terça-feira, 7 de julho de 2026

Cinéfilo de quatro costados Júlio César de Miranda

Foto compartilhada do site: carmattos com

Publicação compartilhada do site MAM RIO

Julio Cesar de Miranda
Por José Eugênio Guimarães 

Por mero acaso conheci o iluminista e cinéfilo de quatro costados Júlio César de Miranda em 1991, se a memória não falha. Minha esposa fora premiada com um aparelho de videocassete. As locadoras de Niterói não ofereciam acervos diferenciados aos apreciadores de cinema. As estantes locais eram dominadas pelo rame-rame das grandes produções e lançamentos há pouco vistos nas salas de exibição. Eu ―louco por obras raras do período silencioso; de plagas europeias, asiáticas e brasileiras tão distantes de merecer relançamento nos cinemas e exibição nas madrugadas da TV ―não conseguia me satisfazer.

Até me deparar com uma matéria no suplemento “Rio Show” de “O Globo”. A seção dedicada a vídeos publicou extensas linhas sobre à locadora Polytheama situada em Copacabana nas proximidades da Galeria Alaska. Não pensei duas vezes: “é esta!”, afirmei ao meus botões. Distante de Niterói? Sem problemas! É para lá que irei! Cheguei fissurado e, desordenadamente, tomado de ansiedade, pus-me a examinar os títulos expostos e a separar vários. Certamente, percebendo minha ansiedade e o fato de ser completo desconhecido, acercou-se um senhor de olhar firme e penetrante. Quis saber se procurava algo específico. Resposta: “Ah! Tenho muitas especificidades e todas, parece, estão aqui! É tanta coisa preciosa, difícil de encontrar… Nem sei por onde começar”.

Calmamente, ele recolheu os estojos de VHS (era o que havia até então) de minhas mãos e perguntou o óbvio: “Quem é você?” Sobrou o embaraço; nem sabia o que dizer. Dei alguma resposta da qual não guardo lembranças. O problema, prestes a atrapalhar tudo, era a confiança – principalmente pelo fato de morar do outro lado da Baía da Guanabara. Por sorte, algo em minha cara feia extravasa insuspeição. Cadastrei-me! Levei três filmes para casa. Deveria devolvê-los em dois dias. Findo o prazo, cheguei em cima do laço e esbaforido devido a um engarrafamento. Júlio César de Miranda, que havia me atendido da primeira vez, exclamou aliviado: “Ah! Nossa! Olha ele aí!” Sequer tive tempo de escolher outra remessa. Sei que a existência de um cliente de Niterói provocou admiração durante algum tempo. 

Desde então estive presente em várias etapas da Polytheama, religiosamente. A existência de lojas físicas ficou proibitiva para o estabelecimento. Mesmo assim, Júlio – sempre apoiado pela esposa Lúcia – não desistiu de oferecer títulos os melhores e sempre selecionados. Passou a entregar os filmes desejados pela clientela em domicílio. Claro, não em Niterói! Mereci o privilégio de ir à residência dos Miranda para apanhar o que desejava e, nisso, tive o prazer de desfrutar de alguns momentos de convívio com a família. Outras vezes ia ao organizadíssimo depósito do acervo nas proximidades da residência, em Botafogo, anos depois mudado para o Largo de São Francisco quando os Miranda estabeleceram residência na Tijuca. A Polytheama esteve comigo sempre, até 2012 ―quando as inevitáveis contingências da vida me impediram de continuar. Mesmo assim, Júlio continuou presente até recentemente.

Vez ou outra conversávamos por telefone sobre filmes novos e antigos, publicações jornalísticas, livros e, claro, a deprimente situação política do país. Ele não se conformava com os rumos do Brasil vilipendiado pela selvageria da direita golpista e destruidora galvanizada pelo neoliberalismo. Foi um choque saber de seu falecimento. Aparentava um vigor que não deixava imaginar que partiria em definitivo nas proximidades de completar 80 anos neste 2022. 

