segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Cinema Paradiso em Terras Alencarinas



Cinema Paradiso em Terras Alencarinas.

Em um dia de sol escaldante, procurando há quase uma hora a Rua Padre Graça, finalmente a encontramos. Uma ruela que abrangia dois quarteirões, tão desligada da correria da cidade que nos sentimos transportados ao interior. Era um lugar quase bucólico: as crianças brincando na rua, as senhoras conversando sentadas na calçada e os homens jogando xadrez na praça. O Cine Nazaré, com todo o seu jeitão de cinema antigo de cidade pequena, não poderia estar mais bem localizado.

Fomos recebidos por Raimundo Carneiro de Sousa, o Seu Vavá. Um senhor aparentemente comum. Aparentemente. Foi só começarmos a gravar para que cada fio de cabelo que tínhamos se arrepiasse. Sentíamos como se estivéssemos conversando pessoalmente com o personagem Totó, de Cinema Paradiso. Descobrimos que, assim como os filmes, um projecionista também é capaz de nos encantar.

A paixão de Seu Vavá pelo cinema vem desde criança, quando se esgueirava para ver os filmes pela fresta da porta do cinema, pois não tinha dinheiro para o ingresso. Daí a fazer suas próprias sessões de cinema para os amigos não custou muito. Ele mesmo criou o projetor, parco e improvisado, mas era um sucesso. O jovem sonhador cresceu, mas a vida o impelia ao cinema. Seu Vavá começou a trabalhar, primeiramente para frades alemães pertencentes à Ordem Franciscana Menor, que fundaram o Cine Familiar, em 1935. Encomendaram a ele quadros e molduras para a Igreja. Posteriormente, as encomendas passaram a ser também para o cinema, como tabuletas para propaganda dos filmes, conserto e confecção de cadeiras, entre outros. Seu Vavá sempre procurava entregar as encomendas na hora das sessões, podendo, assim, assistir ao maior número de filmes e seriados possíveis.

Somente em 1949 Seu Vavá foi de fato contratado como funcionário do Cine Familiar. De início, fazia a limpeza do salão, passando mais tarde a assumir o encargo de entregar os rolos de filme 35mm ao escritório do Grupo Severiano Ribeiro, que alugava filmes aos exibidores locais.

O Grupo Severiano Ribeiro, à época, exibia os filmes bem antes dos exibidores de bairro. Já assumindo a tarefa de ajudante de operador, Seu Vavá assistia ao máximo de filmes que podia no Cine Majestic, no Cine Moderno ou no Cine Diogo, que eram os grandes exibidores da época. Como os frades só alugariam o filme meses depois, Seu Vavá anotava todas as cenas que os frades achariam impróprias (como uma mulher com trajes de banho, ou um beijo acalorado), para depois serem feitos os cortes necessários.

Não demorou muito para que, habilidoso, assumisse o cargo de projecionista efetivo do Cine Familiar. Os frades ainda lhe deram uma passagem de avião e lhe enviaram para a grande cidade de São Paulo, para que ele fizesse cursos de mecânica e eletrônica em uma fábrica. Quando voltou para Fortaleza, os frades aparelharam novamente o cinema, com equipamentos mais modernos, e o reformaram. Seu Vavá tornou-se então o novo gerente do Cine Familiar em 1952.

Empolgado e orgulhoso, Seu Vavá nos contou que, com a reforma e com a nova gerência, o Cine Familiar tornou-se o único entre os cinemas de rua que tinha ar condicionado também na cabine de projeção, além de quatro amplificadores, cabine com dois projetores e tela cinemascope importada, o que também tinha como benefício o fato de o cinema nunca ter parado uma sessão sequer por falha nos equipamentos.

