segunda-feira, 25 de agosto de 2025

História do Cine Fátima, de Inhumas, em Goiás

Legenda da foto: Mamédio Calil: fundador do Cine Fátima,
 em Inhumas | Foto: Reprodução

Publicação compartilhada do site do JORNAL OPÇÃO, de 16 de junho de 2024 

Conheça a história do Cine Fátima, o Cine Paradiso da cidade de Inhumas, em Goiás

Redação

Pequena cidade na década de 1930, Inhumas só conquistou um cinema mudo devido à capacidade empreendedora de Mamédio Calil

Por Marina Teixeira da Silva Canedo * (Especial para o Jornal Opção)

Dentre as inúmeras lembranças de minha infância e adolescência, está um antigo cinema de Inhumas, minha cidade natal, e que já não existe mais. É o Cine Fátima. Ele foi o “Cinema Paradiso” de Inhumas. Foi lá que entramos em contato com o mundo exterior. Naquele tempo (e bote tempo nisso) ainda não havia telefone na cidade. Os meios de comunicação eram muito incipientes. Não havia emissora de rádio, que só passou a existir tempos depois, e jornais só os de Goiânia. Quando a televisão foi implantada em Goiás o Cine Fátima já havia fechado suas portas.

O cinema foi uma feliz iniciativa de um homem visionário, Mamédio Calil (1900-1973), de origem sírio-libanesa, nascido em Talabeya, região do Vale do Bekaa, no Líbano, e que, por uma sorte do destino, veio aportar em terras goianas e, para nosso regozijo, em Inhumas. “Seu” Mamédio foi o patriarca de numerosa e importante família inhumense, e trazê-lo à memória só nos concede boas recordações. Sua mulher era a abdicada e amorosa dona Crioula, apelido pelo qual era conhecida a senhora Higolina Peixoto (1904-1998). O casal teve sete filhos, dentre os quais duas mulheres, Fátima e Gália, sendo esta última a minha maior amiga de infância.

O nome do cinema foi dado em homenagem à sua filha mais velha, Fátima. A construção do prédio destinado ao cinema ficou pronta em 1937. Nessa época meus pais ainda não haviam chegado a Inhumas. Mas, antes disso, no tempo ainda do cinema mudo, o Mamédio inaugurou o Cine Ítalo-Turco, em sociedade com o italiano José Jácomo, que funcionava em um armazém adaptado para tal fim. A população, com humor e talvez falta de entendimento, começou a chamá-lo de “intala o turco”, o que fez com que Mamédio mudasse o nome para Cine Fátima. Saber que Inhumas, pequena cidade na década de 1930 e longe de todos os recursos, contou com um cinema mudo, nos parece uma utopia, nascida dos anseios e projetos desse homem empreendedor que foi Mamédio Calil.      

Tal como em “Cinema Paradiso” (1988), filme do italiano Giuseppe Tornatore (1956), e que é uma ode à sétima arte, o Cine Fátima nos fez sonhar e ampliou os limites de nosso pequeno mundo. Este belíssimo e emocionante filme foi enriquecido pela trilha sonora de Ennio Morricone, que lhe acentuou o tom melancólico e saudosista. Na ficção, o garoto Totó transforma-se em um grande cineasta. “Cinema Paradiso” mostra como esta arte pode influenciar a vida das pessoas, fato esse que se deu conosco. Nenhum de nós dedicou-se em desvendar os mistérios da sétima arte, como o protagonista do filme, mas nos fez mergulhar em outras dimensões, de onde visualizávamos o mundo exterior, Hollywood e o cinema mexicano, com seus filmes e atores famosos. Também o cinema nacional nos foi apresentado por meio das chanchadas, típicas da época.

Era comum, durante as projeções, que a fita se rompesse, o que gerava apupos da plateia e a intervenção do “lanterninha” para restaurar a ordem. As sessões eram diárias. No sábado, depois do filme, passava-se um seriado. Destes, lembro-me do “Zorro”, “O Máscara de Ferro”, “Tarzan” e outros que me escapam à memória. Esses seriados foram os precursores das atuais séries de TV e das novelas de televisão. Ninguém queria perder os próximos episódios, que sempre terminavam com os heróis em perigo.

Elizabeth Taylor, Ava Gardner e John Wayne

Filmes como “La Violetera”, com Libertad Lamarque e Sarita Montiel, “No Tempo das Diligências” (do diretor John Ford), com John Wayne, ator-símbolo dos filmes de faroeste, “À Noite Sonhamos”, a vida de Chopin, com Cornel Wilde e Merle Oberon, cowboys com Tim Holt e Tom Mix, e tantos outros filmes que marcaram a nossa vida e ampliaram nossas fronteiras, foram vistos pela juventude inhumense.

