sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A magia do 35 mm revive em Locarno















A magia do 35 mm revive em Locarno.
Festival de Locarno projeta dezenas de filmes em 16 ou 35mm.
Imagens compartilhadas do site: www swissinfo ch

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Copacabana nos tempos em que cinema era a maior diversão

O Rian, em frente à Praia de Copacabana, na década de 1980: salas de cinema
 praticamente desapareceram do bairro onde havia mais de 30 cinemas 
Foto: Reprodução Facebook / Casas e Prédios Antigos do Rio

O pequeno Cine-Teatro Joia, no subsolo de uma galeria: 
única sala a exibir filmes em Copacabana 
Foto: Oscar Valporto

Artigo compartilhado do site PROJETO COLABORA, de 17 de junho de 2025 

Copacabana nos tempos em que cinema era a maior diversão
Por Oscar Valporto (@oscarvalporto)

Meio século atrás, bairro abrigava mais de 40 salas; hoje, apenas o menor deles, o Cine-Joia, ainda exibe filmes

Foi por acaso que descobri que o Joia – o menor e mais modesto cinema de Copacabana meio século atrás – ainda exibia filmes. Poucos, é verdade; agora está batizado de Cine-Teatro Joia e apresenta mais peças do que obras cinematográficas. É um sinal brutal dos tempos que só tenha sobrado uma sala, no subsolo de uma galeria, em toda a Copacabana, bairro mais populoso da Zona Sul do Rio e onde, no começo dos anos 1970, havia quase 40 cinemas.

Volto meio século, para o começo da adolescência, quando Copacabana era meu bairro de entretenimento. Moravam ali minha avó e meus primos, com idades semelhantes à minha e dos meus irmãos. Tinha praia, tinha lanchonetes e restaurantes para todos os bolsos e preferências, e tinha cinemas, muitos cinemas. E cinema, como repetia a propaganda da maior rede de salas do Rio de Janeiro, é a maior diversão naquela época.

Era mesmo a maior diversão e não apenas pela qualidade e variedade dos filmes. Cada sala de cinema – particularmente em Copacabana – promovia uma experiência especial. O Metro e o Art-Palácio tinham quase mil lugares na plateia, com som espetacular (para a época) e telas gigantes (que nem caberiam nos cinemas de hoje). Eram quase vizinhos e viviam lotados – assim como o Copacabana, o terceiro na mesma longa quadra, do lado ímpar da Nossa Senhora de Copacabana, entre as ruas Santa Clara e Constante Ramos. O Rian era um cinema com vista para o mar: você saía da sala escura e dava de cara com o sol e a areia branca da praia. O Caruso tinha as poltronas mais confortáveis da cidade. No Cinema 1, vi, pela primeira vez, filmes de Fellini e Bergmann.

Para os adolescentes, eram tempos de falsificar as carteiras de estudante para entrar em filmes proibidos para maiores de 14 ou 16 anos.  Havia programas para todos os gostos: para ver com a família, comédias para ver com os colegas de escola, filmes com muita ação e muito mentira para fortalecer as amizades masculinas, romances para levar a primeira namorada.  E para conversar depois sobre a experiência: em casa, na casa dos amigos, na lanchonete, na sala de aula. Conversar, mesmo; não trocar mensagens de texto ou de áudio sobre o que está em exibição nas plataformas de streaming.

A dinâmica da cidade – a insegurança e a violência crescentes, a precariedade do transporte público, a especulação imobiliária – começava, já naquela época, a afetar os cinemas de rua. A crise chegou primeiro aos subúrbios, onde a competição com a televisão e sua programação audiovisual gratuita, inclusive com filmes, roubava público dos cinemas. Mas chegou, na década seguinte, à Tijuca, capital do cinema na Zona Norte, com mais salas que a Cinelândia, no Centro, onde instalou-se a primeira leva de cinemas da cidade. E também à Zona Sul. Por todo o Rio de Janeiro, os cinemas se esconderam em shoppings, partilhando espaço seguro, com estacionamento para privilegiados, com lojas de todos os tipos.

Menos em Copacabana. O bairro – com intenso e tradicional comércio de rua e mais de 160 mil moradores – não abriga um só shopping center, no sentido mais moderno do termo, aquelas edificações com mais de 400 estabelecimentos de todos os tipos, de academias de ginástica a agências bancárias. Já faltava espaço no bairro famoso, com selvagem ocupação urbana e densamente povoado. E, como não subiram esses shoppings, foram desaparecendo os cinemas. O último, o Roxy, fechou as portas na pandemia – reabriu, em 2024, como Roxy Dinner Show, casa de espetáculos para turistas. Só resiste em Copacabana o Cine-Teatro Joia, com apenas 77 lugares, que tem sessões de cinema geralmente à tarde – as noites são reservadas às peças, oficinas e cursos de teatro.

No dia em que tropecei no Joia, circulei um tanto por aquela Copacabana onde passei tantos dias na transição da infância para a adolescência. Foi um passeio nostálgico e um pouco triste. Não foi difícil achar os lugares que abrigaram os antigos grandes cinemas do bairro: eram e ainda são espaços grandes, substituídos por lojas de roupas para toda a família ou de eletrodomésticos. Mas não consegui identificar onde ficava a lanchonete Cirandinha ou a sorveteria Zero, preferidas daquela garotada, ou mesmo as lojas onde acompanhava minha avó para comprar doces ou presentes. Cinema era a maior diversão em Copacabana: como eles não estão mais lá – nem a avó, nem os primos – venho bem menos ao bairro (apesar da boa oferta de botequins, conversa para outro dia).

Os imóveis continuam lá; as avenidas têm verdadeiros paredões de edifícios, colados uns aos outros. Mas mudaram as fachadas, as lojas, as referências – multiplicaram-se as farmácias, as lojas de celulares, os restaurantes a quilo. No giro pela minha antiga Copacabana, só reencontrei os kibes e esfihas do Baalbeck, restaurante árabe há mais de 60 anos, na Galeria Menescal, esta construída em 1942, uma pequena joia arquitetônica, em estilo eclético e art-déco, ainda charmosa e bem conservada para lembrar a Copacabana dos tempos em que cinema era a maior diversão.

Texto e imagens reproduzidos do site: projetocolabora com br

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

'Homens da era do celuloide', por Marcelo Abreu

Egressos da época de ampla distribuição de filmes em película e dos 
cinemas de bairro,  Arlindo Gusmão e Antonio Silva são lendas vivas da 
Sétima Arte no Recife Imagem Pedro Zenival

Artigo compartilhado do site da REVISTA CONTINENTE, de 1 de fevereiro de 2012

Homens da era do celuloide
Por Marcelo Abreu

Neste tempo de mudanças aceleradas na forma de distribuição de imagens em movimento, o Recife abriga dois personagens que viveram a época áurea do cinema, atuando no setor de distribuição de filmes. Trabalharam como uma espécie de caixeiros-viajantes da Sétima Arte, cada um à sua maneira. Percorreram o interior das regiões Norte e Nordeste para levar a centenas de salas de exibição as novidades dos estúdios de Hollywood e de outros centros de produção do mundo inteiro, inclusive da incipiente indústria cinematográfica brasileira.

Aos 88 anos, Antonio Silva é provavelmente o mais antigo homem de distribuição do país. Conhecido no meio como “Silva da Columbia”, ele entrou no ramo em 1945, após voltar da campanha com os pracinhas que lutaram na Itália, no final da Segunda Guerra Mundial. Silva começou na distribuidora da United Artists, no Recife. Depois trabalhou em São Paulo e Porto Alegre. Voltou à capital pernambucana em 1953 e, desde então, de uma forma ou outra, tem estado ligado à Columbia Pictures. Quando, na década passada, as distribuidoras desativaram suas filiais no Recife, Silva continuou no batente com a Sétima Arte, sua empresa que faz a intermediação de filmes entre os representantes do estúdio norte-americano em São Paulo e cinemas de algumas cidades de pequeno e médio porte no interior.