Com tantas vantagens, o novo cine Familiar contava com os mesmos confortos e qualidades de cinemas grandes, o que começou, segundo Seu Vavá, a incomodar o Grupo Severiano Ribeiro. Começaram a aparecer, então, dificuldades de se alugar filmes da distribuidora. O jeito foi fazer amizades com a Cinemar, que trazia filmes de Recife, que era um centro de referência na distribuição de filmes pelo Brasil. Mesmo conseguindo o apoio de bons fornecedores, a Severiano Ribeiro ainda detinha maior quantidade de filmes, o que resultou em um recuo de fornecimento, uma vez que o Severiano deixaria de alugar tais filmes e o Cinemar perderia vários clientes.

Foi quando Seu Vavá conheceu o gerente que coordenou a Metro no Recife, que forneceu a ele os filmes da programação para o Cine Familiar. Com a volta de tais filmes depois de muitos anos sem serem exibidos, o sucesso foi certeiro. O cinema dos frades voltou a fervilhar, mesmo com a mutilação que a ação do tempo provocou neles. Mas até nisso o Seu Vavá conseguiu se virar: ele inventou uma máquina que permitia ver o filme na mão, de modo a coordená-lo. Deste modo, os filmes foram “reeditados”, fazendo com que os danos não fossem tão evidentes.

Foi então que um dia apareceu à porta do Cinema Familiar o dono do Severiano Ribeiro em pessoa para oferecer uma grande quantidade de filmes para que o Cine Familiar voltasse a ser parte do grande grupo. O acordo foi aceito, uma vez que estava cada vez mais difícil conseguir filmes dos distribuidores de Recife. O acordo trouxe vantagens para a nova fase do cinema dos frades. O cinema de bairro lançava os filmes não mais meses depois do lançamento deles em grandes salas de cinema, mas simultaneamente a tais exibidores.

Seu Vavá, estranhando tantas vantagens, acabou descobrindo que em São Paulo uma nova e grande distribuidora visava atrair cinemas independentes de todo o país, inclusive os nordestinos. Foi quando o Cine Familiar rompeu com a Severiano Ribeiro e fechou contrato com a empresa paulista Fama Films. Como esta distribuidora pertencia a dois irmãos italianos, o Cine agora exibia filmes italianos de arte, fazendo com que iniciasse os tempos de glória do Cine Familiar. Filas de virar as esquinas se formavam para as exibições dos novos filmes.

Mas, em 1968, o Cine Familiar estava fechando. Segundo Seu Vavá, os motivos eram claros: a igreja não mais suportava os filmes não tão censurados que o cinema dos frades exibia, o que ocasionou o fechamento da sala. Já os frades anunciaram que a exibição de mais filmes causaria prejuízo para eles, o que não fazia muito sentido, uma vez que o cinema estava a todo vapor, lotando em todas as seções e lucrando em sua bilheteria.

Foi então que nosso Totó particular decidiu ter seu próprio cinema. Achando que finalmente poderia ter liberdade para projetar os filmes que bem entendesse, comprou o Cine Nazaré, que já havia funcionado anos antes. No entanto, era o auge da ditadura militar. Seu Vavá se viu obrigado a dançar conforme a música. Ao início de cada sessão, 4m de filme com a carta da censura eram projetados na tela, mesmo as sessões da tarde eram proibidas para menores de 18 anos e, novamente, Seu Vavá viu-se obrigado a mutilar filmes e mais filmes para que se adequassem à censura. Sucumbindo à pressão, o cinema fechou em 1974.

No entanto, quando a sua mulher adoeceu, Seu Vavá sentiu-se impelido a reabrir o cinema. Em 2008, aquelas poltronas vermelhas serviram de encosto para ávidos cinéfilos mais uma vez. Diferentemente dos caríssimos multiplex de hoje em dia, o Cine Nazaré é democrático. Uma urna de madeira na entrada deixa bem claro: paga quem puder, e o quanto quiser. Difícil é decidir um preço justo a pagar pela nostalgia de assistir a filmes clássicos em um dos poucos cinemas de rua remanescentes.

Texto reproduzido do site: cinemaeaudiovisual.ufc.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário