sexta-feira, 17 de abril de 2026

Jhoseffi Macena, o projecionista

Jhoseffi Macena na sala de projeção do Cine Teatro São Luiz. 
Foto: Arquivo Pessoal.

Jhoseffi e seu filho, Eduardo, na sala de projeção do Cine Teatro São Luiz. 
Foto: Arquivo Pessoal.

Publicação compartilhada do site MEDIUM, de 16 de abril de 2026

Como o cinema pode mudar a vida de quem está por trás do projetor

Por Eduarda de Almeida

Jhoseffi Macena, o projecionista

Entrar no Cineteatro São Luiz, em Fortaleza, é uma experiência que conecta qualquer pessoa à história cultural da cidade. Suas portas levam a um espaço marcado pelo tempo, onde a arquitetura revela traços de diferentes períodos da arte nacional. Para Jhoseffi Macena, projecionista há quase dez anos, o local representa mais do que um trabalho: é parte de sua trajetória e de seu envolvimento com o cinema. Ali, ele encontrou um espaço para crescer e contribuir para manter viva a tradição do São Luiz.

Jhoseffi iniciou a carreira em outro grande símbolo da cultura de Fortaleza, o Instituto Dragão do Mar. Ele viu de perto a transição significativa do cinema analógico para o digital e o quanto isso mudou seu trabalho. Nunca sonhou em trabalhar no cineteatro, achava uma realidade muito distante. “Quem quer que fosse o projecionista do São Luiz, era considerado o melhor que poderia ter na cidade”, conta. O trabalho e a grandiosidade do cinema exigiam esse esforço. Na época, ele pensava que a sua realidade seria apenas aquela que estava vivendo, trabalhar no Dragão do Mar e ali mesmo fazer mudanças em defesa do cinema.

Contudo, o destino já tinha reservado outra história para ele. Sua primeira experiência no São Luiz foi realizando uma manutenção técnica em equipamentos de projeção. Tinha colegas que faziam parte da equipe do teatro naquele momento e que sabiam de sua capacidade. Foi assim que, depois de uma edição do Festival Cine Ceará, estava lá novamente para fazer manutenções.

Nesse dia chovia muito, Jhoseffi diz que jamais esqueceu. Tinha uma sessão a ser projetada naquela mesma manhã no Dragão do Mar — ele lembra até mesmo o filme, “A Lenda do Gato Preto”, do diretor cearense Clébio Ribeiro. Suas ferramentas eram poucas mas, ainda assim, o suficiente para fazer com que o projetor funcionasse. Foi a primeira vez que se sentiu útil para o cineteatro.

Jhoseffi lembra que a diretora do Sâo Luiz na época, Rachel Gadelha, lhe informou de um edital para projecionista que seria aberto. Era a oportunidade que ele precisava. Fez a inscrição e ficou em quinto lugar de quatro vagas disponíveis. Mas o destino o queria lá, aquele lugar precisava dele e ele, mesmo sem saber, precisava estar lá. O rapaz que ficou em quarto lugar sofreu um acidente no exato dia da entrega de documentos e, assim, Jhoseffi assumiu a vaga.

Quando mais jovem, Jhoseffi morava com sua mãe e seu sobrinho em frente a um bar que tocava muito brega. Foi lá que ele ouviu artistas como Reginaldo Rossi, Amado Batista, Altemar Dutra. Alguns desses cantores que marcaram sua pré-adolescência depois viriam a fazer show no São Luiz.

É assim que ele começa a contar a história de quando conheceu ninguém menos que Elza Soares. Em 2017, com um show em homenagem a Lupicínio Rodrigues (“Elza canta e chora Lupi”), a cantora veio para a Fortaleza. Ela impôs uma condição: não queria ninguém muito perto dela porque já estava um pouco debilitada, inclusive precisando contar com o apoio de uma cadeira de rodas. Mas com Jhoseffi foi diferente. Ele iria fazer seu teleprompter e, portanto, era inevitável estar por perto. Elza o chamou num canto e perguntou seu nome. Jhoseffi logo disse que era Dedé, apelido que tem desde pequeno e pelo qual todos o conhecem no São Luiz.

Mas Elza não gostou muito da alcunha. Brincando, ela disse que aquele não era um nome de verdade. Jhoseffi — ou Dedé — disse que ela poderia chamá-lo do que quisesse. “Até mesmo só um ‘ei, um você’”, ele recorda. Assim nasceu um carinho entre os dois. Quando foi embora, a cantora o chamou novamente em um canto. “Ei, psiu”, ela disse, antes de lhe agradecer pelo cuidado. Aquela foi a única vez que Elza veio ao São Luiz.

A relação de Dedé com o Cineteatro São Luiz vai além da sala de projeção e invade também a intimidade de sua casa. Ele conta que, ao assistir à TV, costuma apontar para os artistas na tela e dizer à filha: “Esse aí já esteve no São Luiz” ou “Esse aí eu tenho até no WhatsApp”. A filha, inicialmente sem acreditar, acha que é brincadeira. Ao que Dedé responde com humor: “Minha filha, eu sou importante”. Trabalhar no cineteatro é, para ele, mais do que um emprego — é uma paixão que o realiza. “Faço o que gosto e, no final do mês, ainda recebo meu salário. Não tem como ser melhor”, afirma. Esse entusiasmo pela profissão pode ter sido o combustível para que seu filho, Luiz Eduardo, decidisse seguir os mesmos passos.

Durante a realização do 34º Cine Ceará, em novembro de 2024, ele trabalhou ao lado do filho, na sala de projeção. Foi a segunda vez que isso aconteceu. O fotógrafo do cineeatro fez questão de tirar uma foto do momento. Não é sempre que pai e filho são projecionistas e ainda trabalham juntos no maior símbolo de cultura da cidade.

Jhoseffi ainda tem o que considera “um trabalho eterno”, enquanto estiver no São Luiz: a sala do icônico Seu Vavá — uma profissional que marcou época no cineteatro, mas, quando morreu, sua família não teve como eternizar seu legado. Foi assim que Jhoseffi teve a ideia de transformar o quinto andar do prédio em uma espécie de acervo para receber o público e exibir os filmes na condição de cinema digital. “Quando se cita o São Luiz, também tem que ser citada a Sala Seu Vavá, porque hoje ela faz parte desse prédio, desse cineteatro”, afirma o projecionista.

Em 2025, Dedé completa uma década como projecionista no local. Uma década em que sua história com a arte do cinema se uniu ao Cineteatro São Luiz. Desde então, fazem história juntos.

Texto e imagens reproduzidos do site: medium com

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