Outro apaixonado pela distribuição é Arlindo Gusmão, que está completando 81 anos, e ainda dá expediente numa pequena sala no Bairro da Boa Vista, onde tem sempre tempo para um papo com velhos amigos do ramo cinematográfico: programadores e técnicos em equipamento de exibição. Gusmão começou em 1952, trabalhando inicialmente na Metro-Goldwyn-Mayer. Depois passou pela Art Filmes, Warner Bros., pelas brasileiras Ipanema Filmes, Herbert Richers e Embrafilme. Depois, aproveitando sua longa experiência, fundou a empresa Aquário para distribuir filmes por todo o Norte e Nordeste.

EM TODO LUGAR

Silva e Gusmão personificam a figura do homem de distribuição, aquele que fazia a ligação entre os grandes produtores de cinema e o pequeno exibidor, o cineminha lá na ponta da linha, que não pertencia às cadeias de exibição. A força de Hollywood dependia, para seu sucesso, dessa rede de distribuição que irradiava os filmes até os mais longínquos pontos do planeta, cidades remotas, distantes das capitais e do litoral.

Os filmes eram vistos por plateias deslumbradas, inicialmente pelas imagens em movimento em preto e branco, e, posteriormente, pelas grandes produções em tecnicolor e cinemascope. Tudo isso antes da massificação da televisão, vídeo, DVD, multiplex, internet e pirataria. Podia demorar uns três anos, mas a cópia, já sambada por milhares de exibições, chegava num pequeno cinema de Araripina, no sertão de Pernambuco, ou de Santarém, no interior do Pará. Para chegar lá, o filme passava necessariamente pelas mãos de pessoas como Silva ou Gusmão.

A logística da distribuição de películas era justamente o centro da atividade de Antonio Silva. Os escritórios das distribuidoras no Recife controlavam toda a remessa no Nordeste (menos Bahia e Sergipe), e no Norte do país. Situadas no Bairro do Recife, as companhias norte-americanas empregavam dezenas de profissionais, entre programadores, locadores e revisores de obras cinematográficas. Quando Silva começou, o transporte das fitas ainda era feito pelas linhas de trem. No Norte, usavam-se barcos para cruzar os rios. Isso implicava a programação de um filme com dois meses de antecedência, para dar tempo de a fita chegar ao destino. Silva lembra o chamado “livro de programação”, um grande mapa em que eram anotados, à caneta, o nome de cada obra, as cidades por onde passava e o tempo previsto em cada cinema. “Era um jogo de xadrez”. Cada cópia tinha uma vida útil de três a cinco anos, até ser descartada por falta de condições de exibição.

Era uma logística muito complicada lidar com centenas de películas circulando simultaneamente por milhares de cidades e tendo de ser transportadas de cinema em cinema, dia após dia. Multiplique-se isso pelos oito grandes estúdios de Hollywood (Paramount, Metro, 20th Century Fox, Warner Bros., RKO, Columbia, Universal e United Artists) e se tem uma ideia do que isso representava no Brasil dos anos 1940 a 1960, quando as comunicações eram precárias, mas não faltava uma sala de cinema em quase nenhuma cidade de mais de 20 mil habitantes.

“Estamos falando de uma época que parece que nem existiu, mas era exatamente assim”, diz Silva, com um sorriso. Já nos anos 1960, com a melhoria do transporte rodoviário, a coisa ficou mais fácil. Ônibus e caminhões passaram a ser usados. Os aviões facilitaram o transporte entre São Paulo e Rio – onde estavam os laboratórios que produziam as cópias dos filmes vindos do exterior – e as demais capitais brasileiras. Silva era, então, o que se chamava de programador. Visitava duas vezes por ano as capitais do seu “território”, que iam de Maceió a Manaus. Além dos chamados “filmes de linha”, os importantes, ele organizava também a distribuição dos seriados juvenis que marcaram gerações, geralmente com aventuras no Oeste que passavam antes do filme principal, em episódios de cerca de 20 minutos cada. “Nomes como Tom Mix e William Boyd eram o sucesso da criançada”, relembra.

Hoje, num modelo de exibição bastante diferente, há grandes produções que estreiam, simultaneamente, com até mil cópias, como foi o caso do desenho Rio. Segundo Silva, até os anos 1970 raramente eram feitas mais de seis cópias de um mesmo filme. Isso significava que, depois de começar a passar no Rio de Janeiro, uma obra poderia levar até dois meses para chegar a uma cidade do porte do Recife.

O distribuidor da Columbia viu de perto os primeiros sinais de decadência do cinema no Brasil, com o fechamento das salas. Perguntado sobre os motivos, ele concorda com os mais citados: a interferência da televisão – “que roubou o horário principal, a sessão das 8 da noite” –, a chegada do videocassete, o DVD, a pirataria e a internet. Mas cita também motivos pouco lembrados. “Quando a coisa começou a balançar, um diretor da Fox, nos Estados Unidos, já dizia que o automóvel era o responsável porque as pessoas começaram a ir à praia, passar a noite fora e tinham menos tempo para ir ao cinema. No caso do Brasil, com a modernização das salas do centro das grandes cidades (com ar-condicionado e poltronas estofadas), as do interior e dos bairros não conseguiram se modernizar. Quando chegaram as salas de shopping, ninguém ia mais às de segunda linha.”

Silva acha também que a exibição de filmes pornô, no início dos anos 1980, representou o fim do chamado cinema de rua. “Quando passou o seu período de glória, tinha gente que não gostava daquilo e que não entraria jamais em um cinema de rua, mesmo que o filme fosse outro.”

Para quem sempre esteve ligado ao meio pela ótica comercial, Silva tem um notável carinho pelo cinema como arte. Só não gosta de efeitos especiais. “Não tenho mente para dissolver esse tipo de filme.” Mas vai ao cinema duas vezes por semana, com regularidade. Gosta de comédias, dramas, história. Em 2011, viu duas vezes Meia-noite em Paris, de Woody Allen.

VIROU VINAGRE

Já Arlindo Gusmão era um caixeiro-viajante do cinema ainda mais pé-na-estrada. Trabalhou muito tempo como locador, o representante da distribuidora que vai de cinema em cinema oferecendo as novidades, estabelecendo contratos de exibição, definindo percentuais da arrecadação. Como um bandeirante da Sétima Arte, viajava sempre por todo o interior do Norte e do Nordeste.

Quando já não trabalhava mais para as grandes distribuidoras, Gusmão usou sua experiência na área para atuar de forma independente. Em viagens a São Paulo, comprava os chamados royalties (direitos temporários) de filmes de companhias independentes, mandava fazer cópias e as distribuía pelos cinemas do Nordeste. Quando cessava o prazo para as locações, ficava com as cópias. Mas por falta de condições de manutenção, perdeu tudo. “Cheguei a perder umas 400 cópias, que viraram vinagre. Entre elas, três de Chaplin”, diz com tristeza. “A última cópia que dei de presente foi El Cid”, relembra Gusmão. A película cinematográfica perde a qualidade com o tempo, e se deteriora completamente, se não for guardada em condições ideais de temperatura e umidade, coisas que poucas instituições têm como fazer adequadamente.

Nascido em Vitória de Santo Antão, Arlindo Gusmão trabalhou em lojas de tecidos e passou dois anos na Aeronáutica. Entrou no setor de distribuição aos 22 anos e nunca mais saiu. Ele fala com saudade dos cinemas que visitou nos subúrbios do Recife e em todo o interior. Excetuando as redes exibidoras, como a Luiz Severiano Ribeiro, que atuam nas capitais, todos os outros cinemas pertenciam a pessoas que moravam nas próprias cidades em que tinham suas salas. Gusmão fez muitos amigos entre os exibidores.

