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domingo, 6 de outubro de 2024

O amor à vida e ao cinema no filme “Cinema Paradiso”

Artigo compartilhado do site PGL GAL, de 4 de Julho de 2012

O amor à vida e ao cinema no filme “Cinema Paradiso”

Por José Paz Rodrigues

 Não por acaso inicio a minha série sobre as aulas no cinema, no começo das férias do verão, com uma obra-mestra do cinema. Porque “Cinema Paradiso” é do ponto de vista formal, e de estética cinematográfica, assim como em conteúdos educativos tão profundos, relacionados com a vida, o amor e os valores humanos, um filme todo um clássico e, com o tempo que passa, uma fita maravilhosa.

Um filme tão autêntico e tão fantástico, realizado polo meu tocaio Giuseppe Tornatore, em 1988, que ninguém deveria perder de ver alguma vez. É pouco o tempo em que aparecem no filme aulas reais, em que os rapazes têm que suportar as ridículas técnicas didáticas de uma mestra hostil, reacionária e híper-autoritária, da vara e da repressão, para não atingir a aprendizagem que pretende no ensino do cálculo. Ou as aulas de exames para que os examinandos, rapazes e adultos, possam tirar o graduado escolar.

Aparecendo, portanto, pouco o espaço físico aula que todos conhecemos e entendemos, mas todo o filme é uma aula completa e extraordinária, ao longo dos seus 123 minutos. Onde os mestres são espontâneos, e não por isso deixam de ser magníficos: a mãe do protagonista, o padre, a sala de cinema com variados filmes dirigidos por grandes diretores (Ford, Chaplin, Renoir, Visconti, de Sica, Vardim, Rossellini, Fellini…) e, especialmente o projecionista, interpretado magistralmente por Noiret, que faz de verdadeiro pai de Totó (o seu morrera na guerra, nos campos russos) e lhe ensina a profissão, mas também a ser um homem com valores e princípios, como um grande educador que é, sem ele sabê-lo.

Por demais o filme, toda uma obra de arte, serve para aprender todos os recursos cinematográficos da linguagem fílmica, pois nele estão representados todos os tipos de planos, de panorâmicas, de uso do tempo e do espaço, dos movimentos de câmara de rotação e traslação, e de todas as possibilidades que oferece a expressão icónica. Se a isto lhe sumamos a infinidade de conteúdos, de mensagens, de valores, de aspetos humanos, morais, vitais e psicológicos que aparecem no percurso fílmico, nas diversas e variadas personagens, nos distintos lugares e momentos, nas frases e discursos, temos que dizer que estamos diante dum filme verdadeiramente sublime e poético, e, como educativo, completíssimo.

Ficha Técnica do Filme:

Título original: Nuovo Cinema Paradiso (em galego: Cinema Paradiso)

Diretor: Giuseppe Tornatore (Itália-França, 1988, 123 minutos, a cores)

Intérpretes: Philippe Noiret, Salvatore Cascio, Jacques Perrin, Brigitte Fosey, Antonella Attili, Marco Leonardi e Agnese Nano. Música de Ennio Morricone. Fotografia de Blasco Giurato.

Prémios: Óscar ao melhor filme estrangeiro em 1989. Globo de Ouro e Prémio especial do júri no Festival de Cannes do mesmo ano de 1989. Prémios especiais para os dous atores protagonistas.

Argumento: Nos anos que antecederam a chegada da televisão (logo depois do final da Segunda Guerra Mundial), numa pequena cidade da Sicília o rapaz Totó (Salvatore Cascio) ficou hipnotizado polo cinema local e procurou travar amizade com Alfredo (Philippe Noiret), o projecionista que se irritava com certa facilidade, mas paralelamente tinha um enorme coração. Todos estes acontecimentos chegam em forma de lembrança, quando agora Totó (Jacques Perrin) cresceu e se tornou um cineasta de sucesso, que se recorda da sua infância quando recebe a notícia de que Alfredo tinha falecido.

Análise do Filme:

Filmes como este são acontecimentos, e olhá-los, um privilégio. A visão nostálgica e melancólica do diretor/autor não só da arte cinematográfica, mas do próprio ritual de ir e estar no cinema, tornou-se clássica desde a sua primeira exibição. Não se fica alheio a Cinema Paradiso: o roteiro emocionado, que através da aparente simplicidade esconde uma farta riqueza de tipos e situações, recria toda a atmosfera de encantamento que os mais velhos um dia experimentaram, e de que a geração atual foi privada pola substituição das grandes salas luxuosamente decoradas polos impessoais cubículos instalados dentro de galerias.

Num tempo em que o público era ingénuo e a emoção causada polos filmes era novidade, não era ainda o cinema um passatempo qualquer. Era espetáculo, ao qual se aplaudia e polo qual se chorava, se ria e se deixava levar por tudo aquilo que ele então provocasse. Este filme não nos deixa esquecer o quanto é plural o cinema e seu público, e o quanto se misturam a emoção na tela com a da plateia. Nos momentos breves em que mostra casais formando-se, pessoas amadurecendo e, principalmente, os grandes olhares atentos às imagens na tela, com uma música bonita, Tornatore está dizendo-nos que cinema, como toda arte bem feita, é emoção, e está bem mais vinculada às nossas vidas do que supomos.

A trama simples, do menino pobre cujo pai morreu na guerra, difere pouco de outras onde o rito de passagem da infância para a vida adulta traz ao protagonista algo do qual ele jamais se esquecerá. Nesses filmes o que vale é a sensibilidade do diretor em descrever o tal rito de passagem, e Tornatore soube criar o ambiente ideal para desenvolvê-lo. Além da música de Morricone, preciosidade à qual pode-se ficar um dia inteiro elogiando, o diretor contou também com bela cenografia e direção de arte, responsáveis pela construção da deliciosa vila de Giancaldo e do seu cinema (que, na primeira fase, antes do incéndio, divide suas atividades com a igreja, aumentando ainda mais a mística do lugar). A riqueza nos detalhes fica evidente quando da passagem do tempo, e da estranheza, quase deceção, que as mudanças vão provocando.

O elenco de atores é o outro trunfo do cineasta. Mas não destacar o talento de Tornatore como narrador seria injusto. A elaboração na construção de imagens permite momentos como a sensível sequência da costura que vai desfazendo-se quando a mãe de Totó, ao final, vai receber o filho. Ou, ainda, a beleza escandalosa da imagem saindo do projetor e deslocando-se pola sala de Alfredo, até atingir, na rua, a frente de um prédio.

Aspetos para refletir:

– Importância do cinema como veículo educativo, para apreender a linguagem cinematográfica, aspeto básico para poder valorar os filmes com valores artísticos e de bons conteúdos.

– Comentar o valor real dos currículos ocultos: os mestres espontâneos fundamentais, o papel dos pais, a necessidade de ser amados, o apreço pola vida, o tempo perdido, a nostalgia ou morrinha, o sorriso e os choros, a figura materna, o amor em todos os tempos e âmbitos, a constância no trabalho e as motivações positivas a aquisição de valores positivos de forma inconsciente, observando a conduta dos mais velhos.

– Comentar o conteúdo da mensagem tagoreana que o “Mestre de vida”, Alfredo, lhe dá a Totó: “Tudo quanto faças deves fazê-lo sempre com amor”.

As Aulas no Cinema

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Ivã Barbosa relembra o clássico 'Cinema Paradiso', de Giuseppe Tornatore


Publicado originalmente no site GRANDE CAMPINA, em 21 de abril de 2013

Sétima Arte | Ivã Barbosa Luciano relembra o clássico 'Cinema Paradiso', de Giuseppe Tornatore

A invenção dos irmãos Lumière encanta e leva brilho aos olhos dos espectadores. Leva sonho, comoção, envolvimento e algumas vezes até a esperança de uma vida como aquela... Tudo isso vindo do brilho de uma tela em uma sala escura. Sim, o cinema. A sétima arte! Aquela que fascina dos menores pimpolhos aos mais sábios e experientes.