Elizabeth Taylor, Ricardo Montalban, Grace Kelly, Pedro Vargas, Robert Taylor, Stewart Granger, Pedro Armendáriz, Heddy Lamar, Ava Gardner, Cary Grant, Errol Flinn, Maria Félix, Oscarito e Grande Otelo são alguns dos atores que nos encantaram. Qual menina não queria ser linda como essas atrizes? E qual menino não queria ser corajoso como os “cowboys” e viver aventuras como Tarzan? E a semana não era completa se não fôssemos ao cinema.

A amizade que o “seu” Mamédio tinha pelo “seu” Felisberto Jácomo fazia com que as sessões não começassem antes que o amigo chegasse, e toda a plateia aguardava a chegada de Felisberto. De origem italiana, Felisberto Jácomo foi também patriarca de importante família em Inhumas.

O Cine Fátima propiciou a mim, além do mundo fascinante dos filmes, o surgimento de uma paixão de infância, que foi o amor por pombos. Era dentro do forro do telhado do cinema que vivia um bando de pombos, dos quais capturei alguns com alçapão e milho e os criei com devotada obsessão. Tempos depois, o prédio que abrigava o cinema não foi demolido, mas foi remodelado para outras finalidades.

Nossa infância e adolescência não teriam sido tão ricas em conhecimento e fantasia não fosse o poder transformador do Cine Fátima, lugar mágico e único, onde íamos colher sonhos e ampliar nossos horizontes. Foi palco também de muitos namoros “no escurinho do cinema”. Depois dele outros surgiram, mas nenhum teve a importância histórica, o significado e o charme que teve o saudoso Cine Fátima. Foi um paraíso na incipiente vida cultural de uma cidade do interior goiano, há muitas décadas. Foi o verdadeiro Cinema Paraíso (ou Paradiso), que ainda povoa nossa memória e imaginação.

* Marina Teixeira da Silva Canedo, historiadora, cronista e poeta, é colaboradora do Jornal Opção.

Texto e imagem reproduzidos do site: www jornalopcao com br

domingo, 13 de julho de 2025

Um portal do tempo na Expedito Garcia



Publicação compartilhado do site SÉCULO DIÁRIO, de 13 de julho de 2025

Um portal do tempo na Expedito Garcia
Por Vitor Taveira

Aposentado transformou residência em museu de brinquedos, música e cinema

No vaivém da Avenida Expedito Garcia, uma das mais agitadas ruas comerciais do Espírito Santo, abre-se um portal. Na verdade, primeiro se abre um portão de ferro, logo uma porta de vidro, e aí sim vem o portal… para uma viagem no tempo, infantil, cinematográfica, musical. Amilton Simmer, 66 anos, nos recebe na porta de casa, em Cariacica. O corredor de acesso da residência já é uma atração de se esquecer do que passa lá fora.

À direita, quadros dos irmãos Lummière e de clássicos do cinema já denunciam uma das paixões do anfitrião. À esquerda, grandes estantes reúnem brinquedos antigos, movidos a corda, vapor ou até mesmo areia.

Os poucos passos que conduziriam aos cômodos da casa podem durar horas se acompanhados de Amilton, que conhece bem os objetos e consegue mostrar seus usos – muitos de forma mecânica e analógica, pois a maioria das peças são anteriores à energia elétrica – e tirar histórias impressionantes de cada uma.

Ainda no corredor, depois dos brinquedos, entramos num verdadeiro museu musical, com incríveis aparelhos de som antigos. De um grande armário, abre-se as portas para observar por dentro um Orchestrion alemão de 1855, raríssimo de encontrar – segundo o dono seria único na América Latina. Funciona como uma orquestra automática, tendo quatro instrumentos internos (piano, xilofone, tarol, tambor e prato), acionados de forma mecânica por um rolo com marcações que acionam os instrumentos, gerando belas melodias. Estava em uma grande fazenda no interior de São Paulo quando foi levado a leilão, arrematado por R$ 60 mil e restaurado para funcionar perfeitamente por um amigo de Amilton.

“Num museu tem uma peça dessa dentro do vidro, ninguém fala, ninguém mostra. Aqui não, aqui eu ponho pra olhar”, diz, enquanto mexe num realejo de origem espanhola, acionado por manivela, e faz o som do equipamento ecoar, misturando-se com os ruídos de carros de som e ônibus que passam na Expedito Garcia. Praticamente tudo que ele tem ali funciona.

O rosto de nosso anfitrião se enche de alegria para mostrar e demonstrar cada invenção, que para uns podem parecer arcaicas mas que são definitivamente engenhosas, e contribuíram para a evolução tecnológica que hoje vivenciamos.