A Polytheama e Júlio César de Miranda me permitiram descortinar uma parte significativa do universo “oculto do cinema”, pleno de realizações das quais só vira menções em livros, compêndios e conversas com aficionados. Que fartura! Quanta riqueza! Graças a ambos pude organizar mostras particulares com títulos incontáveis de David Wark Griffith e acompanhar o processo de afirmação e emancipação do cinema narrativo. A Nouvelle Vague, o Realismo Poético Francês, o Neorrealismo italiano, o cinema russo de todas as épocas, variados e raros filmes brasileiros, realizações japonesas, cubanas, chinesas e mexicanas, o John Ford das minhas mais profundas obsessões e influências paternas, o cinema noir, Robert Bresson, Carl Dreyer, todo o Bergman… Tudo havia na Polytheama. Era o mundo e Júlio se apresentava no papel de muito cioso e organizado guardião, o dono da chave.

Sabia de tudo. Não havia assunto que o inibisse. Levantava a voz contra os mais variados desmandos. Deixava-se dominar por uma espécie de fúria saneadora em muito parecida ao pai que me apresentou ao cinema. Vai ver, por causa disso, gostava imensamente dele e tanto fiquei abalado ao tomar ciência de que havia falecido. Era um iluminista generoso e íntegro, um dos últimos exemplares de um tipo particular de homem. Humanista! Sempre o terei comigo. Tenho uma memória poderosa e sei que, dele, sinto e sentirei muitas saudades. 

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Por ocasião da mostra “Homenagem a Julio Cesar de Miranda”, este espaço busca ainda ser uma espécie de memorial, um local onde estão recolhidos uma série de breves depoimentos escritos ou em vídeo enviados por muitos de seus amigos e companheiros de vida. Assista aos filmes na Cinemateca do MAM online de 1º a 30 de abril de 2022.

Texto reproduzido do site: mam rio/cinemateca/julio-cesar-de-miranda

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Publicação compartilhada do site CARMATTOS, de 7 de novembro de 2021

Julio, o homem que amava o cinema

No tsunami de notícias tristes que temos recebido nesse período nefasto da vida brasileira, uma me abalou de maneira muito pessoal. Acabo de perder um grande amigo, quase um irmão de trocas, cinefilia e solidariedade recíproca. Julio Cesar de Miranda faleceu na madrugada de hoje.

Julio era alguém com quem eu falava quase todos os dias, fosse para comentar filmes, fosse para discutir a situação política do país. Ele sofria tanto quanto eu com o fascismo instalado entre nós, mas com uma diferença: tinha sempre uma ideia milagrosa sobre como sairíamos desse buraco. Não poucas vezes me instou a ajudá-lo a mandar alguma mensagem para o Lula ou alguém do PT, com um conselho, uma recomendação, um caminho de solução. Era um dos poucos ex-comunistas que compreendiam o papel do PT no Brasil contemporâneo.

Tudo para ele era objeto de paixão e intensidade. Não só comigo, mas com uma rede de amigos que construiu desde os tempos em que administrava a histórica locadora Polytheama, nos anos 1980 e 1990, em parceria com o crítico José Carlos Avellar. Entre seus clientes fiéis estavam Nelson Pereira dos Santos, Silvio Tendler, Domingos Oliveira, o crítico e professor José Carlos Monteiro e muita gente boa do cinema. Julio atuava como uma espécie de curador de cineastas, indicando filmes e colaborando na pesquisa. Joel Pizzini e Eryk Rocha são outros que mantinham estreito diálogo com Julio na concepção de alguns de seus filmes.

Mais tarde, com a desmobilização da locadora, Julio passou a atender aos clientes em sua casa ou na sua filmoteca particular, numa sala do Largo de São Francisco, no centro do Rio. Foi curador de diversas mostras de filmes no CCBB e no SESC do Rio, além de manter um cineclube de amigos por muitos anos em sua casa na Tijuca, ao lado da mulher, Lúcia, e do filho Tiago, herdeiro de seu amor pelos filmes.