Pelos seus cálculos, somente o Recife chegou a ter cerca de 50 cinemas ao mesmo tempo, no final dos anos 1960. Como quase não havia filmes passando em mais de uma sala, simultaneamente, e a programação era tocada duas vezes por semana, era possível assistir a um número de títulos muito maior do que hoje. E entre os espectadores estava também Arlindo Gusmão, que, quando menino, foi fã de seriados como Flash Gordon e Zorro, o justiceiro mascarado, a que assistiu no antigo Polyteama. Já bem depois, não perdia produções épicas como Os dez mandamentos, Ivanhoé, o vingador do rei e Quo vadis . Entre os filmes considerados "de arte", lembra A classe operária vai ao paraíso, de Elio Petri, que ajudou a levar para o circuito de cineclubes e universidades. Sem preconceitos, chegou a distribuir filmes pornôs no começo dos anos 1980.

Assim como Silva, Gusmão é um homem da época do celuloide e do nitrato de prata, materiais usados nas antigas películas em preto e branco, até os anos 1950. O nitrato era tão inflamável, que os bombeiros eram chamados para incinerar as fitas que haviam cumprido seus anos rodando pelo Brasil. Tendo visto as muitas mudanças no mercado de exibição, ele agora acha “complicada” a adoção dos formatos digitais – entre outros motivos, pela série de problemas técnicos relativos à compatibilidade dos diferentes sistemas em uso.

Para Gusmão, mesmo a forma atual de exibição em película já não é tão boa como foi no passado, quando os projetores eram iluminados por um filete de carvão, material importado dos EUA e da Europa, em caixas. “O carvão dava mais luminosidade. É o mesmo carvão que no tempo da guerra usavam naqueles holofotes (para detectar a presença de aviões inimigos). A lâmpada de 4 mil watts tem uma boa luminosidade, mas o carvão cobreado de 90 ampères era espetacular”. Palavra de quem vê cinema há mais de 70 anos. 

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MARCELO ABREU, jornalista, professor universitário, autor de livros-reportagem e de viagem, como De Londres a Kathmandu.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistacontinente com br

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Ivan Cineminha faz 80 anos, ainda na plateia


Memorabilia de Ivan Cineminha abrange
 foto com  Jô Soares e Anthony Quinn
 Fotos: Marcelo Abreu

Artigo compartilhado do site REVISTA CONTINENTE, de 28 de Novembro de 2025

Ivan Cineminha faz 80 anos, ainda na plateia
Por Marcelo Abreu*

Cinéfilo e colecionador paraibano, com memória prodigiosa para fatos e fichas técnicas de produções cinematográficas, mantém, há décadas, memorabília dedicada ao cinema

Num pequeno apartamento no andar térreo de uma rua tranquila do centro de João Pessoa, vive um fanático por cinema. A sétima arte é parte essencial na experiência de muita gente que vivenciou o século XX, mas, para uns poucos, torna-se a própria vida. Esse parece ser o caso de Ivan Araújo Costa, conhecido como Ivan Cineminha. Conversar com ele é como mergulhar num mar de informações, memórias, fichas técnicas, estúdios, datas, salas de cinemas, curiosidades em geral.

Memórias que vêm desde o primeiro filme que lembra ter assistido, aos 7 anos de idade, O intrépido General Custer, de Raoul Walsh, com Errol Flynn e Olivia de Havilland. E que prosseguem até as fitas mais recentes, que vê ainda no cinema ou pela televisão, nos serviços de streaming.

Ivan nasceu na pequena cidade de Picuí, na fronteira entre Paraíba e Rio Grande do Norte. O pai era dono de uma sapataria e de uma fazenda. Um dia chegou alguém na cidade com um projetor de cinema para vender. Na época, a cidade não tinha diversões. O pai decidiu comprar o projetor de 16 milímetros e alugou uma sala onde cabiam umas 300 pessoas. “Sou do tempo em que você levava cadeira para assistir ao filme”, lembra Ivan. Depois que uma igreja fechou, o pai comprou os bancos e, posteriormente, adquiriu mais cadeiras em Campina Grande, que fica a cerca de 120 quilômetros. Os filmes eram alugados também na cidade vizinha.

Picuí nem tinha energia elétrica. O projetor funcionava impulsionado por um motor a gasolina. À noite, a cidade ficava no escuro, mas com o cinema funcionando às sextas, sábados e domingos. Havia uma sessão somente, às 20 horas, divulgada por um carro de som. Anunciava-se o começo com uma valsa de Johann Strauss, “Danúbio Azul”, no sistema de som. Imagine-se o deslumbramento daquelas imagens em movimento para uma população do interior do Brasil nos anos 1950, sem acesso nem à luz elétrica.

Ivan viveu em torno desse cinema, o Guarany, de 1952, aos 7 anos de idade, até 1956, quando foi morar em João Pessoa. O pai decidiu mudar-se para a capital com parte da família. O cinema ficou com um irmão mais velho e funcionou até os anos 1990. “Quando você chegar na capital vai acabar com essa mania de ver filmes”, dizia o pai, esperançoso.

Ao chegar em João Pessoa, no entanto, aos 11 anos, Ivan deparou-se com nada menos de 13 salas de cinema diferentes. “Aí a coisa enlouqueceu. Tinha dia que eu via três filmes”, conta. No centro, cinemas como Plaza, Brasil, Rex e depois o Municipal. Nos bairros, o Metrópole, Torre, Santo Antônio e Jaguaribe. O menino circulava pelas salas com desenvoltura. O que lhe distinguia dos outros era a mania de anotar em cadernos as fichas técnicas dos filmes, hábito que mantém até hoje.

Faltava sempre às aulas no Liceu Paraibano nas quartas-feiras, dia em que o Cine Brasil exibia, à tarde, uma sessão dupla: dois filmes pelo preço de um. Na chamada de presença nas aulas de Desenho e Trabalhos manuais, a chamada do nome “Ivan” era sempre respondida por algum colega: “Está no cinema”. Daí veio o apelido de “Cineminha”. Acabou sendo reprovado. Não concluiu o que hoje se chama de Ensino Médio. “Só me interessava por cinema e depois também por motos e namoradas”.

Uma visita ao pequeno apartamento em que mora sozinho na área central de João Pessoa é uma entrada num universo de recordações ligadas ao cinema: revistas, cartazes, fotos de divulgação, recortes da imprensa, cadernos de anotações. Pilhas de revistas do passado como Cinemin, Cinelândia e Filmelândia. Uma infinidade de discos de vinil, fitas cassete e CDs com trilhas sonoras. E, claro, cópias de centenas, talvez milhares de filmes em VHS e DVDs. As prateleiras circundam a sala de estar onde tem uma cama de dormir e uma TV de 65 polegadas. O material prossegue em todos os espaços, em um quarto e nos armários da cozinha. Tem também inúmeros aparelhos antigos para tocar discos e CDs, ouvir fitas cassetes, assistir vídeo e DVDs e ouvir rádio.

Ivan Cineminha não é um colecionador sistemático, organizado, apesar de ter um arquivo precioso. Nesses 73 anos de cinefilia, além de colecionar objetos e anotações, cultivou sobretudo uma memória prodigiosa que lhe faz lembrar de muitos filmes com riqueza de detalhes que envolvem direção, elenco e enredo.

Ele é uma metralhadora giratória ao exibir seu arquivo mental com nomes de atores, atrizes, diretores e estúdios. Nunca pretendeu trabalhar com cinema. Sempre quis ser espectador. Não gosta de filmes sobre religião e de filmes infantis. Pelos pôsteres nas paredes, pelos livros e anotações, ficam claras as suas paixões: Alain Delon, Charles Bronson, Jece Valadão, entre os homens (Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone estão presentes em muitas fotos também). Entre as atrizes, Demi Moore, Jodie Foster, Olivia de Havilland, Grace Kelly. Os diretores preferidos são Alfred Hitchcock, Steven Spielberg, Arthur Penn, Roman Polanski (“só os primeiros filmes”) Costa-Gavras e Anthony Mann.