Nada melhor que 'Cinema Paradiso' para ratificar todo esse sentimento pelas películas de 35 ou 16 mm. O filme em questão é uma verdadeira declaração de amor à sétima arte. Produzido na Itália, em 1988, dirigido por Giuseppe Tornatore e com uma trilha sonora assinada pelo célebre Ennio Morricone, 'Nuovo Cinema Paradiso' (título original) foi o ganhador do Oscar e do Globo de Ouro de 1990 na categoria “melhor filme estrangeiro”.

O filme tem um enredo simples: após 30 anos sem retornar a sua cidade natal, Salvatore recebe a notícia que o seu melhor amigo Alfredo (Philippe Noiret) falecera. A expressão que toma conta do rosto de Salvatore é um reflexo muito claro da tristeza que se abate sobre ele. As lembranças passam a contar a história do longa.

Totó (como era conhecido Salvatore quando pequeno) vivia com sua mãe e sua irmã na pacata cidade de Giancaldo, na Itália, no período pós-segunda Guerra Mundial, a espera do seu pai (combatente na Rússia). Totó era coroinha da Paróquia do Padre Adelfio, que além das atividades clericais também respondia como o “censurador” das cenas que julgava impróprias para a exibição no único cinema da cidade – o Cinema Paradiso -, ponto de encontro de todas as pessoas que buscavam o lazer. O papel social do cinema é bastante abordado pelo filme que faz questão de mostrar a não distinção do seu público (acessível a crianças ou adultos, analfabetos ou não) e também mostra com maestria a reação e envolvimento da plateia que assiste ao filme.

Alfredo, o projecionista, leva uma vida solitária dentro da sala de projeção do cinema em uma época em que os filmes eram reproduzidos ainda por força da manivela, Totó, um garoto esperto, aproveitava o tempo livre para viajar no mundo do cinema e também criar o seu mundo a partir dos recortes das películas que eram descartados. A paixão do garoto pelo cinema motiva a amizade entre ele e Alfredo, que se firma de tal forma que um influencia o outro nos seus desejos: Totó ajuda Alfredo a entrar na escola em troca dos ensinamentos do velho amigo sobre como rodar um filme.

Após uma tragédia no Cinema Paradiso, Alfredo perde a visão e Totó assume a sua função após a inauguração do agora 'Nuovo Cinema Paradiso' (reconstruído por um morador que ganha na loteria). Já adolescente, Salvatore se apaixona por Elena, uma estudante recém-chegada na cidade, a quem promete esperar o tempo que for necessário; desapontado, o jovem Totó, ouvindo os conselhos de Alfredo, abandona a cidade e vira diretor de cinema em Roma. Salvatore, após longo período distante de Giancaldo, retorna para o funeral daquele que nunca deixou de ser o seu melhor amigo, mesmo distante e sem notícias.

O final do filme é bastante comovente... Um típico drama italiano baseado no movimento neo-realista pós-segunda Guerra Mundial. Recentemente o filme 'A Invenção de Hugo Cabret' também trabalhou o conteúdo do cinema de forma esplêndida, porém mesmo com um orçamento muito maior, este, em minha opinião, ainda não chega à altura do belíssimo clássico do cinema italiano 'Cinema Paradiso'.

Texto e imagem reproduzidos do site: grandecampina.com.br

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O "Beijo Proibido" em Cinema Paradiso


O "Beijo Proibido" em Cinema Paradiso 
Por João Bakdash

Giuseppe Tornatore recria o imaginário humano e joga com os sentimentos e as lembranças de quem assiste esta bela película.

Iconoclastia não tem idade. O cineasta italiano, nascido na Sicília, começou a sua carreira como diretor no início dos anos 80, escrevendo, dirigindo e interpretando curtas para a tv italiana. Concluiu o lançamento de sua primeira película em 1986 com Il camorrista, drama baseado na vida do mafioso italiano Raffaele Cutolo e adaptado da novela de Giuseppe Marrazzo. A recepção não poderia ter sido melhor: Tornatore acabou premiado como Melhor Diretor no festival Nastro d'Argento, o mais antigo da Europa e o segundo mais antigo do mundo (Academy Awards detém esse posto). Motivado pelo sucesso na estréia, Tornatore lançou Cinema Paradiso três anos depois.

Com 33 anos na época, sua produção marca o rompimento com a burocracia instituída do roteirismo que diretores veteranos não teriam coragem de cogitar - característica essa que se tornaria marcante em seu estilo de direção. No caso de Nuovo Cinema Paradiso ele vai ainda mais longe na desconstrução do que na sua primeira produção e até as posteriores Stanno Tutti Bene e La Domenica Specialmente, para se ater á quebra de narrativa marcada no movimento sessentista francês Nouvelle Vague.

De fato toda sua filmografia é marcada por aparente marcha lenta no ritmo de narração, seguido por um grande acontecimento que muda a vida dos personagens. É assim que Tornatore constrói o enredo, de forma confusa aos não iniciados, mantendo suas próprias características. Boa parte dos eventos se mostram, propositalmente, corriqueiros e até comuns, o manejo de câmera com planos abertos, trilha sonora de Ennio Morricone e as várias oscilações típicas de tempo e espaço.

A partir deste ponto contém spoiler.

A trama começa e a câmera do diretor de fotografia Blasco Giurato (Tutte Le Donne Della Mia Vita) passeia de plano-detalhe em plano-detalhe. A especialidade de Giurato, capturar momentos com zoom exato, é plenamente aproveitada em Cinema Paradiso. Raramente não enxergamos o rosto dos dois protagonistas: Alfredo (Philippe Noiret), um velho projecionista ranzinza, e Salvatore, ou Totó, (Salvatore Cascio - criança, Marco Leonardi - adolescente, Jacques Perrin - adulto), um menino hiperativo de 6 anos, curioso e até chato, mas sem duvida muito inteligente, que acaba infernizando Alfredo.

No início Salvatore Di Vita já é um cineasta bem sucedido e mora em Roma, mantém pouco contato com a sua mãe Maria (Pupella Maggio). É quando recebe uma ligação com a notícia do falecimento de Alfredo, interpretado pelo brilhante e já falecido Philippe Noiret, agora tem a difícil tarefa de voltar para Giancaldo. A partir daí temos toda a lembrança do passado através da memória de Salvatore.

Os motivos para tamanha assertividade são revelados somente na sequência do enredo, a abertura se faz brilhante e bem sucedida na medida em que consegue cativar e prender o espectador através de um sentido sensorial enigmático e delicado.

Alfredo tem como tarefa projetar os filmes no único cinema da cidade, para onde Salvatore, então chamado de Totó, fugia sempre que a mãe escapava-lhe os olhos depois que terminava a missa (ele era coroinha). No começo, o menino apenas espreitava as projeções através das cortinas do cinema; O padre assistia antes para censurar as cenas de beijo dos filmes. Assim os dois se aproximaram, foi ali que Totó passou a fazer companhia a Alfredo e desenvolveu sua paixão por cinema.

Essa proximidade cria um laço de avô e neto entre os dois, é quando Tornatore começa a jogar com as expectativas quase nulas para um jovem naquela cidade, com a relação entre os dois. A síntese disso se dá quando o cinema pega fogo, mas Totó salva-lhe a vida inacreditavelmente. Mais tarde Alfredo se recupera, mas fica cego dos dois olhos. Giancarlo reinaugura o cine pouco depois. Depois de tanto tempo, Totó era o único que sabia operar a máquina, então torna-se o novo projetista. É nesse momento em que Totó permite a primeira cena de beijo, para euforia das pessoas no cinema e revolta do padre.