Figura de peso na cinefilia carioca, conhecido por sua generosidade e pelo entusiasmo que colocava em tudo o que fazia, Julio abre uma cratera imensa no coração de quem privou de sua companhia e amizade. De alguma maneira, ele estará comigo nos filmes que ainda verei por muito e muito tempo.

Texto reproduzido do site: carmattos com

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Publicação compartilhada do site MAM RIO, de 21 de março de 2022

O cinéfilo perfeito
Por Alexei Bueno 

Evocar Julio Cesar de Miranda — e no doloroso momento da perda dos amigos a dominância crescente e um dia absoluta da memória se impõe — é não só um exercício de relembrar grandes filmes, mas, ao lado deles, e inextricavelmente unidos a eles —, o de relembrar momentos preciosos da minha vida, e não há por que disfarçar o caráter estritamente pessoal destas breves linhas.

A generosa, profícua e inesquecível atividade de Julio Cesar entre os amantes do cinema no Rio de Janeiro surgiu, de certa maneira, como uma evolução, uma nova fase do cineclubismo na cidade. Não sei se a história do cineclubismo carioca já foi condignamente escrita, mas o registro é necessário. A definitiva entrada em cena de Julio Cesar, à frente da sua locadora Polytheama, se dá no momento final da época histórica em que a possibilidade única de assistir a um filme dependia da sua exibição pública em película, nos cinemas, na cinemateca ou nos cineclubes. Abria-se, naquele período, com o VHS e depois com o DVD, a possibilidade de ver e rever domesticamente as obras, e, mais do que isto, possuí-las, como já se possuíam havia séculos as obras literárias por meio dos livros, e desde muitas décadas a música, nas variadas formas de registro sonoro. Essa impossibilidade de posse na área do cinema em relação às outras artes era algo de estranhamente injusto, e me recordo que, certa ocasião, numa das sessões de cinema que aconteciam periodicamente na sede do Sindicato dos Engenheiros do Rio de Janeiro, ao me ver sozinho, por ter chegado muito cedo, com as duas latas de uma cópia em 16 mm da Mãe, de Pudóvkin — filme de minha especial veneração —, me aflorou na consciência o insidioso desejo de cometer o crime de furto, já que eu tinha em casa um projetor Bell & Howel da mesma bitola… Enfim, pelo triunfo da ética ou pelo tamanho das latas, a compulsão criminosa não se consumou, o que confesso aliviado.

Com o aparecimento do VHS terminava esse período heroico, e entrava em cena o entranhado amor ao cinema e a boa vontade igualmente heroica de Julio Cesar de Miranda, pessoalmente ou à frente do Polytheama, na divulgação dos grandes filmes e na faina de extinguir a já antiga frustração de tantos cinéfilos, impedidos de possuir determinada obra cinematográfica, e revê-la a qualquer momento, a seu bel-prazer. Justamente nessa época, início da década de 1990, eu trabalhava no editorial da Nova Fronteira, na bela casa da Rua Bambina, em Botafogo, e Julio Cesar morava quase ao lado, na Rua Marquês de Olinda, se não me engano no mesmo endereço do nosso grande Othon Bastos. Todo o mês, por acerto nosso, ele copiava para mim em VHS dez filmes da minha escolha, por preço quase simbólico, pois havia praticamente tudo na sua magnífica coleção, e nunca me esquecerei dos nossos encontros mensais, momento em que ele me entregava a bendita e esperada sacola de filmes.

Antes dessa época, como já lembrado, a peregrinação pelos cineclubes, às vezes próximos, às vezes bastante distantes, era a regra, do Cineclube João XXIII, do abnegado Padre Bruno Trombetta, no Leblon, ao Barravento, na Tijuca; da Aliança Francesa do Méier a algumas projeções específicas no cinema da UFF, em Niterói, tudo centrado, no entanto, o que é óbvio, na Cinemateca do MAM, que sobrevivera incólume ao deplorável incêndio de 1978. 

