quarta-feira, 5 de julho de 2017

Cinema São Jorge, em Lisboa















Publicado originalmente no site Apaladewalsh, em 30 de Julho de 2015.

Retrato de Projecção - O Cinema São Jorge.

De Tiago Baptista

Não foi a minha primeira ida ao cinema, mas foi uma das mais antigas e mais importantes para tudo o que viria a seguir. Em Março de 1986, os meus pais levaram-me ao São Jorge para ver Young Sherlock Holmes (O Enigma da Pirâmide, 1985). O filme não deixou grande memória. O que me impressionou, e muito, foi a sala de cinema. Com 9 anos, tudo me pareceu desmesurado: ainda na rua, a fachada com o telão pintado e as vitrines com os cartazes dos outros filmes em exibição e os anúncios das próximas estreias; no interior, as escadarias, os átrios, os lustres, a varanda junto ao bar; e dentro da sala, aquelas filas intermináveis de cadeiras, os varandins de madeira que dividiam a decoravam a plateia, o pé-direito imenso e o maior ecrã que eu já tinha visto.

Cinema São Jorge

Claro que o São Jorge já fora uma sala de cinema ainda maior do que aquela que tanto me encheu as medidas em 1986. Quando abriu as portas, em Fevereiro de 1950, o São Jorge combinava as actuais três salas numa só com uma lotação total de quase 2000 lugares, igualmente distribuídos entre a plateia (as salas do primeiro piso) e o balcão (hoje, sala Manoel de Oliveira). Era a maior sala de Lisboa, a que se juntaram pouco depois outras duas mais ou menos da mesma dimensão, o Monumental em 1951 e o Império em 1952

 o São Jorge conquistou ainda os lisboetas com comodidades inéditas nas salas da capital: ar condicionado, um sistema central de aspiração por vácuo, e, tal como os cinemas ingleses da Odeon detidos pela Rank, um órgão Compton Theatrone

O filme da sessão inaugural foi The Red Shoes (Os sapatos Vermelhos, 1948), ou não fosse o São Jorge explorado pela inglesa Rank Pictures Corporation. Desenhado pelo arquitecto Fernando Silva, o edifício reservou ainda espaço para escritórios e para uma sala de projecção privada. Para além desta ligação internacional, da sua escala e do uso de materiais de construção e decoração requintados, o São Jorge conquistou ainda os lisboetas com comodidades inéditas nas salas da capital: ar condicionado, um sistema central de aspiração por vácuo, e, tal como os cinemas ingleses da Odeon detidos pela Rank, um órgão Compton Theatrone (a publicidade garantia que, na altura, só existia outro nos estúdios da BBC em Londres) que se erguia de um elevador no centro do palco para animar os intervalos. A inauguração contou com um concerto de Gerald Shaw, organista escocês da Odeon. Antes de Lisboa, Shaw fora enviado ao Cairo para tocar o Compton do recém-inaugurado cinema Rivoli. À data da sua morte, em 1974, Shaw era o último organista de cinema activo em Inglaterra.

Durante os anos cinquenta e sessenta, o São Jorge passou muito cinema inglês e americano, produzido ou distribuído pela própria Rank e assistiu às estreias de vários filmes de realizadores portugueses como Perdigão Queiroga, Fernando Garcia ou António Lopes Ribeiro. Mas as maiores enchentes desta sala foram provavelmente aquelas que, já depois do 25 de Abril, aqui trouxeram durante seis meses milhares de espectadores para ver Ultimo tango a Parigi (O Último Tango em Paris, 1972).

A divisão em três salas aconteceu em 1981 e foi já uma tentativa de combater a fuga de espectadores provocada tanto pela desertificação da cidade como pelas alterações nos hábitos dos públicos e ao aparecimento de novas maneiras de ver cinema, primeiro com as salas “estúdio”, depois com os multiplexes e, finalmente, com as salas em centros comerciais. No mesmo ano em que foram inaugurados os cinemas Alfa e o Centro Comercial Amoreiras, o São Jorge foi vendido a uma empresa americana, a Cinema International Corporation, que mostraria sobretudo filmes das majors americanas. Conseguiu sobreviver ao Império e ao Monumental (encerrados em 1983), ao Tivoli e ao Eden (1989), ao Condes (1996), tornando-se assim o último grande cinema comercial do eixo Baixa-Avenida, mas acabaria por encerrar em 2000, pouco depois da inauguração dos multiplexes dos centros comerciais Colombo (1997) e Vasco da Gama (1999). Charlie’s Angels (Os Anjos de Charlie, 2000), Battlefield Earth (Terra – Campo de Batalha, 2000) e Snatch (Snatch – Porcos e Maus, 2000) fecharam a porta do São Jorge, em 29 de Novembro de 2000.

