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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Morreu o Herbert Holetz, o sujeito mais apaixonado por cinema que conheci.


Artigo compartilhado do Blog de Carlos Tonet, de 20 de setembro de 2013

Herbert Holetz e as Taras de Helena

Morreu o Herbert Holetz, o sujeito mais apaixonado por cinema que conheci.

Aliás, vamos dizer que seja um dos dois: também conheci e conversei com o Walter Mogk, que criou o Cine Mogk e fez ele mesmo, prensando, uma a uma, uma a cada dia, todas as cadeiras do cine que criou.

Conheci o Herbert ainda quando era repórter policial do Santa, há uns 30 anos. Ele era gerente do Cine Bush.

Holetz era um sujeito sério, como todo bom alemão da época, mas eu fazia piadas com ele sobre as pornochanchadas que o Cine Bush passava nos horários tardios. “Ô Holetz, fui levar minha mãe no cinema à meia noite de sábado e estava passando As Freiras Devassas. Isso é uma afronta à moral e aos bons costumes”.

Holetz sempre vinha me cumprimentar e eu aproveitava para brincar com ele: “Holetz, a gente podia produzir um filme eu e tu. Coisa de altíssimo nível, melhor que os filmes do Ingmar Bergman. Vai se chamar As taras de Helena”.

Acabamos ficando amigos.

Alguns jornalistas da época pediam cortesia para o cinema, ou furavam a fila e entravam com a carteira de imprensa.

Ressalte-se de que isso era como fumar, era algo aceito, visto com naturalidade. Era uma espécie de direito adquirido da imprensa.

Mas eu era burro, meio turrão. Me recusava a fazer isso. Ficava na fila e pagava como todo mundo.

Holetz me dava ingressos de vez em quando. Nunca pedi e acabava passando-os a alguém.

Quando ia ao Cine Bush, eu ficava na fila.

Uma ou duas vezes o próprio Holetz veio me pegar pelo braço no meio da fila: “Já falei que tu não precisa pagar”.

Bem, aí eu entrava, mas a culpa era dele…

Grande Holetz, um sujeito pacato, com grande conhecimento de cinema, mas sem ser esnobe nem chato.

Se eu o reencontrar um dia, o Holetz que se prepare: ainda não desisti de filmar com ele “As Taras de Helena”.

Texto reproduzido do blog: carlostonet wordpress com

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Seu Holetz, uma bela memória do cinema do Cidade das Flores Nascimento

Foto: Jandyr Nascimento/Agencia RBS

Publicado originalmente no site A NOTÍCIA, em 25/10/2017

Seu Holetz, uma bela memória do cinema do Cidade das Flores Nascimento

Rubens Herbst relembra as conversas com o gerente cinéfilo do antigo Cine Cidade

Por Rubens Herbst

Podem conferir, nostalgia é a palavra de ordem na caixa de comentários de cada nova notícia publicada no AN a respeito das novas salas de cinema do Shopping Cidade das Flores (que inauguram neste sábado). Elas resplandecem com uma recepção acolhedora, poltronas recém-saídas da fábrica e tecnologia de última geração, mas chegam carregando as memórias de quem viu filmes ali em outros tempos. Foi só dez, 15, 20 anos atrás, mas o quanto não muda - nós, os hábitos, a empresa exibidora, o shopping, o próprio cinema - num intervalo desses, não é mesmo?

Este jornalista "gastou" o carpete vermelho do antigo Cine Cidade, de tanto que andou por ali. Guarda até hoje os tíquetes de Kill Bill volumes 1 e 2 e de uma sessão à meia-noite da ópera-rock Tommy (1975), e agora lembra até com certo carinho do cheiro de mofo e dos assentos em frangalhos de quando os dois espaços agonizavam. Mas nenhuma lembrança é tão querida, nenhum filme ou companhia é tão memorável quanto as conversas com seu Holetz, o gerente do cinema.

Herbert Holetz era um senhor já avançado na idade, de parcos cabelos brancos, magro e olhar profundo, mas absolutamente cativante em sua simpatia e empolgação no que se referia à arte de fazer filmes. O homem era um arquivo vivo,  com um fervor especial em relação a era de ouro de Hollywood. Mas se atualizava, tanto que fazia questão de assistir a tudo (ou quase tudo) que era exibido em seu "território" - porém, gostava de fazê-lo sozinho, numa sessão particular, sem os indesejáveis cochichos e ruídos de refrigerantes sendo sugados. Para ele, assistir a um filme era quase um ato religioso.

