem mora na favela, é gente também e tem os mesmos direitos.
Eu queria que aqui fosse parecido com uma sala de cinema, tivesse carpete, ar condicionado. Meu sonho é esse, olhar as pessoas e ver que elas estão se sentindo bem aqui.

Texto e imagens reproduzidos do blog: gentedemais.blogspot.com.br

domingo, 25 de agosto de 2013

Zagati - Um cinéfilo raro, em três atos


Um cinéfilo raro, em três atos

A incrível história do catador de sucata que mantém um cinema gratuito na periferia da Grande São Paulo
Por Leandro Conceição

Assim como o pequeno Totó do clássico italiano Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, o catador de sucata José Luiz Zagati ficou fascinado pela magia da Sétima Arte logo na infância. Ele diz que lembra “como se fosse hoje” da emoção que sentiu aos cinco anos, quando assistiu pela primeira vez a uma sessão de cinema, levado pela irmã em sua cidade natal, Guariba, no interior de São Paulo. “Era um filme de cowboys.”

Passados mais de 50 anos, o catador cinéfilo conta sua história à reportagem de Fórum no Mini-Cine Tupy, a pequena sala de cinema que começou a montar com materiais encontrados no lixo, na periferia de Taboão da Serra. Como o roteiro de grande parte dos filmes, a trajetória quixotesca de Zagati tem três atos. Pode até parecer, mas não é ficção.

Ato I – O jovem sonhador

Depois da inesquecível sessão, o menino pobre, filho de lavradores, passaria um bom tempo longe do cinema. A família mudou para Taboão da Serra em busca de trabalho em São Paulo. O Cine Tupy era uma das atrações da cidade. Sem dinheiro para comprar ingresso, Zagati “ficava em frente, admirando, imaginando lá dentro e lembrando do cinema de Guariba”. Adolescente, começou a fazer bicos para ajudar a família e gastava boa parte do que arrecadava em ingressos no Cine Tupy. “Era um enorme prazer vestir a melhor roupa, comprar balas e entrar no cinema”, relembra. Não importava qual era o filme em cartaz. “Via os cartazes, as pessoas na fila e achava tudo incrível.” Gostava mais quando era uma obra nacional, principalmente do ídolo Mazzaropi.
O tempo passou. Zagati se casou em 1977 com Madalena Ribeiro dos Santos, com quem teve nove filhos. Com estudo até a 3ª série do ensino fundamental, se virava como podia para sustentar a grande família. Já foi engraxate, pedreiro, borracheiro, montador de baterias de automóvel. Com outras preocupações, mal teve tempo de se abalar quando o Cine Tupy sucumbiu à crise dos cinemas de bairro e fechou as portas.

Ato II – Catador: “estava escrito”

No início da década de 1990, Zagati ficou desempregado. A situação ficava cada vez mais difícil e a alternativa foi seguir o caminho dos milhares de “homens invisíveis” que tiram o sustento do lixo alheio. Em sua busca de materiais recicláveis, começou a encontrar pedaços de rolo de filme, que remendava. Também achava equipamentos velhos e quebrados e tentava arrumar.
Em 1997, conseguiu comprar um projetor de 16 mm por R$ 80,00, “justamente o dinheiro que tinha guardado”, no centro de São Paulo. Conta que levou o equipamento para casa “no colo, como se fosse um bebê”. Na mesma noite, exibiu pedaços de filmes na rua, com as imagens refletidas em um lençol. Não tinha som e nenhum sentido e, ainda assim, teve público de cerca de 50 pessoas, crianças e adultos. “Eram só pedaços de filme emendados, mas foi a primeira vez que muitas daquelas crianças, e até adultos, viam cinema”, conta. “Foi um momento inesquecível.”
Com o projetor, passou a procurar filmes inteiros para exibir. “Não via a hora de exibir algo com começo, meio e fim.” Depois de muita insistência, ganhou de Arquimedes Lombardi, da Associação de Colecionadores de Filmes em 16 mm, o longa Cruéis Dominadores, filme norte-americano sobre o nazismo gravado em preto e branco em 1951 e dirigido por Willian C. Menzies. “Hoje: Cruéis Dominadores”, estava escrito no cartaz de cartolina em frente à casa de Zagati, que anunciava o primeiro filme que ele exibiria inteiro, na garagem, no dia 16 de agosto de 1998. Lombardi passou a ceder os filmes frequentemente.
Durante a semana Zagati andava pela cidade com seu carrinho recolhendo sucata e observando locais com boa concentração de crianças para exibir os filmes no fim de semana. “O pessoal não acreditava quando chegava um catador e perguntava se ali poderia exibir filmes.”
Às vezes a chuva impedia a exibição das películas. Veio então a ideia de montar um cinema, mas não havia espaço na casa de Zagati. A solução foi se mudar. Vendeu a casa e comprou uma em um bairro próximo onde pudesse construir a sala. Aplicou dinheiro do bolso, conseguiu doações e, em dezembro de 2003, inaugurou o Mini-Cine Tupy, batizado em homenagem ao extinto Cine Tupy, em cima de sua residência.
A sala, de quatro metros de largura por dez de comprimento, tem 40 lugares em cadeiras de plástico, chão de cimento, telha de amianto, lâmpada incandescente, prateleiras repletas de VHS e equipamentos velhos. Na parede rústica, pôsteres de filmes nacionais, fotos de Mazzaropi e Charlie Chaplin e rolos de filme expostos como troféus.
O Mini-Cine Tupy foi evoluindo aos poucos. Os filmes deixaram de ser exibidos em películas, passaram a VHS e hoje são por meio de DVD. As sessões costumam ser semanais “com filmes para todos os gostos”, segundo Zagati. Mesmo quase sem apoio, o catador não cobra nada de quem assiste às sessões. “A maioria do público é carente; se eu cobrar, muitos vão passar vontade.” Tem até pipoca grátis. “Senão, a sessão não fica completa.”
Aos 58 anos, Zagati é incansável. Projeta, faz com cartolina o cartaz de divulgação das sessões, cozinha a pipoca, limpa a sala após os filmes, arruma equipamentos… Tudo pela “sensação maravilhosa e inexplicável” de observar as reações das pessoas ao assistirem um filme projetado por ele, diz. “Sonhei durante minha vida toda em ver as pessoas se divertindo com os filmes que estou projetando.” Com o sonho realizado a partir do lixo, Zagati acredita que se tornou catador porque “estava escrito”. “Se eu não tivesse virado catador, não existiria o Mini-Cine Tupy.”
Ele confessa ter até problemas na família devido a sua paixão pela pequena sala e a Sétima Arte. Mas reconhece que dona Maristela tem seus motivos para reclamar. “Nesses últimos anos, me dediquei muito ao Mini-Cine Tupy, que tem sido tudo para mim e ficou em primeiro plano. Ela diz que eu casei com o cinema”, conta.

Ato III – Cinéfilo solitário

A história de Zagati já foi tema de três documentários. Mesmo assim, ele e o público das sessões do Mini-Cine Tupy não deixam de sofrer com a falta de investimento em cultura no país. Quase sem apoio do poder público ou da iniciativa privada, a pequena sala ficou mais de três meses sem sessões desde o fim de 2008. Zagati luta solitário para manter o Mini-Cine Tupy em funcionamento. “A família vê que não tenho apoio e continuo trabalhando como sucateiro. Diz que não compensa”, conta. “Além disso, muita gente zomba de mim porque eu ainda cato sucata, mas é graças a isso que eu mantenho o Mini-Cine Tupy.”
O cinéfilo sonha com dias melhores. Quer deixar de ser catador para cuidar exclusivamente do Mini-Cine Tupy que, diz, “gostaria que se tornasse um grande cinema popular, com espaço adequado, bem estruturado, mais conforto e qualidade”. Sempre sem nenhuma finalidade comercial, garante. “O objetivo é apenas apresentar a magia do cinema às pessoas.” Zagati continua a solitária luta pelo final feliz que almeja e dá de ombros às críticas. “O fato de eu ter feito alguma coisa para alguém não tem dinheiro que pague. Isso é riqueza, é o que permanece para a eternidade”, filosofa. F

Texto reproduzido do site: revistaforum.com.br