Desde as falas até as fotografias, o filme é repleto de um tom melancólico interrompido apenas pelas cenas bem humoradas das peripécias do menino.

Na praça principal da cidade, na qual se localiza o cinema e a igreja, há um louco. Sempre no toque da meia-noite, o homem repete: "La piazza è mia! La piazza è mia! La piazza è mia!" - e atira pedras em quem se recusa a deixar o lugar. Talvez aquele seja o altero dos homens da cidade.

O filme peca em não explorar o lado familiar de Totó, até mesmo a sua mãe carece de qualquer detalhe durante os 123 minutos. No entanto uma filmagem sobre a Segunda Guerra deixa subentendido que seu pai faleceu durante a Guerra na Rússia. Na cena seguinte a "deixa" se concretiza com a sua mãe assinando o pedido de pensão. Esse momento marca a transição de Salvatore. Cascio sai de cena para dar lugar a Marco Leonardi. Tal como profetizado por Alfredo poucos minutos antes, agora Totó tem outras preocupações, conhece seu primeiro amor: Elena.

Sua relação com a menina aparece como determinante para formar sua nova personalidade. Neste ponto clichê se trata do amor impossível entre o menino pobre e a garota burguesa. No entanto a maneira como o roteiro é conduzido trata todas as mudanças como naturais, cabe aos personagens lidarem com elas da melhor maneira possível.

Elena e sua família deixam Giancarlo, Salvatore vai para o serviço militar obrigatório. Os dois prometem manter contato por correspondência, mas as cartas de Salvatore acabam sempre devolvidas. Quando volta do Serviço Militar, a frustração o faz decidir morrer onde nasceu. Percebe-se que, como nós, Totó já não existe, a frustração no amor e o tempo militar lhe tiraram a pureza.

Alfredo o desencoraja, pois ali nunca conseguiria realizar seus sonhos. E então a advertência que explica todo o enredo até aqui: Salvatore nunca deve olhar para trás, deve sempre seguir o seu destino - ele nunca deve sequer voltar para visitá-los.

Ele obedeceu Alfredo, mas retorna para assistir o funeral. Outra vez o ator muda, agora o lendário Jacques Perrin interpreta a versão madura do rapaz.

Embora a cidade tenha mudado muito, Alfredo agora entende o porquê mudar para a capital era tão importante. Durante o funeral reconhece o rosto de várias pessoas do cinema na sua infância e adolescência. Enfim a modernidade também estava chegando em Giancaldo: O cinema seria demolido para dar lugar a um estacionamento.

A viúva de Alfredo lhe entrega um presente deixado pelo falecido: um rolo de filmes sem rótulo. Salvatore entra pela última vez no Cinema Paradiso - agora velho e abandonado, lá encontra o velho banco em que subia para operar o projetor quando pequeno.

O projetor ainda funciona, é quando ele descobre o carretel dos beijos cortados durante as décadas de censura. Entre elas está uma filmagem de Elena. Ele chora. Salvatore é Totó novamente, ainda que apenas por alguns minutos. Leva os arquivos consigo e faz uma montagem com a sequência dos beijos numa das cenas finais mais bonitas que já pude contemplar. Salvatore fez as pazes com o seu passado.

Nesta delicada película, Tornatore nos leva a uma viagem ao nosso próprio passado - mais do que isso, uma viagem de autoconhecimento. Quando voltamos para um lugar antigo, para um lugar marcante em alguma época passada da vida, algumas coisas estarão diferentes. Talvez não exista mais aquela árvore antiga de outrora, alguns rostos também sumiram, outros, mais jovens, brincam pela rua. Porém o lugar continua sendo o mesmo, ainda que diferente. O sentimento de mudança é tão somente nosso. O motivo? Nós mudamos.

Texto e imagem reproduzidos do site: lounge.obviousmag.org

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Uma nova projeção


Imagens do filme "Cinema Paradiso",  postadas pelo blog 
"Máquina de Cinema", para ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente no blog Cine Posforrest, em 9 de novembro de 2011.

Uma nova projeção

A amizade entre um velho projecionista e um garoto apaixonado por cinema é o mais brilhante cartaz de Cinema Paradiso. Uma obra inesquecível dedicada a todos que fazem da missão de ensinar um aprendizado contínuo e apreciam a arte de recriar os sonhos através das telas

Ensinar é um verbo transitivo direto que nos acompanha sempre em cada jornada de nossa vida. Da infância, passando pela adolescência e chegando a fase adulta, sempre precisamos de alguém que o carregue consigo e que esteja comprometido em usá-lo a fim de nos apoiar em cada passo. Foi assim que Alfredo, o projecionista do Cinema Paradiso da cidade de Giancaldo se destacou na vida do menino Totó. Passivamente, Totó foi conduzido com dedicação e considerável afeição por seu mestre nas mais fantásticas obras que realçavam seus sonhos. Por meio deles, Alfredo se tornou seu professor munido com o diploma na arte de ensinar. Assim, conseguiu se tornar um elo familiar importante na vida de Totó. Ativamente, o menino aprendeu a carregar suas diversas lições e com a mesma afeição e dedicação para quem delas necessitava. O elo criado desta troca de afeto então se fortaleceu como uma base sólida para vida de ambos.

Neste caso não importa o grau de escolaridade a que Alfredo venha possuir. Aliás, isto ele nem mesmo tinha por ser analfabeto. Bastou que tivesse no coração o dom de ensinar e se comprometer em se tornar parte de algo familiar na vida de seu pupilo. Ser um bom professor muitas das vezes é superar seus próprios limites. É inventar, se reinventar como forma de interação. É ter sensibilidade de observar tudo que se passa dentro e fora dos muros do colégio. É ter a capacidade de estar ciente das veracidades destas lições, interagindo de forma uniforme com seu aluno. O professor da vida é alguém a quem devemos confiar como Alfredo ganhou a confiança de Totó através do carinho e idoneidade.

Somando as inspirações de mestre e discípulo, obtemos algo mais valioso que ensinar e aprender. A amizade. O professor é um amigo professor e o amigo é o professor. Esqueçamos as datas, semestres, trabalhos, notas, diários. Amigos necessitam apenas de compreensão e paciência para entender uns aos outros. Entrar em cada mundo, conhecer a fundo, e ainda assim, continuar sendo amigo na esperança de que um dia você nele se inspire e também possa fazer a diferença na vida de outras pessoas. Expandir conhecimentos adquiridos pelo mundo afora sem medo de enfrentar os inúmeros percalços adiante. Esta foi a mais poderosa e, com certeza a mais dolorosa, lição que Alfredo ensinou para o rapaz Salvatore, no diálogo derradeiro de ambos na estação de trem, quando o jovem deixou a cidade.

Insistentemente o menino sonhador foi levado por seu mentor através de caminhos menos tortuosos toda vez que se deparava com a dura realidade de sua vida na cidade. Numa passagem, Alfredo descreve o pai do garoto como uma artista. “Ele tinha o bigode do Clark Gable.” Ao saber que perdera o pai em combate, Totó, que caminha com sua inconsolável mãe, fixa seus olhos num pôster do filme E o vento levou. Logo, ele se lembra das palavras do velho amigo. Assim, graças à magia do cinema, o pai permaneceria vivo por toda eternidade. O professor torna-se um mágico que encanta e fascina quem dele se espera respostas surpreendentes para difíceis questões.