Na primeira sala, em anexo ao corredor, mas já isolada do barulho da rua, o sofá e o móvel de TV estão rodeados por grandes jukebox, máquinas automáticas de música, fabricadas décadas atrás, mas com um som que permanece impecável, conforme nos demonstra.

O número total de peças não foi contabilizado pelo proprietário. Um papiro trazido do Egito, um fonógrafo de 1877 da empresa de Thomas Edson, uma bomba de gasolina de 1929, uma bicicleta de 1888 com farol de carbureto, um telefone da década de 1930 que ainda recebe ligações, animais empalhados, miniaturas de carros antigos, chaveiros, máquinas de pinball temáticas, um relógio com “garantia” de 100 anos, uma câmara escura, precursora da fotografia, são algumas das coisas que é possível encontrar na casa do colecionador, ainda antes de chegar ao local de sua maior paixão.

Um sonho de cinema

Nascido em Paraju, distrito de Domingos Martins, Amilton Simmer lembra bem da sensação de sua versão menino quando um alemão fugido da guerra chegou na região trazendo em suas malas um lambe lambe, um gramafone e um projetor da época, idêntico a um que hoje ele guarda. “Aos domingos ele levava um projetor desses para passar uns curtas e documentários. As carteiras iam para o canto da sala, uma mesa era colocada no meio com o projetor e as crianças sentavam no chão”, lembra, carregando ainda algum nível de sotaque que lembra de sua origem no interior. Como as construções de origem alemã geralmente tinham paredes escuras, o projetista improvisava um lençol de cama para servir como tela de cinema.

Amilton liga o equipamento e nos mostra: “Quando ele ligou o projetor eu ouvi esse barulhinho aqui… eu ouvi esse barulho, vi a imagem cheia de riscos, os carreteis com o filme rodando. Naquela época eu tinha cinco anos e veio de dentro de mim que era isso que eu queria. E não larguei o cinema mais não”, conta.

Três anos depois, aos 8, a família se mudou para Cariacica. Seu pai, comerciante, passou pela região e resolver comprar um terreno ali – com um maço de dinheiro vivo que levava, segundo conta o filho. O que hoje é um polo comercial, era ainda um local pacato mas em crescimento. Amilton se lembra que próximo dali podiam caçar paca, tatu, macaco.

Em 24 de abril 1970, quando o menino tinha 11 anos, foi inaugurado próximo de sua casa, na própria avenida, o Cine Colorado, que funcionou por mais de uma década e marcou época no município. O colecionador mostra uma foto que registra uma multidão na entrada do cinema. “Eu estava lá no dia da inauguração”, recorda.

Curioso, o menino logo deu um jeito de fazer amizade com o projecionista. Ajudava a limpar o cinema, limpar banheiro, trocar o letreiro. “Queria saber qual era a magia que tinha dentro daquela cabine, não imaginava que era um projetor desses daqui”, diz ao lado de dois projetores movidos à carvão que guarda lado a lado na antessala do Cine Milton, espaço que criou em sua casa. Explica que eram necessários dois projetores, pois os rolos de filme tinham apenas 20 minutos de projeção, sendo preciso alternar entre eles para passar todos os rolos que compunham um filme de longa-metragem.

Mas isso ele só foi saber muito tempo depois. “Só o dono do cinema, o gerente e o projecionista podiam entrar na sala. Fiquei triste. Mas hoje tenho um cinema dentro de casa, que foi um sonho que passei a vida toda querendo”, celebra.

Ele é capaz de explicar o funcionamento do projetor à carvão, falar do arco voltaico, a forma de ligar, os cuidados necessários e muito mais. Também nessa mesma antessala, é possível passear pela história do cinema, que é a história das imagens em movimento. Um quadro registra foto de uma pintura rupestre de um animal que simula movimento. As primeiras projeções humanas, diz, vêm do fogo que projetava as sombras nas paredes das cavernas.

Amilton nos mostra um flipbook, em que as páginas passadas rapidamente e em sequência criam a sensação de uma história contada em movimento, um zootropo, máquina criada em 1834, que ao ser girada transmite ilusão de movimento. Um cinetoscópio, aparelho de exibição individual, também está presente no acervo, permite que o espectador olhe para dentro da caixa e visualize uma sequência de fotos formando movimento. No caso do Cine Milton, o espectador pode testar a máquina olhando um “filme” com Chaplin, uma luta de boxe ou um “pornô” de época, obviamente bastante recatado para os padrões atuais. O cinetoscópio precederia por pouquíssimo anos o cinematógrafo dos irmãos Lumière, que projetaria as imagens em movimento não dentro de um aparelho mas numa tela externa, sendo assim um marco da fundação da sétima arte, o cinema.