Isso fazia de seu Holetz muito mais do que um simples gerente. Além de supervisionar o bom andamento das salas, ele fazia questão de pegar o ônibus até o AN para entregar pessoalmente a grade de programação, fotos e releases de imprensa das estreias da semana. Ali, na redação, ficávamos uns bons minutos em conversas cinematográficas (com o perdão do trocadilho), que não raras vezes continuavam em sua sala no shopping, localizada no andar superior, ao lado do projetor e em meio a um sem-número de cartazes e outros materiais. Seu Holetz era um maníaco colecionador da história do cinema, e não havia jornal ou revista que resistisse ao seu ímpeto por mais informação.

Assim passei muitas tardes no Cine Cidade, e sem sequer pisar na sala de exibição. Estar na presença de seu Holetz já era uma aula de cinema, mas sua simplicidade e seu afeto eram a arte do calor humano em si.

Texto e imagem reproduzidos do site: anoticia.clicrbs.com.br

domingo, 28 de outubro de 2018

Uma homenagem a Herbert Holetz


O cinéfilo generoso

Uma homenagem a Herbert Holetz no Dia do Cinema Brasileiro
Sylvio Zimmermann Neto – Presidente da Fundação Cultural de Blumenau

No Dia do Cinema Brasileiro, não há como deixar de citar o cinéfilo regional Herbert Holetz. O blumenauense descobriu sua paixão ainda criança, quando a mãe o levava junto dos irmãos às sessões de “O Gordo e o Magro”, “Tarzan” e aos desenhos animados de Walt Disney. Lá, deleitava-se com o momento conforme as cortinas vermelhas abriam-se: era o mundo mágico da fotografia diante dos olhos.

Já na adolescência conheceu Reynaldo Olegário, gerente do Cine Garcia, que lhe ensinou os segredos da sétima arte. Quando a família de Holetz saiu do bairro Garcia para morar na região central de Blumenau, ele viu a oportunidade de ir ao cinema com mais frequência. Planejou um modo de conseguir assistir aos filmes sem precisar pagar: na época havia a “sessão de elite” no Cine Busch, que enumerava as cadeiras no último horário de exibição. Assim, o pequeno Herbert auxiliava o público para situá-los em seus lugares dentro da sala e, em troca, assistia ao longa-metragem.

Essa paixão refletiu-se na vida profissional; e de lanterninha passou à gerência do Cine Busch. Depois de trabalhar 40 anos no cinema, o estabelecimento acabou fechando e o cinéfilo se viu obrigado a deixar o lugar. Não conseguindo abandonar seu fascínio, contribuiu de várias maneiras com a Fundação Cultural de Blumenau, com a doação de filmes em películas, cartazes, filmadoras e projetores. Para organizá-los, ele trabalhou voluntariamente no arquivo histórico durante sete anos, até que passou a ser contratado para iniciar o Cine Arte na Fundação.

Embora Holetz não esteja mais exercendo atividades conosco, não deixamos essa paixão de lado. O Cine Arte completa em 2013 dez anos de existência, mantendo a programação idealizada por Herbert Holetz. Atualmente o Cine Arte acontece todas as segundas-feiras às 19h30 no Cine Teatro Edith Gaertner. A exibição é separada por temas que variam do faroeste ao cinema brasileiro.

Não há data melhor para lembrar o querido senhor Holetz do que no Dia do Cinema, cuja vida é permeada pelas histórias da grande tela e, por meio delas, nos ensina a apreciar e respeitar a sétima arte. Nossos agradecimentos públicos a este homem que coloca generosidade e gentileza em cada pequeno gesto, que contribui para encher o mundo com mais emoção, que deixou sua marca na história de Blumenau compartilhando seu patrimônio mais precioso: a cultura.

Fonte: Fundação Cultural de Blumenau – Arquivo Histórico José Ferreira da Silva.