No mundo real não é permitido sonhos nem mágicas. Mas o importante é saber que sempre que tentarmos viajar por nosso mundo de fantasia ou empunhar nossas varinhas encantadas, há de sempre nos lembrar de quem um dia nos ensinou os grandes truques. Com uma incrível habilidade, Alfredo ensina Totó como recriar na praça o filme que era exibido do lado de dentro do cinema lotado. Satisfazendo assim, a multidão que não conseguiu entrar.

Aqui ou ali, lá ou cá. Não importam em qual direção nossos rumos irão nos levar. Nós sempre acabamos voltando as nossas raízes. O início personificado por alguém que nos ensinou a moldar nosso caráter e que nos deu força por meio de sua força para projetar nossos próprios sonhos pelas telas da vida. Salvatore retornou a cidade no intuito de enterrar seu velho amigo. Mas acabou por desenterrar suas velhas lembranças. Ele retornou ao início da história como uma revisão de cartilha. O clima de nostalgia voltou a alimentar seus sonhos perdidos pelo tempo.

Rir e chorar tornaram-se verbos diretamente transitivos no Cinema Paradiso. Um local onde surgiu uma das mais poderosas alianças da vida. Onde foi atado um laço indestrutível de amor e amizade que nem mesmo uma implosão pôde desfazer. Um local onde eram aniquiladas as diferenças sociais. Onde cada pessoa sabia o que a definia. Onde sonhos eram alimentados e a realidade ficava do lado de fora. Um local de beleza inigualável que testemunhou uma nova projeção da palavra professor.

Texto reproduzido do blog: cineposforrest.blogspot.com.br

sábado, 14 de janeiro de 2017

Cinema Paradiso e a Educação

Cena do filme Cinema Paradiso.
Foto ilustrativa: www.espalhafactos.com

Enviado em 3 de julho de 2014 | No programa: Tempo de Vida.
Escrito por William Sanches | Publicado por Rádio Boa Nova

Cinema Paradiso e a Educação.

O filme “Cinema Paradiso” começa com o menino Totó, numa Itália abalada pela guerra – o próprio personagem principal sofreu um revés irreparável, seu pai foi enviado para os campos de batalha e não voltou. Órfão de pai, vivendo apenas sob a tutela da mãe, Totó tem uma grande paixão: o cinema.

Totó é um amante da sétima arte e como todas as pessoas apaixonadas e envolvidas em situações como essa, arrisca-se diversas vezes para que esse amor seja vivido com intensidade, com realidade e não mede esforços para conseguir o que deseja.

Em determinadas situações, utiliza o dinheiro que a mãe lhe dá para comprar mantimentos realizando seus sonhos, encontrando-se com seu ardente desejo, indo ao cinema, vendo os filmes… Nos anos que antecederam a chegada da televisão, logo depois do final da Segunda Guerra Mundial, Alfredo (Philippe Noiret), é o único projecionista da cidade, apaixonado pela que faz: Alfredo cuida do cinema como cuida da própria respiração. O cinema é a única forma de entretenimento da cidade.

Todos estes acontecimentos chegam em forma de lembrança, quando agora Salvatore (o pequeno Totó) cresceu e se tornou um cineasta de sucesso, que se recorda da sua infância quando recebe a notícia de que Alfredo havia falecido.

No clássico “Cinema Paradiso”, de 1989, o diretor e roteirista italiano Giuseppe Tornatore transforma o pequeno e sensível protagonista Totó em uma forma de inspiração e reflexão sobre o próprio cinema. A obra é metalingüística, ou seja, o próprio cinema contando sua própria história, é como se fosse uma autobiografia.

A mágica do filme está na paixão de Totó pelo cinema e sua perseverança em aprender e conhecer o ofício de projecionista. Totó acaba descobrindo o mundo por meio de uma escola diferente, uma escola que não possui quadro negro justamente porque o substitui pelas imagens, sons e pelas emoções e sentimentos traduzidos pelas belas projeções comandadas pelo Alfredo que é uma espécie de professor, pai e amigo de Totó.

Cinema.

O cinema e a arte em geral educam justamente porque encantam com sua beleza, cor e subjetividade. Apaixona aqueles que conseguem sentir sua sensibilidade e o leve toque retratado nos mais simples dos detalhes.

O sábio e experiente Alfredo utiliza-se dos filmes e de suas histórias para fazer do menino Totó um ser humano melhor. Ensina não só os saberes necessários para uma vida com qualidade, ensina também a importância do sonho, a importância de acreditar e a necessidade de lutar para que se tornem realidade. Alfredo percebe a paixão e vida estampadas no brilho dos olhos do pequeno menino e mesmo depois de ficar cego, Alfredo continua o instruindo e ensinando o fascínio da vida.

Na verdade, Alfredo é um professor na acepção mais completa do termo. Essa é a função do verdadeiro educador e das instituições de ensino: descobrir e despertar potenciais.

As salas de aula podem ser tão atraentes quanto as telas de cinema. Até porque é por meio delas que começamos a aprender mais sobre nós mesmos e sobre os que estão à nossa volta.

Nas salas de aula aprendemos com a riqueza da literatura, com o segredo dos números, com as palavras e onde mais se iniciam relações interpessoais marcantes e marcadas por toda a vida? É lá que os melhores professores nos orientam sobre o quanto podemos ser detentores de nosso destino.

São momentos dedicados ao crescimento intelectual, social e moral dos indivíduos. Alfredo também educa por meio de suas histórias de vida, às vezes, até mais fascinantes do que as projetadas na tela do cinema. Os melhores professores podem “apaixonar” seus alunos para a beleza da vida e para as diversas maneiras de torná-la melhor a cada dia. Uma escola perfeita é aquela capaz de deixar nossos aprendizes como o pequeno Totó: repletos de entusiasmo, energia e autoconfiança.

“Cinema Paradiso” nos proporciona reflexões e nos permite acreditar que apostar em nossos sonhos e paixões pode dar grandes lucros. Atualmente, há muitos jovens que abraçam formações e profissões que podem lhes garantir melhores salários, maior prestígio ou mais conforto em suas vidas materiais.

Isso até pode acontecer, porém em alguns casos essas pessoas constituem carreiras como o Direito, a Medicina, a Engenharia ou a Odontologia, que são as profissões mais procuradas e disputadas, não por serem estimulantes ou atraentes para os estudantes, são escolhidas em virtude de fatores como dinheiro ou colocação social. Acontece que, passados alguns anos, temos alguns casos de profissionais eficientes, capazes e até de sucesso, mas frustrados e infelizes com vida que levam.

Com o passar do tempo, Totó adquire a maioridade e um rompimento se faz necessário. O que poderia parecer o fim de um sonho acaba concretizando um casamento definitivo entre o garoto, adolescente e agora jovem Totó com o cinema. Ele se torna um realizador, um produtor, um cineasta de sucesso.

De admirador das imagens em preto e branco que fascinaram sua infância e sua adolescência, de colecionador de fotogramas censurados pelo padre, de projecionista do Paradiso em sua cidade de origem, Salvatore acabou se tornando um produtor de sonhos. Suas imagens passam, a partir de então, a encantar milhares de pessoas em seu próprio país e fora dele.

Totó não se contentou em apenas sonhar, tornou-se também um construtor de sonhos.

Texto e imagem reproduzidos do site: radioboanova.com.br/artigos/cinema

sábado, 19 de novembro de 2016

Cinema Paradiso
















Publicado originalmente no site Cinequanon.

Filme de Cabeceira.

Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso).
Por Gabriel Carneiro.

*Este texto contém spoilers. Por ser um filme de cabeceira, este texto foge de padrões analíticos críticos mais definidos. Permito-me ser passional, pois a escolha é puramente passional, algo que, creio eu, é muito maior do que qualquer questão técnico-analítica.