GUERRA E AMOR

Ivan diz acompanhar o cinema brasileiro, mas não gosta da produção atual. Acha que o cinema, em geral, está dominado pelos super-heróis e pela temática da identidade sexual. Protocolarmente, diz gostar de cinema francês e italiano. Mas, pelas referências que cita, seu mundo é mesmo a Hollywood clássica, o cinemão norte-americano das décadas de 1940 até a década de 1990 do século passado. Filmes de ação, filmes de guerra e de amor. Não perde tempo com teorias e apreciações estéticas. Seu orgulho é ser um colecionador, um espectador, e ter uma grande memória. Sua obsessão mesmo são as fichas técnicas. Insiste em comprovar tudo o que diz com os objetos colecionados em casa.

O crítico de cinema João Batista de Brito conta um episódio curioso. Certa vez, conversando com Ivan, fez referência a um filme obscuro que pensou ter sido o único a ver em João Pessoa, numa noite chuvosa de segunda-feira, num cinema de bairro, o Bela Vista. O filme era intitulado Meu coração tem dois amores. Ivan interrompeu a conversa e passou a dar a ficha do filme, com Susan Hayward e Stephen Boyd (“que trabalhou em Ben Hur”), direção de Henry Hathaway, de 1959. “Como é que você viu esse filme? Não tinha quase ninguém no cinema”, perguntou Brito. “Isso é porque você não olhou bem. Se tivesse se virado, veria que, lá atrás, eu estava também”, respondeu Cineminha.

Além do cinema, Ivan tem paixões na música, como o cantor Elvis Presley e os Beatles. Ganhou a vida como comerciário, trabalhando na então melhor loja de discos de João Pessoa, a Eletropeças, de 1967 a 1995, o que lhe ajudou a acompanhar de perto o mundo da música, sobretudo as trilhas sonoras do cinema.

Aos três filhos do primeiro casamento, deu os nomes de Elvis, Maximillian (inspirado no ator Maximillian Schell) e Vanessa (por causa da atriz Vanessa Redgrave). O quarto filho, chama-se simplesmente Felipe (o nome foi dado pela mãe), mas este gosta de cinema e motos, como o pai.

BEATLES NO RECIFE

Quando atuava no comércio de discos, viajava com os donos da loja ao Recife para fazer compras, semanalmente, e aproveitava para ver mais filmes. Cineminha tem uma longa relação com a cidade. Décadas atrás, muitos filmes demoravam para estrear em João Pessoa. Basta lembrar que os padrões de exibição eram bem diferentes: os cinemas de rua tinham sessões das 14h até as 22h, de um único filme, para plateias quase lotadas nas cidades maiores. As cópias, pouco numerosas, viajavam depois de cidade em cidade em latas com as películas. No interior, às vezes chegavam somente anos depois. Então Cineminha não se continha. Vinha ao Recife ver os filmes dos Beatles e de Elvis, assim que estreavam. Em um de seus cadernos de anotações, por exemplo, está escrito com canetas coloridas, em letras grandes: “Art-Palácio - 17 de julho de 65, Os reis do Iê-iê-iê”. Trata-se do título em português para o primeiro filme dos Beatles, A hard day’s night.

Ainda hoje gosta de assistir tudo, logo que pode. Na pré-estreia para convidados de Elvis, filme de Baz Luhrmann, lançado em 2022, Cineminha veio ver o filme no cinema do Shopping Tacaruna acompanhado de seis imitadores de Elvis provenientes de João Pessoa. No Recife, encontraram-se com outros covers do cantor para a sessão inaugural do filme.

O cinéfilo foi tema de um folheto de cordel intitulado Uma carta a Ivan Cineminha, de autoria de Janduhi Dantas, no qual está escrito: “Como assistidor de filmes / és primeiro sem segundo / Falou-se em fã de cinema / Tu és o maior do mundo”. Também foi tema do documentário O contador de filmes, de Elinaldo Rodrigues, lançado em 2010. O filme tem uma reconstituição, com atores, das primeiras experiências no cinema, quando criança. No filme, Ivan refaz, de moto, uma viajem a Picuí para relembrar a infância.

Cineminha deu duas entrevistas importantes na televisão: uma no programa Jô Soares Onze e Meia, em 1995, no SBT, e outra no Programa do Jô, em 2000, na Globo. Numa das vezes, teve a oportunidade de conversar, diante e fora das câmeras, com um dos atores de sua preferência, Anthony Quinn, que ficou impressionado com a memória do cinéfilo sobre sua própria carreira.

Sobre o melhor filme já visto, Ivan Cineminha hesita: “Muito difícil dizer. Talvez A lista de Schindler, de Steven Spielberg (1993), Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore (1990) ou Em cada coração uma saudade, de Allen Reisner (1957).

 * MARCELO ABREU, jornalista e escritor, autor de Viva o grande líder

Texto e imagens reproduzidos do site: revistacontinente com br

sábado, 29 de novembro de 2025

Quem somos? A projeção, o projetor ou o projecionista? - Ensaio

Artigo compartilhado do site O UNIVERSO OCULTO

Quem somos? A projeção, o projetor ou o projecionista? - Ensaio

Antonio Carlos Jorge

Memórias e reflexões.

Recordo com saudade de minha infância nos anos dourados (fins da década de 50 até meados dos 60), onde morava com minha família na pequena Mongaguá (litoral sul de São Paulo), na ocasião um lugarejo ligado à São Paulo pelo ramal da antiga Estrada de Ferro Sorocabana e desprovido da “modernidade” existente na época, como telefonia e TV, por exemplo.

Assim, vivíamos isolados, com o imenso oceano de um lado e de outro a alta Serra do Mar que se precipita sobre a faixa litorânea, inserindo-nos em uma atmosfera de proteção e aconchego pela exuberante natureza virgem da bela Mata Atlântica, o nosso ninho, o nosso paraíso na Terra.

Às noites nossas diversões, além das conversas e brincadeiras intermináveis entre os amigos, era o Cinema, nosso ponto de encontro obrigatório na praça central, onde nos reuníamos para nos conectar com o que havia de novo através dos filmes. Era essa a nossa única janela para o mundo.

A programação semanal do cinema incluía 4 longas. Com raras exceções, eram películas produzidas nas décadas de 40 e 50, além dos seriados dos anos 30 e Cinejornais, como os de Primo Carbonari, Canal 100 e os belos documentários de Jean Mazon, sempre nos deixando ansiosos, pois esses antecediam a atração principal anunciada pelo serviço de auto-falantes do próprio cinema.

Meu irmão José Moacir Jorge, junto com o Luiz Solha, eram os projecionistas do cinema e isso era muito importante para mim, pois garantia minha entrada franqueada ao cinema e à própria sala de projeção, lugar místico e sagrado, cujo acesso era reservado a poucos “eleitos”.

Como os filmes eram exibidos duas vezes, em dias diferentes, exceto os dos domingos que eram exclusivos, nos dias de estréia eu os assistia da platéia e no segundo dia de exibição, eu ajudava na sala de projeção, rebobinando os rolos dos filmes já processados, deixando-os prontos para serem despachados no dia seguinte. Um longa de acetato é constituído em geral de 5 a 7 rolos, então tinha muita tarefa a ser feita.

Esse era o ambiente em que vivia, rodeado de um mundo imaginário a alimentar meus devaneios infantis, com imagens, cores e sons, compondo sonhos de fantasias, a lembrar muito o poético e belo filme “Cinema Paradiso”, que conta a estória de infância narrada pelo personagem Salvatore di Vita (Totó), que assim como eu, era o ajudante do projecionista Alfredo e que posteriormente se tornaria um cineasta italiano de grande renome (a identidade, naturalmente, para por aí).

Foram sonhos de uma infância perdida mas que continuam a inspirar a minha imaginação de sempre, pois as aspirações são sempre movidas por sonhos.