Na pequena antessala que serve de mini museu do cinema, o proprietário ainda simula uma bilheteria, reúne fotos de antigos cinema do Espírito Santo, incluindo o Cine Colorado, e antes de entrarmos faz soar o sinal sonoro que costumava tocar antes das sessões de antigamente, avisando ao público que podia adentrar a sala.

E assim entramos, finalmente, na pequena sala de cinema pessoal do Cine Milton. O local já foi o jardim da casa da família, mas num período de escassez de água, Amilton Simmer resolveu dar ao local outra função, construindo, com ajuda de um pedreiro, o espaço para projeção. Começou com duas poltronas confortáveis, para assistir filmes com a esposa. Logo resolveu ampliar e hoje a sala conta com 18 lugares, duas colunas gregas ao lado da tela, a reprodução de uma imagem do teto da Capela Sistina e arandelas (luminárias), que pertenceram ao Cine Juparanã, que funcionou no Centro de Vitória entre 1967 e 1980.

Na pequena sala, o projetor não é antigo, pelo contrário, é digital, com ótima resolução – que junto a um áudio excelente oferece uma experiência cinematográfica de qualidade para quem tiver o privilégio de sentar numa das poltronas reclináveis do Cine Milton. Ali eventualmente acontecem sessões privadas e já teve até lançamento de filme.

Mas correrias do cotidiano não nos permitem o luxo de passar mais duas horas por ali para assistir a um filme completo. Ainda assim, o proprietário nos oferece assistir ao menos o comecinho de uma obra. Devidamente instalados, abrem-se as cortinas vermelhas que tampavam a dela, mais uma experiência nostálgica de tempos que nem vivemos. “O massa do cinema, do teatro e do circo é a cortina”, celebra Amilton. Assistimos ao início sanguinolento de Gladiador, obra vencedora de cinco Oscars, na versão dublada.

Xô, depressão!

“Todas as coisas que eu queria ter no passado e não tinha condição, estou realizando”, diz nosso entrevistado. Não só coisas materiais, pois também falamos de um colecionador de viagens. Nos últimos anos, Amilton Simmer viajou por 25 países, “escolhidos a dedo” em Europa, África, Ásia. Ano passado viajou com o sobrinho à Chicagoland Show, uma feira de antiguidades nos Estados Unidos, com destaque para máquinas jukebox, pinball e outras. De quebra, realizou o sonho que carregava a 50 anos, desde a adolescência, de conhecer a Disney. “Aproveitei igual uma criancinha, fui em tudo que eu tinha direito”, afirma.

Seu menino interior, vindo do interior, porém, ainda carrega mágoas. Lembra de três surras que tomou do pai ainda criança: quando foi ao cinema, ao circo e ao parque. Quando cresceu e ganhou corpo, um dia quis se vingar e revidar esse passado mas seu pai não cedeu às provocações, o que o filho até hoje agradece. “Eu já teria morrido de arrependimento”, afirma.

Depois de adulto, formado em curso técnico, trabalhava muito. Especialista em motor elétrico, era bobinador. Lembra que bebia e fumava em excesso, o que o levou à depressão. Há cerca de 10 anos, depois que o pai faleceu e a mãe foi morar com a irmã em outra casa, começou a transformar o espaço de sua residência para se tornar o que é hoje, uma casa-museu cuidada com esmero. “Montei isso e você acredita que a depressão acabou? Os remédios foram todos para o lixo, nunca mais me deu. Assim como vocês estão conversando comigo, eu mostrando as coisas, é um santo remédio”, considera o colecionador.

Quando o espaço ficou pronto, o proprietário começou a postar suas antiguidades e a sala de cinema nas redes sociais, o que chamou a curiosidade de amigos, que pediam para visitar. Logo, a imprensa também passou a se interessar pela curiosa história. Mas o local não tem horário de funcionamento nem é aberto ao público. “Eu queria ter um espaço para receber todo mundo, o prazer do colecionador é mostrar sua coleção. Mas é dentro da minha casa”.  Mesmo assim, por vezes, ele abre suas portas e dedica seu tempo a receber amigos e convidados. Uma forma de conhecer o espaço, é pelo Instagram, onde ele posta sobre o acervo, visitas recebidas e reportagens sobre o local.