Quando comecei a ler mais sobre cinema e a ler mais críticas brasileiras, tive uma enorme surpresa ao ver que o segundo longa de Giuseppe Tornatore, Cinema Paradiso, dividia opiniões e que muitos o consideravam meloso, açucarado, muito melodramático e por aí vai – e mais, todos esses adjetivos se estendiam ao cineasta italiano. A surpresa não me foi à toa: desde a primeira vez em que vi o longa, é um dos meus filmes favoritos. Até hoje tenho uma dificuldade enorme em entender porque o longa desagrada a tantas pessoas.

Cinema Paradiso é sim um melodrama, mas um muito bem construído, que se permite, acima de tudo, emocionar – para mim, uma das tônicas mais importantes da arte. O filme não é apenas sobre a paixão de Totó pelo cinema e sua ascensão de menino cinéfilo, a projecionista, a cineasta renomado, é – e aí a força do filme reside – sobre a relação do jovem com Alfredo, o projecionista do Cinema Paradiso. A relação de ambos é de mestre e aprendiz, muito comum às histórias edificantes, mas Cinema Paradiso sabe se esquivar dos clichês para retratar tal afinidade, fazendo-se pelo caminho das vias tortas. Tanto Totó, quanto Alfredo, nutrem enorme respeito um pelo outro, mas não se privam de sacanear um ao outro quando possível. A relação mostrada soa, assim, muito mais real.

Não que realidade seja motivo para se apreciar mais qualquer coisa – muitas vezes não o é -, mas no caso do longa de Tornatore, esse suposto realismo permite maior aproximação a personagens imperfeitos – e não falo necessariamente de identificação, que me parece um tanto plausível, nesse caso -, e o encantamento justamente com situações banais. É um filme que fala de sonho, mas, de novo, não usando a falsa questão da perseverança. Tornatore parece, aliás, escolher o caminho oposto, ao privar o espectador de saber como Totó saiu de projecionista para virar importante diretor. Isso não é importante. O sonho retratado no filme é o sonho lúdico do cinema, a possibilidade de encantamento e apreciação pela obra de arte, pelo o que ela pode nos ensinar, não por meio de verdades absolutas, mas por múltiplas interpretações de relações humanas.

Nesse aspecto, o filme também tem muita força, muito por conta de cenas memoráveis, e que ajudam na construção de uma intimidade, entre os personagens e a gente, espectadores. É o que acontece quando Totó vê Elena pela primeira vez, enquanto filma a morte de um boi, e depois exibe para um Alfredo cego. O sangue jorrando e a morte do animal contrastam com o absoluto prazer contemplativo da apreciação da moça. Não só as imagens captadas pela câmera 16mm mostram isso, como também o silêncio de sua narração para o amigo. A criação de momentos como esse permite o emocionante, porque torna o filme passional, vivo. Em determinado momento, Totó pega um trem para fazer sua vida em Roma. Na estação, Alfredo – interpretado pelo excepcional Phillippe Noiret – puxa Totó e fala em seu ouvido algo como “nunca volte, nunca olhe para trás; se você voltar, não passe em minha casa, que não irei te receber.” Já vi Cinema Paradiso mais de dez vezes, desde que tenho 13, 14 – estou com 23 -, e toda vez me debulho em lágrimas a partir dessa cena, até o final do filme. Muito do mérito disso é da trilha musical esplendorosa de Ennio Morricone – até hoje minha preferida.

Num longínquo 2004, num texto para meu finado blog, “Os Intocáveis”, escrevi sobre o filme – um texto que hoje acho muito ruim e leviano -, que iniciava assim: “O que dizer de Cinema Paradiso? Que é o melhor filme italiano já produzido - que eu vi, e dificilmente mudará - e um dos melhores de todos os tempos; que é o melhor filme já feito sobre cinema?”. Ainda hoje penso do mesmo jeito, tamanho o impacto que o filme ainda me provoca.

Tornatore fez mais dois filmes que também mexem muito comigo – não do mesmo jeito, claro: “Estamos Todos Bem” e “A Lenda do Pianista do Mar”. Por conta disso vou continuar a defendê-lo, não importa o que faça. É um diretor com uma baita qualidade louvável: não tem medo de se entregar a seus projetos de forma extremamente passional, característica muito visível em seus trabalhos.

Ficha Técnica:

Direção: Giuseppe Tornatore
País: Itália/França
Elenco: Antonella Attili, Enzo Cannavale, Isa Danieli, Leo Gullotta, Marco Leonardib, Pupella Maggio, Agnese Nano, Leopoldo Trieste, Salvatore Cascio.
Fotografia: Blasco Giurato
Edição: Mario Morra
Roteiro: Vanna Paoli e Giuseppe Tornatore
Aspecto: cor
Formato: 1.66 : 1
Ano: 1988
Duração: 155 min.

Texto reproduzido do site: cinequanon.art.br

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Cinema Paradiso






Diretor Italiano: Giuseppe Tornatore.

Publicado originalmente no blog O Cinema Paradiso, em 2 de março de 2015.

"Cinema Paradiso": Um doce olhar sobre as coisas inesquecíveis que passam e sobretudo que ficam.

Por Prof. Márcio Araújo.

Ao assistir e contemplar o filme "Cinema Paradiso", do diretor italiano Giuseppe Tornatore, senti a leveza de um beijo imortal no meu coração de apaixonado pelo cinema. Magicamente ficou perceptível que a existência não é só a realidade, pois, perante nossas limitações e defeitos, a imaginação adocica a amargura provocada pelo peso da vida e pela brutalidade dos fatos.

O ambiente onde se configura uma grande parte da trama, a sala de cinema, é um local de convívio, um espaço de encontro de uma comunidade siciliana afetada pela conjuntura histórica do pós Segunda Guerra Mundial. A própria distribuição dos espectadores no espaço, apresenta-se com uma radiografia das hierarquias da pequena aldeia, uma verdadeira micro-sociedade: ricos e poderosos ocupam o andar superior de onde olham para o povo comum que se agita em baixo, na plateia.

Na escuridão, iniciam-se romances, selam-se amizades, bebe-se vinho, fumam-se cigarros, embalam-se e amamentam-se bebês, batem-se pés, celebram-se vitórias. Podemos verificar, de forma impressionante, que o espectador tem a oportunidade de ver projetado nesses personagens e nessas imagens cenas da sua própria vida, problemas que são seus, angústias e alegrias pelas quais passaram. Isto significa que o cinema oferece capacidade de identificação que está no seu fascínio. Esta função de espelho permite que cada pessoa, de modo livre, olhe para si, pense sobre si e reflita sobre a sua vida.

Na sociedade italiana de valores majoritariamente católicos, todas as Instituições sofriam a influência da Igreja e para a população da aldeia de "Cinema Paradiso", assistir a filmes era um ritual sagrado, equiparado a própria missa. Mas ao contrário da pluralidade da arte, a Igreja oferecia sempre o mesmo enredo, uma mensagem eclesial repetitiva, imposta e conservadora. Para a Igreja, O Cinema Paradiso é o local de todos os pecados, onde existe o perigo de se veicularem valores nada convencionais. A figura do padre, por exemplo, aparece como castradora da liberdade e do sonho.

A censura era uma prática comum na sociedade italiana da época, não só de imagens eróticas, mas também políticas. A censura aplicada aos filmes, faz com que os espectadores não possam ver uma única cena de beijo durante largos anos, rompido apenas na nova etapa do Cinema Paradiso, após o fatídico incêndio.

No entanto, o início da amizade entre o projecionista Alfredo e o menino Totó (Salvatore) é o que determina a empatia do público com a produção. Essa amizade é apresentada através de um longo flashback que nos conduz a uma incrível viagem, por meio primeiro do olhar de uma criança, onde se processam travessuras, descobertas e inocência, e mais tarde de um jovem, quando Totó se apaixona por Elena, estudante de sua mesma escola. Só que Elena é uma menina rica e segundo sua posição social, jamais vai convencer seus pais a aceitarem um pobre projecionista como seu marido.

Com a ausência do pai, claramente sentida pelo garoto, é em Alfredo que Totó enxerga a figura paterna, Alfredo foi para ele um “mestre”, um "professor de vida”, o seu verdadeiro “educador”. E por isso o menino se apega àquela imagem aparentemente ranzinza, mas encantadora em sua essência e com enorme coração. Ao mesmo tempo, Alfredo adota Salvatore como o filho que não teve e mesmo que inconscientemente, nota-se que eles se completam. A memória evocada corresponde àquela gratidão que em todos nós sobrevive por quem se preocupou em educar-nos. Estas memórias têm elevado valor emotivo pois, ao longo da vida, guardamos sempre saudade fiel dos nossos primeiros mestres. Tudo isso, se configura no final do filme, quando Totó volta depois de trinta anos a cidade de origem e recebe o presente que Alfredo lhe deixou (não revelarei para não estragar a surpresa).

A sensibilidade de Tornatore também brinda o espectador com algumas sequências incrivelmente belas, como o primeiro beijo de Totó e Elena, testemunhado pela maravilhosa trilha sonora e pelos clarões da chuva que cai. Outro momento tocante acontece quando Salvatore retorna ao Cinema Paradiso. Os pequenos detalhes encontrados no abandonado cinema, como a boca do Leão de onde eram projetadas as imagens, são extremamente importantes pra ele, afinal de contas, fazem parte das lembranças de uma fase importante de sua vida. A vida é feita destas pequenas memórias e o longa retrata muito bem isto. Em outra cena, o choro das pessoas ao ver uma parte da história da cidade e da vida delas ir embora junto com a implosão do Cinema Paradiso é de cortar o coração. Difícil segurar as lágrimas. Além disso, o roteiro explora muito bem o bom humor, como no engraçado método de censura do padre, onde todas as cenas de beijo são cortadas, provocando verdadeiros saltos na projeção que causam a imediata reação da plateia. Outro momento de bom humor acontece quando Alfredo projeta um filme numa casa e o morador sai para ver a razão daquele alvoroço. Repare também como alguém grita que a praça é nossa durante a tentativa de cobrar ingresso, provocando a imediata reação do louco da praça, que responde com sua frase característica a praça é minha!

"Cinema Paradiso" é um filme simultaneamente realista e poético realizado ao bom estilo italiano, tingido pela nostalgia e conduzido pela memória. Quem vê esse filme, com certeza não consegue ficar indiferente.

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"(Nuovo) Cinema Paradiso" de Giuseppe Tornatore: o passo a passo de um clássico do Cinema. 

Por Hamilton Nogueira.

 “(Nuovo) Cinema Paradiso” é um filme de 1988, com roteiro e direção do cineasta Italiano: Giuseppe Tornatore. Apesar de ser (re)conhecido por “Cinema Paradiso”, Tornatore provou que não é diretor de um único filme, dirigindo também outras obras clássicas do cinema italiano, como: “Estamos todos bem” (1990), tendo como carro-chefe a interpretação de Marcello Mastroianni, “Uma simples formalidade” (1994), merecendo destaques as atuações de Roman Polanski e Gérard Depardieu, “A lenda do pianista do mar” (1998), e por fim, “Malena” (2000), com uma atuação magistral de Mônica Belucci.

É pelo intenso lirismo e pelo tom memorialístico de seus filmes que Giuseppe Tornatore é, sem dúvida, um dos grandes diretores do cinema italiano e porque não dizer, do cinema mundial.

O longa-metragem foi agraciado - como bem é descrito nos créditos iniciais da película - com os prêmios de Cannes: Grande Prêmio do júri, oscar de melhor filme estrangeiro, Globo de ouro da imprensa estrangeira em Hollywood, prêmio especial do Júri no oscar europeu “Felix” em 1989, prêmio “César” de melhor filme estrangeiro e obteve também o prêmio “Cinema e Società” de 1989.

Ambientado em um pequeno vilarejo da Sicília – pós 1945 – a trama de Tornatore gira em torno das aventuras e desventuras de Alfredo (Philipe Noiret) e Totó/Salvatore (o qual foi interpretado por três atores, revelando, dessa forma, as três fases do personagem: Infância, adolescência e fase adulta. Na ordem, são eles: Salvatore Cascio, Marco Leonardi e Jacques Perrin). 

Projecionista do cinema paroquial, Alfredo é visto como uma simbologia do próprio cinema. Seria ele a ascensão e a decadência da cinematografia enquanto arte. A lenta degradação de Alfredo é também a perda de espaço do cinema para outras tecnologias como a televisão e o videocassete.

Aos moldes de Federico Fellini (1920-1993), Giuseppe Tornatore desenvolveu seus personagens mais caricaturais em “Cinema paradiso”. Todos com características bem peculiares, carregados, muitas vezes, com um humor mordaz e fina ironia. Completam o time:

Padre Adelfio (Leopoldo Trieste):  é tido como a figura conservadora e moralista do enredo. É o responsável pelas ordens de corte em cenas de beijo nas películas apresentadas no “Paradiso”. Fato este que desagrada o público e principalmente a Totó.

 Maria (Antonella Attili/ Pupella Maggio): Mãe de Totó. Perde o marido durante a 2ª guerra mundial e luta para criar seus dois filhos: Totó e Anna (Isa Danieli). Muitos estudos sobre a obra apontam essa personagem como uma analogia a Helena de Tróia que aguarda o retorno do marido e - posteriormente - do filho. Atente para a cena em que a personagem está tecendo quando o filho (Totó) regressa a sua casa.

 Elena (Agnese Nano): é a grande paixão de Totó. Os dois se conhecem após a mudança de Elena e de seu Pai (o qual é descrito na narrativa como um banqueiro) para a vila siciliana.

Enzo Cannavale (Spaccafico), Leo Gullota (Usher), Roberta Lina (Lia), Ninno Terzo (Pai de Peppino), são os personagens planos, comumente conhecidos como secundários, mas, que de certa forma, ajudam significativamente no desenrolar da trama.

É o tom memorialístico por meio de Flashback's aliado a captação de imagens do mar siciliano e da maravilhosa trilha sonora de Ennio Morricone (que acompanha ininterruptamente o filme) que Tornatore convida o espectador a adentrar no universo de seus personagens. Totó/Salvatore, já adulto, bem sucedido, no entanto, solitário e sem uma vida afetiva estável recebe a notícia da morte do amigo e grande mentor: Alfredo. E agora o que fazer?... Deitar-se, encostar a cabeça ao travesseiro e (re)lembrar é tudo o que resta?... Sim, lembrar, aliado a doses de remorsos e nostalgia.

O contexto do filme é basicamente o pós-segunda guerra mundial. Deparamo-nos com uma Itália devastada e assolada pela miséria e por crises políticas. É nesse cenário que encontramos o pequeno Totó, uma vítima a mais desta tragédia e de seus resquícios. A margem da pobreza de sua família e da ansiedade em (re)encontrar seu pai que fora ao conflito, o pequeno Totó divide seu tempo entre a escola e os filmes na paróquia que serve como cinema e única distração para os moradores de um vilarejo ao sul da Itália: o “Cinema Paradiso” (título homônimo do filme).

As hierarquias que Insistem em dividir a sociedade não deixam de aparecer na obra prima de Tornatore. A burguesia da cidade ocupa sempre os camarotes dos andares superiores da paróquia (cinema), cuspindo (literalmente) sempre que possível nas camadas menos favorecidas. Aí Tornatore não deixou de registrar sua crítica refinada aos moldes de Luis Buñuel ("O discreto charme da burguesia", 1972). O cinema paradiso serve para tudo: descreve as disparidades de classes, é o lugar de extravasar os vícios e deixar aflorar os desejos outrora contidos.

O ponto de virada do filme é uma tragédia no espaço que serve de distração ao vilarejo: um incêndio na paróquia/cinema acaba por deixar o seu projecionista cego. Entre altos e baixos a vida de Alfredo nunca mais será a mesma  após o incidente. Como diria Guimarães Rosa em seu conto “A Benfazeja”: A luz é para todos; as escuridões é que são apartadas e diversas.

Mais por dificuldades financeiras e para ajudar sua família do que necessariamente por sua paixão pelo cinema, Totó agora exerce a função de projecionista do agora reformado "Novo Cinema Paradiso". Subversivo e progressista, Salvatore sempre deixa passar um beijo ou uma cena mais sensual. Atitudes transgressoras, haja vista, o contexto histórico, altamente conservador.

Totó cresce e agora não é somente projecionista e cinéfilo. Ainda em sua Sicília natal tem como grande amiga uma câmera com a qual registra a tudo e a todos. E é captando lugares, paisagens e situações cotidianas que Salvatore conhece Elena - grande paixão de sua vida.

A partir de então o filme é caracterizado por uma série de perdas e, sempre no plano afetivo. Movido pela insistência de Alfredo, Tóto deixa sua terra para estudar. Regressa (aqui o filme dá um grande salto elíptico e passa a ser linear) para o enterro de seu mentor e descobre um Paradiso abandonado.
Algo mudou em Totó; não lembra mais de alguns amigos da infância e as pessoas - de sua Sicília natal - agora parecem carregar consigo uma melancolia aguda.

Por interesses políticos, o Paradiso entra em processo de extinção.  Situação não muito distante da nossa realidade, onde, patrimônios históricos e culturais são eliminados para atender interesses de empreiteiras e da especulação imobiliária. Totó assiste a implosão do “seu cinema” solidário ao sofrimento coletivo. Cena forte: parece que estamos nos deparando com o final de uma era. Seria, como quer Ronald Bergan: A morte dos palácios de filmes. Constata-se também na cena que Alfredo e o cinema são apenas um: quando um morre o outro também é extinto.

No decorrer da película, grandes homenagens a 7ª arte, seja pelas citações incansáveis de Alfredo a clássicos do cinema, pelas exibições destes mesmos clássicos no Paradiso ou pelos cartazes focalizados pela objetiva: vide os cartazes de “Casa Blanca” ao fundo de Totó e Alfredo na cabine do Paradiso e de “E o vento levou” na rua após Totó e sua mãe ficarem sabendo da morte do Patriarca da família. Destaque também para as claras homenagens a Chaplin, Jean Gabin e Laurel e Hardy, os inesquecíveis: “O gordo e o magro”. Mas o que é devastador está guardado para o final: diria ser difícil, quase impossível sair do filme sem ao menos uma lágrima escorrendo pelo rosto. Talvez nada disso seria possível sem a música de Ennio Morricone que evoca as nossas mais antigas memórias[1].

“Cinema Paradiso” é um filme Metalinguístico? Sim, mas não é uma obra usada para discutir técnicas narrativas, nem montagem, tão pouco, o processo de distribuição. A obra entra para a história como uma verdadeira prova de Amor a cinematografia. Mostra que o valor primeiro ao contemplar um filme está contido na subjetividade do espectador; em suas sensações. O espectador se encontra na obra a partir do que viveu, do que já amou - ou sofreu -; daquilo que foi ou poderia ter sido. É esse o primeiro valor, é essa a primeira impressão. Bergan ratifica a assertiva dizendo que o filme de Tornatore é um lembrete sutil de que cinema é experiência pessoal.

Textos reproduzidos do blog:  ocinemaparadiso.blogspot.com.br

[1] Ronald Bergan in “Guia Ilustrado Zahar de Cinema”.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Crítica de Cinema Paradiso, por Roberto Siqueira






"Cinema Paradiso" (1988). (Nuovo Cinema Paradiso).

Vencedor do Oscar #1988 (Filme estrangeiro).

Dirigido por Giuseppe Tornatore.

Elenco: Philippe Noiret, Jacques Perrin, Salvatore Cascio, Marco Leonardi, Antonella Attili, Enzo Cannavale, Isa Danieli, Leo Gullotta, Pupella Maggio, Agnese Nano, Leopoldo Trieste, Roberta Lina, Nino Terzo, Brigitte Fossey, Tano Cimarosa e Nicola Di Pinto.

Roteiro: Giuseppe Tornatore.

Produção: Mino Barbera, Franco Cristaldi e Giovana Romagnoli.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história da linda amizade entre um garoto órfão de pai e um projecionista de cinema sem filhos se mistura à própria história do cinema italiano, nesta linda homenagem do diretor Giuseppe Tornatore ao cinema de uma forma geral, que espalhou lágrimas de cinéfilos por todo o mundo em 1988. Auxiliado por uma das mais lindas trilhas sonoras de um gênio e por atuações sensíveis e tocantes, “Cinema Paradiso” é uma realização única e incrivelmente emocionante.

Alguns anos depois do final da Segunda Guerra Mundial e antes da chegada da televisão, uma pequena cidade da Sicília, na Itália, foi o palco de uma grande amizade entre Salvatore “Totó” (Jacques Perrin), um garoto apaixonado por cinema, e Alfredo (Philippe Noiret), o projecionista do cinema local conhecido como “Cinema Paradiso”. As lembranças desta amizade marcante, provocadas pela notícia da morte de Alfredo, tomam conta dos pensamentos do agora bem sucedido cineasta Salvatore, que se prepara para voltar à cidade natal após trinta anos.

O diretor Giuseppe Tornatore conduz “Cinema Paradiso” com extrema elegância, através de belos movimentos de câmera, como um travelling que se inicia no crochê abandonado pela mãe de Salvatore (Antonella Attili, jovem, e Pupella Maggio, idosa) quando este finalmente retorna pra casa, passa pela janela e pelo taxi, até finalmente encontrar o rapaz abraçando sua mãe. Tornatore, aliás, abusa dos travellings e panorâmicas, explorando com competência as lindas paisagens da bela Itália, auxiliado pela direção de fotografia de Blasco Giurato. O diretor também conduz muito bem a tensa seqüência do incêndio no Cinema Paradiso, iniciada exatamente quando um tiro seria disparado no filme que passava. Em seguida, a pergunta “quem irá reconstruir o Cinema Paradiso?” é respondida com outro movimento de câmera, que aponta o napolitano vencedor da loteria. E ele realmente ergue o “Novo Cinema Paradiso”, dando início a uma nova fase no cinema da cidade, agora comandado por Totó, já que Alfredo foi gravemente ferido no incêndio e perdeu a visão. Em outro momento, um movimento simples, porém muito simbólico, acontece quando Salvatore tem a confirmação da morte do pai. Observe como Tornatore leva a câmera até um pôster de “…E o Vento Levou”, numa clara alusão à semelhança física entre o pai dele e Clark Gable que Alfredo havia comentado antes. Finalmente, Tornatore também utiliza o zoom na bela cena em que Alfredo conta a história do soldado que prometeu aguardar por cem dias pela amada, e que refletirá em outra linda seqüência entre Salvatore e sua paixão Elena (Agnese Nano).