Assim sempre ficou a indagação: O que é sonho, o que é realidade!

Passados mais de 50 anos, ainda me vem à mente sobre o que de fato somos nós:

O projecionista, o projetor ou a projeção (que é a película exibida na tela ou ecran)?

À primeira vista pode ser uma indagação amalucada, pois como podemos nos comparar uma pessoa àquela que está a projetar, ou a uma máquina, ou ainda a uma simples cena que não tem consistência palpável e material?

No entanto, parece-me ser pertinente esse exercício.

Vejamos:

O projetor é um mecanismo dotado de um sistema onde giram dois carretéis que acondicionam uma bobina de fita com fotogramas que se movimentam a uma velocidade onde são enquadrados contra uma luz projetada a partir de dois carvões de polaridade elétrica opostas, que não se tocam, mas que ficam a uma distância tal que entram em fusão. Essa luz de intenso fulgor é capaz de transferir as imagens estáticas capturadas pelo obturador contra lentes, mas que pela sequência com que passam no obturador se tornam dinâmicas (24 fotogramas por segundo), conduzindo a imagem em aparente movimento à tela de exibição. É uma mera ilusão, pois não percebemos os intervalos das projeções dos quadros.

Assim é o nosso corpo físico, dotado de recursos capazes de fazer com que nos projetemos neste mundo. A capacidade com que exerceremos a projeção depende do bom funcionamento do mecanismo, principalmente no conjunto luz e lentes que garantirão a clareza das imagens obtidas. A luz não pode ser tão intensa a ponto de provocar um curto circuito (quando os dois carvões positivo e negativo se encostam), levando a uma pane. Há a necessidade de estarem a uma distância tal para promover a luz, mas não tão distante, pois não haverá a projeção. Esse é o conjunto corpo físico e corpo vital que interage com o mundo das projeções.

A película por sua vez, constituída por uma sequência de imagens estáticas, ganham, pela dinâmica do movimento, aparente “vida” ao se projetar na tela, com os personagens e roteiros pré-definidos e é aí que nosso mundo se revela, dando falsas aparências de realidade. É justamente neste ambiente que nós acreditamos nos encontrar, onde nos confundimos com as imagens e as representações dos meros personagens (protagonistas ou coadjuvantes) de uma tragicomédia ou drama que transformamos nossas próprias vidas.

Porém, embora não percebamos, somos de fato o projecionista.

O projecionista é aquele que personifica o espírito que nos rege, executando o script escolhido, com a responsabilidade de que esse seja levado a um bom termo até o fim do filme da vida.

Fico a me perguntar se é mero acaso que o fictício protagonista do filme “Cinema Paradiso” que é o próprio projecionista é chamado “Salvatore Di Vita”.

Traduzindo literalmente para o português Salvatore Di Vita é o “Salvador de Vida”, que rege, vive e atua no idílico paraíso, como nós o fazemos na vida real e não nos damos conta dessa realidade.

Somente seremos Seres plenos quando, pelo autoconhecimento, fizermos a união de nossa real identidade (projecionista) com os transitórios papéis que exercemos, servindo de fonte de experiências para o enriquecimento da alma, ainda que sejam sonhos.

Parece-me que se continuamos a nos confundir com a nossa personalidade, como meros personagens com os quais nos identificamos (eu sou isso ou aquilo, eu fiz isso, eu tenho...), continuaremos em devaneios infantis sonhando falsos sonhos sonhados.

Fernando Pessoa, está a nos inspirar em Poesias Inéditas em Nada que sou me interessa:

Nada que sou me interessa.

Se existe em meu coração

Qualquer coisa que tem pressa

Terá pressa em vão.

***

Nada que sou me pertence.

Se existo em quem me conheço

Qualquer coisa que me vence

Depressa a esqueço.

***

Nada que sou eu serei.

Sonho, e só existe em meu ser,

Um sonho do que terei.

Só que o não hei-de ter.

- - - -

Que a paz esteja nos corações.

Texto reproduzido do site: ouniversoculto wixsite com

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Geraldo Pinho (1950-2021)




Artigo compartilhado do site CINEMA ESCRITO, de 9 de novembro de 2021

Geraldo Pinho (1950-2021)

Feliz daquele que conheceu o “cinemêro” mais amoroso do Recife.

Por Luiz Joaquim 

Quando ele atendia o telefone, com a sua voz de trovão, dizia alto, assim: “LUIZ JOAQUIM!”, como quem diz um “SIM”, com uma convicção de quem convenceria o mais cético. Não credito tal convicção à minha pessoa. Sei que Geraldo Pinho atendia prontamente a todos (e não apenas por telefone) com o mesmo carinho e com a mesma assertividade. Isso era ele.

A partir dessa lembrança, é um tanto perturbador ter de me habituar com a ideia de falar sobre ele no tempo passado. Antes de continuar, digo que escrevo essas palavras agora quase sem conseguir processá-las coerentemente. E, ainda que tente aqui redigir um texto jornalístico, com dados precisos e honrando a memória desse lindo ser-humano e competentíssimo profissional do cinema que nos deixou hoje, aos 70 anos de idade, após passar mal enquanto dormia, já peço licença ao leitor para colocá-las na primeira pessoa do singular, porque é do amigo Geraldo que irei falar.

No início de 2020, fiz uma última entrevista, de maneira mais formal, com Geraldo Pinho, para um projeto paralelo, e dela tive o desejo de desdobrar em algo mais específico, sobre a própria trajetória de Geraldo no cinema. Não consegui. Mas trago aqui algumas de suas memórias que ajudam a rascunhar essa paixão pelo cinema, que lhe “salvou” quando chegou ao Recife ainda criança.

Geraldo chegou na capital pernambucana do Sudeste, veio da cidade de Santos. Lá no litoral paulista, perto de onde morava, a cerca de 50 metros, havia um cinema, e sempre que saía de casa, obrigatoriamente, passava na frente da porta dessa sala. Não apenas passava. Entrava lá. Vivia dentro daquele espaço o máximo de tempo que lhe deixassem ficar.

Já no Recife, com 10, 11 anos de idade, foi aprovado na seleção da Escola Industrial Professor Agamenon Magalhães (hoje Escola Técnica Estadual Prof. Agamenon Magalhães, no bairro da Encruzilhada) e lá acompanhava as sessões de cineclube da escola, todos os sábados, por cerca de três anos.

Quando adolescente, tornou-se um frequentador assíduo das sessões do chamado Cinema de Arte, que Fernando Spencer e Celso Marconi promoveram em diversas salas da cidade. Delas, Geraldo guardava diversas recordações. Umas divertidas, outras orgulhosas.

No seu cinema preferido, o gigantes Coliseu, com seus cerca de 2.000 lugares, antigamente localizado no número 2467 da Estrada do Arraial (bairro da Tamarineira), Geraldo pôde acompanhar pela primeira vez, no final dos anos 1960, uma mostra de cinema dedicada integralmente a um país estrangeiro, o que lhe marcou bastante.

Fiel ao espaço, ia a todos os lançamentos do Coliseu. Era o seu cinema obrigatório. Certa vez, ocupou sozinho o auditório do seu templo para ver A última sessão de cinema (1971), do Peter Bogdanovich. Geraldo contou que caía um temporal inacreditável sobre o Recife naquela noite de sábado, mas mesmo assim seguiu para a Estrada do Arraial. Atravessando a rua alagada, chegou lá e perguntou ao bilheteiro: “Vai ter sessão?”, o bilheteiro olhou desconfiado, mas confirmou que sim. Geraldo pagou, entrou, e, na gélida temperatura do ar-condicionado do gigante cinema, viu sozinho o drama estrelado por Jeff Bridges e Cybill Sheperd.

De tanto ir ao Coliseu, tornou-se amigo de outros frequentadores que moravam em frente ao cinema, na Vila do Comerciários.