Texto e imagens reproduzidos do site: arquivodeblumenau.com.br

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Um tributo de amor à sétima arte




Publicado originalmente no blog Universo de Magali, em 23 de abril de 2012

Um tributo de amor à sétima arte
Por Magali Moser

Os motivos que fazem Herbert Holetz emprestar o próprio nome a uma das mostras do 1° Festival de Cinema de Blumenau

“A vida não é como se vê no cinema. A vida é mais difícil”. A frase é do projecionista Alfredo, no clássico filme Cinema Paradiso, mas bem que poderia ser de autoria de Herbert Holetz. As semelhanças entre o personagem da obra de Giuseppe Tornatore e o cinéfilo mais famoso de Blumenau vão além das desilusões e alegrias de uma trajetória de entrega irrestrita ao cinema. Com encantadora personalidade e enorme coração, Alfredo e Herbert fizeram das próprias vidas um tributo de amor à sétima arte. Acumulam frustrações diante do vazio deixado por um objeto amado. Colecionam memórias nostálgicas. Mas não se deixam vencer pelas adversidades. Como o personagem da película italiana, Holetz também sofre da “doença do cinema”. Desde que conheceu o Cine Busch, quando a mãe o levou para a primeira sessão, no início da década de 1940, o cinema entrou na vida de Holetz e não saiu mais.

Fácil seria se, a exemplo do método de censura imposto por padre Adélio, que cortava todas as cenas de beijo – consideradas por ele como impróprias – nos filmes exibidos no Cinema Paradiso, Herbert Holetz pudesse suprimir da memória as cenas e episódios que lhe causaram um acúmulo de mágoas e tristezas decorrentes das desilusões com a entrega ilimitada à sétima arte. Mas Holetz sabe que a vida não se compara a um filme e conhece a dor e o prazer da escolha que o acompanha desde a adolescência, quando optou pelo cinema como forma de sobrevivência.

Começou aos 17 anos, como lanterninha, no Cine Busch. A necessidade de ajudar na renda familiar obrigou-o a se afastar da sala de aula. Passou por várias ocupações, como a de auxiliar, porteiro, bilheteiro até chegar ao cargo de gerente.  Foi um dos responsáveis pela criação do Cine Clube de Blumenau, ao lado de personalidades de forte influência nas áreas artística e cultural, como Gervásio Tessaleno Luz, Bráulio Maria Schloegel, Daniel Curtipassi, Elke Hering e Lindolf Bell. Durante quase 20 anos, escreveu sobre cinema para vários jornais da região, entre eles A Nação e o Santa. Coordenou programas de cinema nas Fundações Culturais de Joinville e Blumenau, onde mantém até hoje o Programa Cine Arte. Reúne acervo que inclui vasta coleção de fotos, livros, reportagens, cartazes e fitas VHS compilados ao longo da vida. O Cine Busch guarda as suas melhores lembranças. Não apenas porque nas poltronas numeradas do antigo espaço teve o primeiro contato com o cinema.

Para Holetz, o cinema morreu junto com o fechamento do Cine Busch

O prédio em estilo Art Déco era símbolo da Alameda Rio Branco, no Centro. Tornou-se patrimônio histórico da cidade, quase como a presença ímpar de Herbert Holetz, que trabalhou por mais de 40 anos no local. O Busch foi o primeiro cinema fixo do Estado de Santa Catarina e representa todo o pioneirismo de Blumenau nesta área. Mas o primeiro contato de Blumenau com a sétima arte data antes da inauguração do espaço, em 11 de agosto de 1900, quando foi realizada no Teatro Frohsinn a exibição do filme: Palco debaixo d`água. José Julianelli, Alfredo Baumgarten e Willy Sievert fizeram história na cidade com as imagens em movimento na região do Vale do Itajaí no início do século XX. Das projeções ambulantes, deste período, até a consolidação das salas de exibição com funcionamento regular e ininterrupto, a sétima arte passou por várias mudanças. Holetz testemunhou boa parte delas.

A trilha sonora de Cinema Paradiso, de Ennio Morricone, também serviria perfeitamente como pano de fundo da vida do cinéfilo. A nostálgica música se confunde com o clima de saudade deixado pelos cinemas fixos na vida dele. Por ter trabalhado por tanto tempo nas salas de exibição, Holetz vivenciou experiências que marcaram as transformações das casas de projeção cinematográfica na região, desde a popularização da televisão, logo depois do vídeo-cassete, mais recentemente do DVD, BluRay e a migração dos cinemas para os shoppings.