Após um ano de indefinição, o São Jorge foi comprado pela Câmara Municipal de Lisboa e reabriu em Novembro de 2001 com a estreia de Quem és tu? (2001), de João Botelho, acompanhado da reposição de Frei Luís de Sousa (1950) – que ali tinha estreado – e de Lisboa, Crónica Anedótica (1930).

Gerido pela EGEAC, que tem vindo a remodelá-lo desde a compra municipal, o São Jorge acolhe hoje dezenas de festivais de cinema, concertos e eventos privados. Nas várias visitas que fizemos ao São Jorge para este Retrato, o cinema estava sempre activo. Num dia, decorria um festival de cinema; noutro, o átrio superior preparava-se para se transformar em quartel-geral do júri das Marchas de Lisboa; noutro dia ainda, vivia-se na sala principal e nos bastidores a confusão ordenada que antecede a preparação de um concerto. No centro desta azáfama permanente está a equipa de projeccionistas de vídeo e cinema coordenada desde 2007 por Fernando Caldeira. Foi com eles que visitámos as duas cabines actuais do São Jorge. A primeira é comum às duas salas da antiga plateia , mas apenas na 3 se projecta ainda cinema (a antiga sala 2, agora Montepio, é sobretudo usada para debates e conferências). Diogo Viana, 29 anos, mostra-nos esta cabine, o local onde passa mais tempo. Dedicando-se agora exclusivamente da projecção de video e cinema digital, Diogo trabalhou nas Amoreiras, onde ainda chegou a aprender como projectar película com um colega mais velho. Está no São Jorge há 2 anos, mas já sabe muito bem que não está num cinema qualquer: nota-se que nos mostra com orgulho os recantos mais escondidos do edifício.

A cabine da sala 3 está equipada com um projector digital compacto Barco DP90 2K e um servidor CDP2000, um dos primeiros do país, explica orgulhosamente Fernando Caldeira, responsável pela grande actualização tecnológica destas salas e, em particular, pela sua transição para o digital.

Ao lado do Barco, um Victoria 5 de 35mm, comprado aos cinema UCI do El Corte Inglés. Arrumado, um Victoria 8 (antes instalado na sala Manoel de Oliveira) e agora transformado em projector portátil (não parece, mas é) para sessões no exterior. Foi usado, por exemplo, em março deste ano no Teatro de São Carlos para a projecção de The Birth of a Nation (O Nascimento de Uma Nação, 1915) acompanhada ao vivo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa.

Quando subimos à cabine da sala principal, entramos num mundo completamente diferente. Vestígio de outros tempos, uma pequena divisão anexa à cabine, hoje usada para arrumos, era o local de onde um bombeiro vigiava simultaneamente o cinema e os projectores. A cabine propriamente dita é particularmente espaçosa, a maior que visitámos até agora. No centro vêem-se dois projectores, um de película e outro digital. O primeiro é um Cinemeccanica Victoria 8, modelo RK60 (dos anos 1960), capaz de projectar 70mm e 35mm (a configuração actual), e exibe ainda uma pequena placa onde se lê “Propriedade Rank Audio Visual”. Tem um sistema de refrigeração alimentado por água e uma torre rotativa para 3 objectivas. Uma adaptação permitiu instalar bobinas de maior capacidade para passar filmes inteiros, sem intervalos. Usado fundamentalmente para as cópias de película que ainda são mostradas nos vários festivais de cinema, este Victoria 8 não possui agora quaisquer automatismos.

Ao lado, uma estreia nestas crónicas, o primeiro projector 4K que vemos, um NEC NC3240S, instalado em Março de 2014, com uma lanterna para lâmpadas de 4Kw (ou 7Kw quando se projecta 3D) e um servidor Doremi Show Vault. Um “monstro” da projecção digital, perfeito para o ecrã gigante do São Jorge. Nada mais apropriado para uma sala que, já em 1950, se distinguia pelas suas inovações tecnológicas.

É na velha cabine do São Jorge que conhecemos os projecionistas Carlos Souto (57 anos) e Jorge Silva (50), duas fontes vivas para a história da projecção em Portugal.

No início da nossa conversa, Jorge Silva faz questão de chamar as coisas pelos nomes. Uma coisa é um projeccionista; outra, completamente diferente, é um “passador de fitas”. O primeiro, explica Jorge, tinha carteira profissional, mas sobretudo sabe distinguir formatos de imagem e som e consegue fazer a manutenção elementar da sua máquina. Além disso, Jorge é, nas suas próprias palavras, um “maluco do cinema”. A prová-lo, tem uma colecção de filmes e de projectores de 35mm, alguns já montados e a funcionar, numa casa fora de Lisboa.

O pai de Jorge era projeccionista nas Caldas da Rainha e um dia castigou o filho obrigando-o a ajudá-lo na cabine. Jorge tinha 12 anos e nunca se esquecerá daquele dia porque foi o mesmo em que morreu Elvis Presley: 16 de Agosto de 1977. Jorge trabalharia depois em vários cinemas da região do Oeste explorados por Eurico Martins. Passou pelos Delta das Caldas da Rainha, mas também por S. Pedro de Moel, Pataias, Nazaré, Maceira, Benedita. As cópias eram “esticadas” para sessões nas várias salas passando à tarde numa e à meia-noite noutra, ou levando as bobinas, uma a uma, de cinema para cinema. De vez em quando a coisa corria mal e os intervalos prolongavam-se interminavelmente. O cancelamento da sessão e a devolução do dinheiro dependiam da paciência dos espectadores.

Em Lisboa, passou pelo São Jorge pouco antes da remodelação de 1981 e voltou definitivamente há 7 anos. Antes disso, Jorge trabalhou no cinema da Promotora (em Alcântara), no Cine-Pátria (Beato) e no Olímpia. Trabalhou também nos armazéns de distribuidoras e nas salas de visionamentos privados da Filmitalus e da Castello Lopes, onde os procedimentos de segurança contra a pirataria (já então) implicavam códigos, arrumar separadamente os rolos de cada cópia ou marcar nela o nome do projeccionista responsável. Mas as histórias que mais parecem entusiasmá-lo, dos cinemas de Lisboa, são as do período passado nas Twin Towers, em Campolide, exploradas pela Filmitalus entre 2002 e 2008, onde trabalhou pela primeira vez com o sistema de projecção sem fim típico dos multiplexes e se orgulha de ter feito um interlock especialmente longo para poder passar um 007 em duas salas muito afastadas.

Carlos Souto também começou novo. Com 16 anos já projectava 16mm na Casa Pia e continuou a fazê-lo depois no RALIS, onde fez a tropa. Quando saiu, o primeiro cinema em que trabalhou foi o Cine-Pátria, no Beato (por onde Jorge também passou). Este velho cinema de bairro era explorado pela Edecine, fundada em 1948 por Baldomero Charneca e que chegou a ter 18 salas a funcionar simultaneamente em todo o país. A empresa ainda existe, embora desde 1985 se dedique sobretudo ao fornecimento de equipamento para cinemas. Souto trabalhou noutros cinemas da Edecine como o Popular (Poço do Bispo), o Foca (Forte da Casa), o Universal (Campolide), o Cine-Azambuja e o Cine-Moscavide, ou o Cine-Teatro de Mafra. Depois de uma passagem pelo Berna, Apolo 70 e Caleidoscópio, ligados à Lusumondo, regressou ao Beato. Talvez porque foi ali que começou a trabalhar, mas também porque “adorava aquela máquina”, ainda se lembra que o projector do Cine-Pátria era um Philips FP-6 (um aparelho dos anos 50). Quando aqueles cinemas fecharam (o Caleidoscópio foi o último, em 1994), Souto abandonou a projecção e fez trabalhos de construção civil. Há 17 anos, mais ano menos ano, veio reconstruir o bar do São Jorge e aqui ficou, como projeccionista.

Já sabemos que nem todos os projeccionistas têm necessariamente uma relação forte com o cinema. Não é o caso de Carlos e isso nota-se em várias pequenas coisas. Nas memórias de como ia, ainda criança, ver sessões duplas quase todos os dias (“às vezes mais do que uma por dia”); na colecção de starts e entradas (pontas) de distribuidores que guardou; ou no tempo que passa em blogs sobre salas de cinema antigas, partilhando as suas memórias e corrigindo datas e nomes. Além disso, garante-me que é frequente sair do trabalho e ainda ir ver filmes em casa. Algum género preferido? O terror, responde sem hesitação. Em Setembro, quando começar o MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, teremos um projeccionista muito feliz na cabine do São Jorge.

Fotografias de Mariana Castro.

Agradecimentos: Fernando Caldeira, Carlos Souto, Jorge Silva, Diogo Viana, Fernando Vidal.

Texto e imagem reproduzidos do site: apaladewalsh.com

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