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sábado, 28 de setembro de 2013

Majestade sem Trono

O projetor do Cine Yara é uma das principais atrações do Museu de Quixadá.


Majestade sem Trono - Quixadá não possui cinemas. (09/10/2011)
     
Quixadá - Duvidar das potencialidades cinematográficas de Quixadá é fechar os olhos diante das enormes telas a exibirem as imagens desta exótica terra mundo afora. Do drama a comédia as cenas refutam qualquer questionamento, principalmente quando a Galinha Choca, o Chalé das Pedras e outras paisagens bem peculiares da “Terra dos Monólitos” estão enquadradas nas lentes dos cineastas, contracenando com os atores. Entretanto, enquanto na capital o número de salas se multiplica nos shoppings, nesta cidade apenas o Cineclube Mestre Adolfo tem semelhança com uma sala de exibição. Mérito dos amantes da sétima arte nesta região e do esforço da administração pública local em preservar o hábito secular.

Segundo o pesquisador, historiador e escritor septuagenário João Eudes Costa, um dos poucos a lembrar detalhes da época áurea do cinema na cidade, nem sempre foi assim. Algumas décadas atrás Quixadá foi a majestade da região. Teve três cinemas funcionando ao mesmo tempo. Eram os Cine São José, 13 de Maio e Cine Yara. Uma época onde as exibições cinematográficas eram a principal diversão. Havia até concorrência entre eles na disputa pelas fitas de lançamento. O público adorava, principalmente as crianças. A diversão chegava inclusive aos menos favorecidos economicamente. Quem não possuía muito dinheiro tinha o “Cine Poeirinha” como opção.

Hoje coordenadora do Museu de Quixadá, a professora Maria Prima de Souza, lembra da última máquina utilizada no Cine Yara. É uma das principais atrações daquela casa. Ela procura o outro projetor. O Cine Yara era o mais luxuoso da cidade e o único a não ter a necessidade das luzes serem acesas quando havia necessidade de trocar os rolos. Como tinha dois projetores, em questão de minutos a exibição continuava.    As poltronas eram de madeira e o ambiente refrescado por enormes ventiladores. Era o principal ponto de encontro da cidade. As sessões lotavam de estudantes. Todos se arrumavam para ir ao cinema. Quando os filmes terminavam se reuniam na praça, para paquerar.

O fascínio e a familiaridade de Quixadá com esse tipo de diversão era tão grande que foi um cego quem fez o primeiro projetor “falar”. Era Adolfo Lopes da Costa, o Mestre Adolfo. Explica melhor João Eudes Costa: o padre Luiz Braga Rocha, um dos pioneiros do cinema no Interior do Ceará, havia adquirido um novo projetor para o Cine Paroquial. Era a principal novidade em matéria de tecnologia no mundo. A expectativa era grande, pois pela primeira vez o público teria a oportunidade de ouvir a trilha sonora dos filmes. Mas a frustração foi grande. Os filmes continuavam mudos. Como a máquina era de fabricação alemã e o técnico estava demorando o padre recorreu às habilidades de Mestre Adolfo, pouco tempo depois o problema foi solucionado. “Os filmes começaram a falar em Quixadá”.

Essa estória ocorreu em meados de 1897 a 1898. Ao tocar a fita Mestre Adolfo percebeu que apenas um lado dela ficava aquecido quando era tocada pelo carvão, uma espécie de lâmpada que iluminava e projetava as imagens. Com o tato sentiu algumas listas, barras contínuas, na outra extremidade da fita. Com alguns ajustes a película passou a receber de ambos os lados o calor do carvão. Quando a colocou para funcionar novamente a máquina começou a falar. Essa foi a explicação do padre para a proeza do habilidoso artesão ao engenheiro alemão que chegou à cidade somente alguns meses depois. Após conversar com o habilidoso artífice o estrangeiro ficou impressionado, classificou Mestre Adolfo como um gênio.

E não foi somente Mestre Adolfo o único cego a impressionar os cinéfilos com suas habilidades manuais. Outro cego, mais famoso, Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo, também fazia proezas no mundo do cinema. Pela sua influencia nas cantorias conseguiu de Ademar de Barros, ex-governador de São Paulo,  um projetor cinematográfico. Como a máquina não tinha som ele mesmo narrava as cenas do filme que exibia nas andanças pelas comunidades, a “Paixão de Cristo”. Quem assistia ficava impressionado. O segredo, bom, no início ele tinha um de seus muitos filhos como guia. À medida que as cenas eram projetadas perguntava ao menino o que estava passando. Ao mesmo tempo memorizava quantas voltas estava dando na manivela do rolo de filmagem. Decorou e não precisou mais do auxílio.

Hoje, não existem mais gênios como Mestre Adolfo e Cego Aderaldo. Com eles também se foram os cinemas da cidade. Apreciar os encantos da sétima arte diante de enormes telas somente quando surge algum evento especial como o III Quixadá Mostra Cinema. Na opinião de quem adora cinema e se dedica a esse tipo de arte o Município tem potencialidade para ter pelo menos duas salas de cinema. Além de ser um reconhecido polo cinematográfico também é o maior centro universitário da região. São mais de cinco mil estudantes. Os entrevistados atribuem a iniciativa desse tipo de empreendimento a empresas privadas. Compete a elas apostar nesse potencial. Em breve um delas será inaugura na cidade juntamente com o Hotel Imperial.

História do Cinema 

De acordo com estudiosos do assunto, o cinema nasceu de várias inovações que vão desde o domínio fotográfico até a síntese do movimento utilizando a persistência da visão com a invenção de jogos ópticos. Dentre os jogos óticos destaca-se o praxinoscópio, inventado em 1877 por Emily Reynaud. No ano seguinte ele melhorou sua invenção e passou a projetar imagens no Musée Grévin durante 10 anos.

Em 1876, outro inventor, Eadweard Muybridge fez uma experiência colocando 12 e depois 24 câmeras fotográficas ao longo de um hipódromo e tirou várias fotos da passagem de um cavalo. Ele obteve assim a decomposição do movimento em várias fotografias e através de um aparelho denominado zoopraxinoscópio pode recompor o movimento. Em 1888, Louis Aimée Augustin Le Prince filmou uma cena de cerca de 2 segundos, mas a fragilidade do papel utilizado fez com que a projeção ficasse inadequada.

Anos depois, em 1891, William Kennedy Laurie Dickson, chefe engenheiro da Edison Laboratories, inventou uma tira de celulóide contendo uma sequência de imagens que seria a base para fotografia e projeção de imagens em movimento. Naquele mesmo ano Thomas Edison inventou o cinetógrafo e posteriormente o cinetoscópio. O último era uma caixa movida a eletricidade que continha a película inventada por Dickson mas com funções limitadas. O cinetoscópio não projetava o filme.

Baseado na invenção de Edison, Auguste e Louis Lumière inventaram o cinematógrafo, um aparelho portátil, uma máquina de filmar, de revelar e projetar. Em 1895, o pai dos irmãos Lumière, Antoine, organizou uma exibição pública paga de filmes no dia 28 de dezembro no Salão do Grand Café de Paris. A exposição foi um sucesso. Este dia, data da primeira projeção pública paga, é comumente conhecida como o nascimento do cinema mesmo que os irmãos Lumière não tenham reivindicado para si a invenção de tal feito.

Fotos e texto reproduzidos do site:  diariodonordeste.com.br