Dessa fase heroica sempre me recordo de alguns momentos de autêntico êxtase estético — e a palavra é êxtase mesmo —, como, para citar muito aleatoriamente alguns que foram dos mais marcantes, e em ordem aproximativamente cronológica: Deus e o Diabo na Terra do Sol, no Cineclube Macunaíma, da ABI; Ivan, o Terrível II (antes de ver a primeira parte, e sem as duas sequências a cores), no Cineclube João XXIII:  tinha 15 anos, e me lembro de haver afirmado, em seguida, que vira o maior filme do mundo;  O encouraçado Potiônkim, após anos de censura, no Cinema 2, em Copacabana; Limite, na Sala Funarte; a Mãe, de Pudóvkin, no Cineclube Barravento; Vampyr, de Dreyer, no MAM; Napoleão, de Abel Gance, num bar e centro cultural em Botafogo; O Velho e o Novo (ou A linha geral), em VHS do Poytheama; O tesouro do Senhor Arno, de Stilller, em casa, em DVD gravado por mim próprio, após ter baixado pelo eMule uma magnífica cópia restaurada pela Cinemateca Sueca.

O caso de O Velho e o Novo, num VHS do Polytheama, como já afirmei, com uma esplêndida banda sonora composta de música barroca — Vivaldi especialmente — criando uma simbiose com as imagens do filme como nunca encontrei igual, é dos mais curiosos. Tratava-se do único filme de Eisenstein — paixão máxima, como deve ser perceptível — que eu nunca vira. Certa noite um amigo me telefonou para dizer-me que havia encontrado uma cópia do próprio na locadora. Com os direitos do fanático e com um autoritarismo de golpe de Estado, peguei um táxi e fui imediatamente até a sua casa, em Copacabana, onde “confisquei” a cópia, que só lhe devolvi após a experiência de assistir a essa que é a mais lírica entre as obras-primas de Eisenstein, visto que — caso único na história do cinema — ele só realizou obras-primas. Pouco depois, obviamente, Julio Cesar me repassava a cópia do filme em VHS, na fornada do mês. 

Caso à parte eram as sessões organizadas por Julio Cesar de Miranda em sua residência na Tijuca, privilegiado encontro de amigos, sempre seguido pela conversa sobre o filme, entre alguns comes e bebes. Seu gosto era tão aberto como a sua coleção, seguramente mais aberto do o meu, apesar de não o julgar nada fechado, mas no qual me parecem sobreviver, talvez, alguns traços pósteros à la Chaplin Club… Outro caso à parte, mas aí de feição pública e da maior importância para a cultura cinematográfica carioca, foram os numerosos ciclos e mostras em cuja organização ele participou, em instituições como o CCBB, o SESC, ou o Centro Cultural dos Correios. Neste último fiz parte, por convite seu, da mesa de abertura da mostra “Cartas de amor no cinema”, a 2 de junho de 2005, quando foi exibido o raro filme Dois seres, do inigualável Carl Dreyer, esse outro monstro que conseguiu a façanha de realizar, em quatro décadas seguidas, quatro dos momentos mais altos de história do cinema: A Paixão de Joana d’Arc, em 1929; Vampyr, em 1932; Dies Irae, em 1943, e Ordet, em 1955. 

Todos esses títulos, todas essas sombras ilustres dos grandes cineastas, de Méliès, Griffith e Sjöström até Godard, até Artavazd Peleshian, até a atualidade, todas essas mostras e ciclos, e todos os incontáveis rostos e vozes das pessoas, às vezes muito próximas, algumas delas igualmente perdidas, que de tudo isso participaram, aparecem-me agora como uma imensa fusão sobre o tão querido semblante de Julio Cesar de Miranda, — uma daquelas fusões de incontáveis imagens, nas quais Gance era o mestre dos mestres —, com seu inolvidável sorriso, o sábio sorriso do esteta e do humanista que ele foi.

Texto reproduzido do site: mam rio/cinemateca/o-cinefilo-perfeito

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