“Às vezes perguntam no Instagram se podem visitar. Quando eu vejo que a pessoa está muito interessada, que gosta de cinema, é apaixonado, eu abro exceção e deixo vir”, afirma, já deixando a dica para o leitor interessado. O Instagram é @cinemilton. A visita não tem custo financeiro. “Nunca fiz isso pensando em lucro. Se compro uma coisa não penso em um dia vender, quero tê-las por toda a vida”, diz o colecionador. “Não tenho filhos, então não sei quem vai ficar com minhas coisas”, pontua.

Em outra ocasião, uma jovem visitante, ao ouvir a mesma frase, disparou de supetão: “Então me adota”. O passado continua presente nos olhos do futuro.

Texto e imagens reproduzidos do site: www seculodiario com br

terça-feira, 8 de julho de 2025

Do analógico ao Digital: como a tecnologia está revolucionando o cinema

Artigo compartilhado do site TERRA, de 14 de dezembro de 2016

Do analógico ao Digital: como a tecnologia está revolucionando o cinema

Tendências do setor de tecnologia para cinemas são apresentadas por Ricardo Ferrari, executivo da multinacional Barco

Não foram só as poltronas que ficaram mais confortáveis e os ingressos eletrônicos. Por trás das telas o cinema, com seus mais de 117 anos, evoluiu muito. Da química ao elétrico, o tradicional processo fotoquímico aplicado às películas de 35 mm por quase um século, foi substituído por um moderno processo fotoelétrico, em que a luz é transformada em eletricidade e codificada em fileiras de zero e um. Chegaram os efeitos especiais, que custam milhões aos estúdios, marcando o início da era digital nos cinemas, com filmes exibidos em altíssima resolução, em 2D ou 3D.

No Brasil, temos um parque exibidor com cerca de 3,1 mil salas, das quais 2,7 mil já estão digitalizadas. Desde o início dessa década, os cinemas brasileiros se mobilizaram para trocar as antigas películas - aqueles rolos enormes de filme - por arquivos digitais.

Projeção digital

Hoje todos os arquivos são filmados em alta resolução e projetados digitalmente. Considerado um ícone no universo cinematográfico, Avatar foi o primeiro filme que teve uma representação de alta qualidade com tecnologia 3D. Uma verdadeira questão de peso, já que os estúdios impuseram a digitalização, pois queriam substituir os rolos de película, que pesavam cerca de 30 quilos, para reduzir os custos de distribuição. O filme digital hoje é distribuído em leves fitas chamadas DLT. Cada uma armazena até quatro filmes de duas horas de duração.

Conteúdo codificado

A tecnologia digital se consolidou e os fornecedores das películas perderam espaço. O cinema teve então que buscar alternativas para continuar gerando conteúdo seguro contra a pirataria. Isso porque, ao contrário da película, cuja cópia envolve um processo complexo, um filme digital pode ser copiado num simples apertar de botões. Assim, todo filme digital é codificado para evitar a cópia ilegal. Após sair do servidor, ele passa por um decodificador, antes de ser convertido em imagem no projetor.

Programação variada

Nem só de filmes vive o cinema. Além de exibir filmes, as salas digitais também podem projetar qualquer mídia digital, desde um simples DVD até programas ao vivo transmitidos por redes de TV que trabalham com imagens de alta definição. Isso possibilita que as salas sejam usadas como megatelões para grandes eventos esportivos, como por exemplo, a final da liga dos Campeões da UEFA que é exibida há anos nos cinemas, ou apresentações corporativas.

Som imersivo

Sabe a sensação de que no cinema o som está em toda parte? Está mesmo. O áudio nos filmes digitais não é compactado e por isso tem melhor qualidade. Na sala ele é distribuído por diversos alto-falantes: os próximos à tela são usados para os diálogos, os laterais e os do fundo para sons ambientes e o do meio - posicionado no teto e conhecido como woofer - serve para sons mais graves, como por exemplo, o barulho de uma nave espacial decolando.

Projetores a laser

Parece complicado, mas é apenas matemática. Os equipamentos a laser têm baixo custo de propriedade em relação aos que usam lâmpadas xênon, funcionam por mais de 40 mil horas, e economizam cerca de 40% de energia elétrica.

As inovações na indústria cinematográfica trazem economia, então são muito bem-vindas. Ainda mais se trazem recursos que os cinéfilos adoram! Para eles, produções filmadas com tecnologias 4K ganharão cada vez mais espaços nas salas de cinema do mundo todo. É bom que as telonas estejam preparadas, pois o futuro chegou!

*Ricardo Ferrari é diretor da Barco, líder mundial em cinema digital

Texto reproduzido do site: www terra com br

domingo, 6 de julho de 2025

Ofício em extinção - Os últimos projecionistas de filmes em película do Paraná...

Francisco Amâncio da Silva e Élio Borges, dois do três últimos 
projecionistas de cinema em película do Paraná.