Já no Cine Trianon, no Centro do Recife, em 1968, não perdia as sessões no sábado às 10h. Naqueles dias e horários, precisava burlar o trabalho na Imprensa Oficial do Estado (depois Companhia Editora de Pernambuco – CEPE). O endereço era ali próximo do cinema, na rua da Concórdia. Como o serviço era pouco no sábado, Geraldo fazia tudo rapidinho e fugia pro Trianon. Certa vez, ao entrar no auditório da Av. Guararapes, deu de cara com o diretor da Imprensa Oficial. O que vale, contava Geraldo, é que o outro era também um apaixonado por cinema, e perdoava a falta de seu funcionário.

Dali, Geraldo recordava de um bang-bang exibido com os rolos fora de ordem, e com a plateia aos berros reclamando da aparição, no final, de um personagem que já havia morrido no “início” da história; e também da sessão de Encurralado (1971), de Steven Spielberg, sessão da qual, nas palavras de Geraldo, saiu “empenado”.

Do vizinho Cine Art-Palácio, o “cinemêro” Geraldo nunca esqueceu de uma mostra de cinema cubano programado em plena época da linha dura da ditadura militar.

Durante os anos 1970, assim como todos entusiastas do cinema no Recife, se aproximou da possibilidade de fazer filmes pela tecnologia do Super-8. Até que, em 1978, foi premiado no 2º Festival de Cinema Super-8. As sessões ocorreram no Instituto Interescolar Luiz Delgado, na praça 13 de Maio, de onde saiu com o título de melhor filme do júri popular e o 2º lugar do júri oficial pela sátira A batalha dos Guararapes II, codirigido com Fredi Maia e Ricardo Antunes.

Antes do filme ser projetado, a tensão era enorme. Geraldo e os amigos não sabiam se a plateia iria assimilar a ironia que o filminho propunha sobre o fiasco que foi a megaprodução A batalha dos Guararapes (1978), rodada no Recife sob direção do mineiro Paulo Thiago. Mas a sessão foi inesquecível, com o auditório inteiro vibrando com a brincadeira. No filme coassinado por Geraldo, a batalha se referia ao pesado trabalho dos garis do Recife em limpar a Av. Guararapes na quarta-feira de cinzas.

Como a justiça social sempre esteve em pauta na vida de Geraldo, por essa época ele se envolveu com o assunto de maneira mais afirmativa, e foi um dos diretores – ao lado do professor Paulo Rubem Santiago (conforme este registrou em seu Facebook) –, da então Apenope (hoje Sindicado dos Trabalhadores em Educação do Estado). Ainda conforme Paulo Rubem, Geraldo esteve à frente, ao seu lado, numa greve estadual de ensino, em 1979, em pleno governo do presidente Figueiredo.

Mas o cinema não deixava Geraldo, e ele voltou a participar de um outro cineclube, o “Leila Diniz”, em Olinda. A homenagem à atriz brasileiro se deu porque questões feministas já estavam na pauta do grupo que criou o cineclube. E, na ocasião, Geraldo foi tomando conhecimento sobre os meandros de uma programação cinematográfica. Ali, nos primeiros três anos da década de 1980 – tempo de existência do cineclube -, entendeu os princípios que o norteou como grande programador que viria a se tornar.

Ao final do “Leila Diniz”, a mesma turma do cineclube criou a Spia Vídeo, que, conforme conta Geraldo, “durante dez anos, foi a maior produtora daqui do Recife”. Geraldo também se ocupava em dar aula de fotografia, na Escola Técnica Estadual, a mesma na qual estudou. Nos anos 1980, sua atuação fazendo cinema passava principalmente pela fotografia e um dos destaques daquela década foi o média-metragem de 59 minutos, em 16mm, Acredito num mundo melhor (1981-82), de Jussara Queiros, no qual coassinou a assistência de direção de fotografia.

O documentário discorria sobre as várias formas de organização comunitária e a respeito das condições de vida dos camponeses no Brasil, além da participação da Igreja na luta pela terra no Nordeste. O filme trazia depoimentos de gente como Dom Helder Câmara e foi vencedor de melhor fotografia no festival de curta e média-metragem de Niterói (1983), do prêmio de melhor roteiro no RioCine Festival (1983), além de ter recebido a Margarida de Prata da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o título de melhor filme no Festival de Cinema de Mannheim-Heidelberg (1986), na Alemanha.

No ano de 1992, uma curiosidade. Geraldo foi visto muitas vezes na televisão dos pernambucanos, numa certa publicidade produzida pela agência Itaity para as Casas José Araújo. A situação mostrava um bando de marmanjos no carnaval, vestidos de mulher, fazendo uma, digamos, “serenata” para a musa Davanira. Geraldo aparece empunhando um pandeiro e com um biquini azul. Impagável.

No ano seguinte, ele era convidado a assumir, em abril de 1993, a programação do Cineteatro do Parque e ali faria história. Abriu com Rádio Auriverde, de Sylvio Back, e, depois, fez do espaço notícia nacional particularmente por aliar uma tripla combinação difícil: atrair um bom público popular para acompanhar uma programação inteligente ao módico preço de R$ 1,00.

Lá no início da retomada do cinema brasileiro, por exemplo, Carla Camuratti fez questão de exibir seu já histórico Carlota Joaquina: A Princesa do Brazil (1994) no cinema da rua do Hospício.

Após nove anos no Parque, tendo também assumido o Cineteatro Apolo entre 2000 e 2002, Geraldo passou a gerenciar o Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (Mispe), ao qual agregou a função de programador do Cinema São Luiz, na segunda quinzena de março de 2011, a convite da Secretaria de Cultura do Estado.

Nessa última década, o “cinemêro” Geraldo Pinho fez o que mais gostava – e fazia bem, como poucos – que era pensar a programação de uma sala de cinema (e não, qualquer cinema) a longo prazo. Sem Geraldo, o Cinema São Luiz não teria o respeito e o reconhecimento conquistados após o Governo do Estado de Pernambuco comprá-lo do Grupo Severiano Ribeiro em 2008. Geraldo trabalhou pesado nos bastidores, mas também com amor pelo simples fato de estar numa sala cinema, que vem a ser, para quem ainda não sabe, a essência de um “cinemêro”.

Geraldo, meu amigo, vá em paz e obrigado, obrigado, obrigado.

Texto reproduzido do site: www cinemaescrito com

Lembro sempre daquele setembro de 1914

Legenda da foto: Severino Alexandre, pioneiro do cinema, Patrono da Academia Paraibana de Cinema.

Artigo compartilhado do blog COISAS DE CINEMA, de 21 de September de 2024

Lembro sempre daquele setembro de 1914
by Alex Santos

Dia 17 de setembro do ano de 1914, “amarcord” (eu me lembro) muito bem. Data em que nascia um dos pioneiros do Cinema Paraibano, que agora estaria completando 110 anos. 

Decerto, existem memórias que são legitimamente indeléveis. Por isso, mais do que qualquer outro dia desta semana, despertei logo cedo com uma saudosa lembrança daqueles tempos. E como se isso não bastasse, recordei até de minha lúdica juventude, quando brincava de super-herói com amigos da mesma idade, imitando os filmes que víamos nos cinemas do meu pai.

“Seu” Severino do Cinema, como era bem conhecido pela população de Santa Rita, cidade onde nasci, sempre foi uma pessoa altamente querida. Influenciou gerações com os filmes e seriados que exibiu em seus cinemas – Santa Cruz, São João e Cinerama, todos construídos por ele próprio (dublê de arquiteto-construtor e exibidor cinematográfico), tanto na cidade em que viveu, como no municipal distrito de Várzea Nova. Salas de projeção, que sempre nos foram “palácios de sonhos”.

Foram com as exibições, ainda na época do celuloide, que o meu pai tão bem soube distribuir as quimeras à toda uma geração, durante mais trinta anos. Geração essa da qual faço parte, orgulhosamente – época dos anos 50/60/70 –, tendo o privilégio de adquirir conhecimentos, que me fizeram uma pessoa consciente, política e culturalmente. E reportando-me àqueles tempos, percebo que a saga vivida pelo meu pai não foi em vão. Legado por mim e família preservado, que guardamos afetuosamente como uma mostra viva de sua existência. E como bem afirma o meu filho Alexandre, seu avô “Ainda hoje é nossa referência de valores humanos e de retidão. Um homem que na grandeza de sua simplicidade construiu, com as próprias mãos, os alicerces de toda uma família.”

Por tudo isso, neste final de semana, saudosas lembranças fizeram-me buscar, célere, o meu teclado. São “recuerdos” que se revestem de grande significado para mim, e como se toda a verve desse mundo fosse incapaz de traduzir a tamanha admiração que sempre mantive por aquele que, através do Cinema de toda sua existência, soube repassar para mim o muito do que lhe foi essa arte, além de um mero entretenimento: uma verdadeira lição de vida, da qual possamos extrair o que de melhor ela possa oferecer.

Buscarei honrar esse seu legado, meu Pai!

À guisa de informação: “Amarcord” é um vocábulo que nos leva a uma memória nostálgica do passado. Igualmente, representa o título de um dos filmes mais autobiográficos do diretor italiano Federico Fellini.

Texto e imagem reproduzidos do blog: alexsantos com br/blog

domingo, 2 de novembro de 2025

Pelo amor a quem somos: o exemplo de Cosme Alves Neto



Artigo compartilhado do site [medium com], de 13 de fevereiro de 2025

Pelo amor a quem somos: o exemplo de Cosme Alves Neto

Por Gabriel Brito

De vez em quando, ao visitar a casa dos meus pais, tenho a curiosidade de abrir caixas antigas com as memórias da minha família. As fotos impressas e fitas magnéticas atravessam algumas décadas e vão até meados dos anos 2000, o meio da minha infância, quando essas lembranças migraram para o meio digital. Agachado diante daquelas caixas empoeiradas eu viajo no tempo passando páginas de álbuns que registram a juventude dos meus pais ou o nascimento dos meus irmãos. Algumas páginas tem legendas escritas com capricho pela minha mãe enquanto não tomávamos seu tempo.

Hoje, com quase 30 anos, me pergunto como seria a nossa família sem aquelas memórias. Concluo que a consciência da minha própria origem e papel no mundo seriam tão diferentes a ponto de afetar a minha própria noção do espaço que ocupo dentro da família, afetando a minha noção dos rumos que posso tomar na minha vida e carreira. Talvez este seja um exercício interessante a se fazer sempre que eu me sentir desmotivado e sem rumo.

Essa noção de memória coletiva é um conceito que pode se estender para além do meu núcleo familiar, compreendendo um contexto muito mais amplo, como o país em que vivemos: a nossa produção cultural constitui a nossa identidade como povo, e preservá-la nos ajuda a contar a nossa própria história, revelando quem somos, nos guiando, mesmo que involuntariamente, para seguir adiante.

É claro que a metáfora familiar tem seus limites: um país precisa de mais do que boa vontade e altruísmo para construir e preservar sua memória, mas principalmente de políticas públicas sérias e consistentes, o que infelizmente não é o caso no Brasil, que se acostumou a depender das ações de pessoas que, vistas com a distância do tempo, agiram quase que como super-heróis diante de tantas dificuldades. Ao me voltar para o cinema, minha área de formação, encontro uma destas pessoas: Cosme Alves Neto.

Poucos foram tão influentes na preservação e na memória do cinema brasileiro quanto Cosme, que começou sua trajetória na década de 60 em diferentes frentes, como a organização de cineclubes e a atuação na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Movido sempre pelo seu amor ao cinema e pelo seu genuíno interesse em garantir acesso ao audiovisual brasileiro, Cosme enfrentou até mesmo a Ditadura Militar no Brasil, permitindo que a enorme família formada pelo povo brasileiro tivesse acesso às suas próprias memórias. A partir desta trajetória, reflito neste artigo o contexto da preservação fílmica no Brasil.

Os Cineclubes e a Nova História

A jornada de Cosme Alves Neto começa ao final da década de 50, ao fundar o Cine Clube da Glória. Motivado pela preocupação com o destino dos filmes antigos que assistia na infância, também participa do Grupo de Estudos Cinematográficos (GEC). No entanto, é importante considerar que a atuação de Cosme não é guiada somente por suas convicções pessoais, mas por um contexto histórico rico, marcado pelo fim da Segunda Guerra Mundial. Como explica Hernani Heffner em uma de suas análises sobre preservação fílmica, ascendeu neste período a chamada "Nova História":

“(…) que propunha estudos menos oficiais e ligados às classes dominantes, valorizando assim atividades distantes da política, do comércio e da guerra, como por exemplo o lazer e seu papel junto às classes trabalhadoras.”

Em outras palavras, ali ganhava força a noção de que a preservação de o que se produzia no cinema servia como documento histórico, permitindo a criação de processos e instituições que pudessem atuar de forma profissional e responsável para proteger as películas da ação humana, como a reciclagem para de prata, e da ação do tempo, causada pela natureza das próprias matérias primas das películas. O pesquisador Luiz Nazário em seu texto “O Buraco da Memória” também destaca que a Nova História colocou a “memória como instância formadora da identidade de indivíduos e grupos” permitindo a “criação, entre 1945 e 1955, das cinematecas do Leste Europeu, da Ásia, da América Latina”.

Desafios e Resistência: A Luta Contra a Censura e o Eurocentrismo

O conservador Hernani Heffner também lembra que, no Brasil, as cinematecas surgiram como iniciativas privadas, quase sempre ligadas a cineclubes, associações de críticos e entidades cinéfilas. E é dentro de todo esse cenário histórico e cultural que se insere Cosme Alves Neto, como é retratado no documentário Tudo por Amor ao Cinema (2015). O filme explora sua trajetória e revela como sua atuação refletiu o contexto cultural, social e político do Brasil na segunda metade do século XX.

A incursão mais importante da biografia de Cosme Alves Neto é certamente a Cinemateca do Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro, espaço concebido com a intenção de preservar o cinema e exibi-lo ao público. Cosme contribuiu com seu tempo, mas também com sua vasta cultura cinematográfica, fazendo desta uma missão bem-sucedida: logo o espaço se tornou um ponto de encontro para cinéfilos e cineastas. Ao enxergar valor histórico e cultural em qualquer obra, incluindo aquelas desprezadas por suas qualidades ditas “inferiores”, evitou o descarte de diversos títulos, tornando-os documentos audiovisuais da História.

Não é exagero afirmar que Cosme Alves Neto dedicou sua vida ao cinema brasileiro através da Cinemateca do MAM. Ele lutou para preservar as cópias e para permitir que o espaço continuasse sendo de livre circulação de ideias, enfrentando até mesmo a ditadura: o governo militar estava à caça de ideias “subversivas”. Ele chegou a esconder filmes, operar em segredo e esconder negativos de filmes censurados como “Cabra Marcado para Morrer” (1984), chegando a ser preso e torturado.

Cosme Alves Neto assumiu a Cinemateca do MAM em um dos períodos mais sombrios da história do Brasil e os cineclubes (aliás, todo o fazer cinematográfico) se tornaram espaços de debate político. O momento, marcado pelo auge do AI-5, não representou apenas uma caça ao considerado subversivo ou imoral, mas o desapreço ao livre exercício da cultura. Em sala de aula, a pesquisadora Milene Gusmão, minha professora, lembrou que existiram exceções: membros do governo chegaram a liberar algumas das obras por reconhecer a importância político-cultural delas, revelando um contexto histórico cujos critérios de censura e tinham nuances do que um simples sim ou não com base nas leis vigentes.

O Panorama Brasileiro e os Obstáculos Estruturais

A realidade e as dificuldades enfrentadas por Cosme na Cinemateca do MAM não eram exclusivas daquela instituição, daquele governo e daquele período: o panorama da preservação cinematográfica no Brasil foi e ainda é preocupante. Ao contrário de países como a antiga União Soviética, cuja cinemateca, a Gosmofilmfond, era financiada pelo estado, no Brasil o apoio estatal sempre foi inconsistente, tornando as ações de preservação incertas, carentes de recursos e legislação específica. Tudo isso levou a incêndios devastadores, condições de armazenamento precários e a falta de profissionais capacitados no mercado. Todos estes obstáculos tornam ainda mais impressionantes as ações de Cosme Alves Neto em relação ao seu trabalho no resgate e preservação do cinema.

A atuação de Cosme Alves Neto inspirou e influenciou na formação de novas gerações de cineastas e cinéfilos. O documentário dá como exemplo a participação na Jornada de Cinema da Bahia, onde atuou mobilizando jovens cineastas, o que prova o seu interesse e compromisso com o desenvolvimento do cinema brasileiro e com a popularização do acesso aos acervos. Aliás, como mostra Nazário, esta popularização poderia ser alcançada de forma efetiva se a Cinemateca Brasileira tivesse adotado o sistema cooperativista da Cinemateca Uruguaia, mais aberto aos cinéfilos.

Cosme Alves Neto também teve um papel crucial na exportação do cinema brasileiro. O documentário Tudo por Amor ao Cinema (2015) destaca, por exemplo, a exibição clandestina de Blá, Blá, Blá, de Andrea Tonacci, no Festival de Locarno, na Suíça. O filme, proibido pela ditadura militar, foi resgatado por Cosme e levado ilegalmente para a Europa em um período em que o impacto do cinema brasileiro ainda era limitado pelo eurocentrismo dominante.

Hernani Heffner explica que os critérios de preservação cinematográfica eram pautados por uma suposta “evolução estética”, fortemente influenciada pelas produções do chamado Primeiro Mundo, que sempre esteve na vanguarda da tecnologia, do comércio e da ideologia cinematográfica. Já Nazário aponta outro viés dessa influência eurocêntrica: o próprio modelo da Cinemateca Brasileira seguiu padrões elitistas importados dos mercados norte-americano e europeu, determinando quais obras deveriam ou não ser preservadas.

Na prática, isso impacta diretamente a memória do cinema brasileiro. Mesmo com esforços como os de Cosme, que recuperou filmes esquecidos — como Rio de Janeiro em 1923, vindo da Finlândia — , esses resgates ainda são exceções. O histórico descaso com a preservação cinematográfica nos países do chamado “Terceiro Mundo” privou gerações do acesso à sua própria história nas telas.

A atuação de Cosme vai além de suas motivações políticas, como mostra o documentário, e só pode ser explicado pelo seu genuíno amor ao cinema. No entanto, ele é apenas um exemplo notável de uma geração de defensores da preservação do cinema brasileiro e da memória audiovisual do Brasil. Luiz Nazário dá como exemplo o colecionador Antônio Leão, que é consciente de que a classe dos colecionadores preserva mais que o Estado, o que me faz refletir sobre como as demandas citadas por Cosme não se extinguiram, apenas acompanharam as transformações tecnológicas: a comunicação é mais fácil, o acesso do público também, mas arquivos em película seguem em condições precárias aguardando por políticas públicas constantes e compromissadas com a cultura brasileira, o que permitiria não só melhor condições de arquivamento, mas que o acesso aos filmes seja ampliado.

É preciso ser justo: o governo Lula, hoje e no passado, tem como um dos pilares o apoio à cultura, o que tornou a realidade da preservação fílmica no Brasil um pouco mais esperançosa neste século, através de editais que nos permitiram ter acesso a, por exemplo, às versões restauradas das obras de Glauber Rocha. Outro exemplo, o "Programa de Restauro Cinemateca Brasileira — Petrobras", lançado em 2007, chegou a financiar os próprios colecionadores, reconhecendo a importância destas pessoas. No entanto, a constância segue sendo um obstáculo a ser superado. O incêndio de 2021 na Cinemateca Brasileira, que destruiu parte do acervo histórico do cinema nacional, é um triste lembrete dessa inconstância, como reportou o G1 na ocasião.

Cartaz de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", parte do acervo da Cinemateca Brasileia que foi queimado durante o incêncio em 2021. O material já estava danificado por um alagamento em 2020. (foto: Foto: Reprodução / Relatório do MPF via G1)

O Legado de Cosme Alves Neto e o Futuro da Memória Cinematográfica Brasileira

Apesar da importância do trabalho de Cosme Alves Neto, o audiovisual brasileiro não pode depender apenas de esforços individuais. Mesmo que seu legado continue vivo, o acesso pleno e contínuo à memória cinematográfica só será garantido com ações governamentais sistemáticas.

Em junho de 2024 o Governo Federal anunciou um investimento de R$ 1,6 bilhão no audiovisual, incluindo o fomento à produção e um acordo com o Ministério Público Federal para garantir as atividades da Cinemateca Brasileira. Embora represente um avanço em relação à gestão anterior, essa medida ainda precisa de tempo para mostrar seus impactos e não aborda questões fundamentais, como a descentralização. Como destaca Luiz Nazário, descentralizar a preservação não só melhora as condições de conservação, mas também valoriza os cinemas regionais e amplia o acesso às obras.

Diferente das películas de Limite (1931), feitas de nitrato, as memórias da minha família não correm risco de autocombustão. Mesmo assim o tempo é implacável, e temo que as gravações em VHS-C feitas pelo meu pai se deteriorem. Ainda assim, poder acessá-las é um privilégio. E assim deve ser com a memória de um país: disponível para qualquer um que queira revivê-la quando quiser — seja como documento histórico ou como obra de entretenimento.

Somente com cuidado, respeito e consistência garantiremos que as novas gerações tenham acesso às suas próprias memórias. Cosme Alves Neto dedicou sua vida a essa missão porque entendia que só é possível amar algo conhecendo-o. E com o cinema não é diferente. Afinal, como amar alguém sem conhecê-la? Como amar um país sem conhecê-lo?

REFERÊNCIAS

HEFFNER, Hernani. “Preservação”. Contracampo, n. 34, 2001. Disponível em: Preservação Audiovisual. Acesso em: 13 out. 2024.

NAZÁRIO, Luiz. “O Buraco da Memória”. In: Diálogo entre Linguagens. VENEROSO, Maria do Carmo de Freitas; MELENDI, Maria Angélica (orgs.). Belo Horizonte: Editora C/ Arte; UFMG, Escola de Belas Artes, Programa de Pós-Graduação em Artes, 2009. p. 175–188.

MICHILES, Aurélio (dir.). Tudo por Amor ao Cinema (Filme, 90 min). Produção de André Montenegro e Rui Pires. Brasil: Aurora Filmes, Olhar Imaginário, Imagem Selvagem, 2015. Disponível em: YouTube. Acesso em: 13 out. 2024.

Fogo na Cinemateca: galpão tinha acervo de Glauber Rocha, equipamentos antigos e documentos sobre a história do cinema no Brasil. G1, São Paulo, 30 jul. 2021. Disponível em: G1. Acesso em: 13 out. 2024.

BRASIL. Ministério da Cultura. “No Dia do Cinema Brasileiro, MinC destaca ações para fortalecimento do setor audiovisual”. Agência Gov, Brasília, 19 jun. 2024. Disponível em: Agência Gov. Acesso em: 13 out. 2024.

Justiça Federal homologa acordo para preservação da Cinemateca. Exame, São Paulo, 21 jun. 2024. Disponível em: Exame. Acesso em: 13 out. 2024.

Cosme: por amor ao cinema. Taquiprati, 11 jan. 2021. Disponível em: Taquiprati. Acesso em: 13 fev. 2025.

Texto e imagem reproduzidos do site: medium com