Chega a ser curioso, mas ao mesmo tempo em que ele gosta tanto de cinema, não freqüenta mais as salas de exibição. Prefere assistir aos filmes no conforto de sua casa, por entender que o cinema se descaracterizou, perdeu sua essência em função da modernização e do desrespeito do público que esquece o celular ligado durante a sessão ou faz um verdadeiro piquenique na sala. Por várias vezes, tentei convencê-lo a ir ao cinema comigo em Blumenau, mas fui vencida pela teimosia dele. Para Holetz, o cinema morreu junto com o fechamento do Cine Busch.  Por isso, entrega-se às lágrimas com facilidade ao falar da vivência no antigo cinema.

Holetz costumava receber o público na entrada do Cine Busch. Mantinha o hábito de conversar com o público antes e depois das sessões. A paixão dele por esse mundo de ilusão em movimento levou toda a família a trabalhar no Cine Busch. Dona Lori, com quem é casado desde 1961, trabalhou 24 anos na bombonière, ao lado dos três filhos – Jorge, Letícia e Regina. Só deixou o local quando o Cine Busch fechou, em 1993. Por isso, dois anos depois, quando surgiu o convite para Holetz assumir o cinema em Joinville, não hesitou. Mesmo muito triste com o fechamento da casa em Blumenau, apoiou a mudança como forma de incentivo. Apesar da família inteira ter se envolvido com as atividades do Cine Busch, dona Lori não lembra de uma única vez em que os cinco assistiram juntos a um filme na sala escura.

Além do Cine Busch, o Cine Mogk, na Itoupava Norte, Cine Carlitos, o Atlas, na Vila Nova, o Cine Garcia (popular pulgueiro), o Cine Blumenau, na Rua XV de Novembro se tornaram sinônimos dos chamados tempos de glória do cinema por aqui.

Aquele mundo de sonhos, efeitos e sons despertava fascínio sobre a população. A época de “ouro”, cheia de glamour, dos cinemas de bairro lembram quanto o simples ato de ir ao cinema exigia um rito especial. Nessa época, os blumenauenses desfilavam os melhores trajes nas casas de exibição. Homens engravatados e mulheres com os melhores vestidos, algumas até com estolas de pele, à espera do sinal tocar, com o aviso de que o filme iria começar. O cheiro de gel fixador do cabelo dos garotos se misturava à fragrância suave do perfume das moças e ao aroma do drops, comum no ambiente. O clima era de encontro, de paquera, de troca de gibis com amigos… de convivência.
Todas as salas de exibição tradicionais da cidade perderam lugar para pontos de comércio ou atividades mais rentáveis. A exemplo do Cinema Paradiso, derrubado aos olhos da cidade que viu seu auge, o Cine Busch perdeu espaço e hoje serve como centro de convivência do Grande Hotel Blumenau. O fechamento do Busch foi seguido do processo de transferência gradual de todas as salas de cinema para dentro de shoppings da cidade.

O fim do Cine Busch não representou apenas a extinção de uma casa de exibição, mas o término de uma época. Para Holetz, o declínio dos cinemas de rua e o advento das salas multiplex – com equipamentos modernos, som digital, poltronas confortáveis, bilheteria eletrônica – é uma fase ainda difícil de ser superada. É perceptível como essas transformações resultaram numa mudança no próprio hábito de ir ao cinema. Muito do ritual que se tinha se perdeu.

A comodidade e a segurança dos shoppings passaram a ser mais atraentes. Mas como lembra Carlos Drummond de Andrade: “quem não sentiu a perda de um cinema freqüentado durante anos tem memória nublada ou coração de pedra”. Quando aceitou o desafio de voltar ao espaço do Grande Hotel, onde funcionava o Cine Busch, comigo, em 2005, Holetz reviveu cada pormenor do local que foi extensão da própria casa durante muito tempo. Os pequenos detalhes encontrados no então cinema foram relembrados com intensidade, e mostram que quando algo é realmente importante na vida de alguém, não desaparece tão facilmente. A memória de Holetz era de se impressionar. Lembrou dos intervalos que fazia para o café com dona Lori, na confeitaria Socher. O encontro teve o cheiro do bolo de nozes que costumava pedir. Na subida dos primeiros degraus, ensaiava dar comida aos passarinhos, como fazia quando trabalhava na casa. Holetz sabe que a vida é feita dessas pequenas memórias.

Dona Lori reconheceu a paixão do companheiro desde o início. A relação que começou como amizade e se fortaleceu com a troca de livros na juventude, consolidou-se com o casamento e gerou três filhos e quatro netos. Naquela época costumavam namorar as quartas-feiras e aos sábados. Quando assumiram o namoro, Holetz foi apenas a primeira quarta-feira na casa da moça que na época trabalhava na então casa Peiter, de secos e molhados, na Rua XV. Na segunda semana já disse que não poderia mais ir, que teria de trabalhar no cinema. Começava aí a compreensão inesgotável de Lori para com o companheiro.