Fotos: Cido Marques

Artgo compartilhado do site CURITIBA PR GOV, de 9 de junho de 2025 

Ofício em extinção - Os últimos projecionistas de filmes em película do Paraná estão na Cinemateca de Curitiba

Três funcionários da Fundação Cultural de Curitiba mantêm vivo um ofício em extinção. Eles são os últimos projecionistas em atividade na capital paranaense e, possivelmente, no Estado, que ainda dominam a arte de exibir filmes em película.

Programação especial traz histórias e leituras de contos de Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba

Banda Urucum apresenta fusão de jazz e ritmos afro-brasileiros

Élio Borges, Valdenício Pereira da Silveira e Francisco Amâncio da Silva trabalham na Cinemateca de Curitiba, única sala de cinema no Paraná que ainda realiza sessões de filmes com projeções em película 35 mm e 16 mm. Mais que técnicos, eles são guardiões da memória cinematográfica e apaixonados por um ofício que caminha para o fim.  

Os três começaram a carreira quase na mesma época e têm, em média, 40 anos de atividade profissional. Nas últimas décadas, com a digitalização do audiovisual, a projeção em película foi sendo gradualmente substituída por tecnologias mais ágeis e automatizadas, mas isso não intimida os técnicos da Cinemateca.

Histórias projetadas na vida

Valdenício Pereira da Silveira começou cedo, aos 17 anos, escondido em uma cabine de cinema na cidade de Sete Quedas, no Mato Grosso do Sul. “Eu tinha que ficar escondido porque era menor de idade”, lembra. Anos depois, já em Curitiba, foi indicado para trabalhar no Cine Luz, cinema de rua da Fundação Cultural. 

Para ele, o ofício é mais que uma profissão. 

“É como se eu estivesse fazendo o público sentir aquelas emoções (dos filmes). Isso é um dos motivos de eu continuar até hoje”, conta Valdenício.

Valdeníco Pereira da Silveira, projecionista. 

A busca por uma vaga de porteiro no antigo Cine Vitória, em Curitiba, no início de 1980, levou Francisco Amâncio para as cabines de projeção. Depois, passou por outros cinemas da cidade, onde aprendeu a projetar filmes na prática, isso antes de chegar à FCC, em 1985. “Um dia, o técnico olhou e disse que minhas emendas estavam melhores que as dele”, orgulha-se Chico. 

Ao longo de mais de 40 anos de profissão, Chico passou por diversos cinemas da cidade e testemunhou a transformação da projeção analógica para a digital. Trabalhou no Cine Luz, no Ritz, na Cinemateca e em salas de bairro, cuidando de cada filme como se fosse joia. 

“Eu digo que me casei com o cinema aos 18 anos. E até hoje não pedi separação”, brinca Francisco. 

Francisco Amâncio da Silva, projecionista.

Dos cinemas de rua para a FCC

“Projetar não se aprende em sala de aula. É prática, repetição, tato”, resume Élio Borges, que, por sua vez, está na Cinemateca desde 1981. Passou por cinemas de rua da cidade como o Lido, o Condor e o Plaza, até se fixar na Fundação Cultural de Curitiba.

Técnico e projecionista, Élio é também o responsável pela manutenção dos projetores da Cinemateca de Curitiba. “Trabalho com Super 8, 16 e 35mm. Aqui tudo ainda funciona e acho importante manter, porque a película tem mais textura, dá mais qualidade que o digital. Tem público que prefere", defende. 

Élio Borges, técnico e projecionista.

Para esses profissionais, cada sessão carrega uma história. Élio recorda, rindo, de quando cortou um filme por engano, deixando um trecho de Popeye no início de um suspense. “Foi um susto e uma gargalhada coletiva”, diz o projecionista.

Outras histórias, como a sessão gratuita de Natal que Francisco improvisou após o funcionário da bilheteria não aparecer, revelam o compromisso com o cinema e com o público. “Abrir as portas e dizer ‘hoje o cinema é por nossa conta’, move a gente,” releva Chico.

A última cabine

Com o avanço do digital, a profissão desapareceu dos cinemas comerciais. “O digital é prático, você recebe o filme por HD, monta a playlist e o projetor liga sozinho. Controlo tudo pelo celular”, explica Valdenício, que atualmente trabalha no Cine Guarani, no Portão Cultural. 

Apesar das diferenças tecnológicas, a essência permanece. “O importante é fazer o filme acontecer para o público, isso exige cuidado, seja na emenda da película ou na configuração do projetor digital”, completa Francisco, que está aprendendo a operar o projetor digital recém-chegado à Cinemateca de Curitiba. 