Giuseppe Tornatore também demonstra muita competência na condução dos atores, a começar pela dupla que conduz a narrativa formada por Totó e Alfredo, mas interpretada por quatro atores diferentes. A relação de amizade entre eles se inicia com as discussões sobre a presença do garoto na sala de projeção e caminha até o mais puro sentimento de respeito e carinho que acompanha ambos por toda a vida. Para transmitir esta sensação, é essencial que exista química entre os personagens, e felizmente Philippe Noiret consegue estabelecer esta química com todos os atores que interpretam Totó em suas três fases, com destaque especial para a infância, vivida por Salvatore Cascio. O início da amizade entre Alfredo e o menino Totó é o que determina a empatia do público com a dupla. Também interpretam Salvatore os atores Marco Leonardi, na adolescência, e Jacques Perrin, já na fase adulta e responsável por momentos emocionantes do longa. Ao ouvir a notícia da morte de Alfredo, o já adulto Salvatore finge não ser nada demais, mas quando vira para o lado na cama, seu semblante demonstra claramente a importância daquele nome e o impacto da notícia. A chuva e o rosto triste mergulhado nas sombras deixam claro para o espectador que se trata de alguém realmente marcante. Com a ausência do pai, claramente sentida pelo garoto, é em Alfredo que Totó enxerga a figura paterna, e por isso o menino se apega àquela figura aparentemente ranzinza, mas encantadora em sua essência e com enorme coração. Ao mesmo tempo, Alfredo adota Salvatore como o filho que não teve e mesmo que inconscientemente, eles se completam. É compreensível, portanto, que vivendo numa pequena cidade italiana no período do pós-guerra, ainda sem televisão e órfão de pai, o menino enxergue no escuro do cinema (e na companhia de Alfredo) a oportunidade de fugir da realidade e viver um mundo de sonhos. Sua vida começou a mudar definitivamente quando ajudou Alfredo numa prova e conseguiu o direito de freqüentar a cabine de projeção. A partir dali, viveu um período mágico em sua vida. Já a vida de Alfredo mudaria completamente após a tragédia do incêndio no antigo Cinema Paradiso. Impossibilitado de fazer aquilo que mais amava, ele passa a ter ainda mais sensibilidade para perceber o mundo à sua volta. E a atuação de Philippe Noiret cresce ainda mais quando Alfredo fica cego, transmitindo ainda mais emoção e expondo com competência os sentimentos do personagem, como num sorriso que ele solta ao pressentir que Totó vai ver Elena dentro da igreja. A importância de Antonio na vida de Salvatore fica ainda mais evidente quando vemos este pedir para que ele “fique longe” e “não volte mais!”. Antonio entendia que ele poderia conseguir muito mais na vida indo para a cidade grande (“O mundo é seu!”), o que demonstra um amor verdadeiro, que não é egoísta e prefere a felicidade de Totó ao invés de mantê-lo preso ao seu lado – e no fundo, ele sabia que se pedisse, Totó ficaria. O rapaz cumpriu a promessa, ficando trinta anos sem voltar à cidade, e em sua volta, é visto com muito respeito por todos, realizando o sonho de Alfredo – e até mesmo a composição visual de Tornatore demonstra isto, filmando Salvatore de baixo pra cima, demonstrando grandeza.

A linda estória narrada conta também com o ótimo roteiro do próprio Giuseppe Tornatore, que abusa da metalingüística, fazendo diversas referências ao próprio cinema. Além disso, utilizando um linguajar despojado e com muitos palavrões (típico dos italianos), constrói de forma bastante consistente a amizade entre Totó e Alfredo, apresentando também os bastidores do trabalho de projeção dos filmes e revelando a paixão de ambos pelo cinema. O fascínio das pessoas pelo cinema, aliás, é notável durante toda a narrativa. Elas deixam compromissos para trás, brigam, aguardam por horas na porta, tudo para ver um bom filme. Interessante notar também o sorriso no rosto das crianças ao ver os filmes do gênio Charles Chaplin. Além disso, o roteiro explora muito bem o bom humor, como no engraçado método de censura do padre Adelfio (Leopoldo Trieste) para os filmes exibidos no Cinema Paradiso, onde todas as cenas de beijo são cortadas, provocando verdadeiros saltos na projeção que causam a imediata reação da platéia. Por outro lado, quando finalmente assistem uma cena de beijo, a reação de espanto e alegria é enorme. Outro momento de bom humor acontece quando Alfredo projeta um filme numa casa e o morador sai para ver a razão daquele alvoroço. Repare também como alguém grita que “a praça é nossa” durante a tentativa de cobrar ingresso, provocando a imediata reação do louco da praça, que responde com sua frase característica “a praça é minha!”.

Tecnicamente “Cinema Paradiso” também tem qualidades, a começar pela boa montagem de Mario Morra. Observe, por exemplo, o salto de muitos anos na narrativa durante uma conversa entre Totó e Alfredo e a elegante seqüência em que uma bicicleta vai e volta com os filmes na garupa, demonstrando o sacrifício daquelas pessoas para não deixar o público esperando dentro do cinema. A trilha sonora do gênio Ennio Morricone é um capítulo à parte. Absolutamente linda, a nostálgica trilha se confunde com o clima de saudade de todo o longa. O deleite visual fica por conta da boa direção de fotografia de Blasco Giurato, que explora a beleza das locações italianas, se contrapondo muito bem ao excelente uso da luz e das sombras nas cenas dentro do Cinema Paradiso. Já a direção de arte de Andrea Crisanti capricha na tipicamente italiana cidade de Giancaldo, com a praça central e as ruas de pedras. Além disso, podemos observar o bom trabalho de Crisanti no interior abandonado do Cinema Paradiso. E finalmente, merece destaque a ótima maquiagem de Maurizio Trani, notável em diversos personagens quando Totó retorna para a cidade.

A sensibilidade de Tornatore também brinda o espectador com algumas seqüências incrivelmente belas, como o primeiro beijo de Totó e Elena, auxiliado pela maravilhosa trilha sonora e pelos clarões da chuva que cai. Outro momento tocante acontece quando Salvatore retorna ao Cinema Paradiso. Os pequenos detalhes encontrados no abandonado cinema, como a boca do Leão de onde eram projetadas as imagens, são extremamente importantes pra ele, afinal de contas, fazem parte das lembranças de uma fase importante de sua vida. A vida é feita destas pequenas memórias e o longa retrata muito bem isto. Em outra cena, o choro das pessoas ao ver uma parte da história da cidade e da vida delas ir embora junto com a implosão do Cinema Paradiso é de cortar o coração. Difícil segurar as lágrimas. Assim como é praticamente impossível segurar as lágrimas na belíssima seqüência final, quando Totó assiste ao “filme proibido” deixado de presente por Alfredo, com pedaços de cenas de beijo de grandes filmes da história do cinema italiano.

“Cinema Paradiso” é uma linda homenagem à magia do cinema e por isso, encanta aos cinéfilos de forma singular. Além disso, quando vemos a estrutura do cinema sendo demolida, seguida pela emocionante seqüência final em que Salvatore finalmente vê os pedaços de filmes cortados por Alfredo, sentimos uma mistura de emoções, pois sabemos que ali está se despedindo não apenas o Cinema Paradiso, mas também uma fase áurea do cinema italiano, marcante para muitos cinéfilos e que entrou para a história como um dos melhores períodos da sétima arte. Por isso tudo, “Cinema Paradiso” comove, abordando temas universais de forma singela e inesquecível.

Texto publicado em 30 de Março de 2010 por Roberto Siqueira.

Texto e imagens reproduzidos do site: cinemaedebate.com