Para além de um aficcionado por cinema, um ser humano admirável

Não é apenas a paixão ilimitada pelo cinema que faz Herbert Holetz ser admirável. Apesar do vasto conhecimento nesse mundo da ilusão, não gosta de holofotes e insiste em dizer que sabe pouco. Prefere o anonimato e esforça-se por passar despercebido. Mas este homem esguio de cabelos brancos que desfila pela Rua XV de Novembro sempre impecavelmente vestido com calças de prega e camisa social não consegue esconder a popularidade no vai-e-vem em busca de novos filmes ou cartazes para o acervo. Recebe manifestações de carinho e afeto por onde passa. Sempre solícito, não nega o empréstimo de materiais raros da coleção, para quem o pedir – para o desespero da historiadora responsável pelo Arquivo Histórico de Blumenau, Sueli Petry, que defende um controle mais rígido da coleção.

O motivo das conversas com ele sempre é o mesmo. Respira cinema por todos os poros e têm na arte o oxigênio da própria vida. Nos nossos encontros, Holetz repete uma frase com frequência: “quero ter um milhão de amigos”. Desde que o conheci pessoalmente, numa sessão de cinema do Programa Cine Arte, da Fundação Cultural de Blumenau, em 2004, tive a certeza de estar diante de uma daquelas raras pessoas cujo amor pelo o que fazem as torna difíceis de serem compreendidas aos olhos da multidão. Deixa uma lição de amor e entusiasmo de quem nunca desistiu da paixão que o faz se sentir vivo.

O poder público pode investir mais do que faz para manter uma programação rica e diferenciada fora dos grandes complexos de cinema, em Blumenau. Não dá lucro, não leva multidões, mas é necessário manter uma programação alternativa, com filmes que fogem do apelo comercial. Holetz prova que coordenar um cinema hoje, fora do circuito das grandes redes, é coisa para quem é realmente fascinado pela atividade e não se rende diante das dificuldades.

Holetz entende que o cinema não é apenas entretenimento ou diversão. Na sala reservada à coleção particular de cinema, que mantém na casa onde mora, no Bairro Ribeirão Fresco, uma frase resume o pensamento que cultiva: “Cinema… o instrumento de expressão e de cultura mais perfeito de todos os tempos”. Quem conhece sua trajetória sabe que o cinema para Holetz é uma forma de libertação. Quando tinha cinco anos, foi vítima de malária. A mãe, que já tinha perdido o primogênito, Alfredo, num acidente doméstico, superprotegeu Holetz na esperança de salvaguardá-lo. Isso fez com que tivesse uma infância diferente dos colegas, passando a maior parte dela em casa, aos cuidados excessivos da matriarca.

Talvez seja difícil para aqueles que não o conhecem compreenderem os motivos pelas quais fizeram Holetz dedicar a própria vida ao cinema. No Cinema Paradiso, o projecionista Alfredo compara o trabalho a uma escravidão. “Você fica sozinho, vê 100 vezes o mesmo filme. Só faz isso. Conversa com Garbo e Tyrone Power como louco. Trabalha como um jegue”. Holetz também perdeu a conta dos feriados que passou no Cine Busch nos mais de 40 anos de trabalho na casa. Mas, como Alfredo, a recompensa da dedicação era a alegria de ver a plateia se divertir com a exibição. Fazê-la esquecer por alguns minutos das desgraças e tragédias da vida.

A exemplo de um filme, a trajetória do cinéfilo teve momentos de ascensão e calmaria. A homenagem que recebe do Festival de Cinema de Blumenau contribui para o reconhecimento da luta que trava incansavelmente em defesa da preservação do patrimônio cultural. “Seo Holetz do Cinema” como passou a ser chamado carinhosamente, não se deixa abalar pelas amarguras da vida ou pela falta de apoio nas atividades. Viu o próprio sonho desabar quando o Cine Busch fechou e lutou para evitar isso com todas as forças que pôde. Mas a maneira como resistiu às intempéries e perseguiu o sentido que deu para vida faz dele um obstinado, como Alfredo.

Texto e imagens reproduzidos do blog: universodemagali.wordpress.com