Atualmente, todas as salas de cinema da Fundação Cultural de Curitiba (Cine Passeio, Cine Guarani, Teatro da Vila e Cinemateca) têm projetores com tecnologia DPC, o padrão mundial de distribuição e exibição de filmes digitais, com alta qualidade de imagem e som.  

Texto e imagens reproduzidos do site: www curitiba pr gov br

sexta-feira, 7 de março de 2025

"O Drama da Projeção", por Maria Silvia Camargo

Artigo compartilhado do site CRÍTICOS, de 20 de fevereiro de 2013

O DRAMA DA PROJEÇÃO

Por Maria Silvia Camargo

Um relato pessoal do suplício que tem sido ir ao cinema no Rio de Janeiro, por conta de problemas na exibição.

Trata-se de um fim de festa. Em 31 de janeiro deste ano o Minc anunciou que os cinemas administrados por empresas brasileiras finalmente entrariam no século XXI e serão todos digitalizados. Ufa. Realmente: as cabines de projeção continuam no século passado, para prejuízo do espectador. Mas não se trata só de trocar de equipamento. Se os exibidores nacionais querem continuar competitivos será preciso muito investimento.

Sou fiel a uma sala de cinema. Tenho tudo: DVD, blue-ray, ar condicionado e tudo o mais. Mas aquela sala escura, o encontro no saguão antes de entrarmos... é diferente. Cresci assim e frequento o cinema pouco mais que a média da maioria dos moradores da ZS do Rio, onde vivo. Procuro ir uma vez por semana (ou a cada 10 dias) desde 1978. Façam os cálculos. Óbvio que sofre-se muito. A cada três filmes encontro uma projeção ruim, uma média e uma boa. Nem reclamo quando a exibição é mais ou menos, o olho já acostumou. Mas me dou ao trabalho de levantar falar com o gerente ou o projecionista quando ele erra a janela e o microfone vaza ou o filme pára ou fica sem som muito tempo.

Também, por ser jornalista, tenho um pouco mais de informação sobre o que se passa no setor. Sei que projetar filmes é uma profissão que se aprende na prática e paga mal; sei que a cada Festival os projecionistas têm que se virar com máquinas alugadas de todos os tipos de tecnologia; entendo um pouco a equação preço do ingresso X aluguel de salas etc. etc. mas se o Minc vai investir em digital, que se criem recursos para que o exibidor pague melhor o projecionista e o treine. Invista em gente que possa receber aí filmes com captação de som direto; digitais; assim como também em 35mm. Não entendo de tecnologia, só sei pedir, como espectadora: preparem-se para o futuro. A captação de filmes está mudando, é feita de várias formas, então a mentalidade de quem tem sala de cinema têm que mudar também. Se o cinema vai conviver com todas as outras mídias – e eu sei que vai – é preciso que ele se renove.

Aqui no Rio de Janeiro, para quem mora na Zona Sul e não quer ir longe para assistir a um filme, a coisa está difícil. Fiz um pequeno diário este verão das sessões que fui ou a que amigos foram. Vale notar que não frequentei só cadeias de empresários nacionais.

Quarta, 16 de janeiro. Argo , na sala 3 do Estação Rio 3. A projeção parou duas vezes pois não havia som. Quando ele entrava, estava baixo.

Quinta, 17 de janeiro. O Som ao Redor. Não lembro a sala, Unibanco Arteplex. Projeção boa.

Sexta, 18 de janeiro. Amor, sala 2 do Estação Sesc Ipanema. Projeção boa.

Domingo, 3 de fevereiro. Os Miseráveis, sala 6 do Unibanco Arteplex. Cinema lotadíssimo, filme recém estreado.  Projeção com manchas lilases na tela e som chiado.

Quarta, 6 de fevereiro. O Lado Bom da Vida, sala 2 do Cinépolis Lagoon. Filme super escuro! Falamos com o projecionista, ele se desculpou pois o projetor estava com uma luz queimada. E assim ficou.

Sábado, 16 de fevereiro. As Sessões. Sala 3 do Vivo Gávea. Som ruim. O som desta sala é sempre sofrível ao contrário da sala 5 do mesmo cinema, que é bem melhor. Vai saber.

Sábado, 16 de fevereiro. Nota de Rodapé. Sala 3 do Estação Rio 3. Projeção com pulos de imagem.

São só uns poucos exemplos. Vale que o leitor escreva para fazer sua reclamação ou elogio. Vamos ampliar a discussão. Vamos fazer valer o que pagamos pelo ingresso.

Texto reproduzido do site: criticos com br

 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Projetores Cinematográficos tombados



Imagem: Prefeitura Municipal

Os Projetores Cinematográficos foram tombados pela Prefeitura Municipal de Guaranésia-MG por sua importância cultural para a cidade.

Prefeitura Municipal de Guaranésia-MG

Nome atribuído: Projetores Cinematográficos

Localização: Centro Cultural “Professora Fernandina Tavares Paes” – Praça Cel. Paula Ribeiro, nº 46 – Guaranésia-MG

Decreto de Tombamento:Decreto n° 1088/2003

Descrição: Os dois projetores de 35 mm, cujos números são respectivamente 199 e 200 da série 2, foram produzidos pela Empresa Cinematográfica Triumpho Canteruccio & Lamanna, da cidade de São Paulo – SP, a Rua do Triunfo, 134, em 1952.

A referida empresa teve início em agosto de 1939 e encerrou suas atividades em 1979.

Os projetores foram trazidos para Guaranésia pela Empresa Cinematográfica São Paulo Minas (atualmente extinta) em 1958 e o filme de estréia exibido pelo projetor foi “Corcunda de Notre Dame” na inauguração do Cine São José em 1958.

Em 1986, a Prefeitura Municipal de Guaranésia desapropriou o cinema e os projetores.

Em 1988, o Cine São José foi reformado e então inaugurado o Centro Cultural Professora Fernandina Tavares Paes e os projetores passaram a pertencer ao Centro Cultural. Em 1989, o cinema foi arrendado, até meados de 1999.

O cinema sempre esteve presente na vida dos Guaranesianos desde o início do século passado, primeiramente com o Cine Teatro Rio Branco, de propriedade de Lauria & Irmãos que funcionou até 1957, depois com o Cine Rex e finalmente com o Cine São José, ao qual pertenceram os projetores.

Os Projetores Cinematográficos do Centro Cultural eram considerados os melhores da época em 1958, pois durante a exibição o filme não era interrompido pela troca dos rolos, fato que era comum nas salas de projeção das décadas anteriores.

Até hoje, os projetores nunca tiveram defeito nem passaram por intervenções para concertos ou troca de peças. Muitos foram os casais que se conheceram assistindo aos filmes projetados no glorioso Cine São José.

Atualmente, o cinema com películas está desativado, e a sala de projeções fica somente para visitas de interessados que querem conhecer estas maravilhosas máquinas com lente de 35 mm, cujos números são 199 e 200 e série 2 da Empresa Cinematográfica Triunpho Canteruccio & Lamanna, que datam de meados do século XX.

Fonte: Prefeitura Municipal.

BENS TOMBADOS RELACIONADOS:

Guaranésia – Centro Cultural Profa. Fernandina Tavares Paes

Histórico do município: No início do século XIX, o Rio Canoas, que banha o município de Guaranésia, era conhecido como rio das Capivaras, por causa da grande quantidade existente desse animal em suas águas. Nessa época, às margens do rio, foi construído um rancho onde se estabeleceu o proprietário José Maria Ilhoa, conhecido pelo apelido de Canoas. Em função desse apelido, o curso d′água passou a ser chamado Rio do Canoas. O proprietário das terras construiu uma capela em homenagem à Santa Bárbara, ao redor da qual surgiu um povoado, conhecido pelo nome de Santa Bárbara das Canoas.

O povoado de Santa Bárbara das Canoas foi elevado à categoria de distrito, subordinado ao município de Jacuí, em 1839. Após 34 anos, a localidade foi elevada a cidade, com o nome de Guaranésia, em 1901. Essa denominação deriva do tupi-guarani e significa pássaro da ilha.

Fonte: Prefeitura Municipal.

Texto e imagens reproduzidos do site: www ipatrimonio org

Projetista de um cinema em Ontário, Canadá (1970)


The Way We Were

Ícone do r/TheWayWeWere

Meu avô na cabine do projetista de um cinema em Ontário, Canadá - início dos anos 1970

'Naquela época, só passava um filme, mas você tinha a opção de assistir às 19h ou às 21h (ou durante as matinês de fim de semana à tarde, se você quisesse). Você podia fumar na varanda ou nas últimas 15 fileiras do andar principal do auditório e geralmente assistia a um ou dois desenhos animados antes do filme principal começar.

Havia dois projetores na cabine e os filmes eram divididos em vários rolos. O projetista alternava entre os dois projetores em um ponto no tempo que era indicado por pequenas marcas que eles faziam no canto superior direito do filme. Quando a primeira marca aparecia na tela, o projetista ligava o segundo projetor e o deixava funcionar em conjunto com o primeiro. A segunda marca indicava quando ele deveria mudar para o segundo projetor e o novo rolo seria exibido na tela'.

Texto e imagem reproduzidos do site:  www reddit com